OS CONSELHEIROS E A DIREITA

Conclusões previsíveis da eleição de conselheiros tutelares, que este ano foi naturalmente valorizada pela ameaça de avanço da extrema direita fundamentalista.
As esquerdas podem ter reagido, às vésperas da eleição, elegendo candidatos progressistas e comprometidos com o ECA em áreas centrais, mas perderam feio nas periferias.
Pelo que já li, foi o que aconteceu em Porto Alegre e em São Paulo e pode ter acontecido em todo o país (a Folha online traz matéria com tentativa ainda precária de análise de SP).
É um fenômeno que apenas reafirma o que já aconteceu nas eleições municipais e na última eleição de 2018.
A capacidade de influência da direita nas áreas mais pobres pode estar muito além das conexões de desamparo social, desinformação e ação dos neopentecostais.
Como diz Renato Janine Ribeiro, que os progressistas prestem mais atenção em eventos como esse daqui pra frente, para que não se despolitize o que é político.

Abaixo, um link para o perfil da jornalista Nazaré de Almeida, que traz um texto interessante com os números de Porto Alegre.

https://www.facebook.com/nazare.dealmeida/posts/3327514003925485?hc_location=ufi

O bom momento dos covardes

Temos dois exemplos de pregação de retaliações com extrema violência no Estado, disseminados por quem deveria fazer exatamente o contrário. A questão é: o que faremos desses casos, para que não se acomodem em indignações barulhentas mas inconsequentes?

No primeiro, um promotor de Júlio de Castilhos disse a uma adolescente (na frente de uma juíza) que ela deveria ser estuprada por menores da Fase, porque teria mentido que havia sido violentada pelo próprio pai.

Mesmo que o caso seja de 2014, a repercussão acontece agora, porque o episódio chegou ao Tribunal de Justiça do Estado e foi divulgado em detalhes assombrosos pela repórter Adriana Irion, de Zero Hora.

O promotor que ofendeu a adolescente em audiência sabia ou deveria saber que a menina estava tentando se proteger de represálias, pois era sistematicamente estuprada.

Mesmo assim, a autoridade “desinformada” pregou a crueldade como vingança para a menina que considerava mentirosa. Uma mentira mereceria mais estupros. E a juíza que tudo ouvia ficou quieta.

O outro caso é este. Um comunicador de rádio de Porto Alegre disse no ar, há duas semanas, que jornalistas defensores de direitos humanos e seus filhos deveriam ser assassinados por delinquentes. Para que parassem de dizer bobagem e de proteger assaltantes.

Os dois, o promotor que agrediu e humilhou uma adolescente, desejando-lhe mais estupros, e o radialista que estimulou a chacina das famílias de colegas, deram a entender que os bandidos ouviriam seus apelos, ou estavam apenas blefando.

Eles são muito semelhantes, mas a diferença básica entre um e outro é esta. O promotor vai ser julgado pela própria categoria e pode até ser condenado e excluído do Ministério Público.

Já a pregação pública do radialista, lida de um texto que ele definiu como “editorialzinho”, foi completa e vergonhosamente ignorada pela própria categoria e também pelo Ministério Público. E dizem que ele pode até ser promovido.

O momento está muito propício aos covardes.