O grampo

Grampearam Evo Morales dentro de um sindicato de cocaleros. É um dos dramas do golpe: as traições dentro da resistência.
O sujeito gravou a conversa de Morales com um líder sindical e passou o vídeo aos golpistas. Todos os jornais asseguram que a voz é de Morales.
Há na conversa uma clara tentativa de resistir, o que é legítimo a um golpeado. Bolsonaro disse aqui, logo depois de eleito, que iria mandar matar seus inimigos na ponta da praia.
Morales (se a autenticidade da gravação for confirmada) está apenas tentando dificultar a vida dos golpistas que matam índios.

#ÚLTIMO Gobierno de #Bolivia presenta un audio en el que se escucha presuntamente a Evo Morales organizar el cerco a ciudades desde su asilo en México

Publicado por EL DEBER em Quarta-feira, 20 de novembro de 2019

LICENÇA PARA MATAR

Começa daqui a pouco o que os moradores dos arredores de La Paz anunciam como o grande cerco pela derrubada da autoproclamada ditadora interina Jeanine Añez.
Gente de toda parte ocupará La Paz, para forçar um recuo dos soldados nas ruas, mas há o temor de uma tragédia.
Esta é a manchete de agora da versão online do jornal El Día:
“14 distritos de El Alto y 20 provincias resuelven cercar La Paz”.
Polícia e Forças Armadas, com a ajuda de milicianos da extrema direita de Camacho El Macho, já mataram nove cocaleros.
E a matança pode ser ampliada com o cerco à cidade. Porque os golpistas devem ter um Sergio Moro boliviano trabalhando muito depois do golpe que derrubou Evo Morales.
A partir de agora, qualquer integrante das Forças Armadas pode atirar para matar em manifestantes, em quaisquer circunstâncias. Assassinos serão anistiados.
Os golpistas deram, pelo decreto 4078, de Jeanine Añez, licença para que os soldados continuem matando sem piedade. Nenhum militar que atirar em militantes da democracia nas ruas irá enfrentar processo por assassinato.
Os assassinos bolivianos estão livres de qualquer punição. Pelo decreto, vale lá o que Sergio Moro quer fazer aqui: que atirem para matar em nome não só do medo e da violenta emoção, mas também da defesa da pátria.
Golpistas e milicianos têm afinidades ‘jurídicas’, em qualquer país e em quaisquer circunstâncias.

MATANÇA

Exército e polícia dispararam contra uma marcha de colonos bolivianos, mataram cinco e feriram mais de 20 hoje à tarde.
A coluna de manifestantes seguia de Sacaba para Cochabamba (foto), onde se juntaria a milhares de pessoas numa caminhada até La Paz.
É a repressão violenta do golpe à reação do povo, que não desiste de ir às ruas. Foram presas 200 pessoas na manifestação de hoje.
A matança que começou com o golpe pode fazer com que Evo Morales tente apressar sua volta ao país. É o que noticiam em La Paz. Como?
Poderemos saber nos próximos dias.

O GOLPE E OS GENERAIS TAREFEIROS

O economista espanhol Alfredo Serrano Mancilla, diretor do Centro Estratégico Latino-Americano de Geopolítica, repete em artigo no jornal Página 12 uma pergunta sem resposta desde o início do golpe: qual foi e qual será o real protagonismo dos militares na deposição de Evo Morales?

Mancilla observa que os generais não assumiram nenhuma liderança ou iniciativa golpista pública e explícita, quando os chamados cívicos (fascistas), liderados por Camacho El Macho, passam a demonstrar que são capazes de derrubar o presidente.

Mantêm-se indecisos e divididos, até a última hora, e emitem finalmente uma nota, em nome das Forças Armadas, que determina a renúncia de Morales, quando o golpe está então consumado. Haveria golpe sem aquela nota dos militares? Certamente não.

Outras perguntas se relacionam com o fato de que a autoproclamada presidente, Jeanine Áñez, trocou todo o alto comando logo que assumiu.

Por que não houve reação? Estava tudo combinado? Mas combinado com uma figura sem expressão?

Quais serão os próximos movimentos dos militares? É provável que assumam posição subalterna e obediente. E que apenas reafirmem a vocação das casernas nessas circunstâncias, com submissão à direita civil.

Talvez se confirme a suspeita de alguns historiadores. Não há mais na América Latina uma elite militar capaz de golpear e levar adiante um golpe.

Não falta vontade, mas falta preparo e sofisticação aos generais da atual geração. O serviço é encomendado pelos civis, com a ajuda dos americanos, e assumido e completado depois por esses mesmos civis, por mais medíocres que sejam.

Os militares teriam se conformado com a condição de serem apenas tarefeiros dos golpistas e dos déspotas que chegam ao poder pelo voto.

Morales resiste

Evo Morales desembarca no México e fala das atrocidades dos golpistas e anuncia que não desistirá da luta.

Así fueron las primeras palabras de Evo Morales al aterrizar en México luego de recibir asilo político por cuestiones humanitarias

▶ "Estamos muy agradecidos porque el Presidente de México (López Obrador) me salvó la vida": Evo Morales, ex presidente de Bolivia, a su llegada al Hangar de la Sedena tras recibir asilo político por cuestiones humanitarias mile.io/2Kh16Fs

Publicado por MILENIO em Terça-feira, 12 de novembro de 2019

GOLPE NA BOLÍVIA REAPROXIMA BOLSONARO E A GLOBO

Gustavo Maia é o repórter que conseguiu uma estranha proeza, a entrevista exclusiva de Bolsonaro, por telefone, para O Globo.
“A palavra golpe é usada quando a esquerda perde”, disse Bolsonaro na entrevista que virou manchete do Globo online na noite de domingo.
Se Bolsonaro quer destruir a Globo e nunca mais concedeu entrevistas a veículos do grupo desde a declaração de guerra aos Marinho (e ataca todos os dias os comentaristas da GloboNews), por que dar entrevista agora? E entrevista exclusiva.
Que história é essa de Bolsonaro atender telefonema da Globo, domingo à noite, para comentar a situação na Bolívia?
Bolsonaro se esqueceu de que seu projeto prioritário é a destruição da Globo?
Será que a Globo e Bolsonaro finalmente se entenderam e decidiram que o inimigo comum é Lula? Ou um golpe sempre restitui afinidades eventualmente abaladas entre golpistas?

Os novos golpes

Duas prioridades para a direita latino-americana, claro que com ajuda externa: levar adiante o golpe contra Evo Morales na Bolívia e esculhambar ainda mais com a economia argentina, como parte do plano de inviabilização do começo do governo de Fernández e Cristina.
O problema para a direita é que bolivianos e argentinos não são brasileiros. Resignados e alienados, hoje, só os brasileiros.