MILAGRE URUGUAIO

É complicada a situação da Frente Ampla no Uruguai. Daniel Martinez conseguiu 39,17% dos votos. Mas a Frente Ampla encolheu e, se vencer no segundo turno, não terá maioria no Congresso.

Luis Laccalle Pou, do Partido Nacional (o velho partido Blanco, da direita), obteve 28,59%. Já tem o apoio declarado para o segundo turno de Ernesto Talvi, do Partido Colorado, de centro, mas que vinha pendendo para a direita (12,32% do eleitorado), e do ex-comandante do Exército Guido Manini Ríos, do Cabildo Abierto, o Bolsonaro deles (com 10,88%).

O interessante é que a Frente Ampla chegou ao poder há 15 anos ao quebrar, com a eleição de Tabaré Vásquez, a polarização blancos x colorados, que vem desde o século 19.

Agora, os reacionários dos blancos se unem ao centro dos colorados, seus inimigos históricos, e ganham o reforço da extrema direita de Guido Manini Rios para retomar o poder.

Numa simplificação matemática, os blancos venceriam com sobra no segundo turno, se tivessem o apoio integral dos aliados já conquistados. Mas a política não é o simples resultado de somas.

A Frente Ampla terá de buscar votos entre os colorados, porque os demais partidos são eleitoralmente insignificantes. As esquerdas uruguaias dependem de um milagre.

A VOLTA DE CRISTINA

Cristina Kirchner vem aí. Que os argentinos se preparem para as baixarias da direita. A Frente de Todos, de Alberto Fernández (presidente) e Cristina Kirchner (vice) venceu as prévias deste domingo. Era previsto, mas há componentes assustadores para a direita.

A participação do eleitorado chegou a 75% (o mesmo percentual de 2015), quando esperavam que o desalento com a política provocasse uma abstenção maior. Isso significa que o povo está decidido a apostar na democracia para derrubar Macri.

Nas prévias argentinas, todos os eleitores podem votar livremente. É uma espécie de referendo dos candidatos de cada partido. Os mais votados de cada agremiação disputam a eleição de 27 de outubro. Macri é de novo o candidato da direita.

As prévias valem como uma espécie de pesquisa, com grau de confiabilidade de 100%, porque envolve todo o eleitorado, e não uma amostragem. Também serão indicados os candidatos à Câmara dos Deputados e, em oito províncias, ao Senado, além dos nomes que disputarão o governo da província e a prefeitura de Buenos Aires.

É agora, depois das prévias, que se intensifica o jogo sujo. Os macristas já vinham jogando pesado, com os mesmos recursos que o bolsonarismo usou aqui: disparos de mensagens em massa, uso irregular das redes sociais (com ações que a lei não permite) e, claro, fake news.

Mas ainda falta saber qual foi o tamanho da vitória da esquerda, porque o governo retém os resultados da votação. O jornal página 12 publica declarações de líderes kirchneristas sobre suspeitas de manipulação dos resultados, como tentativa de reduzir o impacto da derrota da direita.

(Os primeiros resultados, ainda parciais, dão vitória de 47% para a frente Fernández-Cristina, contra 32% para Macri-Pichetto)

As mãos de El Patón

Nahuel Patón Guzmán, El Patón (patudo, ou pé grande), foi um dos goleiros da seleção da Argentina na Copa da Rússia. É figura respeitada pelos argentinos, não só por ser um atleta famoso.

É jogador engajado a movimentos de direitos humanos, às Mães e Avós da Praça de Maio e ao combate permanente aos torturadores e assassinos da ditadura.

El Patón joga hoje no Tigres, do México, e seria uma figura impensável no futebol brasileiro, onde alguns jogadores bajularam Bolsonaro de forma patética na Copa América. Ele é assumidamente de esquerda. Publicamente. Explicitamente.

Reparem nas luvas de El Patón. Numa delas está escrito “Nunca Mas”, a expressão consagrada pelos democratas como repulsa à ditadura e como advertência: o país nunca aceitará que se repita o que fizeram com os 30 mil assassinados e desaparecidos políticos por ordem de militares e de civis nos anos 70 e 80.

Na outra luva, se lê “Memória pela verdade e pela Justiça”, para que ninguém fique impune pelos crimes da ditadura.

Nenhum jogador de futebol brasileiro tem a coragem de tornar pública hoje sua posição de esquerda como um El Patón.

Pois ele não está sozinho. Me emocionei quando vi esta foto ontem na capa do jornal Página 12, com a informação de que o goleiro e mais 150 nomes ligados ao futebol argentino assinaram um manifesto de apoio à Frente de Todos, de Alberto Fernández (presidente) e Cristina Kirchner (vice).

A chapa será oficializada neste domingo pelos peronistas kirchneristas para enfrentar em outubro o fascismo de Macri. É a volta de Cristina, para tentar reabilitar uma Argentina devastada pela direita.

No Brasil, talvez alguns jogadores assinassem um manifesto de apoio a Bolsonaro. É bom sentir inveja dos argentinos, até porque a seleção de El Patón pode estar em má fase, mas nunca tomou 7 a 1.

O PROJETO DA DIREITA

A manchete do Globo é sobre algo que pode ser avassalador no ano que vem: a articulação política de grandes empresários para repetir e ampliar nas eleições municipais o que eles já fizeram no ano passado, elegendo bancadas que consideram de “centro” para o Congresso e as Assembleias.
São pelo menos 300 grandes empresários, que largaram muito dinheiro no ano passado e vão largar somas milionárias nas eleições municipais.
O bolsonarismo será empurrado para as bordas mais sombrias da política, de onde não deveria ter saído, e a direita mais cheirosa ocupará espaços que a extrema direita vai perder.
Nada de majores, coronéis, delegados e pastores. Chegou a vez de gente que a direita dita liberal considera mais refinada. Executivos de empresas, professores, engenheiros, gente graduada, jovens e influenciadores com colarinho.
Os gaúchos que se preparem, porque essa onda já chegou por aqui na eleição passada e será amplificada.
O empresariado não quer mais brincar de bolsonarismo. São liderados pelo pessoal da Riachuelo, com ramificações nas federações das indústrias e outras entidades também do comércio.
Hoje, segundo o Globo, os empresários já têm influência sobre pelo menos 209 parlamentares no Congresso. O grande projeto deles é ter um candidato ao Planalto. Claro que um nome já desponta: Luciano Huck.
A direita empresarial se deu conta de que não dá pra ficar se refestelando com as loucuras do bolsonarismo que inventa moedas com a Argentina e tira a cadeirinha das crianças dos carros.
Chegou. O bolsonarismo deve, segundo esse pessoal mais chique, ser coisa de pobre e ignorante. Basta de alianças com gente sem preparo e da convivência com cúmplices de milicianos.
A direita quer se refinar de novo e ir além do antipetismo a qualquer custo. Apertem os cintos.

Huck não aguenta o tranco

Jair Bolsonaro já era. A Folha deu a primeira grande bordoada, ao mostrar que a família é dona de 13 imóveis avaliados em R$ 15 milhões, e acabou com a imagem de pureza que o sujeito vendeu para a classe média sem rumo.

Com os 8% de Luciano Huck no DataFolha, a aposta volta a ser o moço da Globo. Mas a Globo estaria disposta a enfrentar o massacre das redes sociais, a partir do momento em que Huck admitir que é candidato?

O que a Globo ganha com isso, se nunca precisou de preposto da própria empresa para desfrutar do poder?

A pergunta pode ser outra: Huck estaria mesmo preocupado com o que a Globo acha ou deixa de achar da sua candidatura, enquanto se joga à tentação de ser presidente?

Huck salta fora do caldeirão da Globo, candidata-se, a Globo larga um comunicado dizendo que não tem nada mais com o cara e que nem gostava mesmo dele, a direita lança a maior campanha de marketing de todos os tempos sobre o bom moço dos Jardins que vai salvar os pobres e está tudo dominado de novo.

Falta combinar com os russos? Huck tem apenas 25% de rejeição. Segundo o DataFolha, ficaria com 8% dos votos de Lula se o ex-presidente fosse impedido de concorrer. Tem a imagem associada ao altruísmo (mesmo que patrocinado). É um velho novo, tem bons dentes, é casado com Angelica e não recebe auxílio-moradia.

Mas tem aquela história da amizade com Aécio. E tem outras histórias ainda não bem contadas. Tem a sociedade com um mafioso, Alexandre Accioly, o grande laranja de Aécio. É amigo do Diogo Mainardi, o cara que ameaça há horas se transformar no homem-mosca. Tem aquelas fotos com o Aécio (que ele apagou de seus espaços nas redes sociais). Tem a destruição ambiental de Angra.

Celebridades fofas (assim como os jornalistas fofos) não gostam de desconfortos. E uma campanha será desconfortável demais para o casal. Eu acho que Huck não aguenta o tranco. Essa não será uma eleição para moços frágeis.

O JORNALISMO NO PENHASCO DO OSTRACISMO

Otavio Frias Filho, diretor da Folha de S. Paulo, publica hoje um artigo contra Lula. É a melhor prova (e não uma simples convicção) da diferença entre a imprensa brasileira e a imprensa americana mostrada no filme The Post, A Guerra Secreta.
A imprensa liberal americana tem como vocação confrontar o poder, porque só assim sobrevive como imprensa e não só como negócio, como mostra o filme (e acho que eles ainda vão derrubar Trump).
Aqui, a imprensa do golpe quer usufruir do poder dos amigos. O jornalismo brasileiro não produziu uma reportagem, uma só, com informações que acrescentassem alguma coisa às delações, aos vazamentos bem escolhidos e aos grampos de Sergio Moro. Nada.
O artigo é cheio de volteios para dizer o seguinte: viva a eleição sem Lula.
Entre o Judiciário seletivo que poupa corruptos a direita e a imprensa do golpe, não me arrisco a dizer qual é o mais calhorda.
Para plagiar o título do diretor da Folha: é a imprensa brasileira, sob pressão das redes sociais, sendo empurrada para o penhasco do ostracismo. De mãos dadas com o Judiciário.

http://www1.folha.uol.com.br/colunas/otavio-frias-filho/2018/01/1953538-lula-no-ostracismo.shtml

 

O Brasil no auditório

Se a Justiça da Lava-Jato afastar Lula da eleição, Luciano Huck irá se apresentar como herdeiro de seus votos. Parece absurdo, mas é o que as pesquisas indicam. O altruísmo patrocinado da Globo pode chegar ao poder e distribuir casas, geladeiras, carros e felicidade para todos.

Este é o tema do meu novo texto no jornal Extra Classe, no link abaixo:

https://www.facebook.com/jornalextraclasse/

 

 

Desejos

Por que política numa hora dessas? Porque, sem política, pouco resolve desejar saúde e sorte. Que tenhamos vontade e discernimento (eu gosto desta palavra) para sair do golpe. Que a classe média atordoada volte para o seu lugar na democracia. Que meus amigos aqui e em todos os lugares convivam bem com os discordantes. E que nossos inimigos (sim, os inimigos da democracia, das liberdades e do povo) percam a eleição de novo e também sejam derrotados em nova tentativa de golpe.

Esconderam Lula

Tente achar, na capa dos sites dos grandes jornais, a pesquisa CNT/MDA, da Confederação Nacional dos Transportes, que mostra como Lula cresceu como líder às eleições do ano que vem. Se achar, me avise.
Hoje, as pesquisas escondidas pelos jornais mostram que só há um jeito de tirar Lula da corrida, como favorito em todos os cenários contra Aécio, Bolsonaro, Doria, Ciro Gomes, Marina, Álvaro Dias, Alckmin.
Só o Judiciário, que deve deixar Aécio e Bolsonaro livres para concorrer, pode tirar Lula da eleição.
A pesquisa não incluiu Sergio Moro. Deve ser porque Moro é juiz e juiz deve ser uma autoridade imparcial e neutra em disputas políticas. Imagino que seja por isso.