PROMESSA DE ESTUDANTE

Os estudantes marcaram para hoje e amanhã a deflagração das manifestações de 2020. Prometem uma mobilização maior do que a das ocupações de 2011.
São jovens do ensino médio, que ainda chamam de secundaristas e que lideraram os protestos do fim do ano.
Quem quiser apoiar, é só ir pra rua. O endereço: Praça Itália, Santiago do Chile.
Os jornais de direita já anunciaram que mais de 4 mil carabineros vão aguardá-los nas ruas esta semana.
O único consolo é que os repressores da polícia fascista de Piñera não usam mais as balas de borracha que provocaram lesões irreversíveis em um dos olhos de 359 manifestantes e cegaram totalmente dois.
Mesmo com a violência que provoca sequelas e com a prisão de mais de mil estudantes, eles não saem das ruas. Os jovens chilenos protestam quase todos os dias e prometem derrubar Piñera.

A EXTREMA DIREITA E O NOBEL

O ministro fundamentalista da Educação quer punir os estudantes com baixo desempenho no Enem. O Nobel premiou três economistas que estudaram o contrário: como se dedicar ao reforço escolar de estudantes com dificuldades de aprendizagem, pelos mais variados motivos.
Os três – Abhijit Banerjee, Elinor Ostrom e Michael Kremer – são economistas, não são educadores. Eles mostram como essa dedicação combate a pobreza e melhora não só a vida das próprias crianças e suas famílias, porque oferece resultados econômicos e sociais para as comunidades.
Parece tão óbvio, mas não no Brasil do bolsonarismo. Talvez os três ajudem a abrir a mente dos que chegaram a concordar com a avaliação do ministro terraplanista.
E não estou falando só de gente da direita. Sabemos que há gente de todo tipo (muitos que se consideram ‘progressistas’) defendendo punição para estudantes que definem como relapsos.
Quando não defendem punição severa para o próprio professor, para a escola, para Paulo Freire…

Estudantes

Enquanto a maioria dos estudantes perde tudo e só reclama, os alunos da Universidade Federal de Santa Catarina fazem o que deve ser feito. Vão para a greve geral.
O bolsobarismo não será derrotado sem os estudantes.
Em lugar algum o fascismo foi enfrentado sem a força dos jovens.
Se eles não têm nada a perder, o que explica a resignação diante da destruição das universidades e do sistema de bolsas de estudos?

A barbárie e o sono profundo das instituições

Leia estes relatos: “Conforme D3 declara em seu depoimento, fora “puxada pelos peitos” pelo “Pol2” que, além de identificado pelo nome no uniforme, foi por ela descrito como pessoa de “rosto meio quadrado, nariz grande, muito pálido, olhos escuros e usava boina”. Esse fato também foi referido em outros depoimentos, que também sempre referiram que D3, além de ser pega pelos seios também recebeu jato de spray diretamente na boca, como relataram D8, que disse “a (D3) estava como os peitos roxos e jogaram spray de pimenta na boca…”. Assim também D10, D11, bem como (nome protegido). No mesmo sentido, (nome protegido) relatou que D3 fora “assediada, pega pelos peitos”. Agrega-se que a depoente, em contato preliminar com esta Relatoria, ainda nas dependências do DECA junto com as e os demais detidas e detidos, fez referência, já naquela oportunidade, tanto da “agressão” nos seios como ter sido também submetida a spray de pimenta diretamente na boca, o que foi confirmado por algumas alunas que estavam presenciando esse primeiro contato”.
Este é um trecho de relatos de violência contra adolescentes, que constam do Relatório sobre a Desocupação da Secretaria da Fazenda do Rio Grande do Sul, comandada há um ano pela Brigada Militar.
O relatório foi produzido pelo Comitê Estadual contra a Tortura e apresentado hoje pela manhã. O documento trata da operação da BM para retirar à força um grupo de estudantes de ensino médio de escolas públicas (a grande maioria adolescentes) que havia ocupado o prédio.
Os depoimentos dos estudantes, que ocuparam a Secretaria mobilizados por um gesto político de defesa da educação, mostram como foi um dos tantos episódios capazes de comprovar a definição do procurador federal Domingos Silveira, presente ao evento de hoje na sede da Procuradoria Regional da República da 4ª Região. Disse Silveira: “Vivemos hoje um estado de barbárie”.
Violência semelhante ocorreu quando da ação da BM no prédio do Estado ocupado pelos Lanceiros Negros. Outras acontecem em áreas não centrais, longe de testemunhas.
Leiam o relatório. Ainda bem que contamos com a vigilância dos que ouvem as vítimas de violência exercida por agentes do Estado e elaboram documentos com esta contundência.
E as instituições? As instituições, com as exceções de sempre, saberão lidar com denúncias deste porte, quando despertarem do sono profundo do Boa Noite Cinderela a que se submeteram muito antes do golpe. O golpe apenas aumentou a dosagem.
O relatório, assustador, está neste link.

https://medium.com/comite-estadual-contra-a-tortura/comit%C3%AA-estadual-contra-tortura-divulga-relat%C3%B3rio-sobre-a-desocupa%C3%A7%C3%A3o-da-sefaz-2bd6f882be4e

 

As ocupações

Participei hoje pela manhã de uma conversa com estudantes e professores da Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação da UFRGS, a Fabico. Falamos da ocupação, de jornalismo, vivências, resistência, democracia.

Eu disse que nunca fiz nada parecido com o que eles estão fazendo. Que a maioria dos jornalistas da minha geração também não fez. E que a mobilização dos estudantes já é vista para muito além das questões imediatas postas pelo golpe e atacadas pelas ocupações.

Vivi uma experiência que nunca vou esquecer ao conversar com os combatentes pela educação, pela saúde e pelas conquistas sociais e poder andar depois pelas salas ocupadas. O Brasil pós-golpe depende desses jovens, que não podem levar adiante sozinhos a luta contra os projetos da turma do Jaburu e seus cúmplices.

Eu sei, sem transferir responsabilidades, que dependo muito mais da vitalidade deles do que eles dependem de mim ou da minha geração. A História é feita pelos que ocupam as escolas e estão nas ruas.

Terei o orgulho de poder dizer mais adiante: eu estive lá na Fabico ocupada quando a democracia plena começou a ser restaurada.

Estudantes e pássaros

Mais uma frase da sabedoria acaciana, para nunca mais esquecer: “Acho importante que os estudantes se envolvam com política”.
É de Hélio Schwartsman, um dos principais articulistas da Folha de S. Paulo, em artigo de hoje, antes de bater forte nos estudantes porque ocupam as escolas e fazem política demais.
Seria mais ou menos como se alguém escrevesse:
“Acho importante que os pássaros voem”.
Para logo adiante fazer a ressalva: mas os pássaros têm voado demais e além disso estão vindo na nossa direção.

Solidariedade

Um amigo me revelou ontem seu dilema diante da ocupação das escolas pelos estudantes.
– O que podemos fazer por eles? – interrogou-se meu amigo pelo WhatsApp.
Ele pensava em apoio material mesmo, que é talvez a melhor forma de apoio moral nessas circunstâncias, como levar água, bolacha, chocolate, essas coisas que os outros levam, enquanto a gente fica olhando.
– Ou podemos apenas ir até a frente das escolas e acenar para eles – me disse o amigo.
O aceno é a antiga forma de curtida. Iríamos lá para dizer: ó, gostamos, estamos com vocês.
Hoje talvez a gente vá a um colégio ou a um dos prédios da UFRGS levar algumas bolachas. Somos todos, nós e eles, flagelados do golpe. Mas eles resistem. Quem pode nos ajudar mesmo são eles.

Ana Júlia, Delfim e os jornalistas

Um momento constrangedor para o jornalismo brasileiro. Delfim Netto, ex-poderoso da ditadura, escreve na Folha um artigo em defesa do pensamento crítico, em reconhecimento ao já famoso discurso da estudante Ana Júlia Ribeiro na Assembleia do Paraná.

Do outro lado, li hoje mais um artigo de um colega jornalista da turma que se organizou para tentar desqualificar Ana Júlia. O argumento é o mesmo do kit básico deste grupo: ela e os estudantes das ocupações das escolas seriam manipulados pelos políticos.

Delfim morde e assopra, como sempre, para fazer média com os estudantes mas também tripudiar as esquerdas. Mas reconhece a relevância do gesto de Ana Júlia. E os jornalistas não conseguem esconder o prazer que sentem em bater em Ana Júlia.

Não há como não devolver a pergunta que eles mesmo fazem: em nome de quem mordem os jornalistas que depreciam a fala de uma menina de 16 anos e assim conseguem ser mais reacionários do que um ex-ministro da ditadura?

Delfim defende, falando dos estudantes, “a construção de um espírito crítico que alimente a escolha consciente”. Os jornalistas já tiveram essa chance e fizeram suas escolhas, que inclui agora os ataques a uma adolescente.

Peraí

ocupação

Esta foto de Alicia Esteves, do site Vaidapé, é para aqueles cursos em que alguém diz e prova que uma imagem vale por mil palavras.

É do momento da chegada da polícia a uma escola de São Paulo – uma das centenas ocupadas por estudantes em protesto contra o desmonte da educação e as crueldades da PEC 241.

A foto não mostra o rosto da estudante. Nem precisa. O que mais se vê nesta imagem, sem ser mostrado, é o rosto da menina diante do jovem policial com cara de assustado-constrangido.

Vale a pena dar uma olhada no site:

www.vaidape.com.br/

A reportagem sobre as ocupações das escolas está nesta chamada, no centro da página:

“Alckmin faz de tudo para evitar nova

onda de ocupações nas escolas”