Estudantes

Enquanto a maioria dos estudantes perde tudo e só reclama, os alunos da Universidade Federal de Santa Catarina fazem o que deve ser feito. Vão para a greve geral.
O bolsobarismo não será derrotado sem os estudantes.
Em lugar algum o fascismo foi enfrentado sem a força dos jovens.
Se eles não têm nada a perder, o que explica a resignação diante da destruição das universidades e do sistema de bolsas de estudos?

A barbárie e o sono profundo das instituições

Leia estes relatos: “Conforme D3 declara em seu depoimento, fora “puxada pelos peitos” pelo “Pol2” que, além de identificado pelo nome no uniforme, foi por ela descrito como pessoa de “rosto meio quadrado, nariz grande, muito pálido, olhos escuros e usava boina”. Esse fato também foi referido em outros depoimentos, que também sempre referiram que D3, além de ser pega pelos seios também recebeu jato de spray diretamente na boca, como relataram D8, que disse “a (D3) estava como os peitos roxos e jogaram spray de pimenta na boca…”. Assim também D10, D11, bem como (nome protegido). No mesmo sentido, (nome protegido) relatou que D3 fora “assediada, pega pelos peitos”. Agrega-se que a depoente, em contato preliminar com esta Relatoria, ainda nas dependências do DECA junto com as e os demais detidas e detidos, fez referência, já naquela oportunidade, tanto da “agressão” nos seios como ter sido também submetida a spray de pimenta diretamente na boca, o que foi confirmado por algumas alunas que estavam presenciando esse primeiro contato”.
Este é um trecho de relatos de violência contra adolescentes, que constam do Relatório sobre a Desocupação da Secretaria da Fazenda do Rio Grande do Sul, comandada há um ano pela Brigada Militar.
O relatório foi produzido pelo Comitê Estadual contra a Tortura e apresentado hoje pela manhã. O documento trata da operação da BM para retirar à força um grupo de estudantes de ensino médio de escolas públicas (a grande maioria adolescentes) que havia ocupado o prédio.
Os depoimentos dos estudantes, que ocuparam a Secretaria mobilizados por um gesto político de defesa da educação, mostram como foi um dos tantos episódios capazes de comprovar a definição do procurador federal Domingos Silveira, presente ao evento de hoje na sede da Procuradoria Regional da República da 4ª Região. Disse Silveira: “Vivemos hoje um estado de barbárie”.
Violência semelhante ocorreu quando da ação da BM no prédio do Estado ocupado pelos Lanceiros Negros. Outras acontecem em áreas não centrais, longe de testemunhas.
Leiam o relatório. Ainda bem que contamos com a vigilância dos que ouvem as vítimas de violência exercida por agentes do Estado e elaboram documentos com esta contundência.
E as instituições? As instituições, com as exceções de sempre, saberão lidar com denúncias deste porte, quando despertarem do sono profundo do Boa Noite Cinderela a que se submeteram muito antes do golpe. O golpe apenas aumentou a dosagem.
O relatório, assustador, está neste link.

https://medium.com/comite-estadual-contra-a-tortura/comit%C3%AA-estadual-contra-tortura-divulga-relat%C3%B3rio-sobre-a-desocupa%C3%A7%C3%A3o-da-sefaz-2bd6f882be4e

 

As ocupações

Participei hoje pela manhã de uma conversa com estudantes e professores da Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação da UFRGS, a Fabico. Falamos da ocupação, de jornalismo, vivências, resistência, democracia.

Eu disse que nunca fiz nada parecido com o que eles estão fazendo. Que a maioria dos jornalistas da minha geração também não fez. E que a mobilização dos estudantes já é vista para muito além das questões imediatas postas pelo golpe e atacadas pelas ocupações.

Vivi uma experiência que nunca vou esquecer ao conversar com os combatentes pela educação, pela saúde e pelas conquistas sociais e poder andar depois pelas salas ocupadas. O Brasil pós-golpe depende desses jovens, que não podem levar adiante sozinhos a luta contra os projetos da turma do Jaburu e seus cúmplices.

Eu sei, sem transferir responsabilidades, que dependo muito mais da vitalidade deles do que eles dependem de mim ou da minha geração. A História é feita pelos que ocupam as escolas e estão nas ruas.

Terei o orgulho de poder dizer mais adiante: eu estive lá na Fabico ocupada quando a democracia plena começou a ser restaurada.

Estudantes e pássaros

Mais uma frase da sabedoria acaciana, para nunca mais esquecer: “Acho importante que os estudantes se envolvam com política”.
É de Hélio Schwartsman, um dos principais articulistas da Folha de S. Paulo, em artigo de hoje, antes de bater forte nos estudantes porque ocupam as escolas e fazem política demais.
Seria mais ou menos como se alguém escrevesse:
“Acho importante que os pássaros voem”.
Para logo adiante fazer a ressalva: mas os pássaros têm voado demais e além disso estão vindo na nossa direção.

Solidariedade

Um amigo me revelou ontem seu dilema diante da ocupação das escolas pelos estudantes.
– O que podemos fazer por eles? – interrogou-se meu amigo pelo WhatsApp.
Ele pensava em apoio material mesmo, que é talvez a melhor forma de apoio moral nessas circunstâncias, como levar água, bolacha, chocolate, essas coisas que os outros levam, enquanto a gente fica olhando.
– Ou podemos apenas ir até a frente das escolas e acenar para eles – me disse o amigo.
O aceno é a antiga forma de curtida. Iríamos lá para dizer: ó, gostamos, estamos com vocês.
Hoje talvez a gente vá a um colégio ou a um dos prédios da UFRGS levar algumas bolachas. Somos todos, nós e eles, flagelados do golpe. Mas eles resistem. Quem pode nos ajudar mesmo são eles.

Ana Júlia, Delfim e os jornalistas

Um momento constrangedor para o jornalismo brasileiro. Delfim Netto, ex-poderoso da ditadura, escreve na Folha um artigo em defesa do pensamento crítico, em reconhecimento ao já famoso discurso da estudante Ana Júlia Ribeiro na Assembleia do Paraná.

Do outro lado, li hoje mais um artigo de um colega jornalista da turma que se organizou para tentar desqualificar Ana Júlia. O argumento é o mesmo do kit básico deste grupo: ela e os estudantes das ocupações das escolas seriam manipulados pelos políticos.

Delfim morde e assopra, como sempre, para fazer média com os estudantes mas também tripudiar as esquerdas. Mas reconhece a relevância do gesto de Ana Júlia. E os jornalistas não conseguem esconder o prazer que sentem em bater em Ana Júlia.

Não há como não devolver a pergunta que eles mesmo fazem: em nome de quem mordem os jornalistas que depreciam a fala de uma menina de 16 anos e assim conseguem ser mais reacionários do que um ex-ministro da ditadura?

Delfim defende, falando dos estudantes, “a construção de um espírito crítico que alimente a escolha consciente”. Os jornalistas já tiveram essa chance e fizeram suas escolhas, que inclui agora os ataques a uma adolescente.

Peraí

ocupação

Esta foto de Alicia Esteves, do site Vaidapé, é para aqueles cursos em que alguém diz e prova que uma imagem vale por mil palavras.

É do momento da chegada da polícia a uma escola de São Paulo – uma das centenas ocupadas por estudantes em protesto contra o desmonte da educação e as crueldades da PEC 241.

A foto não mostra o rosto da estudante. Nem precisa. O que mais se vê nesta imagem, sem ser mostrado, é o rosto da menina diante do jovem policial com cara de assustado-constrangido.

Vale a pena dar uma olhada no site:

www.vaidape.com.br/

A reportagem sobre as ocupações das escolas está nesta chamada, no centro da página:

“Alckmin faz de tudo para evitar nova

onda de ocupações nas escolas”

 

Todos nós dependemos deles (de novo)

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A geração de adolescentes dos protestos do inverno de 2013 chega agora à idade adulta em um ambiente político que somente seus avós e seus pais experimentaram em algum momento da vida.

Esta geração pode se preparar para viver sob o poder da direita, desta vez em uma democracia fragilizada pelos sofisticados mecanismos de dominação das instituições, incluindo o Ministério Público e o Judiciário.

A direita da ditadura do século 20, que lastreou suas ações em bases jurídicas de exceção, deve olhar para a direita do século 21 e pensar: eles conseguiram o que nunca imaginávamos que fosse possível, apoderando-se das leis e de suas interpretações e promovendo atos que os transformam em justiceiros quase inquestionáveis.

A direita que ocupou as estruturas do MP e do Judiciário e atua só aparentemente à margem da política formal – mas é parte quase orgânica dessa política – conseguiu se legitimar como caçadora de corruptos (alguns corruptos) e se tornou intocável.

A missão de enfrentá-la, para que seja desmascarada, é menos dos que peitaram a ditadura até 1985 e muito mais da geração dos protestos de 2013 e dos que vieram depois.

É o momento, de novo, dos jovens combatentes pelo estado de direito. Eles precisam se reafirmar no Brasil, como ocorre a cada golpe, como o grande terror da direita.

Os estudantes estão diante de uma chance histórica de viver a juventude na plenitude. Não se trata mais de perseguir utopias, mas de brigar pela restauração de alguma ordem na desordem pós-golpe.

Assumindo a linha de frente, os jovens podem desfazer, pela democracia, o que os golpistas do Congresso e seus satélites nas instituições fizeram e continuam fazendo contra o Brasil.

….

A foto é dos protestos de estudantes contra a ditadura em 1970 em Porto Alegre. Foi feita pelo Kadão Chaves e está no livro dele, A Força do Tempo (Libretos)

 

O jornalismo é o réu

matheus

Matheus Chaparini (foto), repórter do jornal Já, agora é réu. A juíza Cláudia Junqueira Sulzbach, da 9ª Vara Criminal do Foro Central, acolheu a denúncia contra ele e mais 10 estudantes acusados de invasão da Secretaria da Fazenda.
Chaparini participava da cobertura de desocupação do prédio, no dia 15, e conseguiu o que outros repórteres não conseguiram (ou não quiseram) fazer: entrou na Secretaria com os estudantes e filmou a ação violenta da Brigada Militar. Chaparini foi repórter, fez o seu trabalho.
Um vídeo mostra que Chaparini identificou-se como jornalista por várias vezes. Mas ele acabou preso pela Brigada, indiciado pela polícia e denunciado pelo Ministério Público. Agora será processado.
Também passa a ser réu o cineasta independente Kevin D’arc, de São Paulo, que estava no prédio no mesmo dia.
Se eles forem condenados, muita gente deve pensar que o bom a partir de agora será cobrir qualquer acontecimento da janelinha das unidades móveis com ar condicionado (o que talvez seja uma tendência em algumas redações…).
Mas os jornalistas de verdade não irão se acovardar.
Como disse a ministra Carmén Lúcia, presidente do Supremo, este é o país dos muitos Judiciários. Que pelo menos um deles esteja a favor de quem faz jornalismo e combate a truculência policial de governos inseguros.