#IMPEACHMENT

A palavra a partir de agora é impeachment. Parece cedo demais, mas está em todos os jornais e nas redes sociais. Ontem, para escrever um texto sobre Collor, revi o vídeo da última aparição dele na TV antes de pedir a renúncia e sofrer depois o impeachment no Congresso.
É algo impressionante visto hoje. Pela postura imperial de Collor, pela capacidade de falar sem parar (mesmo que esteja lendo, o que não é fácil para alguns), sem cortes aparentes, durante 18 minutos. E pela qualidade do texto do discurso.
Eram tempos em que a direita tinha assessores de primeira linha. O discurso é assustadoramente primoroso. Quem imagina algo com essa qualidade hoje?
A fala começa na marcação de tempo 1:12.

SAUDADE DE 1989

Com essa história do Collor candidato em 2018, revi informações sobre a eleição de 1989, quando ele derrotou Lula no segundo turno. Collor tinha 40 anos. Lula tinha 44.

Foram 22 candidatos. Brizola, Covas, Lula, Collor, Ulysses, Maluf, Gabeira, Caiado, Roberto Freire, Aureliano Chaves, Enéas, Afif Domingues e outros pouco lembrados.

Brizola, Covas, Enéas, Ulysses e Aureliano já morreram. Freire e Gabeira foram para a direita (Gabeira é hoje jornalista fofo da GloboNews). Maluf finalmente foi preso. Caiado é senador e quer ser candidato mais uma vez. E Collor vem aí de novo, como se nada tivesse acontecido.

Votei em Covas no primeiro turno. Acreditava que nascia ali na redemocratização, com ele, Fernando Henrique, Montoro e outros criadores do PSDB (a esquerda do PMDB na época), a sonhada social-democracia brasileira. Covas seria nosso Felipe Gonzalez.

No segundo turno, fui de Lula. Assinei, com um grupo de jornalistas, professores, artistas e outros profissionais do Estado um documento de apoio ao petista.

Cada um deu uns pilas e o manifesto foi impresso em folhas grandes, de jornal standard, o formato da Folha de S. Paulo, com duas dobras, distribuídas por toda parte. Me lembro das reações contrariadas (jornalista assinando um manifesto político?), mas nada que representasse alguma ameaça real aos que subscreveram o texto.

Chego agora a uma conclusão óbvia. O apoio explícito de jornalistas da chamada grande imprensa a um documento que abria o voto para Lula (ou a qualquer candidato que viesse a enfrentar o representante da direita num segundo turno) seria impensável hoje.

Os jornalistas progressistas ou politicamente de esquerda (apenas para que se tenha uma definição genérica) foram vencidos por normas e regras corporativas, algumas não escritas, que só favorecem hoje quem for de direita,

Jornalistas de direita, sob o argumento de que são ‘liberais’, dizem o que bem entendem hoje na grande imprensa. Principalmente se forem declaradamente anti-PT. Os jornalistas de esquerda, constrangidos, vão se transformando em raridade nas grandes redações.

Sinto saudade de 1989 e daqueles tempos de briga aberta pela democracia. Que democracia temos hoje?

Corruptos caçadores de Fiat Elba

Em algum momento, encontraremos a Fiat Elba de Dilma. Era o que assegurava um deputado gaúcho do PFL, em uma entrevista de rádio meses atrás.

Eu ouvi a entrevista no carro. Lembro bem do homem berrando que a Fiat Elba de Dilma iria aparecer. Se haviam encontrado a camioneta do Collor, lá em 1992, como prova da corrupção, até a bicicleta de Dilma poderia ser a sua Fiat Elba. Era questão de tempo.

Procuraram em toda parte e não acharam a Fiat Elba de Dilma, nem o Chevette, nada, enquanto corruptos do PFL eram investigados ou indiciados, em toda parte, por roubos diversos.

Então, tucanos, pefelistas e a direita em geral e seus corruptos agarraram-se às pedaladas. É por isso que Dilma está sendo julgada. Não acharam a Fiat Elba.

Dos 81 senadores que estão julgando Dilma, 45 têm casos na Justiça ou em Tribunais de Contas por improbidade administrativa (um nome bonito que pode envolver corrupção dita leve), corrupção ativa, corrupção passiva, formação de quadrilha, lavagem de dinheiro.

Isso quer dizer que 56% deles têm contas a prestar com a Justiça, segundo levantamento do projeto Excelências, da ONG Transparência Brasil.

Vejam quais são os partidos com o maior número de senadores envolvidos em rolos: PMDB (12), PSDB (7), PT (5), PR (4) e PP (4).

De 13 parlamentares em posição de liderança no Senado, nove têm ocorrências na Justiça.

É uma catrefa com coisa bem mais valiosa do que uma Fiat Elba. São estes os que pretendem cassar Dilma na sessão sob o comando do presidente do Supremo.

Um dia saberemos todas as verdades ainda encobertas neste agosto que desmoraliza o inverno e a democracia brasileira.

Piada de bom gosto

collor

Joaquim Barbosa era bom lendo suas assertivas no processo do mensalão, mas sempre foi fraco de retórica. Sergio Moro também não encanta, fala sem força e não leva uma frase de impacto para suas palestras.
Dante Dallagnol, o procurador-chefe da força-tarefa da Lava-Jato, tenta ser eloquente, com seu tom religioso, mas é comum.
Hoje ele disse na Câmara que os políticos não temem nada no Brasil porque “a punição à corrupção é uma piada de mau gosto”.
Piada de mau gosto… O censo comum e a frase feita são o forte dos homens da Lava-Jato. O procurador-chefe vai para uma palestra e repete que a impunidade é a uma piada de mau gosto. Não pode.
Os homens da Lava-Jato têm que se puxar mais. A todo momento eles dizem que o combate à corrupção vai em frente, doa a quem doer.
É a frase que ouviremos de novo amanhã ou depois. O Tiririca é mais surpreendente.
E, já na política, ainda tem o Michel…

Pobre PC Farias

pcfarias

Os 20 anos da morte de PC Farias ressuscitam, além do mistério em torno do autor do crime, outras indagações que talvez nunca venham a ter resposta.
Quanto ele teria roubado? Qual era a quantia depositada no Exterior, que dizem que se perdeu com sua morte? Qual a dimensão do roubo de PC perto dos roubos de hoje?
Um dia, na Praia do Carro Quebrado, perto de onde PC morava em Maceió, refleti sobre essas interrogações. Imaginei PC tomando água de coco, estirado numa rede sob os coqueiros, desfrutando da beleza de uma das praias mais lindas do Brasil, e cheguei a ter pena de PC Farias.
PC Farias perto desse tucano Sergio Machado – que envolveu os filhos no esquema mafioso da propinagem, grampeou e dedurou todos os amigos e vai ficar solto, com todos os benefícios como delator de luxo – era um romântico batedor de carteira.
Sei de gente que anistia PC Farias ao compará-lo com as quadrilhas de hoje. Eu quase sou tentado a isso. Pobre PC.