O cerco a Maduro

A entrevista de Nicolás Maduro à Mônica Bergamo na Folha merece ser lida, não para que se caia na armadilha do debate se ele é ou não um ditador, mas para que se compreenda a situação de um país historicamente cercado pela direita mundial.
“Por que buscar erros de um país torturado, perseguido? Quem sabe nosso único erro é não fazer mais para superar os efeitos do bloqueio.
A Venezuela está torturada. Todas as nossas contas no exterior, para importarmos um grão de trigo, de milho — se eu quisesse trazer milho do Brasil, não poderia.
A Venezuela é submetida a uma perseguição financeira, comercial, que não se permite a ela trazer alimentos, remédios. Como você pode levar um país se o Fundo Monetário e o Banco Mundial são cúmplices disso? Mentem sobre a Venezuela”.
Ah, dirão, mas há miséria e fome na Venezuela. Ainda bem que aqui não há. E que Bolsonaro, defensor da democracia na Venezuela, seja, como disse Maduro, admirador de Pinochet.

Tudo montado

O cenário montado pela Polícia Federal, para a entrevista de Lula, deixa claro que a intenção da PF era mesmo fazer uma meia arena.
O formato em ‘U’ da mesa não é para dois jornalistas, a Monica Bergamo, da Folha, e o Florestan Fernandes Júnior, do El País.
Com esse cenário, fica evidente que a PF pretendia colocar mais gente na sala, ou a mesa não teria esse tamanho e tantos espaços que ficaram vazios.
Os jornalistas da extrema direita achavam que iriam pegar uma carona e participar da entrevista, mesmo que apenas como olheiros, só para esculhambar. É muita cara de pau desses pilantras.

Ideia de quem?

Esse delegado da Polícia Federal que pretendia cercar Lula de sabujos da direita estava cumprindo ordens de quem?
O delegado é apenas quem faz a gestão do cárcere. Um delegado não tem nenhum poder para dizer quem deve ou não ser entrevistado. Ninguém tem. Nem Lula nem ninguém pode ser obrigado a falar.
Era só o que faltava o Lula ser obrigado a dar entrevista para o Alexandre Garcia. Saberemos um dia essa história completa. Como saberemos muitas outras histórias desses tempos estranhos.
A direita nunca conseguiu ter todos os seus desmandos encobertos por todo o tempo. Em algum momento a História irá cobrar a conta dessa gente.
Ainda bem que o ministro Ricardo Lewandowski determinou que Lula vai falar apenas para a Folha e o El País, porque esses jornais pediram a entrevista que estava previamente censurada.
Mas a pergunta permanece: quem teve a ideia de sugerir que Lula falasse com jornalistas bolsonaristas?

Pior do que em 64

Do grande Flávio Koutzii, militante de esquerda, perseguido, preso e torturado, em entrevista a Marco Weissheimer no Sul21, para quem ainda duvida do tamanho do terror que estamos vivendo:
“Hoje é muito pior do que em 64. Naquela época, o inimigo era bem identificado, muitos vestiam uniforme. Hoje pode ser o vizinho de baixo. Em 64, o problema era com os “comunas”, os guerrilheiros. Hoje, homossexuais estão sendo perseguidos e atacados nas ruas. O racismo também está à solta. Não tem comparação, o que é algo horroroso de dizer”.
(Eu concordo com tudo, mas tudo mesmo que Flávio sempre diz, o que me oferece algum conforto nesses tempos em que tantas opiniões nos deixam tão desconfortáveis.)

Flavio Koutzii: “A democracia acabou. Eu me sinto hoje um exilado no Brasil”

Jornalismo faturado

Reproduzo aqui uma pergunta que li hoje em entrevista com Geddel Vieira Lima, ministro da Secretaria de Governo do interino.

Está e a pergunta:

“A fatura do impeachment da presidente afastada Dilma Rousseff está liquidada?”

É uma pergunta de alguém de jornal do PMDB a um ministro do partido, certo? Ou de algum estudante descolado?

Não, a pergunta está na entrevista que os repórteres Gustavo Uribe e Gabriel Mascarenhas, da Folha, fizeram com Geddel.

É uma pergunta de acordo com a linguagem de alto nível do entrevistado de alto padrão. Fatura liquidada…

Mas que parece não estar de acordo com o padrão da própria Folha, por maiores que sejam as restrições ao jornal que esconde pesquisas.

Se eu tivesse feito uma pergunta desse nível, quando era foca da Gazeta do Alegrete, não teria ido adiante.

Mas então tá… o impeachment é uma fatura que já foi liquidada. As perguntas do grande jornalismo faturado ficaram muito estranhas com o golpe.