Retardatários

Depois do Elio Gaspari hoje na Folha (como é valente este Gaspari!), há fila de gente dizendo que está na hora de Sergio Moro pedir pra sair. Tudo gente que não sabia quem era Sergio Moro. Nem o Gaspari sabia.
Estão na fila até o Alexandre Frota e o Carlucho, mais os jornalistas fofos de São Paulo e do Rio, mas não há ainda jornalistas fofos gaúchos.
Os jornalistas fofos gaúchos estão sempre atrasados, porque são muito sensatos. Eles estão esperando a hora certa para pedir que Sergio Moro vá embora.
Quando Bolsonaro pedir que Moro se despeça, os jornalistas fofos gaúchos também pedirão. Eles são obedientes ao conselho do ministro Luis Roberto Barroso, para que não entrem em euforia.
Quem entrar em euforia, segundo o ministro, pode ser confundido com os corruptos. Que ninguém comemore o fato de que o bom jornalismo descobriu o esquema criminoso da Lava-Jato contra Lula. Alegria demais pode pegar mal.
Por isso os fofos gaúchos estão se resguardando. Como são valentes esses nossos jornalistas fofos.

A Odebrecht e o ex-presidente (Parte 2)

Este texto de Elio Gaspari foi publicado em 10 de novembro de 2002, na Folha de S. Paulo, quando os empreiteiros tinham os mesmos interésses, como diria Brizola, mas os amigos eram outros. 

Registre-se que, apesar da advertência contida no texto, o então presidente, ainda no poder, foi até o fim e ganhou de presente, com a vaquinha de empreiteiros e outros empresários, a sede para o seu instituto.

Publico o texto de Gaspari na íntegra:

FFHH deve suspender a coleta do Alvorada

Elio Gaspari

FFHH deve suspender a coleta de fundos para a sua ONG, o Instituto Fernando Henrique Cardoso. Deve-se ao doutor Cardoso a fundação de uma das instituições que mais influenciaram o pensamento político brasileiro. Foi o Centro Brasileiro de Análise e Planejamento, o Cebrap, em 1969. Agrupava professores expulsos da USP, teve a ajuda de empresários e o amparo da Fundação Ford. É uma linda história de sucesso. Não fica bem para o professor, hoje um presidente em fim de mandato, coletar fundos reunindo empresários para jantar no Palácio da Alvorada como fez na última segunda-feira.

Em 1969, tratava-se de financiar uma instituição de intelectuais proscritos. Pelo menos um banqueiro fez sua doação depois de obter um “nihil obstat” do poderoso ministro Antonio Delfim Netto, da Fazenda.

Agora a situação é outra. O presidente da República reuniu 12 empresários. Lá estavam Emílio Odebrecht, Benjamin Steinbruch (CSN), Pedro Piva (Klabin), e David Feffer (Suzano). Todos quatro comandam grandes empresas financiadas pelo BNDES. A Klabin está com um empréstimo de R$ 450 milhões pronto para sair do forno. Os três primeiros, além de terem recebido financiamentos do velho e bom banco, renegociam parte de seus débitos. Juntos compõem uma carteira de pelo menos R$ 2 bilhões. À mesa estava também o banqueiro Lázaro Brandão (Bradesco), que emprestou algum a todos os demais e tem um justo interesse em receber o seu de volta.

Com exceção da Klabin, os outros quatro compraram parte do patrimônio da Viúva durante a grande liquidação tucana. Em alguns casos compraram empresas pequenas, em outros, gigantes, como a Vale do Rio Doce, que ficou com Steinbruch (R$ 391 milhões no BNDES) e hoje está com o Bradesco. O empresário Jorge Gerdau, que estava no jantar comprou umas poucas coisas. Numa demonstração de que o país vive bons tempos, tanto ele como Steinbruch, estavam na quinta-feira numa reunião com Lula. Nela, o Bradesco tinha outro representante.

Como na gerência de quermesses, cada um ficou com a tarefa de conseguir interessados em subscrever cotas da ONG do futuro ex-presidente. FFHH deve suspender essa arrecadação porque não tendo feito em oito anos de mandato nenhuma loucura presidencial, não tem porque fazê-la agora. Bill Clinton, por exemplo, alugava quartos na Casa Branca em troca de doações ao partido Democrata. Ronald Reagan teve uma vaquinha de empresários e ganhou uma casa de presente.

Pode-se argumentar que FFHH tem a virtude de arrecadar recursos às claras. Verdade. Pode-se também dizer segue a norma de presidentes americanos que aceitaram doações de empresários para organizar suas bibliotecas e centros de estudo. Falso, por duas razões. Os presidentes americanos não ficam na política, como FFHH já mostrou que vai ficar. Ademais, e aí é que a porca torce o rabo, nos Estados Unidos não há BNDES. Falta à boa cultura capitalista americana a figura do grande empresário com dívida e/ou rolagem no banco estatal.

São muitas as dificuldades dos empresários nacionais, sobretudo daqueles que, como os Klabin, Suzano e Steinbruch, produzem mercadorias. É justo, racional e necessário que uma economia como a brasileira tenha um banco de desenvolvimento como o BNDES. O que não faz sentido é que o BNDES empreste dinheiro para depois rolá-lo, muito menos que empreste à mesma empresa a cada cinco anos. É absurdo que um empresário seja financiado pelo BNDES num guichê e, noutro, ponha dinheiro na ONG do presidente. Poderiam botar o mesmo ervanário num fundo de amparo aos trabalhadores que desempregaram por conta da polítikekonômika dos últimos oito anos. Pode-se estimar que, desde 1995, os convidados da mesa do Alvorada tenham fechado pelo menos 10 mil postos de trabalho.

(Como se vê e se lê, eram outros tempos, com outro Gaspari…)

O truque escolar de Elio Gaspari

Peço que não me mandem mais um texto que corre de um lado pra outro na internet, com o esclarecimento final de que houve um golpe.

É um artigo da lavra do jornalista Elio Gaspari, que até então andava muito confuso sobre o que aconteceu. Foi publicado na Folha agora, no dia 29.

Formalmente, o golpe começou dia 17 de abril, naquela famosa sessão da Câmara. Fiz as contas. Gaspari demorou 74 dias para ir ao dicionário (um truque escolar de piada do Joãzinho) e descobrir que houve, sim, um golpe.

Seu Mércio, guarda de rua aqui da Aberta dos Morros, me alertou que seria golpe muitos meses antes daquela sessão. Seu Mércio não abre um dicionário há décadas.

Com essa agilidade, se Elio Gapari fosse um mensageiro de notícias ruins aos sobreviventes de uma batalha, todos estariam mortos.

(Os historiadores nos ensinam que o jornalismo deve ser bem observado como protagonista de golpes, porque numa hora dessas tudo o que não existe é neutralidade.)

No meu tempo lá no Alegrete, os jornalistas de opinião eram mais ágeis. E não precisavam recorrer a dicionários para se revelarem tão oportunistas.