O QUE ELES PENSAM DO BRASIL

A gafe do momento, que deverá ser tratada com habilidade pelo futuro embaixador brasileiro em Washington, ampliou o erro mais repetido pelos americanos em relação ao Brasil.
É comum que eles digam que Buenos Aires é capital do Brasil. Agora, o secretário de Comércio deles, Wilbur Ross, disse que esteve em Buenos Aires, capital da Argentina. Já não é mais apenas Buenos Aires, capital do Brasil. É tudo junto.
Pois Ross (ou a equipe dele) cometeu essa gafe, em nota que está no site do departamento de Comércio, dois dias depois de ter visitado o Brasil. O homem pensou todo o tempo que estava em Buenos Aires.
Aproveito e conto uma história. No início dos anos 90, um grupo de jornalistas brasileiros participou de uma série de encontros com autoridades, empresários, professores, brazilianistas e outros curiosos (incluindo, acredite, até sindicalistas) sobre o Brasil.
Foram três semanas muito interessantes, num programa anual para jornalistas, por convite individual do governo americano a cada um dos profissionais.
Eu era da equipe de editores de Economia de Zero Hora e estava nesse grupo. Pois numa visita ao Departamento de Comércio, fomos levados à sala do representante dos negócios com o Brasil.
O encarregado nos recebeu sentado diante de um imenso mapa do Chile na parede. Ao final da entrevista ao grupo, perguntei o que o mapa do Chile estava fazendo no escritório que tratava de negócios com o Brasil.
O homem, muito simpático, disse que era apenas um enfeite na parede. Rimos e fomos embora. Estamos rindo de coisas assim até hoje.
Mas quem mais ri hoje é o filho de Bolsonaro, que irá direto de Buenos Aires para Washington.

O OURO DE TOLO DE BOLSONARO

As Serras Peladas que Bolsonaro imagina para os índios, como ele diz na entrevista ao Globo, é na verdade o grande projeto para o país todo. Bolsonaro quer a liberação total da mineração na Amazônia, com a promessa de que os índios vão ficar ricos com o ouro que está sob seus pés. E quem quiser poderá ter uma arma para defender sua fortuna dourada.

Para os brancos, o bolsonarismo promete outras Serras Peladas desde a destruição dos direitos trabalhistas e da quase aprovada reforma da Previdência.

O empreendedorismo neopentecostal, que sustenta boa parte do projeto de Bolsonaro, conduz a essa ideia de que todos serão donos do ouro que forem capazes de garimpar.

Bolsonaro é o alquimista da nova direita brasileira, e não só da extremada. Da direita liberal mesmo. O ouro de tolo que ele promete já hipnotizou a maioria que o elegeu. E continua alienando pelo menos um terço da população. A que acredita no que ele diz, a que finge acreditar para manipular indigências e a que nada sabe do que está acontecendo.

Enquanto os índios se divertem, o filho que será embaixador aparece hoje nas capas de todos os jornais com o verdadeiro ouro. Eduardo Bolsonaro, entre outras atividades, dedica-se agora a fazer lobby para a Papper Excellence, da Indonésia, que está numa disputa bilionária com os mafiosos da JBS.

Eduardo aparece nos jornais, fantasiado com camisa floral típica, ao lado do dono do grupo, Jackson Widjjaja, com o cheque simbólico de R$ 31 bilhões do que virão a ser os investimentos da Paper Excellence na área de celulose no Brasil.

O filho de Bolsonaro tenta se comportar como os príncipes árabes, mas a imagem com o cheque e a fantasia com a camisa colorida é de envergonhar os filhos de mafiosos sicilianos.

O pai promete ouro para os súditos, e o filho sai atrás da verdadeira mina, intrometendo-se numa disputa como garantidor de que Bolsonaro tem um lado.

Os Bolsonaros perderam o controle da própria empáfia, e aí pode estar a ruína da família, não hoje, nem amanhã, mas em algum momento em que o país se der conta de que o ouro é para poucos e talvez só para a família e os amigos.

Eduardo deu um salto e tanto. Das milícias de Queiroz e parceiros do Rio nas Pedras, evoluiu tanto que se infiltrou agora nas rodas dos grandes negócios das corporações mundiais.

Latifundiários, desmatadores e grileiros da Amazônia e agora também os predadores internacionais, onde estiverem, serão sócios do bolsonarismo.

E os índios? Os índios da Amazônia e os brancos das cidades vão fuçar na terra em busca do que pode ser encontrado. Talvez abram a própria cova para a matança que se anuncia com as Serras Peladas do bolsonarismo.

O FILHO SABE TUDO

As loucuras bolsonaristas são mais intensas e danosas do que aparentam, se é que isso ainda é possível.
A Folha mostra agora de forma categórica, em reportagem de Marina Dias, de Washington, que o ministro Paulo Guedes não foi consultado sobre a decisão de Bolsonaro que arrasou com os ímpetos liberais hoje ao suspender o aumento para o diesel.
A Petrobras perdeu num dia R$ 32 bilhões em valor de mercado. A Bolsa desabou. O patio da Fiesp desmaiou.
Ao ser abordado para que comentasse o assunto. Guedes ficou mudo e acabou admitindo que não sabia de nada, nem o presidente da Petrobras sabia, ou dizem que não sabiam.
Bolsonaro deve ter consultado o filho, Eduardo Bolsonaro (que é a favor do controle de preços dos combustíveis e respeitado especialista em mercado mundial de petróleo), para tomar a decisão.
Desta vez o Carlucho não teve nada com o acontecido. A coisa saiu totalmente do controle. Governar é mais complexo do que se relacionar com milicianos.

ENTREGARAM TUDO

Um dos filhos de Bolsonaro, o deputado Eduardo Bolsonaro, disse nos Estados Unidos que o brasileiro quer mesmo é entrar sem visto na terra do Trump para ficar por lá como clandestino. Esse pessoal envergonha o Brasil, segundo o rapaz.

Bolsonaro pai disse logo depois que a maior parte dos imigrantes que tentam entrar nos Estados Unidos, incluindo brasileiros, não tem boas intenções.

O pai já havia contrariado os interesses de exportadores brasileiros para os mercados árabes e da China, embarcando numa manobra americana que favorece o mercado americano.

Nos Estados Unidos, o pai disse também que a Amazônia não é mais nossa. E anunciou o decreto que permite que americanos entrem sem visto no Brasil. E ainda fechou um acordo que permite o uso da Base de Alcântara pelos americanos.

Vivemos uma situação inédita no mundo. Um presidente vai à maior potência mundial para defender unicamente os interesses do país visitado. E não ganha nada. Nada.

Não se esperava que ele defendesse o povo, porque o povo nem consegue viajar mais (como fazia nos tempos de Lula e Dilma).

Mas ele não defende nem os interesses dos produtores, nem da classe média que o apoiou. E aí surge de novo aquela pergunta. Como Bolsonaro teve apoio suficiente para se eleger e continua com apoio de boa parte da população?

É simples. Porque os eleitores de Bolsonaro da classe média se acham defensores dos ideais americanos. E os pobres que votaram nele acham que têm os mesmos interesses dessa classe média.

O brasileiro médio tem em Bolsonaro um espelho do que pensa que é. Bolsonaro pensa que, bajulando Trump, banca o esperto. A classe média também. E o pobre de direita faz o mesmo.

Em casos como esses, não são os espertos que vencem, são os imbecis que perdem.

Vik Muniz e o filho do homem

Um texto de Vik Muniz para Eduardo Bolsonaro, publicado no Facebook. Um dos maiores artistas brasileiros dá nos dedos do filho do vizinho de Ronnie Lessa. E diz que não precisou do pai para crescer na vida.
“Eu vivi ilegalmente nos Estados Unidos por seis anos, trabalhando por uma fração do salário mínimo e sendo constantemente chantageado por patrões exploradores. Eu fiz isso para pagar dívidas de família e ajudar meus pais. Hoje sou representado como americano nos mais importantes museus do mundo, inclusive na embaixada Americana em Brasília. Eu fui obrigado a sair do Brasil por não ver nenhuma condição de desenvolvimento pessoal aqui durante a ditadura. Foi justamente por causa de demagogos baratos como Eduardo Bolsonaro que eu sim, vergonhosamente, fui obrigado a viver longe da minha família para poder ajudá-la. O senhor Bolsonaro devia se envergonhar de um contexto político que propicia tal diáspora e não de pessoas honestas tentando sobreviver em países mais justos do que o que nasceram. Pode ter vergonha de mim, Eduardo Bolsonaro. Meu pai, que nunca precisou me ajudar, não tem. As pessoas vivem no mundo que elas constroem dentro de si mesmas. Eu sinto pena de quem vê o próprio conterrâneo através dessa ótica tacanha e mendicante e se imagina sóbrio o suficiente para imaginar tais asneiras como capital político”.

O FILHO E O OGRO 

O filho de Bolsonaro ataca o próprio guru do bolsonarismo, quando diz que tudo o que os brasileiros querem é entrar sem visto nos Estados Unidos e lá ficar para sempre.

Eduardo Bolsonaro era muito jovem quando Olavo de Carvalho, que agora se considera americano, ganhou espaço nos grandes jornais brasileiros para atacar Lula, o PT e as esquerdas. Tinha espaços permanentes em jornais, revistas, rádios, TV.

Era um dos que tentaram ocupar o espaço deixado pela morte de Paulo Francis em 1997. Fazia conferências, dava consultoria. A elite empresarial o paparicava. Esteve muitas vezes em Porto Alegre.

Olavo sempre foi um blefe da direita, acolhido sem restrições pelos que tentavam evitar que o PT chegasse ao poder. Mas em 2002 Lula foi eleito, e três anos depois Olavo se mudava para os Estados Unidos.

Por que o astrólogo foi embora? Porque a direita o abandonou. Olavo de Carvalho era tão grosso como pretenso pensador do conservadorismo que durou apenas o tempo necessário para fazer os ataques que não evitaram a vitória de Lula. Exposto como grande enganador, foi abandonado.

Os jornais usaram e dispensaram Olavo de Carvalho. Não havia o que fazer com ele. Sem utilidade, foi embora e ficou durante anos morando num rancho na Virgínia.

Quem foi Olavo de Carvalho por mais de 10 anos, até a ascensão do bolsonarismo ao poder? Nada. A direita nunca mais quis saber dele. Mas ele seria útil para a extrema direita adormecida, que via seus vídeos de quinta série no youtube.

O filho de Bolsonaro deve saber que Olavo de Carvalho conseguiu visto de permanência nos Estados Unidos em três anos. Como conseguiu, se poucos com o perfil dele conseguem? Porque Olavo de Carvalho aproximou-se da direita americana.

É morador oficial e de lá faz o que a direita nacional mais gosta de fazer: emite do Exterior palpites diversos sobre qualquer coisa no Brasil.

É o que fazem Diogo Mainardi e seus colegas de Manhattan Connection e outros menos votados. Atacam a esquerda, os índios, os ambientalistas, debocham de professores e de pobres. Tudo o que Francis fazia.

O grande sonho do ‘pensador’ de direita é ir morar no Exterior para de lá atacar tudo o que considera inimigo e manter em estado de alerta a conversa da ameaça comunista. Não vão como exilados, porque não estão sendo perseguidos por ninguém, mas como imitadores do reacionarismo americano, morando lá ou em Veneza.

Olavo de Carvalho é o cara que chegou ao topo. Levou década e meia para ser reconhecido por alguém no poder. Outros continuam tentando. É preciso dedicação. Se Olavo conseguiu, qualquer pangaré pode conseguir.

Um amigo das milícias recebe o Mérito Farroupilha

Eduardo Bolsonaro vai receber a Medalha do Mérito Farroupilha, a maior honraria da Assembleia Legislativa gaúcha.
É a degradação total. Imagino a situação dos que já receberam essa homenagem.
É um desrespeito com figuras de destaque de todas áreas e de todas as ideologias que mereceram a distinção.
Será a primeira homenagem dos gaúchos a um sujeito cuja família tem fortes vínculos com milicianos.
O Rio Grande do Sul é, do Palácio Piratini à Assembleia, uma sucursal do bolsonarismo moribundo.

O FILHO DE BOLSONARO E O LEONARDO DA VINCI

O deputado Eduardo Bolsonaro compete com o pai na produção de besteiras diárias. A última dele pelo Twitter é uma tentativa de denunciar o Colégio Leonardo da Vinci, de Porto Alegre, que estaria impondo aos alunos a leitura do livro ‘Abaixo a Ditadura’, de Cláudio Martins.
Se estivesse recomendando a leitura, não haveria nada de excepcional ou condenável. Até porque obra e autor são respeitados, e ditadura deve sim ser tema de aula. Mas a escola nunca fez o que ele diz que faz, como a direção já esclareceu.
Pois conto então que há muito tempo, há mais de 10 anos, decidi fazer para Zero Hora uma reportagem sobre leitura nas escolas.
E fui logo ao Leonardo da Vinci pelo reconhecimento que desfruta como colégio que estimula os alunos a lerem.
Me lembro de algumas conversas com adolescentes que me espantavam com o que liam. Não liam apenas os sempre recomendados autores brasileiros. Liam Faulkner, Joyce, Virginia Woolf, Saramago, Borges. Alguns liam por conta, sem recomendação do professor, porque haviam sido estimulados a ler e não conseguiam parar.
Eduardo Bolsonaro nunca leu e nunca lerá um desses autores. Eu posso dizer o que a escola não pode nem precisa, apesar de não depender da minha defesa. O deputado é o melhor exemplo de quem não assimilou e não se sensibilizou com nenhuma leitura relevante.
Mas lembremos que Bolsonaro foi o deputado federal mais votado da história em todo o país, porque faz arminha com os dedos e promete acabar com bandidos, mesmo que nunca alguém tenha visto um Bolsonaro enfrentar um bandido sequer.
A culpa pela produção de besteiras desse analfabeto político, empoderado pelo voto dos paulistas para uma função pública, não é só dele. É muito também de quem o colocou lá para escrever fake news e competir com o pai nas bobagens publicadas no Twitter.

O SUPREMO E OS BOLSONAROS

Para que os mais esquecidos não se esqueçam. O Supremo que desqualificou hoje um de seus ministros é o mesmo que tem em uma gaveta, desde 2014, dois processos contra Jair Bolsonaro por injúria e incitação ao estupro.

Esse mesmo Supremo, ao ser provocado este ano pela Procuradoria-Geral, deu prazo de 15 dias, a contar do último dia 12, para que o deputado Eduardo Bolsonaro explique as ameaças de morte que fez contra uma ex-namorada, a jornalista Patrícia Lelis.

Os processos contra o Bolsonaro pai ficarão parados no STF, porque ele não pode ser julgado por atos cometidos antes de assumir a presidência da República. Somente terão sequência, se tiverem, depois de seu mandato.

Mas o caso de Eduardo Bolsonaro pode ser levado adiante. O filho que ameaçou a jornalista (em mensagens gravadas) é o mesmo que, em palestra, disse que o Supremo poderia ser fechado pela ação de um soldado e de um cabo.

O Supremo que engavetou os processos contra o pai tem agora a chance de demonstrar que enfrenta o filho, como enfrentou Marco Aurélio Mello, com tanto destemor e tanta galhardia.

Pai e filho são acusados de ofender mulheres. O Supremo, até bem pouco tempo sob a presidência de uma mulher, teve a chance de levar pelo menos o caso do pai adiante. Preferiu escamotear.

Se agora enfrentar o filho, não muda muita coisa, mas pode mostrar que a mais alta Corte do país não teme a família que chegou ao poder. Se o pai já escapou, que o filho pelo menos dê explicações.

Para que os esquecidos também não se esqueçam, o Supremo foi a instituição que permitiu que o golpe contra Dilma Rousseff corresse frouxo, sem empecilhos. E que se submeteu a todas as ações, mesmo as ilegais, do juiz Sergio Moro durante a Lava-Jato.

O último ministro do STF a tentar enfrentar Sergio Moro se chamava Teori Zavascki.

Mas Teori está morto desde janeiro de 2017, e Sergio Moro será superministro de Bolsonaro.