ATÉ QUANDO, BASTINHOS?

Carlos Bastos é um dos sábios do jornalismo gaúcho. Foi mais do que um repórter, foi militante da resistência da Legalidade em 61, sempre ao lado de Brizola.

Encontrei Bastos hoje no velório do nosso amigo Nico Noronha. Bastinhos me puxou pelo braço e me disse no ouvido: “Nunca vi nada igual ao que está acontecendo hoje”.

E ele viu e viveu coisas grandiosas e trágicas desde a Legalidade. Conversamos rapidamente sobre as particularidades do golpe e do Quadrilhão que se apoderou do governo e concluímos o seguinte.

O governo, loteado por medíocres sem votos, tem um poder que nunca governante nenhum teve, nunca, em época alguma. E este governo não tem nenhum apoio popular.

E nunca, nem mesmo na ditadura, um governo esnobou tanto o povo, fazendo o que bem entende contra os interesses da população.

O golpe produziu um fenômeno inédito no Brasil. Os sujeitos que usurparam o poder descobriram que não precisam temer ninguém. E, como observou Bastos, mesmo as mais cruéis ditaduras sempre temeram e temem o povo. O atual regime de exceção não teme nada.

O Brasil inventou uma situação em que elementos denunciados por formação de quadrilha controlam um país anestesiado, sem correr riscos, sem reações, sem incômodos.

Até quando? Bastinhos ouviu minha pergunta, balançou a cabeça e foi embora largando pontos de interrogação de tamanhos variados pelo chão.

 

A nova polícia política

Além dos políticos de esquerda, também as pessoas comuns, sem cargos e sem poder, têm hoje tanto medo das decisões de certos juízes, de todas as instâncias, quanto os perseguidos pelos militares e seus familiares tinham da polícia política nos anos 70.

É disso que trato no meu novo texto no jornal Extra Classe online:

http://www.extraclasse.org.br/exclusivoweb/2018/01/o-judiciario-e-a-policia-politica-dos-tempos-da-ditadura/

 

O SILÊNCIO DOS CRIMINOSOS

Em agosto de 2013, o grupo Globo admitiu que errou ao apoiar ‘editorialmente’ a ditadura no jornal dos Marinho. Levou 48 anos e cinco meses para confessar o que todos sabiam.
Talvez seja o caso de ir um pouco adiante, como fez a Volks agora, e admitir que colaborou com a ditadura.
A Volks confessou que diretores da empresa no Brasil delatavam funcionários ‘subversivos’, que seriam depois perseguidos pelos militares.
A imprensa colaboracionista e os empresários brasileiros que cometeram o mesmo crime da Volks continuam calados.

As esquerdas e a tentação fardada

Alguém da nossa turma, da minha e da sua, alguém de esquerda já defendeu intervenção militar contra o golpe de agosto. Eu conheço uns três que falam em voz alta: só há salvação se os militares tomarem o poder e o devolverem limpo e cheiroso ao povo. Não é tese de gente da direita bélica, como o general Mourão, é da esquerda mesmo.

Agora, circula por aí como um tiro de bazuca sem rumo a entrevista do historiador e cientista político Moniz Bandeira com o mesmo apelo. Ele acha que só os militares podem evitar que o jaburu-da-mala venda o Brasil com a ajuda dos 300 picaretas do Congresso.

Moniz Bandeira é um nacionalista desesperado. Mas tenta, como cientista, como pensador de esquerda, dar racionalidade à sua tese. Os militares entram, derrubam governo e Congresso e, tempos depois, restauram a democracia.

O golpe já foi dado, diz ele, o golpe é o jaburu no poder e os corruptos no Congresso, com seus aliados em todas as áreas. O jaburu representa uma ditadura. Os militares iriam apenas tirá-los de lá.

O historiador fala das máfias da direita, dos banqueiros, dos grandes empresários, do juiz Moro, do Judiciário seletivo, das privatizações, de Janot, do fim das leis trabalhistas e da Previdência, do desmonte do Estado. Entende-se seu desespero, que é o de todos nós.

Mas as perguntas básicas, óbvias, previsíveis, são sempre as mesmas. Os militares tomariam governo e Congresso para devolvê-los mais adiante? Mas devolver a quem? A um Congresso ainda mais reacionário? A que governo? Que democracia teríamos depois da “intervenção”?

Quando seria feita a devolução? Daqui a 30 anos? O que uma ‘intervenção” faria com os excessos do Judiciário, como lidariam com Sergio Moro e Gilmar Mendes? Esses continuariam intocáveis?

O que os militares fariam com os Vladimir Herzog de hoje? Com os sindicalistas, com os professores, com as esquerdas? O que fariam com os Bolsonaros e os pregadores do estupro como retórica política de desqualificação dos adversários?

Moniz Bandeira tem aliados importantes à esquerda. Percebe-se que algumas manifestações são mais emotivas, quase impulsivas, como esta do ex-senador José Paulo Bisol, em entrevista ao Flávio Ilha, para o jornal Extra Classe, em dezembro do ano passado:

“Pela gravidade da crise, me parece que já passou da hora do Exército intervir. De derrubar esse Congresso. A mentalidade militar é perigosa. Eu, por outro lado, não ficaria chateado se fechassem o Congresso [risos]. É o Congresso que está nos liquidando, não é o Temer. O presidente é só um porta-voz”.

Está claro que Bisol fala, num tom de quem brinca com a ideia, o que muita gente pensa e só alguns manifestam. Moniz Bandeira e Bisol podem ter desistido, como muitos desistiram, de acreditar que a nossa democracia degradada, golpeada, usurpada seja capaz de se reparar e se redimir.

A democracia não teria forças para seguir adiante. Antes, seria preciso que uma força maior a ajudasse. Seriam os militares? Por que têm tanques e armas? Mas o que mais têm os nossos generais hoje?

A democracia brasileira pós-eleições de 2018, se Lula ficar de fora, pode ser pior do que o arremedo de democracia que temos hoje. O Congresso da bancada BBB (Boi, Bíblia e Bala) não terá 300 picaretas na Câmara, mas 400.

Mesmo assim, respeitando as posições de Moniz Bandeira e de Bisol, estou certo de que os militares não iriam nos salvar, mas produzir ainda mais jaburus, Aécios, Cunhas, Geddeis, Serras, Padilhas, Gilmares Mendes, Bolsonaros, Sergios Moros e seus genéricos.

 

O BRASIL QUE RESISTIU

Um pouco de memória com um bocado de saudosismo. Talvez o grande impasse hoje seja esse mesmo. Não temos mais equivalentes de Brizola, Ulysses, Betinho, Therezinha Zerbini, Teotônio, Dom Helder Câmara, Lamarca, Chico Mendes. Eles enfrentaram os militares, a repressão, a censura, a tortura, a morte. Nós não enfrentamos a quadrilha do jaburu-da-mala.

http://memorialdademocracia.com.br/timeline/21-anos-de-resistencia-e-luta#

O porta-voz

Me perguntam se não vou comentar as agressões verbais de um passageiro a Alexandre Garcia, no aeroporto de Brasília.
Só digo que Garcia deve saber se defender, com o poder e o canhão midiático que tem, em tempos de democracia (mesmo que capenga).
No tempo em que ele foi porta-voz da ditadura, isso dificilmente teria acontecido. Porque naquele tempo só a turma para quem ele prestava serviços e seus cúmplices podiam dizer o que pensavam sem correr sérios riscos.

Compromisso

Não sei quem ainda comemora o golpe de 64. Mas sei quem continua comemorando, e muito, o de agosto do ano passado.

Se naquele, de 53 anos atrás, os civis recorreram aos militares para derrubar Jango, neste eles não precisaram de ninguém de farda para golpear Dilma.

O golpe das pedaladas avança, cambaleando, com a ajuda decisiva da imprensa e de parte do Ministério Público e do Judiciário.

Concordo com os que dizem (sem que isso subestime em nada as crueldades do golpe de 64) que este foi, no momento da sua aplicação, mais cínico e mais farsante.

Os golpistas de 64 ficaram impunes. Os líderes corruptos do golpe de agosto acreditam que irão desfrutar do mesmo benefício. Assumo o compromisso de estar ao lado dos que se esforçam para que isso não se repita.

 

Licia

Passei o dia fora e só agora comento a morte da socióloga Licia Peres, uma brava defensora da democracia, dos direitos das mulheres e do mais amplo humanismo.
Conversamos algumas vezes por telefone sobre assuntos como a anistia. Ela defendia o contrário do que eu pensava. O Brasil, dizia ela, não ganharia nada mexendo na anistia de 1979. Licia sabia do que falava. Ela, o marido, Glênio Peres, e a família foram marcados pelas crueldades da ditadura.
Quando adoeceu e teve uma recaída forte em meio ao tratamento, me mandou uma mensagem de valentia e relembrou o que eu havia dito, para que tentasse ver os efeitos avassaladores de uma quimioterapia como parte de uma gangorra dolorida até a cura. Lutou muito, mas não resistiu.
Tive a honra de contar com essa pensadora e combatente de esquerda como leitora atenta, que me questionava, interagia, provocava. Pena que Licia, uma política na essência da militância cotidiana, não esteja mais aqui para ajudar a golpear o golpe.

O professor e o ditador

O golpe foi consumado, a direita fez a partilha do poder entre PMDB, PSDB e seus satélites e ninguém mais ouviu falar dos defensores de uma intervenção militar.

As passeatas com o pato da Fiesp sempre tinham a turma do golpe fardado. Pregavam a volta de um governo “de força” com o argumento de que tal saída estava prevista na Constituição. Se há roubo e baderna, diziam eles, os militares devem ser chamados. Era mais uma ameaça do que um desejo.

O golpe civil aconteceu, os corruptos da direita ocuparam o lugar de quem consideravam corruptos de esquerda, e os defensores da nova ditadura desapareceram junto com os batedores de panela.

Há quem pense que os adoradores de governos militares são uma minoria insignificante. Não são tão minoria assim. Apenas estão calados e constrangidos com a ajuda que deram para que a quadrilha do Jaburu chegasse ao poder.

Mas leio agora, em reportagem de Fernanda Canofre, no Sul21, que o professor José Luís Morais foi mandado embora da Escola Estadual Presidente Costa e Silva, de Porto Alegre, porque estudava a ditadura com os alunos. Ele e outros professores também defendiam que a escola trocasse de nome.

O professor (de óculos, à direita na foto com alunos da escola) contou ao Sul21 que foi informado pela direção de que seria dispensando por mexer demais com o passado. E o passado, dependendo de como se passou, deve ficar jogado num canto das escolas.

Morais não tinha estabilidade, por estar ali por nomeação e convocação, é o que se sabe. O caso não quer dizer que os responsáveis pela demissão (de onde veio a ordem?) sejam defensores do acervo ético e moral de ditadores.

Mas um episódio como esse deve ter relação com alguns medos e ‘respeitos’ que sobrevivem até hoje a todos os esforços para que não se elimine a memória do que foi a ditadura e do que foram os prepostos ferozes e/ou medíocres como o general Costa e Silva.

Um colégio não deveria ter esses medos. Uma escola é o lugar para que se ilumine, e não para que se jogue a História em quartos escuros. Os professores que sobrevivem às pressões precisam do apoio dos que estão dentro e fora do colégio.

Torcemos para que os colegas de Morais resistam ao cerco dos simpatizantes de Costa e Silva, fortalecidos pela inspiração dos que resistiram à ditadura. E que todos se preparem para a revanche sem fim da direita. Eles agem não só nos espaços formais da política, mas nas escolas, nas empresas, nas ruas, na imprensa, na Justiça e onde a democracia puder ser pisoteada.

Sem prescrição

Não há prescrição de crimes nem anistia para torturadores e assassinos de adversários políticos durante uma ditadura.
Onze deles foram condenados agora pelo desaparecimento de dois militantes de esquerda. Os crimes ocorreram em 1974, mas a Justiça não quer saber quando foram.
Todos os envolvidos eram do governo e conhecidos por torturar e matar ou mandar matar. A Justiça os julgou e os condenou 43 anos depois. Quarenta e três anos!!!
No Chile.