O AMEAÇADOR

“Não cabe ao Poder Judiciário ser guardião dos segredos sombrios dos nossos governantes.”
Juiz Sergio Moro, no dia 27 de novembro de 2017, em evento promovido pela revista Veja em São Paulo.

Pois agora são os segredos sombrios de Sergio Moro e dos procuradores que estão sendo denunciados, e não cabe a ninguém, muito menos ao Judiciário e tampouco ao Ministério Público, tentar proteger o ex-juiz e seus cúmplices.
Judiciário e MP não podem ser acobertadores dos delitos cometidos pelo ex-juiz e os procuradores que ele manobrava como bem entendia em Curitiba.
Mas o procurador aposentado (aos 55 anos) Carlos Fernando dos Santos Lima, que atuou na força-tarefa da Lava-Jato, emitiu uma nota em que ataca o Intercept e ameaça:
“Lembro, por fim que a liberdade de imprensa não cobre qualquer participação de jornalistas no crime de violação de sigilo de comunicações”.
Pela parte que me toca ao compartilhar o que o Intercept publica, digo apenas que não temo as ameaças do ex-procurador, que aparece nos diálogos como submisso às ordens de Sergio Moro.
O jornalismo não pode ser guardião dos crimes cometidos por homens que diziam agir em nome da lei e envolveram o Ministério Público na caçada de um juiz obcecado por um ex-presidente.
Alguém deve temer alguma coisa nesse momento. E não são os jornalistas que denunciaram o conluio.

Tucanos e gênios

Chegou o dia da grande fraude da Black Friday. Vários jornais fizeram essa semana a mesma reportagem de todo ano mostrando como as lojas manipulam os preços e as promoções às vésperas da falsa liquidação.
Mas as pessoas saem a comprar qualquer coisa, porque são crédulas. Se alguém dissesse que a Lava-Jato está liquidando tucanos corruptos empalhados, que estão presos nas gaiolas de Curitiba, muita gente iria acreditar.
Acreditaria na liquidação porque acreditaria que há tucanos presos em Curitiba.
(Por falar em Lava-Jato, a Folha traz hoje mais uma entrevista constrangedora para as redações. É uma longa conversa de compadres com os procuradores Deltan Dallagnol e Carlos Fernando dos Santos Lima. Só para que os dois digam que são gênios da investigação e da comunicação. Tudo na maior camaradagem de assessoria de imprensa e sem perguntas incômodas. A entrevista prova que a Lava-Jato ajudou a depreciar o jornalismo.)

Eles adoram diárias

Mais um furo esclarecedor de Monica Bergamo, o grande nome do jornalismo brasileiro há muito tempo. O advogado Carlos Zucolotto Junior não é mais o representante do procurador da Lava-Jato Carlos Fernando dos Santos Lima em uma ação trabalhista.
Zucolotto é o amigo de Sergio Moro (e seu padrinho de casamento) acusado pelo também advogado Rodrigo Tacla Duran de tentar fazer acordos de delação no mercado paralelo. Saltou fora da ação do procurador ao ser denunciado publicamente pelo colega que está foragido na Espanha.
E sabem o que o procurador reclama na ação trabalhista? Correção no valor de diárias, o que lhe garantiria mais R$ 26 mil.
Santos Lima foi o procurador que recebeu em média por mês R$ 9 mil em diárias em dois anos e meio. Embolsou R$ 286 mil e achou pouco.
Os procuradores gostam de diárias. Desde 2015, gastaram R$ 2,2 milhões em diárias. A Lava-Jato está bem de dinheiro. E se vê que é lucrativa para muita gente.

O amigo de Sergio Moro

O advogado Rodrigo Tacla Duran está tentando meter o juiz Sergio Moro e o procurador Carlos Fernando dos Santos Lima (aquele das diárias de viagem de R$ 9 mil por mês) numa confusão.

Segundo o advogado, que trabalhou para a Odebrecht, é réu por lavagem de dinheiro e formação de quadrilha e está foragido na Espanha, outro advogado, que se chama Carlos Zucolotto Junior, faz negociações paralelas para acordos de delação na Lava-Jato.

Zucolotto é, comprovadamente, amigo e padrinho de casamento de Moro e seria advogado de Santos Lima numa ação trabalhista. É o que diz o tal Duran.

O procurador Santos Lima disse que Zucolotto não é seu advogado, que é apenas sócio do seu advogado que cuida de seus interesses trabalhistas. Pois então…

E o que diz Sergio Moro, em resposta à matéria que é manchete da Folha online neste momento? O juiz largou uma nota em que ataca Duran e afirma ser “lamentável que a palavra de um acusado foragido da Justiça brasileira seja utilizada para levantar suspeitas infundadas sobre a atuação da Justiça”.

Hoje é domingo e estou mais distraído. Mas não posso deixar de registrar que muito do sucesso de Sergio Moro como juiz se sustenta exatamente nas acusações de facínoras que trituram as reputações de quem estiver por perto.

O esquema de delações, que lastreia a atuação do juiz e da Lava-Jato e que depende muito das prisões preventivas da masmorra de Curitiba, é baseado na falação de bandidos.

Foi assim que o próprio Moro, sem nenhuma prova concreta, mas baseado em falações e no que considera indícios, condenou Lula no caso do tríplex.

O dado concreto, citado pelo tal Duran, é que o advogado denunciado por intermediar acordos paralelos na Lava-Jato é amigo e foi padrinho de casamento de Moro.

O resto deve ser investigado e não só combatido com o rebate de acusações ao acusador. O juiz Moro sabe que é assim que deve ser. Talvez não em Curitiba.

A FARRA DAS DIÁRIAS DOS PROCURADORES

A bomba do dia é a notícia sobre a farra das diárias dos procuradores da força-tarefa da Lava-Jato. Monica Bergamo conta na Folha que eles gastaram R$ 2,2 milhões em diárias de viagens de janeiro de 2015 a julho deste ano.
Só o procurador Carlos Fernando dos Santos Lima gastou R$ 286 mil. Fiz aquela continha básica. O procurador que mais escreve artigos simplórios sobre os esforços moralizantes da Lava-Jato (e gosta de atacar Lula) recebeu, em média por mês, R$ 9.225,80 só de diárias.
Não sei se algum deputado ou senador já recebeu algo parecido. A nota de Monica Bergamo informa que, de acordo com a assessoria da Lava-Jato, “de uns tempos para cá”, eles decidiram receber apenas metade das diárias. Estão satisfeitos com a metade.
Os moços vão dizer que essa dinheirama é da lei. Como os políticos sempre disseram. Eu espero uma rosácea num powerpoint sobre os gastos com diárias dos procuradores que pretendiam salvar o país com as suas convicções moralistas seletivas.
Os procuradores imitam o que a política tem de mais varzeano. Farra com diárias é da chinelagem da política.

http://www1.folha.uol.com.br/colunas/monicabergamo/2017/08/1911268-mpf-gastou-r-25-milhoes-em-diarias-para-procuradores-da-lava-jato.shtml