O FIASCO DO CALDEIRÃO EM DAVOS

Luciano Huck arrasou em Davos. É o que os sites estão noticiando com destaque, depois de uma palestra em que se apresentou como candidato a candidato à eleição de 2022.
Acreditem no que vocês lerão a seguir, de trecho de reportagem do Terra:
“Huck chegou a citar casos de assistência social exibidos em sua atração na Globo para ressaltar a importância do combate à desigualdade”.
Casos de altruísmo patrocinado, mostrados no Caldeirão do Huck, são apresentados em Davos como exemplos da compreensão que o moço tem das desigualdades e de como acha que ajuda a combatê-las.
Parece uma notícia fake de tão grotesca. E a cara dos magnatas de Davos diante de um sujeito que os considera otários?
O Globo dá em manchete do site o que Huck contou aos milionários e seus seguidores:
“Em Davos, Luciano Huck diz que protestos na América Latina são fruto da desigualdade”.
Um apresentador de TV do Brasil, que vive da exploração das misérias como espetáculo, vai à Suíça, no maior encontro do capitalismo mundial, para anunciar uma descoberta: as pessoas saem às ruas para denunciar desigualdades.
A direita brasileira deve tentar se controlar, ou outros, além de Bolsonaro, levarão os vexames nacionais para o mundo. Essa do Caldeirão é de envergonhar um Maluf.

Extrema direita ainda sob controle

Esse sujeito é Carlos Techera, militar uruguaio reformado. Produziu um vídeo em que sugere que o presidente Tabaré Vázquez e líderes da Frente Ampla sejam eliminados, incluindo Pepe Mujica.
Um juiz mandou prendê-lo. No Uruguai, a Justiça ainda consegue enquadrar a extrema direita. Ainda.

A EXTREMA DIREITA COME A DIREITA

A direita uruguaia tem o modelo brasileiro à disposição para montar seu projeto de governo. Mas o blanco Lacalle Pou, se confirmado como vencedor (o que parece irreversível), terá de compartilhar o poder com o partido de extrema direita Cabildo Abierto, liderado pelo general Guido Manini Ríos (à esquerda na foto).
Pois vejam quais são os dois ministérios que ele terá de ceder ao pessoal do general, segundo o jornal El País: Saúde Pública e Ordenamento Territorial e Meio Ambiente.
A extrema direita uruguaia cuidará do SUS deles e das complexas questões referentes à ocupação do solo, ambiente, rios, florestas. É tudo o que eles querem. Precarizar e privatizar a saúde e entregar os espaços urbanos e rurais à especulação urbana e rural descontrolada, como acontece aqui.
A questão é saber como os militares liderados pelo general reaça irão se comportar no poder, depois de 15 anos de Frente Ampla. O fraco Lacalle Pou depende dos votos deles no Congresso para governar. É provável que a extrema direita assuma, sem sutilezas, o controle do Uruguai.
O fascismo avança por toda parte. Também na Bolívia a extrema direita se prepara para comer a direita. Luis Fernando Camacho, El Macho (à direita), líder do golpe, chefe do tal movimento cívico, anunciou hoje que será candidato a presidente.
O ex-presidente Carlos Mesa, da direita moderada, derrotado por Evo Morales nas eleições, terá de dividir espaço com o extremista.
Com dois candidatos fortes, a direita pode ir dividida para a eleição que deve acontecer logo, se El Macho não cumprir o que vem ameaçando: tirar Mesa do caminho e se transformar, como candidato único do reacionarismo, no Bolsonaro boliviano.

O URUGUAI EM SUSPENSE

Ninguém respira no Uruguai, porque ninguém sabe quem venceu. Mas é preciso admitir que hoje a realidade é essa, pelo que mostram os números: depois de 15 anos, a Frente Ampla de Tabaré e Mujica pode deixar o poder e ser oposição.
Se Daniel Martínez for derrotado por Luis Lacalle Pou, do Partido Nacional, a velha direita dos blancos, muda tudo, ou quase tudo.
É do jogo. Mas os uruguaios fazem perguntas básicas: é possível que a direita respeite os avanços democráticos e a base das conquistas sociais dessa década e meia?
A outra pergunta: que poder terão os militares num governo de direita e considerando que um general reformado, o ultradireitista Guido Manini Ríos, teve 11% dos votos no primeiro turno e apoiou Lacalle Pou?
(Sempre lembrando que Guido Manini Ríos, eleito senador, foi chefe do Exército do governo da Frente Ampla de 2015 até o início desde ano. Em setembro, o militar andou visitando gente da extrema direita no Brasil e conversou até com o vice Hamilton Mourão. Foi ele quem liderou, às vésperas do segundo turno, uma série de ataques às Frente Ampla, com o uso de mensagens pelo WhatsApp.)

À espera do milagre no Uruguai

Primeira pesquisa para o segundo turno no Uruguai, que acontece dia 24 de novembro.
Luis Lacalle Pou, do Partido Nacional, tem 47% das intenções de voto, e Daniel Martínez, da Frente Ampla, está com 42%.
Há apenas 6% de indecisos e 5% votariam em branco ou anulariam o voto.
Martínez está melhor em Montevidéu (48% a 41% de Lacalle) e o candidato blanco vence no interior (52% a 37%).
A direita conseguiu o que era previsto: saiu na frente para o segundo turno, porque obteve apoios da centro-esquerda de Ernesto Talvi, do Partido Colorado (inimigo histórico dos blancos), e da extrema direita do general reformado Guido Maníni Rios (Cabildo Aberto).
Agora, é torcer à distância pela virada.

MAIA, MORO E O PORTEIRO

A campanha mais consistente para 2022 não é a de Doria e muito menos a de Huck. Tampouco é a do justiceiro Sergio Moro com seus painéis gigantes ao lado de um encapuzado que aponta a arma para quem passa nas ruas de Porto Alegre.

A campanha pra valer é a de Rodrigo Maia, que corre pelo centro, entra em diagonal na direita e às vezes aparece também na esquerda.

Maia foi o único até agora a dizer que o general Augusto Heleno atua como linha auxiliar de Olavo de Carvalho.

Não é pouca coisa. Maia é o fofo que, quando precisa, bate com firmeza até em general. O gordinho põe a Globo num dilema. Os Marinho vão ter que se definir em algum momento e escolher o cara que vai enfrentar Bolsonaro.

Maia vai consolidar o parlamentarismo, enquanto ele e Alcolumbre fazem, com a ajuda de Guedes, tudo para que Bolsonaro não atrapalhe os projetos do governo.

Quem governa há muito tempo, em questões decisivas que dependem de articulação política, é Rodrigo Maia. Bolsonaro cuida dos filhos.

E os outros? Doria não prospera. Huck pode ser demolido quando ficar marcado como candidato saído de dentro da Globo. E Moro já perdeu boa parte do apoio da classe média. A Folha bate no ex-juiz quase todos os dias, e a Globo parece ter desistido do ex-chefe de Dallagnol.

Se não for o candidato da direita que era tucana e hoje está dispersa e desorientada, Moro será empurrado para a área já lotada da extrema direita.

O ex-juiz pode ser obrigado a disputar espaço no campo ocupado por Bolsonaro. O problema é saber se os milicianos vão deixar. Moro terá de falar com o porteiro e talvez até com o Queiroz.

OS CONSELHEIROS E A DIREITA

Conclusões previsíveis da eleição de conselheiros tutelares, que este ano foi naturalmente valorizada pela ameaça de avanço da extrema direita fundamentalista.
As esquerdas podem ter reagido, às vésperas da eleição, elegendo candidatos progressistas e comprometidos com o ECA em áreas centrais, mas perderam feio nas periferias.
Pelo que já li, foi o que aconteceu em Porto Alegre e em São Paulo e pode ter acontecido em todo o país (a Folha online traz matéria com tentativa ainda precária de análise de SP).
É um fenômeno que apenas reafirma o que já aconteceu nas eleições municipais e na última eleição de 2018.
A capacidade de influência da direita nas áreas mais pobres pode estar muito além das conexões de desamparo social, desinformação e ação dos neopentecostais.
Como diz Renato Janine Ribeiro, que os progressistas prestem mais atenção em eventos como esse daqui pra frente, para que não se despolitize o que é político.

Abaixo, um link para o perfil da jornalista Nazaré de Almeida, que traz um texto interessante com os números de Porto Alegre.

https://www.facebook.com/nazare.dealmeida/posts/3327514003925485?hc_location=ufi

A voz de Ciro

Um cara poderia entrar na campanha na última semana, para ser a voz forte que parece faltar no momento, a voz em tom um pouco mais alto, para que seja ouvida na mesma frequência das vozes do pai e do filho Bolsonaros.

Uma voz com poucas vírgulas e volteios, mas com muito sujeito, verbo e predicado. Ciro Gomes poderia pegar o megafone.

Todos nós estamos à espera de Ciro Gomes. Entre na reta final da campanha, Ciro Gomes. Entre firme e fale alto.

Todos os que em algum momento o criticaram (inclusive eu, mas acredito que de forma respeitosa) vamos acolhê-lo na luta que não é de Haddad ou do PT, é a luta de todos pela democracia.

Eu te vi em 2002 nas andanças com Brizola pelo Estado. Vi que muito da tua fala e do teu jeito têm inspiração na fala de Brizola.

Vamos lá, Ciro Gomes. Entre nessa briga. É da tua voz nordestina que estamos precisando.

 

UM AGRADECIMENTO

Amigos me telefonam para saber como estou depois da tentativa frustrada de conseguir um mandato de deputado estadual pelo PT. Estou bem e certo de que participei de uma experiência única.

Algumas das perguntas que mais ouço são estas: tu assumiste dívidas, gastaste muito, estás endividado?

Eu não gastei nada do que não tinha. Nada. Termino a campanha sem um centavo de dívida. Minha racionalidade financeira e meus parceiros de caminhada (cinco jornalistas do time) seguraram o ímpeto do candidato.

Mas só levei a campanha adiante porque tive a solidariedade de cerca de cem doadores, que contribuíram com quase R$ 27 mil (as contas estão sendo fechadas e irei informar a soma final).

Essas pessoas tiveram o desprendimento de apostar num projeto político marcado pelo romantismo dos bons tempos da política na rua. Com improvisos e com poucos recursos.

Elas me enchem de orgulho como amigas e parceiras nessa quase loucura de testar, em apenas 45 dias, o alcance e os limites da candidatura de um jornalista de esquerda, em meio ao crescimento avassalador da extrema direita.

Não tenho como agradecer a um por um, mas sei quem são. Gostaria muito de telefonar para cada um dos doadores, porque o gesto que fizeram é bonito demais.

Sem eles e sem o time que me acompanhou, não existiria campanha. Então, fiquem tranquilos. Só gastei o que recebi de doação de quem acreditou em mim. E sei que fizemos o melhor uso dos recursos, enfrentando campanhas milionárias.

Muito obrigado, amigas e amigos. Por causa de vocês, eu aprendi mais um pouco com as pessoas com as quais conversei nas ruas. Que a democracia nos recompense.