ABANDONARAM MACRI

Os comentaristas de política e economia do La Nación e do Clarín, dois jornais que sustentam a direita argentina e que sempre venderam Macri como o exemplo de liberal latino-americano, entregaram os pontos.
Li muitos deles ontem e hoje. Assim como a grande imprensa abandonou Bolsonaro aqui, os jornais argentinos estão largando Macri. Não há salvação.
Clarín e La Nación destacaram hoje em suas manchetes entrevistas exclusivas de Alberto Fernández, o candidato do peronismo kirchnerista (que também deu entrevista ao Página12, de esquerda). Isso seria impensável até bem pouco tempo.
A diferença é que os jornais e os Mervais Pereiras deles conseguiram sustentar Macri até agora. Largam o sujeito na sarjeta a dois meses da eleição, depois da derrota avassaladora para Fernández e Cristina nas prévias de domingo.
O tom geral dos comentaristas é o de que, entre tentar salvar a economia e fazer campanha para uma reeleição improvável, Macri não consegue fazer nem uma coisa nem outra.
O amigo de Bolsonaro foi o engodo que as esquerdas esperaram, por muito tempo, para mostrar que o melhor exemplar de reacionário bem-nascido não funcionou. Macri é a farsa que desmascara a direita bonitinha.
Mas não pensem que Bolsonaro é um Macri por também tentar fazer um discurso pretensamente liberal. Bolsonaro não é liberal. É um entreguista, mais entreguista do que Macri. E muito mais repulsivo sob o ponto de vista moral.
Macri é representante de uma família mafiosa e chegou ao poder já como milionário cercado de corruptos por todos os lados. É a expressão do coronelismo argentino decadente e sem o lastro dos militares.
Outra diferença fundamental é esta: os militares argentinos estão fora do jogo político. Os que poderiam tentar participar, anos atrás, se a Argentina fosse um país de impunidades como o Brasil, foram julgados e encarcerados.
Não há nada como Bolsonaro, nem na Argentina. Não há nenhuma outra aberração semelhante ao bolsonarismo.

Abutres

A especulação corre solta numa segunda-feira de pavor em Buenos Aires. No dia seguinte à vitória de Fernández e Cristina na prévias, o dólar chegou a subir 35% e foi a 60 pesos. Fechou a 57,30.
Macri põe a culpa nos vitoriosos. Clarín e La Nación dão espaço para que Macri dissemine o medo. Os dois jornais têm a mesma manchete agora à tarde.
Macri diz que o kirchnerismo não tem a confiança do mercado e não oferece credibilidade.
Fernández e Cristina seriam culpados pela crise. Macri é governado pelo FMI e foi subjugado pelos que tentam ganhar agora, na especulação, o que não poderão ganhar mais adiante, se a direita perder a eleição de outubro, como está claro que vai perder.
A direita especula em meio à desgraça de um país quebrado. O especulador é o abutre comendo os restos do macrismo destroçado.
E a culpa, segundo Macri, o amigo de Bolsonaro, é do peronismo kirchnerista.

A VOLTA DE CRISTINA

Cristina Kirchner vem aí. Que os argentinos se preparem para as baixarias da direita. A Frente de Todos, de Alberto Fernández (presidente) e Cristina Kirchner (vice) venceu as prévias deste domingo. Era previsto, mas há componentes assustadores para a direita.

A participação do eleitorado chegou a 75% (o mesmo percentual de 2015), quando esperavam que o desalento com a política provocasse uma abstenção maior. Isso significa que o povo está decidido a apostar na democracia para derrubar Macri.

Nas prévias argentinas, todos os eleitores podem votar livremente. É uma espécie de referendo dos candidatos de cada partido. Os mais votados de cada agremiação disputam a eleição de 27 de outubro. Macri é de novo o candidato da direita.

As prévias valem como uma espécie de pesquisa, com grau de confiabilidade de 100%, porque envolve todo o eleitorado, e não uma amostragem. Também serão indicados os candidatos à Câmara dos Deputados e, em oito províncias, ao Senado, além dos nomes que disputarão o governo da província e a prefeitura de Buenos Aires.

É agora, depois das prévias, que se intensifica o jogo sujo. Os macristas já vinham jogando pesado, com os mesmos recursos que o bolsonarismo usou aqui: disparos de mensagens em massa, uso irregular das redes sociais (com ações que a lei não permite) e, claro, fake news.

Mas ainda falta saber qual foi o tamanho da vitória da esquerda, porque o governo retém os resultados da votação. O jornal página 12 publica declarações de líderes kirchneristas sobre suspeitas de manipulação dos resultados, como tentativa de reduzir o impacto da derrota da direita.

(Os primeiros resultados, ainda parciais, dão vitória de 47% para a frente Fernández-Cristina, contra 32% para Macri-Pichetto)

As mãos de El Patón

Nahuel Patón Guzmán, El Patón (patudo, ou pé grande), foi um dos goleiros da seleção da Argentina na Copa da Rússia. É figura respeitada pelos argentinos, não só por ser um atleta famoso.

É jogador engajado a movimentos de direitos humanos, às Mães e Avós da Praça de Maio e ao combate permanente aos torturadores e assassinos da ditadura.

El Patón joga hoje no Tigres, do México, e seria uma figura impensável no futebol brasileiro, onde alguns jogadores bajularam Bolsonaro de forma patética na Copa América. Ele é assumidamente de esquerda. Publicamente. Explicitamente.

Reparem nas luvas de El Patón. Numa delas está escrito “Nunca Mas”, a expressão consagrada pelos democratas como repulsa à ditadura e como advertência: o país nunca aceitará que se repita o que fizeram com os 30 mil assassinados e desaparecidos políticos por ordem de militares e de civis nos anos 70 e 80.

Na outra luva, se lê “Memória pela verdade e pela Justiça”, para que ninguém fique impune pelos crimes da ditadura.

Nenhum jogador de futebol brasileiro tem a coragem de tornar pública hoje sua posição de esquerda como um El Patón.

Pois ele não está sozinho. Me emocionei quando vi esta foto ontem na capa do jornal Página 12, com a informação de que o goleiro e mais 150 nomes ligados ao futebol argentino assinaram um manifesto de apoio à Frente de Todos, de Alberto Fernández (presidente) e Cristina Kirchner (vice).

A chapa será oficializada neste domingo pelos peronistas kirchneristas para enfrentar em outubro o fascismo de Macri. É a volta de Cristina, para tentar reabilitar uma Argentina devastada pela direita.

No Brasil, talvez alguns jogadores assinassem um manifesto de apoio a Bolsonaro. É bom sentir inveja dos argentinos, até porque a seleção de El Patón pode estar em má fase, mas nunca tomou 7 a 1.

COMPARAÇÕES FORÇADAS

É meio torto o debate sobre a decisão de Cristina Kirchner de concorrer a vice em outubro na Argentina, abrindo mão da candidatura à presidência em nome da presumida maior chance de Alberto Fernández, ex-chefe de gabinete Nestor Kirchner.
Primeiro, não há, como muitos alardeiam, nenhum gesto de desprendimento pessoal. Cristina fez apenas uma jogada política para tentar unificar o que puder das lideranças e das bases do peronismo em torno de Fernández, o que com ela seria difícil.
Não há nada que indique um sacrifício. Ao contrário, Cristina busca a vitória e a confirmação da sua liderança e, claro, enredar ainda mais as estratégias da direita.
E não há nenhuma comparação possível com os que tentam lembrar que o PT poderia ter apoiado Ciro Gomes no ano passado. Esse é o raciocínio mais torto.
Cristina, mesmo liderando as pesquisas, põe na cabeça da chapa um justicialista como ela. A troca é de uma peronista por outro peronista, para que a própria Cristina tenha mais chances de sobreviver politicamente e continuar liderando a maior fatia de um peronismo sempre fragmentado. A estratégia visa, é muito óbvio, fortalecer o peronismo.
Além do que, pelo que li hoje, alguns analistas entendem que ela poderá se defender melhor dos ataques nos 11 processos que enfrenta ficando, em tese, em ”segundo plano” na campanha.
As comparações criam uma falsa controvérsia. A única semelhança possível entre Argentina e Brasil hoje nos é dada pela direita. A direita caça Cristina no Judiciário como caçou Lula aqui.
E lá a direita dita liberal de Macri quebrou o país e aumentou a miséria. Aqui, a extrema direita de Bolsonaro também nos encaminha para o desastre.

A FILHA DE CRISTINA

A direita argentina sabe que Cristina Kirchner vem com força na eleição de outubro. A tática lá é a mesma usada aqui contra Lula: tentar tirar a ex-presidente da disputa de qualquer jeito, com uma caçada implacável do Judiciário.
Caçam Cristina e seus filhos, Maximo e Florencia (foto do jornal Página 12), acusados de envolvimento em lavagem de dinheiro junto com a mãe. Caçam a família Kirchner como aqui caçam, sem resultados concretos, os filhos de Lula.
Florencia está em Cuba. Faz tratamento para doenças que a medicina argentina não conseguiu enfrentar, mas um juiz quer que ela volte logo para depor numa vara federal.
O que é diferente lá? Os argentinos vão às ruas para que não se esqueçam de que viveram uma ditadura, para atacar a máfia de Mauricio Macri no poder, para defender seus direitos e para defender Cristina.
É uma diferença e tanto.

A LAVA-JATO DA DIREITA ARGENTINA

A oposição argentina está fazendo uma denúncia que os brasileiros conhecem bem. Parte do judiciário do país foi sequestrada pela direita, que amplia a perseguição aos adversários do governo Macri, principalmente os ligados à ex-presidente Cristina Kirchner.

Li no Página 12 que agora à noite a Unidade Cidadã, o grupo de oposição liderado por Cristina, emitiu uma nota em que acusa Macri de articulação com a Justiça no caso da prisão do ex-vice-presidente Amado Boudou, acusado de corrupção e obstrução de Justiça. A prisão, como se banalizou no Brasil, é preventiva.

A nota diz: “O governo do presidente Macri está utilizando o poder judiciário para perseguir os dirigentes da oposição”. E acrescenta que o juiz Ariel Lijo, que mandou prender Boudou hoje à noite, é o mesmo que trata do processo do envolvimento de Macri e sua família num escândalo com os Correios.

A família de Macri quebrou os correios (que exploravam como grupo privado) e deixou uma dívida de US$ 256 milhões. O atual presidente decidiu que a dívida com o governo deveria ser anistiada (mais de 90% do total).

Um Macri anistiou os Macri. Mas não pergunte quem da família deles está preso. Lá não prendem os Macri, como aqui não prendem tucanos.

A nota emitida pela Unidade Cidadã diz ainda: “Denunciamos a delicada situação que atravessa a democracia argentina, onde foram atacados (ou foram extintos) o estado de direito e a divisão dos poderes”.

O que está claro é que uma máfia se apoderou do poder e de parte importante da Justiça na Argentina. Qualquer semelhança com o Brasil do golpe e da Lava-Jato não terá sido mera coincidência.

O Judiciário é a grande trincheira da direita na América Latina. E vem mais.

Cristina

Hoje é dia de torcer por Cristina Kirchner. Cristina precisa dar mais um susto na direita argentina (e na brasileira) e se eleger senadora. E depois se candidatar à presidência em 2019.
Isso se Cristina não tiver a candidatura inviabilizada pela caçada da turma de Macri em conluio com o Judiciário. A direita deles faz o que aprendeu com a direita brasileira em relação a Lula e Dilma.
O Brasil exportou seu modelo de Justiça seletiva da Lava-Jato. Basta controlar parte do judiciário, de preferência com o Supremo e tudo. Mas o povo argentino não se entrega.

Eles apavoram a direita

Por que eles temem tanto a possibilidade da volta de Lula? Porque pode acontecer aqui, com potência ao cubo, o que ameaça acontecer na Argentina.

Saiu finalmente o resultado oficial das prévias ao Senado na Argentina. Cristina Kirchner derrotou a direita que está no governo. Foi por pouco, mas derrotou. A direita de Macri estremeceu.

Qual é o dado relevante? Macri achou que sua turma venceria de lavada. Perdeu e ficou desorientado. Até porque houve uma tentativa fracassada de manipular os resultados da prévias.

Cristina pode fazer lá, como candidata a senadora, nas eleições parlamentares de outubro, o que Lula pode fazer aqui como candidato a presidente no ano que vem.

As prévias funcionam lá, para a direita que teme Cristina, como as pesquisas funcionam aqui para os golpistas assustados com Lula.

Por isso as direitas daqui e de lá estão alvoroçadas, enquanto Lula e Cristina são massacrados por ações no Judiciário. A Justiça seletiva que ataca Cristina pode ajudar a colocá-la de novo com força na política.

A diferença é que aqui a Justiça é ainda mais seletiva. E este Judiciário pode tirar Lula da eleição do ano que vem, enquanto os tucanos continuam impunes. Mas será tão simples assim?

 

A volta de Cristina

A direita argentina esperava derrotar Cristina kirchner de goleada nas eleições prévias do fim de semana. Deu empate do kirchnerismo com as forças de Macri na Grande Buenos Aires. E, na soma dos votos de todos os partidos, o projeto reacionário do jaburu argentino foi derrotado.
Esta é a realidade que assusta a direita. Cristina, massacrada como Lula e Dilma aqui (e com a ajuda do Judiciário seletivo), está viva politicamente. As direitas argentina e brasileira temem que eles voltem.
Alguns jornalistas brasileiros estão desolados e enfatizam que Macri venceu com uma diferença de algo como 0,0056%.
Na Argentina, a direita pelo menos chegou ao poder no voto. Mas as prévias podem ter sido fraudadas. Viva Cristina.