O BRASIL QUE RESISTIU

Um pouco de memória com um bocado de saudosismo. Talvez o grande impasse hoje seja esse mesmo. Não temos mais equivalentes de Brizola, Ulysses, Betinho, Therezinha Zerbini, Teotônio, Dom Helder Câmara, Lamarca, Chico Mendes. Eles enfrentaram os militares, a repressão, a censura, a tortura, a morte. Nós não enfrentamos a quadrilha do jaburu-da-mala.

http://memorialdademocracia.com.br/timeline/21-anos-de-resistencia-e-luta#

O porta-voz

Me perguntam se não vou comentar as agressões verbais de um passageiro a Alexandre Garcia, no aeroporto de Brasília.
Só digo que Garcia deve saber se defender, com o poder e o canhão midiático que tem, em tempos de democracia (mesmo que capenga).
No tempo em que ele foi porta-voz da ditadura, isso dificilmente teria acontecido. Porque naquele tempo só a turma para quem ele prestava serviços e seus cúmplices podiam dizer o que pensavam sem correr sérios riscos.

Compromisso

Não sei quem ainda comemora o golpe de 64. Mas sei quem continua comemorando, e muito, o de agosto do ano passado.

Se naquele, de 53 anos atrás, os civis recorreram aos militares para derrubar Jango, neste eles não precisaram de ninguém de farda para golpear Dilma.

O golpe das pedaladas avança, cambaleando, com a ajuda decisiva da imprensa e de parte do Ministério Público e do Judiciário.

Concordo com os que dizem (sem que isso subestime em nada as crueldades do golpe de 64) que este foi, no momento da sua aplicação, mais cínico e mais farsante.

Os golpistas de 64 ficaram impunes. Os líderes corruptos do golpe de agosto acreditam que irão desfrutar do mesmo benefício. Assumo o compromisso de estar ao lado dos que se esforçam para que isso não se repita.

 

Licia

Passei o dia fora e só agora comento a morte da socióloga Licia Peres, uma brava defensora da democracia, dos direitos das mulheres e do mais amplo humanismo.
Conversamos algumas vezes por telefone sobre assuntos como a anistia. Ela defendia o contrário do que eu pensava. O Brasil, dizia ela, não ganharia nada mexendo na anistia de 1979. Licia sabia do que falava. Ela, o marido, Glênio Peres, e a família foram marcados pelas crueldades da ditadura.
Quando adoeceu e teve uma recaída forte em meio ao tratamento, me mandou uma mensagem de valentia e relembrou o que eu havia dito, para que tentasse ver os efeitos avassaladores de uma quimioterapia como parte de uma gangorra dolorida até a cura. Lutou muito, mas não resistiu.
Tive a honra de contar com essa pensadora e combatente de esquerda como leitora atenta, que me questionava, interagia, provocava. Pena que Licia, uma política na essência da militância cotidiana, não esteja mais aqui para ajudar a golpear o golpe.

O professor e o ditador

O golpe foi consumado, a direita fez a partilha do poder entre PMDB, PSDB e seus satélites e ninguém mais ouviu falar dos defensores de uma intervenção militar.

As passeatas com o pato da Fiesp sempre tinham a turma do golpe fardado. Pregavam a volta de um governo “de força” com o argumento de que tal saída estava prevista na Constituição. Se há roubo e baderna, diziam eles, os militares devem ser chamados. Era mais uma ameaça do que um desejo.

O golpe civil aconteceu, os corruptos da direita ocuparam o lugar de quem consideravam corruptos de esquerda, e os defensores da nova ditadura desapareceram junto com os batedores de panela.

Há quem pense que os adoradores de governos militares são uma minoria insignificante. Não são tão minoria assim. Apenas estão calados e constrangidos com a ajuda que deram para que a quadrilha do Jaburu chegasse ao poder.

Mas leio agora, em reportagem de Fernanda Canofre, no Sul21, que o professor José Luís Morais foi mandado embora da Escola Estadual Presidente Costa e Silva, de Porto Alegre, porque estudava a ditadura com os alunos. Ele e outros professores também defendiam que a escola trocasse de nome.

O professor (de óculos, à direita na foto com alunos da escola) contou ao Sul21 que foi informado pela direção de que seria dispensando por mexer demais com o passado. E o passado, dependendo de como se passou, deve ficar jogado num canto das escolas.

Morais não tinha estabilidade, por estar ali por nomeação e convocação, é o que se sabe. O caso não quer dizer que os responsáveis pela demissão (de onde veio a ordem?) sejam defensores do acervo ético e moral de ditadores.

Mas um episódio como esse deve ter relação com alguns medos e ‘respeitos’ que sobrevivem até hoje a todos os esforços para que não se elimine a memória do que foi a ditadura e do que foram os prepostos ferozes e/ou medíocres como o general Costa e Silva.

Um colégio não deveria ter esses medos. Uma escola é o lugar para que se ilumine, e não para que se jogue a História em quartos escuros. Os professores que sobrevivem às pressões precisam do apoio dos que estão dentro e fora do colégio.

Torcemos para que os colegas de Morais resistam ao cerco dos simpatizantes de Costa e Silva, fortalecidos pela inspiração dos que resistiram à ditadura. E que todos se preparem para a revanche sem fim da direita. Eles agem não só nos espaços formais da política, mas nas escolas, nas empresas, nas ruas, na imprensa, na Justiça e onde a democracia puder ser pisoteada.

Sem prescrição

Não há prescrição de crimes nem anistia para torturadores e assassinos de adversários políticos durante uma ditadura.
Onze deles foram condenados agora pelo desaparecimento de dois militantes de esquerda. Os crimes ocorreram em 1974, mas a Justiça não quer saber quando foram.
Todos os envolvidos eram do governo e conhecidos por torturar e matar ou mandar matar. A Justiça os julgou e os condenou 43 anos depois. Quarenta e três anos!!!
No Chile.

A degradação

Um dia, sabe-se lá quando, as gerações que nos aguardam mais adiante terão, no distanciamento, a medida de todas as violências cometidas pelo golpe.
As violências explícitas e as dissimuladas, a maioria delas previsíveis, como as produzidas pelos políticos, pelo pato da Fiesp, pela imprensa adesista e por seus satélites subalternos.
Mas haverá também o balanço de outras violências nem sempre percebidas, como as desgraçadamente geradas por parte importante do Judiciário.
Este golpe encaminha-se para uma façanha que o golpe de 64 conseguiu apenas parcialmente, com o uso da força e do medo, ao tentar subjugar e desmoralizar a Justiça.
O golpe de agosto vem tentando desqualificar um Judiciário que não enfrenta a imposição autoritária a que os defensores do Direito e da Constituição se submeteram na ditadura civil-militar do século passado.
O Judiciário brasileiro que agora sucumbe à política é contaminado pela porção podre que deveria combater sem ações seletivas.
Quem quiser, que procure falar não só com juízes, mas com promotores, procuradores, juristas e advogados constrangidos com a degradação das instituições a que pertencem. Não se iludam. O Brasil não está sob normalidade.

Tudo vermelho

O texto abaixo é da página do Jorge Furtado no Face book:

Uma das criminosas que invadiram o Congresso ontem pedindo intervenção militar (espero que estejam e fiquem presos) aponta para uma bandeira do Japão, num painel que comemora a imigração japonesa, e fala da ameaça comunista no Brasil. Eliminando a ignorância e o ridículo, sobra ainda uma dúvida: essa turma de sequelados pela mídia, pelas redes sociais e, talvez, por medicação inadequada, acredita mesmo que o que há no Brasil, hoje, é uma escalada do comunismo? Ainda é possível salvar o país destes desequilibrados?

x

Life of Johnson, de James Boswell, pág. 615, Oxford University Press, 1998.

Dia 7 de abril de 1775, sexta-feira. O patriotismo se tornou um dos nossos assuntos e Johnson de repente proferiu, num tom determinado e forte, uma frase lapidar, que poderá surpreender a muitos: “O patriotismo é o último refúgio de um canalha”. É preciso levar em consideração que ele não se referia ao amor real e generoso pelo nosso país, mas ao patriotismo fingido o qual tantos, em todas as épocas e países, fizeram de manto a encobrir seus interesses pessoais.

Friday, 7 April 1775. Patriotism having become one of our topicks, Johnson suddenly uttered, in a strong determined tone, an apophthegm, at which many will start: “Patriotism is the last refuge of a scoundrel”. But let it be considered that he did not mean a real and generous love of our country, but that pretended patriotism which so many, in all ages and countries, have made a cloak of self-interest.*

A direita refestelada

Os ‘valentes’ que se sentem à vontade para invadir a Câmara dos Deputados, gritar o nome de Sergio Moro e pedir a volta da ditadura continuarão agindo, porque não ficarão presos por muito tempo. É a direita refestelada.
O Brasil anistiou os chefes e os subalternos da ditadura, os torturadores e seus assemelhados.
A Comissão da Verdade apenas cutucou os criminosos da ditadura, que continuam ilesos.
É essa impunidade dos cúmplices da ditadura de 64 que incentiva os invasores da Câmara e os pregadores do golpe pela Internet. Alguns até dão palestras por aí, outros são eleitos.
São uma minoria? São. Mas são mais perigosos que os golpistas de agosto. Até alguns meses atrás, os seguidores de Trump eram dados como uma minoria.

Dos álbuns da ditadura

augusto

Nunca estive muito perto dos ditadores pós-64, até porque sempre fui um jornalista de paróquia. Nas vezes em que tentei, quase me dei mal. Em 1978, no final do mandato, Geisel foi a Santo Ângelo e fez um discurso num coreto na praça.

Eu era correspondente da Caldas Júnior em Ijuí e tentei me aproximar do palanque. De repente, sem perceber a presença de um segurança, levei uma cotovelada na altura do estômago. Potente, mas curta, seca, quase não percebida por quem estava ali.

O homem, sem dizer nada, dava o recado: ninguém se aproxima de um general assim no mais. Enquanto tentava retomar o ar, vi que outros jornalistas de gravata, com certa intimidade, circulavam com desenvoltura além do limite estabelecido pelo segurança. Eram os amigos dos homens. E eu de jeans e tênis…

Em 1979, em “campanha” (acredite) para a presidência, Figueiredo foi a Ijuí e discursou em um CTG. Eu consegui sentar perto do candidato a ditador. Um assessor tentou me tirar dali, para (eu descobri depois) dar o lugar aos jornalistas íntimos dos homens. Como não levei cotovelada, resisti e mantive meu lugar.

Hoje, vejo esta foto de Figueiredo e me lembro daquele episódio. Não sei se entre os amigos que queriam ficar mais perto do general, lá no CTG de Ijuí, não estava o moço que aparece à direita, atrás de Figueiredo.

É ele mesmo, Augusto Nunes, o caçador de esquerdistas de Veja, o repórter que inventou Collor como caçador de marajás em uma das mais vergonhosas reportagens do jornalismo brasileiro.

Nunes tem pupilos fiéis no jornalismo gaúcho. Muitos estão bem perto dos homens que tomaram o poder no golpe que derrubou Dilma.