As escolas do Rio ficam agora à espera do bom jornalismo (e da ciência política) para que se compreenda a dimensão da trincheira que criaram na resistência democrática. E que resistência.
O que se viu na Sapucaí é a arte popular tentando sobreviver ao avanço do moralismo neopentecostal e da extrema direita aliada aos milicianos, porque tudo está misturado. Não é gente de esquerda. É gente tentando dar sobrevida à expressão da sua alma.
Parece meio doido que a cidade da maior festa popular do planeta tenha que dizer ao próprio prefeito corrompido e corruptor do fundamentalismo político-religioso: nós, o povo, o elegemos, mas nós resistiremos a esse erro.
É um paradoxo, porque o eleitor de Crivella e dos Bolsonaros também está ali naquele ambiente difuso e gasoso. As escolas conseguirão enfrentar o bolsonarismo, afrontado este ano de todas as formas na Sapucaí? E sem falar dos blocos de rua.
Repórteres que sabem tudo sobre as perucas da Bruna Marquezine estão desafiados.
Que nos digam logo como as escolas se armaram para resistir à tentativa de revanche da direita, da extrema direita, do militarismo, do fundamentalismo e das milícias, inclusive as ditas religiosas.

Sem medo

Os generais que ficaram duas décadas no poder temiam o povo, os professores, os estudantes, o jornalismo de resistência, os sindicatos, a OAB e as instituições, porque a possibilidade de revolta e de retomada da democracia era real e estava sempre presente.
Os que tomaram o poder agora não temem mais nada. Se Bolsonaro anunciar amanhã que cada família terá de vender um filho para os europeus, para que o Brasil ajude Trump a pagar o muro da fronteira com o México, os filhos serão vendidos.
E não acontecerá nada. Nada. Mesmo que, depois da venda dos filhos, as famílias sejam avisadas de que Bolsonaro se equivocou.

ADIÓS, GARCIA

A Globo suportou Alexandre Garcia no peito e na raça por décadas, como retribuição pelos bons serviços prestados quando foi porta-voz da ditadura no governo de Figueiredo.
Mas não suportou o desplante do sujeito que decidiu manifestar apoio explícito a Bolsonaro, dentro da empresa que abriu guerra contra o eleito da extrema direita.
Alexandre Garcia acaba de bailar. Não teremos mais Alexandre Garcia como estepe do Jornal Nacional. Mas tentem adivinhar para onde está indo Alexandre Garcia.
No texto de despedida, Ali Kamel, diretor de jornalismo da Globo, apresentou todo o currículo com todas as virtudes do demitido, mas esqueceu o que nenhum aprendiz de jornalismo iria esquecer: que Alexandre Garcia, um dos jornalistas mais reacionários produzidos pela própria Globo, foi porta-voz de um ditador.

As mulheres

Gosto muito desse vídeo que fiz ontem no centro de Porto Alegre, porque só tem mulheres. São valentes nesses tempos de fascismo espalhado por toda parte.
Quando o grupo de atuadores do Ói Nóis Aqui Traveiz se dispersou, ao final da performance “Onde? Ação Nº 2”, acompanhei essa moça até a descida da Borges, em direção ao Mercado. Um sujeito passou gritando: vagabundas.
Não sei se ela não continuou até a beira do Guaíba soletrando e soltando os papeizinhos com os nomes de mortos e desaparecidos na ditadura.
Eu parei, ela continuou. A Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz não para. Que bravura. Me comove a valentia dos atuadores.

Gosto muito desse vídeo que fiz ontem no centro de Porto Alegre, porque só tem mulheres. São valentes nesses tempos de fascismo espalhado por toda parte.Quando o grupo de atuadores do Ói Nóis Aqui Traveiz se dispersou, ao final da performance “Onde? Ação Nº 2”, acompanhei essa moça até a descida da Borges, em direção ao Mercado. Um sujeito passou gritando: vagabundas.Não sei se ela não continuou até a beira do Guaíba soletrando e soltando os papeizinhos com os nomes de mortos e desaparecidos na ditadura.Eu parei, ela continuou. A Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz não para. Que bravura. Me comove a valentia dos atuadores.

Posted by Moisés Mendes on Tuesday, December 4, 2018

O Brasil de Bolsonaro

 

Entrevista com a francesa Maud Chirio na Folha de S. Paulo de hoje.

Eleição de Bolsonaro marca fim da Nova República, diz historiadora

Autora não crê que Legislativo, Judiciário e imprensa possam se contrapor a autoritarismo

Lucas Neves

Correspondente da Folha em Paris.

[RESUMO] Historiadora francesa Maud Chirio, que pesquisa a direita brasileira, rejeita a ideia de que Bolsonaro vá moderar seu discurso ao chegar ao Planalto e se declara cética em relação ao equilíbrio entre Poderes no governo do presidente eleito.

A ascensão de Jair Bolsonaro ao poder entrará para os livros de história como marco final da Nova República, iniciada no ocaso da ditadura militar, em 1985, porque o projeto político que impulsionou o presidente eleito contradiz os princípios que a regem.

O diagnóstico é da historiadora francesa Maud Chirio, 37, especialista em história da direita brasileira e na relação desta com a caserna. Em entrevista à Folha, ela diz não acreditar que o capitão reformado vá moderar seu discurso ou abandonar algumas de suas propostas mais radiativas após subir a rampa do Palácio do Planalto, em 1º de janeiro.

“Não são bravatas, excessos, é um sistema de pensamento”, afirma a professora da Universidade Paris Leste Marne-La-Vallée e autora de “A Política nos Quartéis – Revoltas e Protestos de Oficiais na Ditadura Militar Brasileira” (ed. Zahar).

“[Muitos analistas] Não acreditam que Bolsonaro poderia virar do avesso o conjunto de valores morais e políticos preponderante na Nova República. Há aí uma cegueira histórica.”

Para Chirio, no dia 3 de janeiro do ano que vem, o MST e o MTST serão declarados organizações terroristas e, no começo de fevereiro, o PT será interditado. “Haverá também um expurgo na administração pública, que já está em preparação. Só não vê quem não quer.”

A historiadora afirma duvidar da capacidade de Legislativo, Judiciário e imprensa de servirem de contrapeso a eventuais desmandos autoritários do militar da reserva e chama a atenção para a afinidade de Bolsonaro com a ala linha-dura do regime que vigorou no Brasil de 1964 a 1985.

“Ele representa um segmento que sempre rejeitou a República decorrente da Constituição de 1988 e sua apologia da diversidade étnica, religiosa e do pluralismo. Não há razão para acreditar que ele pense diferente”, avalia.

Na entrevista a seguir, Chirio também tece paralelos entre as chegadas de Bolsonaro e Adolf Hitler ao topo do Executivo, além de falar sobre o que esperar das relações do presidente eleito com líderes da Europa.

Em entrevista ao jornal Le Monde entre os dois turnos da eleição, a senhora se declarou temerosa pela democracia brasileira. Por quê? E como ficou esse receio diante do resultado da corrida presidencial?

Ele aumentou, por causa da natureza das reações de uma parcela de eleitores de Jair Bolsonaro. Minha inquietude se apoia em alguns elementos.

Em primeiro lugar, em itens do discurso do agora presidente eleito sobre o respeito ao pluralismo político. Grande parte de sua fala é norteada pela [ideia de] repressão violenta da oposição de esquerda –das menções a exílio forçado e prisão até a alusão a agressões físicas e eliminação definitiva de adversários.

E não são excessos pontuais, deslizes, mas, sim, uma retórica recorrente a indicar que ele não aceitará a sobrevida política de uma oposição de esquerda, o que já basta para caracterizar como não democrático o regime que vai se instaurar em janeiro de 2019.

Em segundo lugar, há o fato de o discurso repressivo de Bolsonaro se estender a outros setores da sociedade, aos quais é negado o direito à diferença. Isso é muito claro com os homossexuais e com os índios –estes, ao que tudo indica, para “virarem brasileiros”, vão ser destituídos de suas especificidades, sofrendo com a supressão de reservas e com a rédea solta para o agronegócio, o que resultará provavelmente em massacre. Ou seja, há uma rejeição da diversidade política e social do país –o que, a meu ver, caracteriza uma sociedade autoritária.

E o que esperar da relação de Bolsonaro com os outros Poderes?

A capacidade do novo governante de respeitar o equilíbrio entre os Poderes no âmbito de um sistema democrático gera dúvidas.

É só lembrar as pressões exercidas sobre o Judiciário pelo grupo de Jair Bolsonaro, que se desenharam de forma clara na fala de Eduardo Bolsonaro [“se quiser fechar o STF, manda um soldado e um cabo”]: a tendência dele e de seu entourage militar de ver a Justiça como obstáculo ao exercício de poder.

Em relação à mídia, a disposição do futuro presidente em deixar uma imprensa de oposição se expressar também é mais do que duvidosa. As tentativas da grande mídia de resistir, de questioná-lo, suscitaram reação muito hostil. É incerto, portanto, que Judiciário e imprensa possam de fato desempenhar o papel de contrapesos.

Não se sabe se Bolsonaro vai governar com ou sem os legisladores. A visão que ele parece ter do poder não soa compatível com negociações com o Congresso.

Analistas dizem esperar que ele agora modere o discurso, deixe de lado arroubos extremistas e bravatas. Não é realista esse prognóstico?

Acho que vai acontecer o inverso. Já existe no Brasil uma grande violência social, que atinge as populações rurais e periféricas e se traduz em grande mortalidade. Bolsonaro anunciou gatilhos que vão fazer disparar essa taxa, como o armamento da população para defender a propriedade e o aumento da militarização da segurança pública, acompanhado pela suspensão da ilegalidade de qualquer ato homicida da parte de um agente policial. Isso fará subir a letalidade social.

É preciso perceber de onde o futuro presidente vem. Ele é formado no imaginário da linha-dura do regime militar. É cristalina a semelhança entre o que ele propõe para a cena política brasileira e aquilo que sugere a ala de extrema direita da reserva desde o fim da ditadura.

Faça o download das edições da revista do Clube Militar dos últimos 20 anos e você verá a íntegra do programa de Bolsonaro a respeito dos homossexuais, da diversidade racial e do pluralismo político.

Essa ala criticou a “renúncia” prematura do poder militar e a transição para a democracia, que, aos olhos dela, foi pouco controlada e abriu espaço para um revanchismo esquerdista, que teria conquistado a mídia, a universidade e, por fim, a cena política.

É o discurso de Olavo de Carvalho, que afirma que a esquerda tem uma política de ocupação do espaço cultural viabilizada pelo fato de ela, a esquerda, não ter sido aniquilada na ditadura. Então não são bravatas, excessos, é um sistema de pensamento, no âmbito do qual a esquerda vira um inimigo nacional a ser eliminado.

Se ele não colocar essa linha ideológica em marcha, será porque houve poderes moderadores que o impediram, não porque ele não tenha querido aplicá-la. Muitos analistas acham que, uma vez que uma democracia se consolida, ela não mais regride a um sistema que lhe seja antagônico.

Não acreditam que Bolsonaro poderia virar do avesso o conjunto de valores morais e políticos preponderante na Nova República. Há aí uma cegueira histórica.

As democracias morrem…

Bolsonaro representa um segmento que sempre rejeitou a República decorrente da Constituição de 1988 e sua apologia da diversidade étnica e religiosa e do pluralismo. Não há razão para acreditar que ele pense diferente.

Em seu primeiro pronunciamento depois da vitória, ele surgiu ao lado de exemplares da Bíblia, de uma biografia de Winston Churchill [ex-primeiro-ministro britânico], da Constituição e de um livro de Olavo de Carvalho [“O Mínimo que Você Precisa Saber Para Não Ser um Idiota”].

Não se trata de um Trump, de um provocador antissistema politicamente incorreto. Bolsonaro tem, por trás dele, uma estrutura de pensamento muito coerente, em que se articulam corrupção, comunismo e perversão moral.

Em 1932, pouco antes de Adolf Hitler chegar ao poder, o discurso da direita na Alemanha era de que ele era um agitador, passível de controle, de enquadramento no sistema. Falava-se que era evidente que ele não poria em prática tudo aquilo que sustentava oralmente.

Quando uma figura de fora do sistema fica popular e defende os interesses da classe dominante em diferentes planos (no caso de Bolsonaro, no econômico), verifica-se uma inércia desse sistema. Hitler era um personagem coadjuvante, insignificante, assim como Bolsonaro. Todos achavam que ele assim permaneceria, que seria engolido pelas forças sistêmicas. Nunca acontece isso.

Para mim, no dia 3 de janeiro de 2019 [dois dias após a posse de Bolsonaro], o MST e o MTST serão declarados organizações terroristas. No começo de fevereiro, o PT vai ser interditado. Haverá um expurgo na administração pública, que já está em preparação. Só não vê quem não quer.

Rodrigo Duterte foi eleito presidente das Filipinas em 2016 com a promessa de acabar com a criminalidade do país em seis meses. Sua política de guerra às drogas é criticada por entidades de direitos humanos por fazer uso da violência policial e de grupos de extermínio Bullit Marquez/Associated Press

Logo após o primeiro turno, em entrevista à TV, o presidente eleito se disse escravo da Constituição. No pronunciamento da vitória, no domingo (28), estava com um exemplar da Carta sob a mão. Não se pode mesmo crer em sua disposição em respeitar os princípios democráticos?

Ele só fez isso porque estava sendo acusado de preparar um regime autoritário. Era uma estratégia para não perder a fatia do eleitorado que poderia temer uma guinada autoritária.

Mas o que está na Carta é contraditório com o que o resto do discurso dele preconiza. Veja bem, quero crer que ele vá respeitar a Constituição. Mas há muitos fatores que levam a pensar que o projeto de sociedade e poder que o impulsiona rejeita a Constituição.

Não devemos nos fiar aos poucos acenos que ele deu à continuidade do regime. É preciso encarar de frente os outros 90% de sua retórica, suas redes, seus aliados, a produção intelectual destes.

Sou pessimista, mas acredito nos poderes moderadores. Se, por exemplo, a Folha conseguir sobreviver como instituição [no governo Bolsonaro], com a força de cobertura que tem, vai ser fundamental. Mas é preciso que haja outras instâncias agindo da mesma forma.

Que efeito a eleição de Bolsonaro pode ter sobre as relações entre Europa e Brasil?

Em primeiro lugar, tenho a impressão de que a opinião pública e a imprensa europeias foram iludidas ao longo dos últimos dois anos pelo discurso majoritário da mídia brasileira, que não percebeu uma mudança na natureza do campo conservador, apesar dos alertas. Houve um atraso na compreensão desse fenômeno.

Não sei qual vai ser a distância que os aliados europeus do Brasil vão procurar tomar em relação ao governo Bolsonaro. Vai depender das ameaças e dos ataques aos direitos humanos e à liberdade de expressão. É isso que faz com que a diplomacia se mexa.

Nicolas Sarkozy, ex-presidente da França, afirmou dias atrás acreditar que a democracia brasileira seja mais forte do que se diz. Para ele, se o novo presidente se esquecesse de que seus simpatizantes não quiseram eleger um ditador, uma grande maioria saberia lembrá-lo disso.

Também acho que a maioria da população brasileira preza o sistema democrático. Mas o passado nos mostra que as multidões que pedem o fim de ditaduras nem sempre vencem: muitas vezes, sua mobilização só conduz ao acirramento do autoritarismo.

Por exemplo, em 1964, ninguém imaginava nem a perpetuação dos militares no poder nem a formação de uma verdadeira ditadura. A reação popular veio em 1968, com as mobilizações estudantis transformadas em contestação do regime. A isso sucederam o AI-5 e os anos de chumbo.

E como entidades de governança global como as Nações Unidas vão lidar com o novo presidente?

O Comitê de Direitos Humanos da ONU já mostrou que tem um entendimento da evolução do processo político brasileiro diferente da narrativa dominante [durante a campanha eleitoral, o colegiado recomendou em duas ocasiões que o Estado brasileiro garantisse a Lula o direito de concorrer à Presidência].

Como um todo, as Nações Unidas são uma instituição que costuma atentar para o respeito à ordem democrática e aos direitos humanos, ainda que seu poder de fogo seja limitado. Por isso, espero que exerça papel importante, apesar de ser desprezada pelo novo Executivo federal.

A ONG Human Rights Watch já se declarou preocupada com a eleição de Bolsonaro e disse que irá monitorar de perto seu governo. Faz parte do grupo de organizações que compreenderam o que estava acontecendo bem antes de uma parcela da imprensa e da classe política brasileiras.

Mas muita gente não se deu conta de que o regime atual morreu na noite do domingo passado. Nos livros de história, vamos escrever: Nova República, 1985-2018.

RAIO-X

Maud Chirio, 37, é historiadora francesa, dá aulas na Universidade de Paris Leste Marne La Vallée. Doutora em história contemporânea pela Universidade Paris I (Sorbonne), publicou “A Política nos Quartéis – Revoltas e Protestos de Oficiais na Ditadura Militar Brasileira” no Brasil pela editora Zahar. O livro, de 2012, é baseado em sua tese de doutorado.

 

Os exterminadores

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 A descoberta que incrimina Geisel e Figueiredo como assassinos afasta uma ameaça sempre presente desde o golpe de agosto de 2016.
Despois desse estrago, não há como a direita civil contar com os militares para adiar eleições este ano e criar novas armadilhas contra a democracia. Sem chance.
A urgência das Forças Armadas hoje é saber como lidar com a vergonha de um Geisel mandante de extermínios.
Os documentos da CIA são devastadores. O silêncio dos militares só aumenta a devastação.

Matadores e torturadores

Os fascistas que agem com desenvoltura desde antes do golpe de agosto de 2016 têm uma certeza: ficarão impunes, como ficaram os ditadores e seus mandaletes protegidos pela anistia. Qualquer um pode dizer hoje que continua obedecendo as ordens de Geisel.

É o assunto do meu novo texto no Jornal Extra Classe.

A barbárie de Geisel e os propagadores do ódio

A IMPOSTURA

Agentes engravatados receberam Lula, ontem à noite, ao desembarcar do helicóptero na Polícia Federal de Curitiba. Eles não têm culpa de nada, mas era jogo de cena.
As liturgias pediram que se vestissem bem, para que a instituição causasse boa impressão, não ao Brasil, mas ao mundo.
São os cerimoniais do contexto do golpe. O golpe marca hora para que o preso se apresente e até destina uma cela especial, sem porta de ferro (como se fosse concessão, mas é direito do ex-presidente). E dá até chuveiro com água quente…
O golpe procura investir na própria imagem, até com alguma delicadeza, porque se quisesse teria invadido o sindicato e tirado Lula à força, como dizem os bolsonaristas explícitos ou dissimulados.
O golpe togado hoje tem máscaras de ‘civilidade’ que a ditadura não teve. O golpe tenta nos fazer ver que tudo é normal, mas nada é mais dissimulado e anormal do que o golpe que cassou Dilma, prendeu Lula e vai continuar perseguindo o PT e as esquerdas. Um golpe será sempre um golpe e uma impostura.

ATÉ QUANDO, BASTINHOS?

Carlos Bastos é um dos sábios do jornalismo gaúcho. Foi mais do que um repórter, foi militante da resistência da Legalidade em 61, sempre ao lado de Brizola.

Encontrei Bastos hoje no velório do nosso amigo Nico Noronha. Bastinhos me puxou pelo braço e me disse no ouvido: “Nunca vi nada igual ao que está acontecendo hoje”.

E ele viu e viveu coisas grandiosas e trágicas desde a Legalidade. Conversamos rapidamente sobre as particularidades do golpe e do Quadrilhão que se apoderou do governo e concluímos o seguinte.

O governo, loteado por medíocres sem votos, tem um poder que nunca governante nenhum teve, nunca, em época alguma. E este governo não tem nenhum apoio popular.

E nunca, nem mesmo na ditadura, um governo esnobou tanto o povo, fazendo o que bem entende contra os interesses da população.

O golpe produziu um fenômeno inédito no Brasil. Os sujeitos que usurparam o poder descobriram que não precisam temer ninguém. E, como observou Bastos, mesmo as mais cruéis ditaduras sempre temeram e temem o povo. O atual regime de exceção não teme nada.

O Brasil inventou uma situação em que elementos denunciados por formação de quadrilha controlam um país anestesiado, sem correr riscos, sem reações, sem incômodos.

Até quando? Bastinhos ouviu minha pergunta, balançou a cabeça e foi embora largando pontos de interrogação de tamanhos variados pelo chão.

 

A nova polícia política

Além dos políticos de esquerda, também as pessoas comuns, sem cargos e sem poder, têm hoje tanto medo das decisões de certos juízes, de todas as instâncias, quanto os perseguidos pelos militares e seus familiares tinham da polícia política nos anos 70.

É disso que trato no meu novo texto no jornal Extra Classe online:

http://www.extraclasse.org.br/exclusivoweb/2018/01/o-judiciario-e-a-policia-politica-dos-tempos-da-ditadura/