O GENERAL DELES

Os uruguaios não deixam a memória da ditadura e seus cúmplices em paz. A notícia de hoje no jornal Brecha é a descoberta de novos documentos com o registro de escutas telefônicas de um esquema em que generais perseguiram um general durante a ditadura (1973-1984) e muitos anos depois.

O general é Líber Seregni, que morreu em 2004 aos 88 anos. Sem ele, talvez não existisse a Frente Ampla, que ajudou a fundar, e a viabilização de um líder político como José Mujica.

Seregni já estava na reserva quando se opôs à ditadura, mobilizou as esquerdas pela criação da Frente Ampla e foi encarcerado por 10 anos. Seregni é o primeiro grande líder da Frente Ampla.

Libertado em 1984, continuou sob perseguição, como já mostraram documentos divulgados nos últimos anos, reforçados pelas revelações de agora sobre como os arapongas dos ditadores ouviam as conversas do general e da sua família.

O outro assunto que não sai dos jornais de esquerda é a continuação das escavações em um antigo quartel de Montevidéu, onde essa semana foi encontrado o cadáver de um desaparecido político.

Os uruguaios querem saber onde estão os restos de 194 desaparecidos (apenas quatro ossadas foram localizadas), com um bom argumento, resumido nessa frase do senador da Frente Ampla Rafael Michelini:
“Seguir buscando é a melhor homenagem”.

Michelini é filho de Zelmar Michelini, também senador, assassinado em Buenos Aires numa das ‘trocas’ de prisioneiros da Operação Condor, que estabeleceu intercâmbios macabros entre as ditaduras da América Latina nos anos 70 e 80.

O resumo disso tudo, num momento em que a memória da resistência ganha vitalidade no Uruguai, é que eles tiveram um general que não só se rebelou contra a ditadura como articulou a organização da resistência numa frente impensável à época.

Cada um com seus generais.

As mulheres

Gosto muito desse vídeo que fiz ontem no centro de Porto Alegre, porque só tem mulheres. São valentes nesses tempos de fascismo espalhado por toda parte.
Quando o grupo de atuadores do Ói Nóis Aqui Traveiz se dispersou, ao final da performance “Onde? Ação Nº 2”, acompanhei essa moça até a descida da Borges, em direção ao Mercado. Um sujeito passou gritando: vagabundas.
Não sei se ela não continuou até a beira do Guaíba soletrando e soltando os papeizinhos com os nomes de mortos e desaparecidos na ditadura.
Eu parei, ela continuou. A Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz não para. Que bravura. Me comove a valentia dos atuadores.

Gosto muito desse vídeo que fiz ontem no centro de Porto Alegre, porque só tem mulheres. São valentes nesses tempos de fascismo espalhado por toda parte.Quando o grupo de atuadores do Ói Nóis Aqui Traveiz se dispersou, ao final da performance “Onde? Ação Nº 2”, acompanhei essa moça até a descida da Borges, em direção ao Mercado. Um sujeito passou gritando: vagabundas.Não sei se ela não continuou até a beira do Guaíba soletrando e soltando os papeizinhos com os nomes de mortos e desaparecidos na ditadura.Eu parei, ela continuou. A Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz não para. Que bravura. Me comove a valentia dos atuadores.

Posted by Moisés Mendes on Tuesday, December 4, 2018

O que não aprendemos

Suzana Lisbôa, viúva do militante político Luiz Eurico Tejera Lisbôa, assassinado pela ditadura, participou de um debate com o jornalista Rafael Guimaraens, no lançamento do novo livro dele, O Sargento, o Marechal e o Faquir (Libretos). Foi agora à noite, na Fundação Ecarta.
Suzana procurou e encontrou o corpo do marido desaparecido em 1972, um consolo que outras viúvas não tiveram.
Leiam o que ela disse no debate: o grande erro das esquerdas no Brasil foi o de não enfrentar a questão dos mortos e dos desaparecidos na ditadura.
Na sequência, digo eu, o erro fatal foi ter subestimado o efeito que seria provocado pelo desfecho frustrante dos trabalhos da Comissão da Verdade (não por culpa da comissão, mas por falta de lastro político que a sustentasse).
Foi a festa para a direita, já fortalecida pela anistia que preservou torturadores, e com os muitos vacilos da esquerda, já na democracia.
O que está aí hoje é o aperfeiçoamento de uma direita que já consegue aplicar golpes sem militares.
O advogado Werner Becker, defensor de presos políticos nos anos 70, fez outro alerta: vem aí coisa muito pior do que vocês estão pensando. Vem aí, disse ele, um novo 64.
Estamos numa situação em que qualquer tipo de alerta, por mais exagerado que pareça, não pode ser subestimado.