A TERRA DA KU KLUX KLAN ENRUSTIDA

Esse pessoal que atirou gelo e restos de filé nos artistas em Gramado estava ali, mas poderia estar em Sorocaba ou Itaqui.
Nem estavam fingindo um verniz no ambiente do Festival de Cinema. Estavam comendo, bebendo e sentindo um friozinho.
É a chinelagem de classe média da direita branca e fascista. É gente de toda parte. Gramado, no centro de uma região tomada por direitistas, atrai esse tipo de reaça.
O Rio Grande do Sul todo atrai essas figuras como Estado bolsonarista. As zonas turísticas potencializam essa atração.
E eles continuam jogando gelo e filé porque ainda não jogamos o filé de volta na cara deles. O Brasil trata bem o bolsonarismo, até com certa delicadeza.
Os turistas chinelões do bolsonarismo ostentação se sentem impunes porque na cabeça deles aqui fica a terra da Ku Klux Klan enrustida.
Não estão muito errados.

A DIREITA CONTINUA NO COMANDO

Saiu uma pesquisa que apenas confirma a realidade facilmente percebida. A direita tomou conta do WhatsApp no Brasil na campanha eleitoral e continua agindo no mesmo ritmo. Quase tudo, incluindo as redes sociais, está sob o comando da direita.

É um estudo do departamento de ciência da computação da Universidade Northwestern, nos Estados Unidos. As conclusões básicas: os grupos da direita são mais numerosos, mais ativos, mais distribuídos pelo país e, claro, mais mentirosos.

A pesquisa foi feita de 1º de setembro a 1º de novembro de 2018. Uma curiosidade: a ‘notícia’ falsa mais compartilhada pela direita não foi a da mamadeira de piroca, mas a de uma urna fraudada.

O fenômeno da internet no Brasil nesse começo de século é o protagonismo do mentiroso racista, homofóbico, machista e xenófobo da extrema direita.

E aí volta a pergunta: porque a pessoas acreditam no que esse sujeito diz em conversas entre parentes, amigos, colegas, vizinhos? Por causa das ignorâncias, estúpido.

O disseminador da informação falsa, muitas vezes o tal influenciador digital do bolsonarismo dedicado integralmente ao ‘jornalismo’ do WhatsApp, não acredita no que transmite. Mas ele faz com que outras pessoas acreditem e passem adiante.

E por que acreditam? Porque em mais de duas décadas de forte influência das esquerdas, o Brasil não construiu uma estrutura elementar de comunicação, da informação direta à produção de conteúdo jornalístico de esquerda em todos os meios disponíveis.

Vou repetir o que escrevo há meses (quem quiser, que pule essa parte): as esquerdas argentina, uruguaia, chilena e venezuelana pensaram e agiram.

Aqui, muita gente achava que estava tudo bem, tudo dominado, e que na eleição a guerra seria vencida pela comunicação fragmentada e dispersa das redes sociais e dos influenciadores de esquerda. Não há influenciadores de esquerda com a quantidade e o poder dos que atuam na direita.

Mas tem gente da esquerda que acredita até hoje que a guerra a ser vencida é a do WhatsApp e do Twitter contra o Carluxo.

Essa esquerda se dedica a uma batalha com um sujeito que chega a publicar uma informação contra o próprio irmão cúmplice de milicianos. É muita categoria. Esse é o adversário de muita gente boa hoje.

É contra o Carluxo que parte da esquerda acha que está guerreando, enquanto abrimos sites de jornais e TVs online que enfrentam a grande imprensa de igual para igual e nos explicam (não só com palpites) o que se passa na Argentina e no Uruguai, onde a direita tenta sobreviver a qualquer custo.

O MODELO TABATA

Por que estão falando tanto da deputada Tabata Amaral? Porque ela é uma das novas celebridades de política. Não adianta querer falar dos “outros” deputados presumivelmente de esquerda que votaram pela reforma da previdência. Eu não sei quem são os outros. Ninguém sabe.

Mas todos nós sabemos quem é Tabata, ou quem poderia ter sido. Não há nada contra as mulheres. Não é nada disso, não caiam na armadilha de ver machismo nas críticas à Tabata, não se protejam nesse recurso. Fica chato.

A deputada está na vida pública, tomou uma decisão considerada controversa como parlamentar do PDT e agora se submete ao debate. Assim funciona a política.

Não é linchamento. Não subestimem a capacidade de reação da pedetista, nem tratem Tabata como uma adolescente indefesa.

A questão é que Tabata Amaral não é apenas uma deputada do novo centro, ou do novo liberalismo brasileiro. Ela se afirma como um modelo.

O modelo Tabata vai estourar mesmo nas eleições municipais. O empresariado que financiou políticos com esse perfil, já na última eleição, jogará pesado no ano que vem.

As câmaras de vereadores estarão lotadas de Tabatas. Muitas assembleias estaduais já têm gente com essa pegada, todos financiados pelo empresariado. Pois teremos mais.

O que vem aí com força é essa direita dita esclarecida, camuflada num centro que na verdade não existe. Uma direita fofa, avançada em relação a costumes, questões ambientais e outros temas, que aborda bem os impasses da educação, mas que é reacionária diante das grandes questões políticas e econômicas e dos movimentos sociais.

Por isso, na votação da reforma da previdência, o que interessa é apoiar o esforço fiscal. Não interessa se a reforma vai punir os mais pobres. Mas Tabata ama os pobres.

Hoje, a Folha traz uma matéria sobre o fortalecimento dos lastros orgânicos da direita em São Paulo. É gente nova que se acomodou nas assessorias dos partidos e inclusive nas estruturas de gestão da prefeitura e do governo do Estado e que se organiza nas redes sociais de uma forma que só a direita sabe fazer.

Um exemplo seria o Direita SP (DSP), um movimento que pretende se transformar em partido e que se alastra pelo interior paulista.

É gente com muito apoio empresarial. Como diz meu amigo Suimar Bressan, não há democracia que aguente essa dinheirama dos Jorges Paulos Lemanns e suas cervejarias. Não há como enfrentá-los.

E a esquerda? A esquerda cai todos os dias do caminhão de mudança.

SÓ PODE DAR ERRADO

Vamos ver o que vai acontecer hoje. Eu tenho essa previsão: um público apenas razoável na Avenida Paulista, que não poderá ser visto como fracasso, mas também não poderá ser comemorado.
No resto do país, algumas aglomerações. Em Porto Alegre, cerca de 46 pessoas ali naquela região da ponte de pedestres do Parcão, não mais do que isso, com camisetas da Seleção e bandeiras do Brasil e da monarquia.
Essas gritarias no Parcão servem apenas para incomodar as tartarugas e outros bichos, porque não agregam nada ao barulho que os paulistas fazem desde o golpe.
O certo é que os protestos de hoje (contra o que mesmo?) ficarão naquela zona de sombra em que os ‘analistas’ da GloboNews dirão assim: não foi o que os bolsonaristas esperavam, mas também não foi o que as esquerdas torciam que fosse.
O que isso muda para Bolsonaro? Nada, porque Bolsonaro não irá ganhar nunca. Se as aglomerações forem fortes, agrava-se o desconforto com parte da direita, e a oposição terá de preparar uma resposta ainda mais forte para o dia 30. Se forem fracas, a mesma coisa.
Ao programar as manifestações de hoje, o bolsonarismo mais desatinado armou a maior arapuca contra Bolsonaro.

OS PÓS-DOUTORES DA DIREITA

A imprensa está mobilizando gente de peso para bater no PT e em Haddad. É algo que as pessoas de mais de 60 anos só viram quando da véspera do golpe de 64.

Os jornais arregimentam ‘formadores de opinião’ de todas as áreas, incluindo as universidades, para que escrevam alertas sobre o perigo vermelho. Está de volta a mais rasa tática do medo.

Recrutam gente que possa dar um ar de ‘seriedade’ aos ataques. Se são professores, alguns com altos cursos de pós-doutorado nos Estados Unidos, devem saber o que falam.

A Folha de S. Paulo, O Globo e o O Estadão estão bem articulados. Além dos jornalistas de direita que têm em estoque para emitir opiniões, chamam convidados para que ocupem suas páginas. É um esquema antigo, agora aperfeiçoado e intensificado.

Faz parte da esperteza de uma certa elite que se considera detentora de todos os saberes. Agora, não são apenas os golpistas do PSDB, mas os ‘cientistas’ que advertem para a necessidade de se buscar o centro, mesmo que todo mundo saiba que esse centro político não existe mais.

O golpe matou os golpistas, e os sobreviventes foram empurrados para a extrema direita. O que esses professores não dizem, para manter a fleuma liberal, é que muitos deles são bolsonaristas enrustidos.

A direita começa a sair do armário inclusive na academia. Há mais reacionários nas faculdades do que se pensava, inclusive nas universidades públicas.

Os estudantes estão nas mãos de uma direita cínica, voltada não só para o mercado, com seus pragmatismos utilitaristas, mas para as demandas do golpe.

Imagine-se o tormento de quem frequenta ambientes acadêmicos sequestrados por golpistas. É aceitar ou reagir, como os estudantes fizeram durante a ditadura.

Desta vez, a esperança de todos nós são as mulheres. Elas vão derrotar o fascismo que agora se apresenta com os carteiraços dos pós-doutorados.

A armadilha

O projeto urgente da direita hoje no Brasil é a montagem de um plano para enganar quem quer ser enganado.
Basta arranjar um nome que substitua Luciano Huck, Joaquim Barbosa, Geraldo Alckmin, Henrique Meirelles, Rodrigo Maia, Álvaro Dias, o homem da Riachuelo, o outro homem do partido Novo…
Uns desistiram e outros são ruins de voto. A direita mais cheirosa tenta se livrar de Bolsonaro e não consegue.
Por isso os jornais insistem que é preciso abandonar Lula. A direita quer orientar os passos do PT e da esquerda. E parte da esquerda embarcou na armadilha.

Peçam pra sair

Quem é servidor público e vem votando em candidatos da direita, incluindo legisladores, que assuma sua parte nos danos que ajuda a promover. O desmonte dos serviços públicos não se dá apenas com corte de verbas. A destruição se dá também pelas cumplicidades.
As instituições federais (as estaduais já estão se indo) caminham para a extinção nas próximas etapas do golpe. A universidade pública será estrangulada moralmente até não ter mais condições de funcionamento.
O desmonte mira SUS, educação, previdência, Justiça do Trabalho. Mas tem gente de muitas dessas áreas que apoiou o golpe e continua votando na direita. Porque deve ter outras formas de sobrevivência e não está preocupada com os direitos da maioria.
O ataque aos bens públicos e à democracia não é culpa apenas do jaburu, do pato da Fiesp, da classe média das panelas, de Aécio e de Gilmar Mendes. É também de muitos servidores públicos que sustentam os que ameaçam o que os próprios servidores fazem.
Servidor público que conspira contra a sua atividade, apoiando o projeto de destruição do Estado, deveria se transferir para a área privada, de preferência para os negócios dos que exploram os serviços que os governos degradam e abandonam para entregar aos amigos. É uma questão de coerência.
Planos de saúde e previdência, organizações tabajara do ensino superior e exploradores do escravismo podem acolher servidores que, ao invés de defender, ofendem o Estado e as pessoas que os sustentam.

Cada um com a sua turma

Um assunto de fim de semana. Me perguntaram aqui e em e-mails (eu ainda recebo e-mails) por que fui a uma roda de conversa com a deputada Maria do Rosário, ontem à noite, em defesa das Diretas Já.

Já me perguntaram muito antes por que participei certa vez de um encontro com Manuela D’Ávila sobre ódios diversos. Assim como alguns desavisados estranharam que eu tenha participado da conversa do deputado Luiz Fernando Mainardi com a senadora uruguaia Constanza Moreira, na Assembleia, na terça-feira.

Há alguns meses, ouvi até de amigos a mesma interrogação sobre um jantar a que fui, com um grupo de economistas da FEE, para dizer a Dilma Rousseff que estávamos com ela depois do golpe da turma do jaburu.

A todos eu respondi com a mais redundante obviedade. Vou a encontros com essas pessoas porque é com elas que quero me encontrar.

Se eu fosse o Diogo Mainardi ou algum genérico dele aqui no Estado, eu iria a jantares com o Aécio Neves ou o Sergio Moro.

Não sei se explico e se convenço, mas escrevo mais pelo prazer de escrever do que para explicar.

Não tento camuflar conversas que possam ter algum componente político, porque não preciso prestar contas a ninguém.

Quem costuma camuflar seus encontros são os jornalistas da direita, principalmente em ambientes de golpe como o que vivemos hoje. Estes são constrangidos pelas próprias posições, pelas rodas de conversa e pelos jantares indigestos que frequentam.

A nova cara da direita bem nascida

Duas faces da direita que vem aí, com projetos para 2018 e para mais adiante: a direita desbocada e fascista de Bolsonaro e a cheirosa, dissimulada, do bom mocismo de Luciano Huck. Que direita deve ser mais temida?

Bolsonaro pode ser jogado para fora da estrada com um empurrão. É um fanfarrão que a direita atiça para que faça o serviço sujo de bater nas esquerdas, nos negros, gays e índios.

Huck é o sujeito que o Ministério Público Federal (aquele que não caça apenas petistas) tenta enquadrar como destruidor da natureza, por ter se apropriado de uma ilha do Rio e degradado sua paisagem.

Já foi condenado e recorreu ao Superior Tribunal de Justiça. É provável que escape, como escapam quase sempre todos os que (desde que não sejam sem-terra) se adonam de espaços públicos e destroem praias e rios.

E Huck tem fama. Anda pelo mundo a apresentar-se como bom moço, pensando na possibilidade de um dia vir a ser candidato à presidência. Essa semana, foi aplaudido de pé por estudantes de Harvard e do MIT. Americanos? Não, brasileiros.

São os brasileiros pós-golpe. A nossa elite que vai estudar fora agora se sensibiliza com a conversa de um apresentador de TV. Ele é o exemplo de empreendedorismo. Mas no que Luciano Huck empreende? Na exploração comercial das misérias alheias?

Se os Estados Unidos tiveram o seu apresentador presidente, por que não podemos ter o nosso? Ainda mais um bem nascido. A receita de Huck é esta, nas palavras usadas por ele: ética e altruísmo.

É de se temer muito mais um Luciano Huck, como ameaça concreta, do que um Bolsonaro, apenas um instrumento a serviço de uma empreitada (e não só da direita extremada).

Bolsonaro é a direita de boca suja. Huck, que pode ser a terceira via tucana, é a direita benemerente, altruísta, que faz rifa com os sonhos dos pobres, desde que com bons patrocínios.

Alguém pode perguntar: mas antes do Huck não há o Dória? Talvez. Antes do Dória, quem existia era o Alckmin. Antes do Alckmin, o Aécio. Não há mais Alckmin, nem Aécio, nem Serra. É a vez da direita com berço.