CIRO GOMES NO TÚMULO DE GETÚLIO

Esta foto de Eduardo Knapp, da Folha, é de 24 de agosto de 2002. Brizola, Ciro Gomes e Antônio Britto estão diante do túmulo de Getúlio Vargas, no Cemitério Jardim da Paz, em São Borja.

Se a foto fosse um pouquinho mais aberta, poderia mostrar o homem que surge do lado esquerdo (perto de Brizola) e grita, enquanto Brizola discursava:

– É o enterro do trabalhismo.

Foi uma cena paralisante. Só uma pessoa se mexeu. O deputado Pompeo de Mattos, que está de lenço, bem atrás de Brizola, gritou alguma coisa e saiu atrás do homem. O mensageiro do fim do trabalhismo disparou e sumiu entre os túmulos.

Eu estava lá como repórter e vi a cena daquele sábado pela manhã, no dia do aniversário do suicídio de Getúlio. Ciro Gomes era o candidato do PPS à presidência. Britto, do mesmo partido, concorria ao governo do Estado.

Também estavam lá Paulinho da Força, vice de Ciro pelo PTB, o deputado Roberto Jefferson, presidente do partido, e gente que Brizola atraiu para sua última tentativa de aliança com a direita.

Ciro Gomes estava estreando como “homem de esquerda”, sempre tendo ao lado a mulher dele, Patrícia Pillar. A caravana passou por São Borja, Itaqui e Uruguaiana.

Muitos não entendiam aquele ajuntamento em volta de Brizola. Me lembro de um bêbado gritando no comício em Uruguaiana:

– É tudo corrupto.

Um brigadiano tirava o bêbado, e o bêbado voltava. O que mais guardo daquele dia é que de repente, na visita a uma granja de criação de porcos em Itaqui, eu vi Brizola velhinho.

Tentei, muitos anos depois, entrevistar o homem que decretou o enterro do trabalhismo. É conhecido em São Borja. Ele preferiu ficar quieto, enquanto outros continuaram falando o que a maioria não queria ouvir.

Naquela eleição vencida por Lula, Ciro ficou em quarto lugar no primeiro turno, com 11,7% dos votos, atrás de Lula, Serra e Garotinho. Germano Rigotto venceu no Estado.

Brizola morreu quase dois anos depois, no dia 21 de junho de 2004, com 82 anos. E Ciro Gomes está aí. Tem gente que ainda acha que ele é trabalhista e até brizolista e getulista.

Ciro Gomes talvez seja o melhor exemplar brasileiro hoje daquelas figuras camaleônicas. Não se sabe direito o que elas possam ser, mas se sabe com certeza o que elas não são.

SAUDADE DE 1989

Com essa história do Collor candidato em 2018, revi informações sobre a eleição de 1989, quando ele derrotou Lula no segundo turno. Collor tinha 40 anos. Lula tinha 44.

Foram 22 candidatos. Brizola, Covas, Lula, Collor, Ulysses, Maluf, Gabeira, Caiado, Roberto Freire, Aureliano Chaves, Enéas, Afif Domingues e outros pouco lembrados.

Brizola, Covas, Enéas, Ulysses e Aureliano já morreram. Freire e Gabeira foram para a direita (Gabeira é hoje jornalista fofo da GloboNews). Maluf finalmente foi preso. Caiado é senador e quer ser candidato mais uma vez. E Collor vem aí de novo, como se nada tivesse acontecido.

Votei em Covas no primeiro turno. Acreditava que nascia ali na redemocratização, com ele, Fernando Henrique, Montoro e outros criadores do PSDB (a esquerda do PMDB na época), a sonhada social-democracia brasileira. Covas seria nosso Felipe Gonzalez.

No segundo turno, fui de Lula. Assinei, com um grupo de jornalistas, professores, artistas e outros profissionais do Estado um documento de apoio ao petista.

Cada um deu uns pilas e o manifesto foi impresso em folhas grandes, de jornal standard, o formato da Folha de S. Paulo, com duas dobras, distribuídas por toda parte. Me lembro das reações contrariadas (jornalista assinando um manifesto político?), mas nada que representasse alguma ameaça real aos que subscreveram o texto.

Chego agora a uma conclusão óbvia. O apoio explícito de jornalistas da chamada grande imprensa a um documento que abria o voto para Lula (ou a qualquer candidato que viesse a enfrentar o representante da direita num segundo turno) seria impensável hoje.

Os jornalistas progressistas ou politicamente de esquerda (apenas para que se tenha uma definição genérica) foram vencidos por normas e regras corporativas, algumas não escritas, que só favorecem hoje quem for de direita,

Jornalistas de direita, sob o argumento de que são ‘liberais’, dizem o que bem entendem hoje na grande imprensa. Principalmente se forem declaradamente anti-PT. Os jornalistas de esquerda, constrangidos, vão se transformando em raridade nas grandes redações.

Sinto saudade de 1989 e daqueles tempos de briga aberta pela democracia. Que democracia temos hoje?

O BRASIL QUE RESISTIU

Um pouco de memória com um bocado de saudosismo. Talvez o grande impasse hoje seja esse mesmo. Não temos mais equivalentes de Brizola, Ulysses, Betinho, Therezinha Zerbini, Teotônio, Dom Helder Câmara, Lamarca, Chico Mendes. Eles enfrentaram os militares, a repressão, a censura, a tortura, a morte. Nós não enfrentamos a quadrilha do jaburu-da-mala.

http://memorialdademocracia.com.br/timeline/21-anos-de-resistencia-e-luta#

Ah, os cínicos

Meu amigo David Coimbra escreveu na coluna de ontem na Zero Hora sobre cabelo grande, filósofos cínicos, Mujica e o meu livro, tudo junto incluído. Meu livro parece que entrou de gaiato.
Alguns conhecidos escreveram ou telefonaram pra dizer que ele esculhambou com todos, inclusive com Platão e o próprio cabelo.
Parece, pelas curvas do texto, que o David estranha minha simpatia pelo Mujica, quando diz que pode haver desilusão quando filósofos e jornalistas se deixam seduzir por políticos – e faz referência direta ao livro.
Eu sou jornalista. Filósofos são os amigos do David, alguns deles amigos também do homem do Jaburu.
Não me incomoda ser criticado pela simpatia que tenho pelo Mujica e outros políticos de esquerda, mesmo que eles estejam em baixa.
Imagina, David, que há jornalistas seduzidos pela força inspiradora de Aécio, Temer, Serra, Geddel, Padilha, Mendoncinha. Alguns já estiveram ao lado do Eduardo Cunha e depois o abandonaram.
Mas eu digo que simpatizo com o Mujica, e a Editora Diadorim até publica meu livro com o título de uma crônica que dediquei ao uruguaio. E os nossos colegas que não cometeriam o atrevimento de dizer quem admiram, mas escrevem livros contra o Lula?
Imagina, David, se eu tomo um porre e escrevo um livro contra o Aécio.
Escreve sobre isso, David. Sobre os que têm pesadelos com a própria lista de políticos que admiram (só não vem com Brizola, Marina, Luciana e outros habeas corpus preventivos).
Ah, os cínicos, mas não os filósofos da Wikipédia…