Os unhas grandes

O jornal O Globo está se divertindo com a imagem de Garotinho sendo levado do hospital para a cadeia. Seria bom não se divertir muito com esta cena.
Muitos dos que estão rindo, no jornalismo e em outras áreas, eram bem chegados a Garotinho e a Sergio Cabral.
Ontem, o procurador Dallagnol disse à TV Folha, com fervor nos olhos, nos gestos e na fala, que a Lava-Jato está recém na metade.
Tem muito pé pra ser puxado. Mesmo que a Lava-Jato não chegue nem perto dos pés tucanos, que têm unhas grandes, chegará em gente que está no poder e é parceira deles.
Ainda vai ter muito susto, até a tentativa (será que tentarão?) de prisão do Lula, sem muitas provas mas com muitas convicções.

Pegaram o homem do pato

Depois do caixa dois de José Serra (é caixa dois, não é propina), chega-se agora ao caixa dois de Paulo Skaf. São duas as fontes da informação de que o empresário e candidato do PMDB ao governo de São Paulo em 2014 recebeu dinheiro por fora.

Executivos delatores da Odebrecht teriam informado a doação, e agora o marqueteiro Duda Mendonça, sabendo que os dedos-duros da empreiteira haviam feito o serviço, decidiu ratificar a mutreta. Porque ele tem envolvimento.

Seriam R$ 4,1 milhões, sem registro, que a empresa deu a Skaf, para que este quitasse dívidas com Mendonça.

Por que o caso de Skaf é diferente do caso do José Serra? Porque os tucanos estão a todo momento sendo delatados, mesmo que não aconteça nada com Serra, com Aécio ou com Alckmin. Eles recebem doações, não recebem propinas. E são doações desinteressadas, por amor à social-democracia à brasileira.

E Skaf é diferente porque é o todo-poderoso presidente da Fiesp, o homem que, a cada frase, compõe uma longa oração sobre normas éticas e condutas empresariais ilibadas. Ele é o homem do pato amarelo seguido pelos que protestavam por moral e decência na Avenida Paulista.

Palocci está preso como operador-chefe de um esquema de recebimento de propinas do PT. Quem fazia isso para Serra e para Skaf? Os tesoureiros do PT foram parar na cadeia. Quem são os tesoureiros desses dois?

Polícia Federal, Ministério Público e Judiciário sabem tudo. Vamos esperar que alguém seja preso. Vai sobrar, claro, para pés-de- chinelo.

 

Se fosse na Venezuela…

Ninguém mais sabe quantas vezes um denunciado do PT pode virar réu. Pois Palocci é réu de novo, agora na Lava-Jato. E isso que Palocci já deve ter sido condenado umas cinco vezes.
José Dirceu é réu já condenado não se sabe quantas vezes. Delúbio Soares outras tantas. A Polícia, o Ministério Público e a Justiça têm pressa com o pessoal do PT.
Lula é réu em três processos e logo deve ser em mais dois. E você aí deve estar perguntando: mas e os réus tucanos, o José Serra, o Pedro Parente, o Pedro Malan? E o pessoal do metrô? Da merenda?
E os investigados tucanos, o Aécio (em dois casos, do mensalão mineiro e da lista de Furnas) e o Fernando Henrique Cardoso (pelo escabroso caso do empresário suspeito de bancar uma ‘namorada’ do príncipe em Portugal)?
A resposta pode ser esta: os corruptos tucanos não são denunciados e por isso não são condenados porque a Justiça não tem tanto tempo assim para lidar com os processos do pessoal do PT e condenar ao mesmo tempo os pilantras do PSDB. Um denunciado tucano pode ficar décadas só como denunciado, se chegar a tanto. Pode morrer, reencarnar e voltar como outra ave e ser sempre somente um denunciado. Não tem (e talvez nunca tenha) um tucano preso preventivamente na masmorra de Curitiba.
Os tucanos vão ficando para depois. O mensalão mineiro, por exemplo, tem 20 anos. Outras explicações eu não tenho nem estou disposto a buscar.

Paciência

Manchete dos jornais online agora à noite: os ex-deputados Eduardo Cunha e Henrique Eduardo Alves são réus em processo por propina envolvendo o FGTS e a Caixa.
Vale manchete? Cunha réu de novo? Eduardo Alves réu? É mais do mesmo. As notícias de repetem com os mesmos personagens. A Justiça mata três vezes a mesma galinha morta (e depois do golpe abriram a porteira para pegar o Cunha por todos os lados).
Mas há muitas investigações e processos envolvendo tucanos e não sai nada sobre eles. Eu ainda espero uma manchete em que o réu seja um tucano corrupto. Eu tenho paciência.

Collor de novo?

A notícia nova de agora à noite é uma notícia velha. Pegaram mais uma vez Fernando Collor de Melo, senador pelo PTB de Alagoas, acusado de ter recebido R$ 29 milhões em propinas entre 2010 e 2014.

A denúncia do procurador-geral da República, Rodrigo Janot, é de agosto de 2015 e corria em segredo de Justiça no Supremo.

E daí? Daí que voltaram a pegar um sujeito manjado. A pergunta é: quando a Procuradoria-Geral vai pegar, não um corrupto antigo, congelado, mas um corrupto fresco, um corrupto tucano até agora impune?

O que muda o cenário da corrupção no Brasil uma notícia sobre um processo contra o Collor? Não muda nada.

 

O Judiciário aguenta os excessos da Lava-Jato?

Ontem, Lula virou réu no terceiro processo que se abre contra ele. Desta vez, é por corrupção e lavagem de dinheiro envolvendo a contratação, pela Odebrecht, de uma empresa de Taiguara Rodrigues, parente do ex-presidente.

Prevê-se que Lula terá cinco processos contra ele. Em dois ele já é réu. No primeiro, é acusado de obstrução de Justiça. No segundo, de favorecimento pela OAS no caso do apartamento no Guarujá.

Ainda faltam os processos por participação em lobby em favor de empreiteiras e o do famoso caso do sítio de Atibaia e seus pedalinhos. Se não surgirem outros.

Lula, a mulher dele, os filhos, os cunhados, os vizinhos, todos serão investigados e processados. Como diz Zé Simão, humorista da Folha, no fim Lula será processado por formação de família.

Não há saída para Lula. Serão cinco processos. Não haverá como escapar de todos. Se for condenado em um deles e a condenação for confirmada em segunda instância, poderá ser preso.

Como as investigações contra Lula andam a jato, enquanto as investigações e processos contra tucanos não andam, é provável que Lula seja condenado antes das eleições de 2018.

E aí vem a grande dúvida. Quem ganhará o que com a prisão de Lula, ou quem poderá perder o que talvez esteja contabilizando hoje como ganho?

A direita seria mesmo beneficiada com a exclusão de Lula da disputa de 2018 e, quem sabe, da própria política?

Também não está claro, por exemplo, se Ministério Público e Judiciário de Curitiba, em especial, têm condições de avaliar o impacto político da caçada a Lula, se nem os próprios políticos sabem direito o que irá se passar.

Em síntese, será que os integrantes da força-tarefa traçam mesmo uma estratégia pensada de destruição de Lula, avaliando todas as suas consequências, ou são apenas justiceiros impulsivos que em algum momento irão se enredar nas próprias teias?

Estou com os que consideram que MP e Judiciário da força-tarefa (e suas extensões e franquias) foram tomados pela soberba e podem ser apenas quadros medianos anestesiados pela sensação de que cumprem uma missão bíblica. A racionalidade não parece ser a virtude desse pessoal imerso em convicções.

Se Lula for condenado em tantos processos, enquanto a direita tucana corrupta e impune debocha de todos nós, algo muito grave terá acontecido, na sequência do golpe.

Que o Judiciário saiba se proteger antes de um desastre desmoralizador provocado pelos excessos que poucos do meio jurídico estão denunciando. O Judiciário seletivo pode desqualificar o próprio Judiciário, mas a Lava-Jato talvez não esteja preocupada com isso.

Tucano desativado

Conseguiram pegar um ex-tucano, o ex-governador de Tocantins Siqueira Campos, levado para a Polícia Federal sob condução coercitiva, acusado de corrupção.

Quando pegam um tucano, e dos pequenos, o homem já deixou o partido. Siqueira Campos desistiu do PSDB em março.

Com tantos tucanos grandes e na ativa para pegar, vão pegar logo um tucano desativado. Ou será que tucano só é flagrado quando deixa de ser tucano?

FH, o grande captador

O Instituto Fernando Henrique Cardoso é um dos cem maiores captadores de dinheiro via Lei Rouanet. Está na coluna de hoje da Monica Bergamo na Folha.

A CPI da Lei Rouanet, que eu nem sabia que ainda funcionava, quer convocar FH para que explique as captações. São mais de R$ 14 milhões.

O que ele vai dizer, como a coluna já antecipa? Que a fundação é cultural, porque guarda todo o acervo do ex-presidente, que é muito valioso.

FH, claro, tem acervo, e Lula tem tralhas que o juiz Moro quer catalogar. Lula corrompe, FH capta. Lula dá palestras, FH profere conferências.

E o Judiciário seletivo não consegue captar um tucano que seja (do metrô, da merenda, de Furnas, das privatizações, do mensalão mineiro…) para o acervo do combate à pilantragem que anda com o pulôver nos ombros.

Eu já vejo FH na CPI discorrendo sobre as preciosidades que seu instituto preserva para o bem da História e do povo. Cada um com as suas culturas.

As leis, inclusive a Rouanet, são aplicadas no Brasil de acordo com a clientela.

Como conseguir R$ 4 milhões

Há alguns anos fui a Brasília e pedi um encontro com o alto dirigente de um partido, meu conhecido dos tempos de colégio. Não preciso dizer quem era. Eu tinha o projeto de uma lancheria de sanduíches naturais na Aberta dos Morros e precisava de apoio.
Mas, logo no início da conversa, o meu amigo, gaúcho mas já com sotaque candango, veio com a mordida:
– Preciso que você doe R$ 4 milhões ao partido.
– Eu?
Ele repetiu que sim, que eu poderia contribuir para a campanha do partido. Era só querer. Eu disse que nunca tinha visto R$ 4 milhões e que nem em vinte vidas eu teria esse dinheiro.
Sugeri que ele recorresse às empreiteiras, porque as empreiteiras têm muito dinheiro. O meu amigo me disse:
– Como vou pedir dinheiro às empreiteiras, se nunca ninguém fez isso?
– Nunca?
Ele me disse que não. Que partido nenhum, que governo nenhum pediu dinheiro às empreiteiras em momento algum. Nem como doação legal, registrada, e muito menos como caixa dois. Ele não seria o primeiro.
– Como vou fazer o que nunca ninguém fez? – disse o homem.
Eu concordei que ele poderia estar certo. Um partido pedir dinheiro a empreiteiras… Era arriscado.
Ele deveria mesmo pedir dinheiro para mim, que tinha o projeto da lancheria e esperava contar com o apoio de alguém do governo, que fosse amigo dele ou amigo de um amigo dele.
Eu poderia, juntando aos pouquinhos, conseguir os R$ 4 milhões. E foi o que fiz. Vendi um apartamento e um carro, saí catando dinheiro não sei onde, com parentes, conhecidos, colegas, ganhando prêmios da loteria, pegando empréstimos, fazendo rifas, jogando em quermesses.
Juntei os R$ 4 milhões para o meu amigo político. Em seis meses, eu tinha os R$ 4 milhões e alguns quebrados.
Levei o dinheiro em maletas de viagem a Brasília com a ajuda de um primo. Larguei o dinheiro na sala, ganhei um abraço forte, me despedi e pensei: é isso mesmo, basta querer e é possível doar R$ 4 milhões para um partido. Tudo direitinho, registrado no TSE.
Isso aconteceu há muitos anos. Penso nisso agora porque o PT fez exatamente o que nunca ninguém tinha feito e o que meu amigo evitava fazer.
O PT pegou dinheiro de empreiteiras. Por que o PT não falou comigo? O PT inventou a corrupção ao corromper as empreiteiras. Por isso deve ser punido.
E os outros? Os outros nunca fizeram nada de errado. Os outros tinham doadores como eu, que sabem se esforçar, poupar e juntar R$ 4 milhões em meio ano.

(PS: a ideia da lancheria não prosperou)

Não dá nada

Ainda sobre Aquarius. O Brasil das caçadas moralistas seletivas está na frase de um predador imobiliário, clássico representante da direita com passado camuflado, quando é confrontado com essa mancha, O herdeiro do gangster fala por ele e diz: faz tanto tempo e isso não vai dar nada mesmo.
É o que os tucanos e seus cúmplices repetem.
Mas será mesmo que contra eles nunca vai dar nada?