O PODER DAS MULHERES ARGENTINAS

A moça da foto é a jornalista, música e militante feminista Mikki Lusardi, que vai dirigir a Rádio Nacional Rock, da rede pública de comunicação cultural da Argentina.
Li ontem no Página 12 (que baita jornal) que Alberto Fernández e Cristina Kirchner indicaram cinco mulheres e apenas um homem para dirigir os veículos sob controle do Estado.
Mavi Díaz Mavi Díaz será a diretora da Rádio Nacional Folklórica; Andrea Merenzón, da Rádio Nacional Clássica; María Marta García Scarano, do canal Encuentro; Cielo Salviolo, do canal Pakapaka, dirigido às crianças; e mais Mikki Lusardi na Rádio Nacional Rock.
No Brasil, as estruturas de comunicação e de suporte à cultura foram entregues à extrema direita machista, que se encarrega de destruí-las, como os bolsonaristas já fizeram no Rio Grande do Sul.
Leio todos os dias que Fernández e Cristina estabeleceram que o governo deve socorrer com urgência as crianças e as mulheres. É a prioridade: dar comida às famílias que Macri levou para a miséria.
Socorrendo as mulheres, o governo cria a rede de proteção para as crianças. A Argentina elegeu um governo assumidamente feminino e feminista.
É para sentir inveja, sim. E para saber que, depois de um período de desmandos da direita, é possível voltar ao poder. Eles têm Cristina, nós temos o Mourão.

OS CONSOLOS DA DIREITA

A direita sempre busca consolos nas derrotas (quando não busca golpes). A direita argentina, por exemplo, esperava perder de 7 a 1.
Não foi bem assim. Alberto Fernández fez 48,08% dos votos e Maurício Macri teve 40,5% (com 95% dos votos apurados).
Nas prévias, em agosto, Fernández obteve 49,49% e Macri, 32,93%.
De lá até o dia da eleição, o governo investiu no terror. Provocou alta do dólar, assustou os argentinos com a ameaça de que o país perderia a confiança internacional (que foi o que aconteceu com Macri) e conseguiu melhorar a performance de Macri em mais de sete pontos.
Perdeu de qualquer forma, em quase todo o país, como mostra o mapa em que as áreas em branco são as ainda indefinidas na apuração. Mas não foi o desastre esperado pelo macrismo a partir do que indicavam as pesquisas.
Até dezembro, quando Fernández e Cristina tomam posse, a direita fará tudo para desestabilizar o país, como fizeram no Brasil até a concretização do golpe.
Mas, para dizer o óbvio, a direita argentina não terá lá as facilidades que a extrema direita aliada aos tucanos teve aqui.

Os novos golpes

Duas prioridades para a direita latino-americana, claro que com ajuda externa: levar adiante o golpe contra Evo Morales na Bolívia e esculhambar ainda mais com a economia argentina, como parte do plano de inviabilização do começo do governo de Fernández e Cristina.
O problema para a direita é que bolivianos e argentinos não são brasileiros. Resignados e alienados, hoje, só os brasileiros.

O cerco do Judiciário à Cristina Kirchner

O juiz federal Claudio Bonadio, o Sergio Moro argentino, fez hoje o que estava previsto. Como Alberto Fernández e Cristina Kirchner devem vencer a eleição no primeiro turno, Bonadio voltou a indiciar Cristina em mais um processo por corrupção. A poucos mais de um mês da eleição de 27 de outubro, a direita joga pesado e age descaradamente no Judiciário.

É a volta do chamado escândalo dos cadernos, com denúncias de propinas que teriam sido pagas por empresários aos governos de Nestor e Cristina Kirchner, entre 2005 e 2015 (e que estariam anotadas em um caderno).

Tudo muito parecido com a Lava-Jato. O juiz quer a prisão preventiva de Cristina, mas depende da derrubada da imunidade parlamentar da senadora. O peronismo e o kirchnerismo têm maioria no Senado.

Lula responde a sete processos. Cristina enfrenta 11. Lá e cá, o golpismo depende sempre da Justiça seletiva.

Na Argentina, a família Macri também enfrenta processos por corrupção, mas – pela mesma coincidência em relação ao Brasil dos Aécios, Serras, milicianos e jaburus – as acusações contra a direita gostam das gavetas dos magistrados.

No Brasil, Moro conseguiu transformar Lula em preso político e, num país anestesiado, resignado e alienado, facilitou a eleição de Bolsonaro. Mas na Argentina o furo é mais embaixo.

A ARMADILHA ARGENTINA

Alberto Fernández e Cristina Kirchner poderiam conversar com Dilma Rousseff e líderes das esquerdas daqui para que não caiam de novo numa armadilha.
Enquanto os empresários abandonam Maurício Macri, a imprensa de direita se aproxima do peronismo kirchnerista. Não são poucas as análises nessa direção.
Héctor Magnetto, controlador do grupo Clarín, a Globo deles, inimigo declarado dos Kirchner, está se aproximando de Fernández e Cristina. Tudo porque Macri será derrotado em outubro e é preciso chegar a uma trégua.
Cristina e Magnetto (foto) já foram aliados, no início do governo de Nestor Kirchner, e durante muito tempo brigaram mas se toleravam, até que um dia romperam e o Clarín (envolvido em muitas falcatruas) passou a atacar furiosamente o peronismo.
Cristina pode dizer que sabe tudo de Magnetto, desde os tempos em que chegaram a conviver sem grandes conflitos e até com alguns interesses convergentes. Pode ser, talvez seja.
A tese que circula na Argentina é a de que nenhum dos lados aguentaria uma nova briga, num país quebrado, com a volta do kirchnerismo ao poder. Foi o que se disse aqui em relação a uma fantasiosa pacificação PT-Globo. Deu no que deu.

ABANDONARAM MACRI

Os comentaristas de política e economia do La Nación e do Clarín, dois jornais que sustentam a direita argentina e que sempre venderam Macri como o exemplo de liberal latino-americano, entregaram os pontos.
Li muitos deles ontem e hoje. Assim como a grande imprensa abandonou Bolsonaro aqui, os jornais argentinos estão largando Macri. Não há salvação.
Clarín e La Nación destacaram hoje em suas manchetes entrevistas exclusivas de Alberto Fernández, o candidato do peronismo kirchnerista (que também deu entrevista ao Página12, de esquerda). Isso seria impensável até bem pouco tempo.
A diferença é que os jornais e os Mervais Pereiras deles conseguiram sustentar Macri até agora. Largam o sujeito na sarjeta a dois meses da eleição, depois da derrota avassaladora para Fernández e Cristina nas prévias de domingo.
O tom geral dos comentaristas é o de que, entre tentar salvar a economia e fazer campanha para uma reeleição improvável, Macri não consegue fazer nem uma coisa nem outra.
O amigo de Bolsonaro foi o engodo que as esquerdas esperaram, por muito tempo, para mostrar que o melhor exemplar de reacionário bem-nascido não funcionou. Macri é a farsa que desmascara a direita bonitinha.
Mas não pensem que Bolsonaro é um Macri por também tentar fazer um discurso pretensamente liberal. Bolsonaro não é liberal. É um entreguista, mais entreguista do que Macri. E muito mais repulsivo sob o ponto de vista moral.
Macri é representante de uma família mafiosa e chegou ao poder já como milionário cercado de corruptos por todos os lados. É a expressão do coronelismo argentino decadente e sem o lastro dos militares.
Outra diferença fundamental é esta: os militares argentinos estão fora do jogo político. Os que poderiam tentar participar, anos atrás, se a Argentina fosse um país de impunidades como o Brasil, foram julgados e encarcerados.
Não há nada como Bolsonaro, nem na Argentina. Não há nenhuma outra aberração semelhante ao bolsonarismo.

Abutres

A especulação corre solta numa segunda-feira de pavor em Buenos Aires. No dia seguinte à vitória de Fernández e Cristina na prévias, o dólar chegou a subir 35% e foi a 60 pesos. Fechou a 57,30.
Macri põe a culpa nos vitoriosos. Clarín e La Nación dão espaço para que Macri dissemine o medo. Os dois jornais têm a mesma manchete agora à tarde.
Macri diz que o kirchnerismo não tem a confiança do mercado e não oferece credibilidade.
Fernández e Cristina seriam culpados pela crise. Macri é governado pelo FMI e foi subjugado pelos que tentam ganhar agora, na especulação, o que não poderão ganhar mais adiante, se a direita perder a eleição de outubro, como está claro que vai perder.
A direita especula em meio à desgraça de um país quebrado. O especulador é o abutre comendo os restos do macrismo destroçado.
E a culpa, segundo Macri, o amigo de Bolsonaro, é do peronismo kirchnerista.

A VOLTA DE CRISTINA

Cristina Kirchner vem aí. Que os argentinos se preparem para as baixarias da direita. A Frente de Todos, de Alberto Fernández (presidente) e Cristina Kirchner (vice) venceu as prévias deste domingo. Era previsto, mas há componentes assustadores para a direita.

A participação do eleitorado chegou a 75% (o mesmo percentual de 2015), quando esperavam que o desalento com a política provocasse uma abstenção maior. Isso significa que o povo está decidido a apostar na democracia para derrubar Macri.

Nas prévias argentinas, todos os eleitores podem votar livremente. É uma espécie de referendo dos candidatos de cada partido. Os mais votados de cada agremiação disputam a eleição de 27 de outubro. Macri é de novo o candidato da direita.

As prévias valem como uma espécie de pesquisa, com grau de confiabilidade de 100%, porque envolve todo o eleitorado, e não uma amostragem. Também serão indicados os candidatos à Câmara dos Deputados e, em oito províncias, ao Senado, além dos nomes que disputarão o governo da província e a prefeitura de Buenos Aires.

É agora, depois das prévias, que se intensifica o jogo sujo. Os macristas já vinham jogando pesado, com os mesmos recursos que o bolsonarismo usou aqui: disparos de mensagens em massa, uso irregular das redes sociais (com ações que a lei não permite) e, claro, fake news.

Mas ainda falta saber qual foi o tamanho da vitória da esquerda, porque o governo retém os resultados da votação. O jornal página 12 publica declarações de líderes kirchneristas sobre suspeitas de manipulação dos resultados, como tentativa de reduzir o impacto da derrota da direita.

(Os primeiros resultados, ainda parciais, dão vitória de 47% para a frente Fernández-Cristina, contra 32% para Macri-Pichetto)

As mãos de El Patón

Nahuel Patón Guzmán, El Patón (patudo, ou pé grande), foi um dos goleiros da seleção da Argentina na Copa da Rússia. É figura respeitada pelos argentinos, não só por ser um atleta famoso.

É jogador engajado a movimentos de direitos humanos, às Mães e Avós da Praça de Maio e ao combate permanente aos torturadores e assassinos da ditadura.

El Patón joga hoje no Tigres, do México, e seria uma figura impensável no futebol brasileiro, onde alguns jogadores bajularam Bolsonaro de forma patética na Copa América. Ele é assumidamente de esquerda. Publicamente. Explicitamente.

Reparem nas luvas de El Patón. Numa delas está escrito “Nunca Mas”, a expressão consagrada pelos democratas como repulsa à ditadura e como advertência: o país nunca aceitará que se repita o que fizeram com os 30 mil assassinados e desaparecidos políticos por ordem de militares e de civis nos anos 70 e 80.

Na outra luva, se lê “Memória pela verdade e pela Justiça”, para que ninguém fique impune pelos crimes da ditadura.

Nenhum jogador de futebol brasileiro tem a coragem de tornar pública hoje sua posição de esquerda como um El Patón.

Pois ele não está sozinho. Me emocionei quando vi esta foto ontem na capa do jornal Página 12, com a informação de que o goleiro e mais 150 nomes ligados ao futebol argentino assinaram um manifesto de apoio à Frente de Todos, de Alberto Fernández (presidente) e Cristina Kirchner (vice).

A chapa será oficializada neste domingo pelos peronistas kirchneristas para enfrentar em outubro o fascismo de Macri. É a volta de Cristina, para tentar reabilitar uma Argentina devastada pela direita.

No Brasil, talvez alguns jogadores assinassem um manifesto de apoio a Bolsonaro. É bom sentir inveja dos argentinos, até porque a seleção de El Patón pode estar em má fase, mas nunca tomou 7 a 1.