Os exterminadores

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 A descoberta que incrimina Geisel e Figueiredo como assassinos afasta uma ameaça sempre presente desde o golpe de agosto de 2016.
Despois desse estrago, não há como a direita civil contar com os militares para adiar eleições este ano e criar novas armadilhas contra a democracia. Sem chance.
A urgência das Forças Armadas hoje é saber como lidar com a vergonha de um Geisel mandante de extermínios.
Os documentos da CIA são devastadores. O silêncio dos militares só aumenta a devastação.

Matadores e torturadores

Os fascistas que agem com desenvoltura desde antes do golpe de agosto de 2016 têm uma certeza: ficarão impunes, como ficaram os ditadores e seus mandaletes protegidos pela anistia. Qualquer um pode dizer hoje que continua obedecendo as ordens de Geisel.

É o assunto do meu novo texto no Jornal Extra Classe.

A barbárie de Geisel e os propagadores do ódio

A IMPOSTURA

Agentes engravatados receberam Lula, ontem à noite, ao desembarcar do helicóptero na Polícia Federal de Curitiba. Eles não têm culpa de nada, mas era jogo de cena.
As liturgias pediram que se vestissem bem, para que a instituição causasse boa impressão, não ao Brasil, mas ao mundo.
São os cerimoniais do contexto do golpe. O golpe marca hora para que o preso se apresente e até destina uma cela especial, sem porta de ferro (como se fosse concessão, mas é direito do ex-presidente). E dá até chuveiro com água quente…
O golpe procura investir na própria imagem, até com alguma delicadeza, porque se quisesse teria invadido o sindicato e tirado Lula à força, como dizem os bolsonaristas explícitos ou dissimulados.
O golpe togado hoje tem máscaras de ‘civilidade’ que a ditadura não teve. O golpe tenta nos fazer ver que tudo é normal, mas nada é mais dissimulado e anormal do que o golpe que cassou Dilma, prendeu Lula e vai continuar perseguindo o PT e as esquerdas. Um golpe será sempre um golpe e uma impostura.

ATÉ QUANDO, BASTINHOS?

Carlos Bastos é um dos sábios do jornalismo gaúcho. Foi mais do que um repórter, foi militante da resistência da Legalidade em 61, sempre ao lado de Brizola.

Encontrei Bastos hoje no velório do nosso amigo Nico Noronha. Bastinhos me puxou pelo braço e me disse no ouvido: “Nunca vi nada igual ao que está acontecendo hoje”.

E ele viu e viveu coisas grandiosas e trágicas desde a Legalidade. Conversamos rapidamente sobre as particularidades do golpe e do Quadrilhão que se apoderou do governo e concluímos o seguinte.

O governo, loteado por medíocres sem votos, tem um poder que nunca governante nenhum teve, nunca, em época alguma. E este governo não tem nenhum apoio popular.

E nunca, nem mesmo na ditadura, um governo esnobou tanto o povo, fazendo o que bem entende contra os interesses da população.

O golpe produziu um fenômeno inédito no Brasil. Os sujeitos que usurparam o poder descobriram que não precisam temer ninguém. E, como observou Bastos, mesmo as mais cruéis ditaduras sempre temeram e temem o povo. O atual regime de exceção não teme nada.

O Brasil inventou uma situação em que elementos denunciados por formação de quadrilha controlam um país anestesiado, sem correr riscos, sem reações, sem incômodos.

Até quando? Bastinhos ouviu minha pergunta, balançou a cabeça e foi embora largando pontos de interrogação de tamanhos variados pelo chão.

 

A nova polícia política

Além dos políticos de esquerda, também as pessoas comuns, sem cargos e sem poder, têm hoje tanto medo das decisões de certos juízes, de todas as instâncias, quanto os perseguidos pelos militares e seus familiares tinham da polícia política nos anos 70.

É disso que trato no meu novo texto no jornal Extra Classe online:

http://www.extraclasse.org.br/exclusivoweb/2018/01/o-judiciario-e-a-policia-politica-dos-tempos-da-ditadura/

 

O SILÊNCIO DOS CRIMINOSOS

Em agosto de 2013, o grupo Globo admitiu que errou ao apoiar ‘editorialmente’ a ditadura no jornal dos Marinho. Levou 48 anos e cinco meses para confessar o que todos sabiam.
Talvez seja o caso de ir um pouco adiante, como fez a Volks agora, e admitir que colaborou com a ditadura.
A Volks confessou que diretores da empresa no Brasil delatavam funcionários ‘subversivos’, que seriam depois perseguidos pelos militares.
A imprensa colaboracionista e os empresários brasileiros que cometeram o mesmo crime da Volks continuam calados.

As esquerdas e a tentação fardada

Alguém da nossa turma, da minha e da sua, alguém de esquerda já defendeu intervenção militar contra o golpe de agosto. Eu conheço uns três que falam em voz alta: só há salvação se os militares tomarem o poder e o devolverem limpo e cheiroso ao povo. Não é tese de gente da direita bélica, como o general Mourão, é da esquerda mesmo.

Agora, circula por aí como um tiro de bazuca sem rumo a entrevista do historiador e cientista político Moniz Bandeira com o mesmo apelo. Ele acha que só os militares podem evitar que o jaburu-da-mala venda o Brasil com a ajuda dos 300 picaretas do Congresso.

Moniz Bandeira é um nacionalista desesperado. Mas tenta, como cientista, como pensador de esquerda, dar racionalidade à sua tese. Os militares entram, derrubam governo e Congresso e, tempos depois, restauram a democracia.

O golpe já foi dado, diz ele, o golpe é o jaburu no poder e os corruptos no Congresso, com seus aliados em todas as áreas. O jaburu representa uma ditadura. Os militares iriam apenas tirá-los de lá.

O historiador fala das máfias da direita, dos banqueiros, dos grandes empresários, do juiz Moro, do Judiciário seletivo, das privatizações, de Janot, do fim das leis trabalhistas e da Previdência, do desmonte do Estado. Entende-se seu desespero, que é o de todos nós.

Mas as perguntas básicas, óbvias, previsíveis, são sempre as mesmas. Os militares tomariam governo e Congresso para devolvê-los mais adiante? Mas devolver a quem? A um Congresso ainda mais reacionário? A que governo? Que democracia teríamos depois da “intervenção”?

Quando seria feita a devolução? Daqui a 30 anos? O que uma ‘intervenção” faria com os excessos do Judiciário, como lidariam com Sergio Moro e Gilmar Mendes? Esses continuariam intocáveis?

O que os militares fariam com os Vladimir Herzog de hoje? Com os sindicalistas, com os professores, com as esquerdas? O que fariam com os Bolsonaros e os pregadores do estupro como retórica política de desqualificação dos adversários?

Moniz Bandeira tem aliados importantes à esquerda. Percebe-se que algumas manifestações são mais emotivas, quase impulsivas, como esta do ex-senador José Paulo Bisol, em entrevista ao Flávio Ilha, para o jornal Extra Classe, em dezembro do ano passado:

“Pela gravidade da crise, me parece que já passou da hora do Exército intervir. De derrubar esse Congresso. A mentalidade militar é perigosa. Eu, por outro lado, não ficaria chateado se fechassem o Congresso [risos]. É o Congresso que está nos liquidando, não é o Temer. O presidente é só um porta-voz”.

Está claro que Bisol fala, num tom de quem brinca com a ideia, o que muita gente pensa e só alguns manifestam. Moniz Bandeira e Bisol podem ter desistido, como muitos desistiram, de acreditar que a nossa democracia degradada, golpeada, usurpada seja capaz de se reparar e se redimir.

A democracia não teria forças para seguir adiante. Antes, seria preciso que uma força maior a ajudasse. Seriam os militares? Por que têm tanques e armas? Mas o que mais têm os nossos generais hoje?

A democracia brasileira pós-eleições de 2018, se Lula ficar de fora, pode ser pior do que o arremedo de democracia que temos hoje. O Congresso da bancada BBB (Boi, Bíblia e Bala) não terá 300 picaretas na Câmara, mas 400.

Mesmo assim, respeitando as posições de Moniz Bandeira e de Bisol, estou certo de que os militares não iriam nos salvar, mas produzir ainda mais jaburus, Aécios, Cunhas, Geddeis, Serras, Padilhas, Gilmares Mendes, Bolsonaros, Sergios Moros e seus genéricos.

 

O BRASIL QUE RESISTIU

Um pouco de memória com um bocado de saudosismo. Talvez o grande impasse hoje seja esse mesmo. Não temos mais equivalentes de Brizola, Ulysses, Betinho, Therezinha Zerbini, Teotônio, Dom Helder Câmara, Lamarca, Chico Mendes. Eles enfrentaram os militares, a repressão, a censura, a tortura, a morte. Nós não enfrentamos a quadrilha do jaburu-da-mala.

http://memorialdademocracia.com.br/timeline/21-anos-de-resistencia-e-luta#

O porta-voz

Me perguntam se não vou comentar as agressões verbais de um passageiro a Alexandre Garcia, no aeroporto de Brasília.
Só digo que Garcia deve saber se defender, com o poder e o canhão midiático que tem, em tempos de democracia (mesmo que capenga).
No tempo em que ele foi porta-voz da ditadura, isso dificilmente teria acontecido. Porque naquele tempo só a turma para quem ele prestava serviços e seus cúmplices podiam dizer o que pensavam sem correr sérios riscos.

Compromisso

Não sei quem ainda comemora o golpe de 64. Mas sei quem continua comemorando, e muito, o de agosto do ano passado.

Se naquele, de 53 anos atrás, os civis recorreram aos militares para derrubar Jango, neste eles não precisaram de ninguém de farda para golpear Dilma.

O golpe das pedaladas avança, cambaleando, com a ajuda decisiva da imprensa e de parte do Ministério Público e do Judiciário.

Concordo com os que dizem (sem que isso subestime em nada as crueldades do golpe de 64) que este foi, no momento da sua aplicação, mais cínico e mais farsante.

Os golpistas de 64 ficaram impunes. Os líderes corruptos do golpe de agosto acreditam que irão desfrutar do mesmo benefício. Assumo o compromisso de estar ao lado dos que se esforçam para que isso não se repita.