À espera do milagre no Uruguai

Primeira pesquisa para o segundo turno no Uruguai, que acontece dia 24 de novembro.
Luis Lacalle Pou, do Partido Nacional, tem 47% das intenções de voto, e Daniel Martínez, da Frente Ampla, está com 42%.
Há apenas 6% de indecisos e 5% votariam em branco ou anulariam o voto.
Martínez está melhor em Montevidéu (48% a 41% de Lacalle) e o candidato blanco vence no interior (52% a 37%).
A direita conseguiu o que era previsto: saiu na frente para o segundo turno, porque obteve apoios da centro-esquerda de Ernesto Talvi, do Partido Colorado (inimigo histórico dos blancos), e da extrema direita do general reformado Guido Maníni Rios (Cabildo Aberto).
Agora, é torcer à distância pela virada.

MAIA, MORO E O PORTEIRO

A campanha mais consistente para 2022 não é a de Doria e muito menos a de Huck. Tampouco é a do justiceiro Sergio Moro com seus painéis gigantes ao lado de um encapuzado que aponta a arma para quem passa nas ruas de Porto Alegre.

A campanha pra valer é a de Rodrigo Maia, que corre pelo centro, entra em diagonal na direita e às vezes aparece também na esquerda.

Maia foi o único até agora a dizer que o general Augusto Heleno atua como linha auxiliar de Olavo de Carvalho.

Não é pouca coisa. Maia é o fofo que, quando precisa, bate com firmeza até em general. O gordinho põe a Globo num dilema. Os Marinho vão ter que se definir em algum momento e escolher o cara que vai enfrentar Bolsonaro.

Maia vai consolidar o parlamentarismo, enquanto ele e Alcolumbre fazem, com a ajuda de Guedes, tudo para que Bolsonaro não atrapalhe os projetos do governo.

Quem governa há muito tempo, em questões decisivas que dependem de articulação política, é Rodrigo Maia. Bolsonaro cuida dos filhos.

E os outros? Doria não prospera. Huck pode ser demolido quando ficar marcado como candidato saído de dentro da Globo. E Moro já perdeu boa parte do apoio da classe média. A Folha bate no ex-juiz quase todos os dias, e a Globo parece ter desistido do ex-chefe de Dallagnol.

Se não for o candidato da direita que era tucana e hoje está dispersa e desorientada, Moro será empurrado para a área já lotada da extrema direita.

O ex-juiz pode ser obrigado a disputar espaço no campo ocupado por Bolsonaro. O problema é saber se os milicianos vão deixar. Moro terá de falar com o porteiro e talvez até com o Queiroz.

OS CONSELHEIROS E A DIREITA

Conclusões previsíveis da eleição de conselheiros tutelares, que este ano foi naturalmente valorizada pela ameaça de avanço da extrema direita fundamentalista.
As esquerdas podem ter reagido, às vésperas da eleição, elegendo candidatos progressistas e comprometidos com o ECA em áreas centrais, mas perderam feio nas periferias.
Pelo que já li, foi o que aconteceu em Porto Alegre e em São Paulo e pode ter acontecido em todo o país (a Folha online traz matéria com tentativa ainda precária de análise de SP).
É um fenômeno que apenas reafirma o que já aconteceu nas eleições municipais e na última eleição de 2018.
A capacidade de influência da direita nas áreas mais pobres pode estar muito além das conexões de desamparo social, desinformação e ação dos neopentecostais.
Como diz Renato Janine Ribeiro, que os progressistas prestem mais atenção em eventos como esse daqui pra frente, para que não se despolitize o que é político.

Abaixo, um link para o perfil da jornalista Nazaré de Almeida, que traz um texto interessante com os números de Porto Alegre.

https://www.facebook.com/nazare.dealmeida/posts/3327514003925485?hc_location=ufi

A voz de Ciro

Um cara poderia entrar na campanha na última semana, para ser a voz forte que parece faltar no momento, a voz em tom um pouco mais alto, para que seja ouvida na mesma frequência das vozes do pai e do filho Bolsonaros.

Uma voz com poucas vírgulas e volteios, mas com muito sujeito, verbo e predicado. Ciro Gomes poderia pegar o megafone.

Todos nós estamos à espera de Ciro Gomes. Entre na reta final da campanha, Ciro Gomes. Entre firme e fale alto.

Todos os que em algum momento o criticaram (inclusive eu, mas acredito que de forma respeitosa) vamos acolhê-lo na luta que não é de Haddad ou do PT, é a luta de todos pela democracia.

Eu te vi em 2002 nas andanças com Brizola pelo Estado. Vi que muito da tua fala e do teu jeito têm inspiração na fala de Brizola.

Vamos lá, Ciro Gomes. Entre nessa briga. É da tua voz nordestina que estamos precisando.

 

UM AGRADECIMENTO

Amigos me telefonam para saber como estou depois da tentativa frustrada de conseguir um mandato de deputado estadual pelo PT. Estou bem e certo de que participei de uma experiência única.

Algumas das perguntas que mais ouço são estas: tu assumiste dívidas, gastaste muito, estás endividado?

Eu não gastei nada do que não tinha. Nada. Termino a campanha sem um centavo de dívida. Minha racionalidade financeira e meus parceiros de caminhada (cinco jornalistas do time) seguraram o ímpeto do candidato.

Mas só levei a campanha adiante porque tive a solidariedade de cerca de cem doadores, que contribuíram com quase R$ 27 mil (as contas estão sendo fechadas e irei informar a soma final).

Essas pessoas tiveram o desprendimento de apostar num projeto político marcado pelo romantismo dos bons tempos da política na rua. Com improvisos e com poucos recursos.

Elas me enchem de orgulho como amigas e parceiras nessa quase loucura de testar, em apenas 45 dias, o alcance e os limites da candidatura de um jornalista de esquerda, em meio ao crescimento avassalador da extrema direita.

Não tenho como agradecer a um por um, mas sei quem são. Gostaria muito de telefonar para cada um dos doadores, porque o gesto que fizeram é bonito demais.

Sem eles e sem o time que me acompanhou, não existiria campanha. Então, fiquem tranquilos. Só gastei o que recebi de doação de quem acreditou em mim. E sei que fizemos o melhor uso dos recursos, enfrentando campanhas milionárias.

Muito obrigado, amigas e amigos. Por causa de vocês, eu aprendi mais um pouco com as pessoas com as quais conversei nas ruas. Que a democracia nos recompense.

Duas gotas?

As opções para os ‘isentões’ antipetistas diante do avanço do fascismo que eles dizem abominar, mas nem tanto.
Eduardo Leite ou Sartori? Uma camisa da Riachuelo ou um cuecão da Havan? Voto em branco ou voto nulo na luta de Haddad contra Bolsonaro?
Um vacilão é o cara aquele que fica em dúvida se põe duas ou três gotas de adoçante no cafezinho, para que a sua vida seja sempre marcada por interrogações complexas.

O PODER ECONÔMICO NA ELEIÇÃO

O fim das doações de empresas a partidos e candidatos levou muita gente a pensar que o poder econômico não iria interferir nas eleições. Não é bem assim.
As contribuições de apoiadores se resumem a partir de agora às pessoas físicas. Mas isso quer dizer apenas que, se quiserem, os poderosos continuarão reforçando com muito dinheiro as campanhas dos seus protegidos. É o que estão fazendo.
A doação coletiva, via internet, tem a vantagem da transparência. Mas não irá mudar nada, se os mesmos, os mais ricos, continuarem abastecendo seus candidatos, e as forças progressistas não oferecerem suporte às campanhas dos seus representantes.
Sou pré-candidato a deputado estadual pelo PT/RS. Dependo da contribuição de apoiadores para seguir em frente, ou não teremos como competir com os cofres dos donos de grandes grupos econômicos.
Agradeço a quem já fez doações e peço a participação de outros apoiadores nesse esforço pelo financiamento da minha pré-campanha.
Convide amigos a se engajarem a esta ideia. A democracia agradece. Colabore clicando aqui…

https://doacaolegal.com.br/moises-mendes

 

UM FALSO DILEMA

Um amigo me perguntou hoje como eu lido com o desafio de tentar conquistar a atenção e os corações das pessoas como pré-candidato a deputado estadual pelo PT e continuar escrevendo o que sempre escrevi.
Eu disse a ele que não existe um Moisés Mendes jornalista que escreve e um Moisés pré-candidato, cheio de dedos, cuidados e sutilezas para não ferir possíveis simpatias e engajamentos.
Não existem jornalistas neutros e eu não criei um personagem para me engajar a um partido e a um projeto político. Eu sou o que sempre fui. Não farei concessões que estejam em desacordo com o que penso. Esse dilema não existe.
Foi assim que eu sempre me entendi com todos vocês que me leem. Não haverá uma persona do Moisés pré-candidato, ou eu estaria reproduzindo o que condenamos na política.
O que vocês leem aqui continuará tendo coerência com o que sempre escrevi, inclusive com humor, às vezes com ironia, mas sempre com o objetivo de expressar o que desejo dizer da forma mais clara possível.
Posso e vou errar muito, posso até cair em contradição em relação a algumas questões, vou me envolver em controvérsias, mas quero me manter coerente com a essência do que penso, digo e faço. Não tem como mudar a forma e o conteúdo da minha escrita.
Serei sempre um cara imperfeito (porque só a direita se acha perfeita). Mas não serei outro só para agradar. Serei o que sabem que sempre fui e espero continuar sendo.

A DEMOCRACIA E OS SONHOS

Um aviso aos ‘entendidos’ em eleições que acham que entrei na pré-campanha a deputado estadual para passear. Estou ralando muito e não me queixo.
Acordo cedo, converso com muita gente por telefone, envio e respondo mensagens, tento ajeitar a agenda para que abrigue o que acho que deve abrigar, saio de casa, vou ao encontro de gente de todas as áreas e volto à noite.
Não entrei nessa briga boa para participar de uma empreitada sem dedicação integral. Mas me divirto e me entusiasmo com o timaço que consegui reunir, com amigos talentosos e dedicados. Todos também estão ralando, e muito.
Tento, como recomendam os políticos mais velhos, seguir minha intuição e as lições que ouço na caminhada, sem que nada mude o que sou.
Lutar pelo real é também construir sonhos. Porque, como diz meu amigo Abrão Slavutzky, “somos sonhadores; se não formos sonhadores, não somos nada”.
Estou feliz e honrado com os que me acompanham e me acompanharão nesse projeto. Este é o ano para que os democratas trabalhem muito e possam sonhar juntos.