Eles resistem

O governo chileno já matou 25 pessoas nos protestos de rua. Mais de 240, a maioria jovens, têm lesões irreversíveis num dos olhos e dois ficaram cegos.
Mesmo assim, o povo não sai das ruas. O chileno não deve entender como a liberação do FGTS e a inauguração das lojas do véio da Havan seguram o povo no Brasil.

Três segundos

A Globo, que fala todos os dias de protestos de meia dúzia de golpistas contra Morales na Bolívia, finalmente falou no Jornal Nacional dos protestos de milhões no Chile.
Mas só porque a final da Libertadores foi transferida de Santiago para Lima.
Para ilustrar a notícia, apareceu uma imagem de manifestações nas ruas. Por três segundos. Três segundos.

Valdívia e as empanadas

Valdívia, aquele mesmo, do Palmeiras e da seleção chilena, distribuindo empanadas para o povo no metrô de Santiago.
O Colo-Colo, o time de Valdívia, está com os manifestantes. O clube, os jogadores, a torcida.
Os jogadores do Colo-Colo se misturam às pessoas nas ruas. Eles não temem ameaças e bravatas sobre a volta dos militares. Eles enfrentam os ameaçadores.
Talvez porque a seleção em que joga Valdívia jamais tomaria uma goleada de 7 a 1 e jamais seria treinada por um admirador de Pinochet.

O desafio de Medel

Que inveja desses chilenos e seus jogadores engajados às causas do país. Mais uma manifestação, agora de Gary Medel, um dos atletas mais politizados do Chile.

https://www.lacuarta.com/sin-categoria/noticia/agenda-social-gary-medel-gobierno/424301/?fbclid=IwAR3CwIhP_pgRVXNVKj7AvvNls7-PhisQjCuO36I5EG3AjDXVzMW0QEyvjdQ

O grito de guerra

Muitos dos que foram às ruas de Santiago ontem não haviam nascido quando a música que cantavam na Plaza Italia foi lançada, na segunda metade dos anos 80, pelo grupo Los Prisioneros. El Baile de los que sobran (A dança dos que ficam) é o grito de guerra dos estudantes chilenos em revolta.

(Nos links abaixo, a música com a letra e uma reportagem do site português Sábado sobre a banda.)

https://www.letras.mus.br/los-prisioneros/23567/?fbclid=IwAR16B4cSNW9Kq5R6dTbTXZslgKC4mjmeIu-FvZUZtVKyRtwk2ANA1_P0GU4

https://www.sabado.pt/mundo/detalhe/los-prisioneros-a-banda-rock-que-inspira-os-protestos-no-chile?fbclid=IwAR2E6n9cyt9PhKpugDBfsww0h-OteSrqGOgzeZAo5fspJuvyP30WsGdSPjU

35 segundos para um milhão

Meia dúzia de manifestantes bloquearam uma esquina de La Paz, por suspeitarem dos resultados da eleição que assegura mais um mandato a Evo Morales.
A Globo mostrou a meia dúzia no Jornal Nacional e dedicou 41 segundos ao assunto.
Em Santiago, mais de um milhão saíram hoje às ruas contra o governo de direita de Piñera, na maior manifestação popular desde o final da ditadura.
O Jornal Nacional dedicou 35 segundos à gigantesca marcha dos chilenos.

A CORAGEM DE ESTEBAN PAREDES

Esteban Efraín Paredes Quintanilla. É o nome desse moço. Quem gosta de futebol o conhece. Paredes foi jogador da seleção chilena e atua hoje no Colo-Colo.

O atacante lidera os atletas do time no apoio declarado, público, explícito, às manifestações que ocorrem há uma semana no Chile.

Os jogadores do Colo-Colo estão politicamente engajados aos protestos. Além deles, também jogadores da Católica e da La U, os outros dois grandes clubes chilenos, fizeram apelos ao governo, para que Piñera ofereça respostas concretas aos apelos do povo nas ruas.

Mas foi o Colo-Colo, sob o comando de Paredes, que disse aos chilenos que estavam com eles. Esse é o compromisso: os jogadores não irão apenas expressar apoio, mas sairão às ruas com os manifestantes.

A militância dos jogadores do mais popular time do Chile é contada hoje pelo jornal La Cuarta, que publicou essa bela foto de Paredes.

É como se todo o time do Flamengo decidisse apoiar manifestações de rua no Brasil, para denunciar o empobrecimento da população, a perda de direitos e o crescimento do fascismo.

Na Argentina, o goleiro Nahuel Guzmán, El Patón, que também atuou na seleção do seu país, lidera uma lista de 600 jogadores que assinaram um manifesto de apoio à Frente de Todos, de Alberto Fernández e Cristina Kirchner, nas eleições de domingo.

É emocionante que figuras públicas, que poderiam se manter “neutras”, para agradar suas torcidas e a direita, assumam engajamento às lutas populares.

Mas é também constrangedor para os brasileiros que os jogadores daqui, quando se manifestam, só expressam apoio, com uma certa empáfia, ao reacionarismo e ao bolsonarismo.

As posições dos atletas de Argentina e Chile ajudam a entender a apatia geral que nos imobiliza e o acovardamento de figuras que poderiam fazer aqui o que outros atletas famosos fazem em seus países.

MEA CULPA DA DIREITA CHILENA

O Diario El Mercurio é O Globo do Chile. Apoiou a ditadura de Pinochet, é a voz dos reacionários do país (não dos conservadores, mas dos reaças mesmo) e combate tudo que vem das esquerdas e dos movimentos sociais.
Para El Mercurio, o Chile é a Dinamarca latino-americana. Pois fui dar uma olhada geral na cobertura do levante. O tom é quase de aceitação da revolta como algo normal numa democracia.
E isso que os manifestantes tentaram colocar fogo na sede do jornal. Na manchete de hoje, o diário diz que Piñeda fez o mea culpa e decidiu propor medidas na área social, para tentar conter a revolta.
Colunistas do jornal escrevem até que os sinais de que algo poderia acontecer já vinham sendo dados. O povo não aguentava tanta desigualdade.
Luís Nassif lembrou esses dias que El Mercurio publicou há pouco tempo um editorial em que comemorava: graças ao liberalismo implantado por Pinochet, o Chile escapou de ser uma Venezuela.
A situação do governo de Piñera é hoje pior do que a do governo de Maduro.
O único governante tranquilo no mundo, sem ameaça de revoltas, é Bolsonaro. O que faz uma alienação turbinada pela liberação do FGTS.