A DÍVIDA

Se me perguntassem o que ganhei com a Copa, eu diria que ganhei a chance de conhecer Daniel dos Santos Ferreira, o moço da foto.
Daniel é um dos milhões de brasileiros que tentaram obter alguma renda com a Copa.
Instalava-se no canteiro de uma rótula da Avenida Juca Batista, na Aberta dos Morros, estendia os varais de camisetas e bandeiras e sentava-se à espera de compradores. Quase ninguém aparecia.
As bandeiras são feitas por ele mesmo e pela mulher, Beatriz, aqui na zona sul de Porto Alegre.
Um dia, fui puxar conversa com Daniel, pensando que ficaria uns minutos no canteiro. Fiquei meia hora. Ele sabe que a direita que se apropriou da camiseta e da bandeira esculhambou com seu sonho de ter uma renda extra com a Copa.
Hoje, a chuva o alertou de que deveria ir embora antes do final do jogo com a Bélgica, porque nada daria certo. Daniel retirou-se antes da frustração.
Mais do que a seleção fracassada, os destruidores de símbolos têm uma dívida com Daniel e Beatriz. Um dia eles saberão cobrar o que roubaram deles.

A imagem pode conter: 1 pessoa, em pé, céu e atividades ao ar livre

OS JOVENS E A CLASSE MÉDIA

Escrevi para o jornal Extra Classe online sobre os cinco anos dos protestos do inverno de 2013 e lancei mais perguntas do que afirmações.
Mas vou esclarecer um ponto da minha posição, para que não especulem sobre o que não escrevi.
Entendo que quaisquer tentativas de ver as passeatas pós-junho de 2013 como uma cauda dos movimentos iniciados pelos estudantes no começo daquele ano em Porto Alegre (e não no Rio, como muitos analistas acham que foi), comete um erro brutal.
O que vem depois, com a classe média que vai às ruas (nunca vi tanta tristeza em passeatas como aquelas) não tem nenhuma relação com os impulsos dos jovens que se mobilizam com força a partir do começo de 2013.
Os jovens tinham seus motivos variados para sair às ruas e queriam desafiar, transgredir e serem jovens. Protestaram contra o aumento da passagem do ônibus, contra o Fuleco, contra o governo e o que viesse pela frente. Mas eram na essência jovens em movimento, não eram golpistas.
Já a classe média assustada com a ascensão dos pobres, que engrossa as mobilizações de rua a partir do inverno de 2013, tomando a inquietação das mãos dos estudantes, tinha apenas suas incertezas e seus medos.
Os jovens que em algum momento perdem o controle dos protestos para a Globo e Sergio Moro estavam sendo jovens. E a classe média estava tentando se manter como classe média.
Dizer que os movimentos de rua iniciados pelos estudantes têm alguma relação com as passeatas da classe média desiludida, porque essas vêm na sequência e nas ruas, é mais ou menos como querer ver Trump como uma continuação de Obama só porque ambos ocuparam a Casa Branca.

O IMBECIL DA ERA DA LAVA-JATO

O macho que foi a Moscou para tentar debochar das mulheres russas é um aparentado do homem do relho. Todos têm uma conexão entre si e se consideram imunes a qualquer abordagem da lei, mesmo na Rússia.
Eles não são babacas fazendo bobagens porque não pensaram nas consequências. São, ao contrário, sujeitos que pensam no que fazem e se consideram inalcançáveis por qualquer consequência.
Os imbecis dos vídeos de Moscou são os empoderados pela inspiração da Lava-Jato. A direita arcaica, nas suas manifestações diversas, tudo pode, inclusive na Copa e em qualquer parte do mundo.
Os idiotas de Moscou, que certos jornalistas fofos consideram apenas rapazes mal-educados e inconsequentes, são parte do contexto do golpe, da perseguição às esquerdas, do encarceramento de Lula e do aparelhamento das instituições.
O babaca de Moscou se acha protegido pelo golpe e seus desdobramentos, porque o golpe é consequência do seu apoio. O golpe lhe deve favores.
Aqui ele não é “apenas” machista, é um fascista fantasiado de verde-amarelo. Lá ele se apresenta como um engraçadinho.
O bobalhão dos vídeos se acha dono de tudo, inclusive em Moscou. Dono da piada, das grosserias, do machismo e das mulheres russas.
O imbecil brasileiro de direita foi aperfeiçoado pelo golpe, que o estimula a ir em frente. Ele mesmo é um golpista a passeio, que talvez nem veja os jogos.
Ele quer fuzarca e exibicionismo. O imbecil dos vídeos quer dizer que foi a Moscou só para azarar e que mesmo lá nada de errado acontecerá com ele. A soberba do fascista se manifesta onde ele estiver.

A Seleção sem força

Uma sensação muito ruim de que a Seleção parece refletir a situação do país. Na adversidade, o time esmorece, como o povo esmoreceu depois do golpe.
É algo que vem desde a Copa de 2010, quando os jogadores parecem ter perdido, naquele jogo com a Holanda, quase tudo que a Seleção acumulou de vitalidade e dedicação à luta a partir de 1958.
Foi em 2010, com aquele time de pernas frouxas, que tudo começou, até o desfecho dos 7 a 1 em 2014. Foi em 2014 que o mundo viu pela primeira vez o capitão de uma equipe chorar num canto, afastado dos liderados.
Para completar, a direita se apropriou da camiseta da Seleção e da bandeira. A direita verde-amarela do golpe e do ódio fundamentalista pode ter amaldiçoado o futebol brasileiro.

O EMPURRÃOZINHO

Nenhum atacante do Sá Viana, do Ferro Carril, do 14 de Julho, do São Gabriel ou do Grêmio Santanense tiraria um zagueiro do Guarani do Alegrete da jogada com um empurrãozinho como aquele do suíço em cima de Miranda.
É muita moleza. Zagueiro, zagueiro mesmo, não amolece diante de um empurrãozinho. Não é, Paulo Renato Rodrigues?
É isso, Rui Fabres? Fala, Luizinho Tristão. Me conteste, Valderli. Confirma, José Airam? Tem fundamento um empurrão frouxo daqueles, Villa?
Pastel, Nelson, Grillo, Kako Perfeito, Bibi, Grisa, Jason, Élvio, Celso, Bola, Miguel Castro, Moisés Moisa, Juliani, Japur: um empurrão como aquele, com a mão mole, aconteceria assim, na facilidade, na zaga do Guarani do Alegrete?

A PRAÇA É NOSSA

Diálogo entre Galvão Bueno e Arnaldo César Coelho no primeiro tempo do jogo do Brasil com a Suílça.
Galvão:
– O juiz está atrasado. Ele apita depois da cobrança da falta, Arnaldo.
E Arnaldo esclarece:
– O áudio é que chega atrasado pra nós, Galvão.
E o jogo segue. Segundo Galvão, com o juiz apitando depois do próprio apito.

A pátria sem chuteiras

Publiquei esta crônica em Zero Hora em 14 de junho de 2014. Não torço pela Seleção desde antes do 7 a 1. Peço, como outros que pensam como eu, ser compreendido e respeitado na minha indiferença, assim como respeito os que continuam torcendo.

Não torço contra, simplesmente não torço. Apenas vejo futebol, gosto de futebol. Mas não acho que a Seleção represente meu sentimento de brasilidade a cada quatro anos.

Eis a crônica, que repete o que penso ainda hoje, quatro anos depois:

A PÁTRIA SEM CHUTEIRAS

Uma Copa, mesmo esta superfaturada, sempre nos devolve a um sonho da infância. Meu colega Henrique Erni Gräwer tem apenas 10 anos desde quarta-feira. Finalmente verá um jogo da Copa.

Ganhou ingresso no sorteio da RBS para os funcionários. Virou uma criança.

Recebeu um telefonema e foi informado de que poderia escolher entre quatro jogos. Escolheu Coreia X Argélia. Contará, daqui a algumas décadas, que nunca houve um jogo como aquele do dia 22 de junho no Beira-Rio. E pode aparecer até no filme oficial da Fifa com uma bandeirinha da Argélia.

Eu queria receber um telefonema parecido. A pessoa do outro lado da linha me diria: você pode escolher uma entre quatro finais de Copas passadas. Você entrará numa máquina (da Fifa, claro), que o levará à época escolhida.

A voz teria a entonação dos narradores dos anos 50. O telefonema seria com chiados e interrupções. E então eu iria para o dia 29 de junho de 1958. Estádio Rasunda, Estocolmo. Final entre Suécia e Brasil.

Escolheria o lado direito da defesa brasileira no primeiro tempo, onde poderia, quem sabe, ser capturado pelas câmeras. Ficaria bem perto do gramado, atrás de uma das placas com as propagandas da Telefunken, marca da primeira TV da minha avó Nina.

Veria ao vivo o cotejo que já revi cinco vezes no YouTube, onde o vídeo de toda a partida está disponível há um mês. Queria ver como Zito jogava muito mais do que se pensava, que a Suécia dominou quase todo o primeiro tempo e que Orlando era mais xerife do que Bellini. E ainda tínhamos Pelé e Garrincha.

O que eu queria testemunhar mesmo é um lance que nenhuma Copa irá repetir. Um momento que, se reprisado hoje com outros personagens, redimiria o Brasil de todo o desalento com a Seleção.

É uma cena famosa. Aos cinco minutos, logo depois do primeiro gol da Suécia, Bellini vai ao fundo da rede e pega a bola, caminha até a risca da área, onde encontra Didi, que está indo ao seu encontro. Didi se adona do balão e caminha em direção ao centro do campo.

Do momento em que pega a bola, até o centro do campo, são 40 passos. Didi caminha sem pressa, mas certo de que é possível dar um jeito naquilo. É a cena que eu queria ver ao vivo, mais até do que o gol em que Pelé aplica no zagueiro o mais fantástico balãozinho da história do futebol.

A confiança no futebol brasileiro nasce ali. É na convicção de Didi na resolução daquele impasse que o futebol nos tira, como diz o antropólogo Roberto Da Matta, da vala comum dos povos sem mapa.

O Brasil passa a existir para o mundo graças à magia de 58 e deve muito ao gesto do negro que se impõe para reverter as sinas de 50, com a tragédia no Maracanã, e a derrota para a Hungria nas quartas de final de 54 na Suíça.

Nelson Rodrigues anteviu que ali se estabelecia o vínculo entre pátria e futebol, quando o Brasil atrai os olhares do mundo para as artes de Pelé e Garrincha.

Mas agora a Copa de 2014 é a face sombria do que se construiu até aqui, ou o reverso do que Didi fez naquela final. Algo muito sério se extraviou pelo caminho.

É por isso que o Mundial superfaturado marcou sua estreia, por coerência, com a vitória da malandragem no pênalti simulado. E assim vamos ao Hexa. Torcendo numa bruma de suspeitas, constrangimentos, indecisões, vergonhas, civismos e cinismos. Quando se desfez a conexão com o gesto de Didi que abarcou a brasilidade?

A Copa no Brasil levou a Seleção a se exaurir como identidade. Pode ter chegado a hora de experimentar outros signos de pertencimento. Ou o bom mesmo talvez seja o que Erni vai fazer: ver Argélia e Coreia, sem aflições, comendo amendoim.

Se é que ainda há amendoim nos estádios, onde um pacotinho de ripples potato chips custa R$ 15.

(Uma observação: infelizmente, o youtube tirou do ar o vídeo oficial da final da Copa de 58.)

 

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