OS CONFLITOS DO EX-JUIZ

Tivemos hoje em Brasília uma situação bem Brasil da Lava-Jato. Sergio Moro encontrou-se com o presidente do Supremo. A imprensa noticiou que ele e Dias Toffoli trataram do vazamento de mensagens trocadas pelo então juiz com procuradores.

Tudo bem? Numa situação de normalidade, sim. O ministro da Justiça deve interagir com autoridades de todos os poderes, incluindo autoridades da mais alta Corte de Justiça.

Mas há um detalhe. Moro tem interesse no julgamento do dia 25 no Supremo, que pode colocar a Lava-Jato sob suspeição e determinar a soltura de Lula.

Moro coordenou a Lava-Jato numa vara especial de Curitiba. E condenou Lula por conta dessa tarefa especial.

E aí alguém pode perguntar: mas como separar o Sergio Moro ex-juiz que condenou Lula e teve sua comunicação devassada do atual ministro da Justiça, se ambos são o mesmo homem?

Agora não dá mais. Mas antes daria, se essa cena fosse tornada impossível. Seria simples, se no Brasil as coisas não fossem tão confusas e não houvesse tanta mistura de interesses e desejo de poder.

Seria simples se o juiz tivesse continuado como juiz ou se, depois de se decidir pelo afastamento da magistratura, optasse por fazer outra coisa na vida.

Mas Moro decidiu ser autoridade de um governo de extrema direita. Ele optou, mesmo em meio a reações contrárias do próprio Judiciário, ser ministro da Justlça do governo beneficiado pela prisão de Lula. E agora é acusado de ter condenado Lula injustamente.

O ex-juiz e o ministro são a mesmíssima pessoa. Não há como separar, por mais que ele e Dias Toffoli tenham tentado.

Se ele não estivesse nessa posição de ministro e ao mesmo tempo de parte interessada no julgamento do dia 25 (mesmo sendo ex-juiz), tudo estaria mais próximo do normal.

Mas com Sergio Moro nada nunca foi normal. Muito menos agora. Tudo é anormal, muito anormal.

O amigo de Gilmar Mendes

mendes

Gilmar Mendes acha que seu amigo Dias Toffoli está na mira dos procuradores que, diz ele, vazaram informações para a Veja. Toffoli teria recebido favores da OAS, conforme conteúdo de delação de Léo Pinheiro, ex-presidente da empreiteira, que chegou ao conhecimento da revista.

Os vazadores, acredita Mendes, são procuradores que perseguem Toffoli porque tiveram decisões contrariadas pelo amigo na Lava-Jato.

Nunca antes Mendes se levantou contra vazamentos seletivos sistemáticos contra Lula, Dilma e muitos outros investigados ou já condenados. Mas Toffoli é próximo do ministro e merece ser defendido.

O estranho é ouvir de um membro do Supremo que certos procuradores escolhem quem desejam investigar, como Toffoli, se muito do que tem sido feito na Lava-Jato é exatamente a preferência por alvos bem específicos pela Polícia Federal, pelo MP e pelo Judiciário de Curitiba. E pela Veja, claro, há muito tempo.

A força-tarefa da Lava-Jato faz e acontece e não há reação do STF. Um juiz de primeira instância mantém gente na cadeia (em prisão preventiva!) por mais de um ano, sem qualquer manifestação dos ministros do Supremo de que isso não é razoável (é legal, repetem). Manter alguém preso indefinidamente, até que se degrade moralmente e delate seus cúmplices, está dentro da lei.

Agora, vem Mendes defender Toffoli e registrar que determinadas pessoas estão na mira do MP. Nem é o caso de se identificar quem estaria na mira de outras autoridades, porque isso seria redundante.

Mendes fala do excesso de poderes do Ministério Público. Há outros excessos de poderes nas mãos de poderosos de outras instituições, que visam sempre os mesmos alvos.

Gilmar Mendes, o homem que definiu a Lei da Ficha Limpa como obra de bêbados, sabe do que fala quando trata dos que exercem o poder a seu modo para pregações e ações seletivas.