OS AMIGOS DO QUEIROZ 

Lauro Jardim, que vem metendo furo em cima de furo no Globo sobre o rolo dos Bolsonaros, informa que o motorista laranja está bem protegido.
Fabrício Queiroz refugiou-se na favela do Rio das Pedras, na zona oeste do Rio, desde que saiu do hospital.
O jornalista diz que a favela é dominada da primeira à última rua pela milícia mais antiga do Rio. Queiroz foi em busca dos amigos leais.
Muita gente já sabia com quem os Bolsonaros estavam (ou ainda estão) metidos.
Será que os Bolsonaros agiriam com sensatez se decidissem abandonar Queiroz com seus amigos no Rio das Pedras?

BOLSONARO E SERGIO MORO NO AVIÃO

Bolsonaro embarca no avião presidencial que vai levá-lo a Davos e logo manda chamar Sergio Moro, que havia sentado bem ao fundo, na janelinha da direita.

O ministro da Polícia senta-se ao lado do presidente e ouve sua ordem, com alguma rispidez: é preciso parar com os vazamentos no Coaf.

O presidente diz que as informações sobre a dinheirama de Queiroz e de Flávio Bolsonaro, vazadas para a Globo, vão destruir o filho, a família, o governo e o Brasil.

– Você manda no Coaf – afirma Bolsonaro.

Sergio Moro responde com a voz um pouco mais fina do que a normal.

– Mas não consigo controlar essa gente. As investigações foram feitas antes da minha chegada. Eles não são dos nossos no comando do Coaf.

– Mas você pode conter os vazamentos contra o meu filho.

– Vou ver se posso. Eu mesmo vazei, e vazei muito, quando comandei a Lava-Jato. O grampo da Dilma na conversa com Lula foi vazado por mim para a Globo.

– Eu me lembro.

– Eu sempre vazei o que era possível vazar e sempre argumentei com essa frase, que disse num seminário da revista Veja, em novembro de 2017: “Não cabe ao Judiciário ser guardião de segredos sombrios”.

– E daí? Agora não há segredos sombrios. Nada na minha vida é sombrio, nem o Queiroz.

– Eu sempre repeti que o interesse público está acima disso tudo, que a divulgação de fatos investigados ajuda a missão do Judiciário contra a corrupção – diz Sergio Moro.

– É complicado isso daí.

– O senhor estava nesse seminário. Essa outra frase também é minha: “Dentro de uma democracia liberal como a nossa, é obrigatório que essas coisas sejam trazidas à luz do dia”.

– Que coisas? Tudo?

– Estou falando da Lava-Jato. Não falo do senhor e dos seus filhos, que são honestos. Mas o que eu gostaria mesmo é de ficar em silêncio e só falar em juízo.

– Mas você não está sendo processado.

Moro passa a mão na testa e fala com a voz ainda mais fina, como se fosse a voz de um adolescente em falsete:

– É verdade, meu presidente.

Bolsonaro pede então que Sergio Moro se retire. Quando o ministro da Polícia se levanta, Bolsonaro determina:

– Agora me chama o Onyx.

E Onyx, que está bem no fundo do avião, conferindo notas de gastos numa lancheria de Brasília, caminha firme em direção à poltrona presidencial.

O avião começa a taxiar na pista e o comandante anuncia aos ilustres passageiros:

– Iniciamos nesse momento nossa viagem com Deus acima das nuvens e de todos.

Bolsonaro toma um gole de suco de laranja e diz a Onyx:

– Preciso da tua ajuda.

O avião balança, como se tivesse entrado numa zona de turbulência, mesmo estando no solo, o copo pula e vira o suco de laranja na gravata amarela de Bolsonaro.

MAIS UM TIRO

A Globo tem mesmo munição para uma guerra longa (ou que talvez venha a ser curta). A manchete do jornal O Globo de hoje pode acabar com tudo: Fabrício Queiroz movimentou R$ 7 milhões em três anos.

É de novo informação do Coaf para o colunista Lauro Jardim. Agora, entende-se o que levou Bolsonaro a tirar o Coaf da Fazenda e transferi-lo para o Ministério da Polícia de Sergio Moro.

O ex-juiz foi usado numa manobra desesperada para que o Coaf seja controlado pela família. Claro que os informantes, com dados conseguidos muito antes da chegada de Moro, não estão sob o controle do ex-juiz.

A Globo é abastecida por gente que Sergio Moro pôs a correr da direção do órgão quando assumiu o Coaf.

Moro cometeu um erro ao demitir Antonio Carlos Pereira de Sousa do comando do Coaf como se caçasse um inimigo. O Coaf tem uma equipe de 37 técnicos.

Os vazamentos são parte da vingança desses técnicos contra o esquema montado para que o bolsonarismo tivesse o controle absoluto das atividades de controladoria da movimentação de dinheiro sujo.

Moro achou, por excesso de soberba, que ainda estava em Curitiba. Foi politicamente amador. Pode estar mandando para o ralo sua estratégia de usar o Ministério da Polícia para chegar ao Supremo.

Só um milagre ou uma gigantesca manobra imoral seriam capazes de oferecer um desfecho “feliz” (para eles, os Bolsonaros e sua turma) nesse caso.

Uma manobra imoral do tamanho da que derrubou Dilma ou da que levou Lula para o cárcere. Ou a direita não tem mais como manobrar?

Bolsonaro não deveria ter autorizado o porte de armas para um jornalismo que hibernava desde o golpe, sem saber direito como iria sobreviver.

Está sendo bombardeado pelo grupo que ajudou a criá-lo como solução para acabar com o lulismo.

Bolsonaro salvou o jornalismo da Globo e pode salvar toda a Globo.

O DINHEIRO DO CHEFE DO QUEIROZ

No dia em que apareceu o dinheiro de Flávio Bolsonaro, arranjaram um jeito de fazer Palocci reaparecer.
Palocci disse hoje em mais uma delação que levou dinheiro de propina para Lula. Prova? Nada. Nenhuma.
A delação de Palocci só existe para produzir notícia em momentos difíceis para a direita.
Nunca acharam contas em nome de Lula ou dinheiro com Lula.
Pois hoje, no mesmo dia da acusação sem provas de Palocci, apareceu uma prova concreta, com dinheiro, contra Flávio Bolsonaro. Furo do jornalismo da Globo, a partir de informações do Coaf.
Flávio, o chefe do Queiroz, recebeu R$ 96 mil em sua conta entre junho e julho de 2017. Foram 48 depósitos de R$ 2 mil em sequência, em dinheiro vivo. Tudo dinheiro picado.
Dinheiro depositados pelos assessores na conta de Queiroz e depois depositados pelo Queiroz na conta de Flávio?
Por que depósitos picados em dinheiro vivo? Para fugir dos controles? É o que as investigações vão ter que esclarecer.
O que a Globo dá a entender é que se trata de uma amostra, de uma movimentação de um período. Deve ter mais.
Chegaram ao filho de Bolsonaro com provas, com grana, e não com conversas.
Mas Lula continua preso e Flavio Bolsonaro e Queiroz continuam soltos.

MARCO AURÉLIO JOGA NO LIXO A ESTRATÉGIA DOS BOLSONAROS

É a manchete do Globo agora. O ministro Marco Aurélio vai determinar que o caso de Fabrício Queiroz continue na primeira instância no Rio.
Foi destruída a estratégia (politicamente desastrosa) da família Bolsonaro de buscar refúgio no Supremo e de anular as provas sobre as movimentações da conta do laranja de Flavio Bolsonaro.
Aqui está o que Marco Aurélio antecipou ao Globo:
“Vou decidir em 1º de fevereiro o que eu faço normalmente com reclamações como esta. O Supremo não bateu o martelo que o foro deve existir para fatos ocorridos no cargo, e em razão do cargo? É por aí. O ministro Fux não seguiu a jurisprudência do meu gabinete. Estou cansado de receber reclamações desse tipo (como as de Flavio Bolsonaro). Processo não tem capa, tem conteúdo. Tenho negado seguimento a reclamações assim, remetendo ao lixo. O tribunal não pode dar uma no cravo, uma na ferradura”.
O recado está claro. O processo não tem capa. Marco Aurélio dá a entender que seu colega Luiz Fux levou em conta o poder da família ao tomar a decisão que protegeu Flavio Bolsonaro. Repetindo: o processo não tem capa, ou não deveria ter.
É caso encerrado. O baile segue no Rio. Agora é tudo com o Ministério Público. Que chance de ouro para o MP mostrar que não se submete às ordens dos Bolsonaros.

A ERA DA CHINELAGEM

Cheguei a pensar que Fabrício Queiroz seria alguém com o glamour do malandro carioca. O laranja com ginga, uma mistura cinematográfica do trambiqueiro da Lapa e da empáfia do policial militar com anos de rua e quartel.

Imaginei que Queiroz seria um Zé Carioca capaz de passar a conversa nos eleitores de Bolsonaro do Parcão e até nos que sabiam que era um operador da família. Esperava que Queiroz tivesse um mínimo de capacidade de argumentação e convencimento.

Cheguei a temer que ele surgisse de repente e hipnotizasse o Brasil com sua conversa de pilantra que aprendeu a movimentar fartos dinheiros com a maestria dos melhores estelionatários cariocas.

Mas Queiroz me decepcionou. Nem amador ele é. Queiroz é um chinelão que desonra os ajudantes de corruptos, os laranjas com um mínimo de categoria como contraventores. Seria bom se não tivesse aparecido. Que continuasse escondido.

Queiroz ofende mulas e laranjas, o PC Farias de Collor, o Paulo Preto de José Serra, o Rocha Loures do jaburu, o primo de Aécio, o Pedro Barusco que roubava para os tucanos na Petrobras.

Queiroz é um laranja charlatão que achou, como seus chefes deviam achar, que nunca seria pego, porque nem os Bolsonaros acreditavam que o líder do clã seria um dia presidente.

Queiroz, o cara de negócios, é a cara dos Bolsonaros. Como um deles era seu comandante, espero que não se ofendam com o elogio. Estamos diante da maior chinelagem produzida pela política brasileira.

O motorista-cofre que arrecadava dinheiro e repassava trocos para a mulher de Bolsonaro é a imagem e o caráter do Brasil bolsonarista.

É alguém sem condições de entrar na galeria de retratos dos grandes laranjas verde-amarelos. O que o Ministério Público fará com Queiroz, o homem que compra, vende, troca, faz dinheiro?

Queiroz não é nem mesmo uma goiaba. O motorista faz-tudo que movimentou R$ 1,2 milhão materializa a imagem do governo antes do governo existir.

A extrema direita rebaixou e desmoralizou até os laranjas.

QUEIROZ E OS FANTASMAS DO SUL

Por que o Fantástico veio atrás de um assessor fantasma de um deputado do Rio Grande do Sul e não foi atrás do mais famoso assessor fantasma do Brasil hoje?
Por que a Globo não tenta localizar o fantasma maior entre os muitos fantasmas que trabalhavam para o deputado Flavio Bolsonaro?
Por que a Globo caça fantasmas em Porto Alegre e Livramento e não procura Fabrício Queiroz no Rio?
Por que não manda um repórter disfarçado, como aconteceu aqui, para falar com as filhas de Queiroz, que também são fantasmas?
Vou dizer por que. Porque a Globo precisa de um álibi para sair atrás da quadrilha do Rio que pode abalar não um Bolsonaro, mas toda a família Bolsonaro.
Porque agindo assim, fazendo escaramuças por aqui, a Globo pode dizer que procura fantasmas onde estiverem. E que pode então sair à procura dos fantasmas bolsonarianos.
É um bom pretexto. Caça os fantasminhas do Sul para poder caçar depois os fantasmas graúdos do Rio.
Esperem que eu esteja certo.

QUEIROZ

A notícia que corre hoje é para assustar quem pensa que sabe quem é Fabrício Queiroz, o motorista sumido, ex-assessor do deputado Flavio Bolsonaro. Queiroz foi policial militar no Rio.
Ancelmo Gois, colunista do Globo, informa o seguinte: um conhecido do ex-policial diz que na ficha dele na PM há muitos registros de participações em autos de resistência.
E continua a informação. Funciona assim: o policial mata um suposto “suspeito”, alega legítima defesa e que houve resistência à prisão. A ocorrência é registrada como “auto de resistência” e as testemunhas são os próprios policiais que participavam da ação. O crime quase nunca será investigado.
Diz mais Ancelmo Gois. Apesar de não haver uma lei específica que o defina, o auto de resistência tem amparo no artigo 292 do Código de Processo Penal, que diz: “Se houver, ainda que por parte de terceiros, resistência à prisão em flagrante ou à determinada por autoridade competente, o executor e as pessoas que o auxiliarem poderão usar dos meios necessários para defender-se ou para vencer a resistência, do que tudo se lavrará auto subscrito também por duas testemunhas”.
O artigo, no entanto, não prevê quais são a regras para investigação em casos de excessos.
Esse é o perfil básico do cara desaparecido. É com quem os Bolsonaros se meteram.

A DESCULPA DO MOTORISTA

O que o motorista Fabrício Queiroz irá dizer amanhã aos promotores sobre a conta que movimentou R$ 1,2 milhão, incluindo os R$ 24 mil depositados na conta da futura primeira-dama?

Vou antecipar uma desculpa possível. Aí está, para quem quiser anotar:

O motorista vai dizer que os assessores do deputado Flavio Bolsonaro depositavam parte dos salários (ou o salário inteiro, às vezes por engano) na conta dele porque ele é quem centralizava o recebimento de doações para uma igreja.

O motorista sacava depois os valores e encaminhava as doações em dinheiro vivo. Vão aparecer recibos dessas doações a uma ou mais igrejas do Rio. Tudo dinheiro da fé, porque os assessores têm Deus acima de todos.

Flavio Bolsonaro não sabia de nada. Bolsonaro pai também não. Nem os outros dois irmãos. Só ele, os doadores, o pastor e Deus.

Bolsonaro pai só sabia da devolução dos R$ 24 mil do empréstimo que havia feito ao motorista. O dinheiro foi parar na conta da mulher de Bolsonaro, como já se sabe, porque Bolsonaro não ia nunca ao banco (só passou a ir, quase todos os dias, depois de eleito, para conferir o saldo num caixa eletrônico da Barra da Tijuca).

A história das doações já está acertada com os doadores. Poderemos ter o depoimento de um pastor, que irá chorar no Jornal Nacional ao contar que recebia essa dinheirama dos assessores fantasmas de Bolsonaro.

Onde ele aplicou o dinheiro? O dinheiro se misturou a outros dinheiros que ele recebe e está no meio da confusão da contabilidade de uma igreja, que sempre é complicada.

O motorista também irá dizer que a movimentação não aparece no seu Imposto de Renda porque ele é um sujeito muito atrapalhado. Mas que logo irá ajustar isso com a Receita.

Pronto, está explicado. E teremos então o período de festas diversas, até março, quando tudo terá sido esquecido.

(A outra desculpa, mais complicada, pode ser esta: os assessores pagavam todo mês pela compra de perfumes, enfeites e bugigangas que Queiroz negocia no Rio. Depositavam logo depois do recebimento dos salários porque isso, é claro, era o combinado.)

OLHA ELE AÍ, GENTE

O motorista teve o que os suspeitos da direita sempre têm, o direito de não ser incomodado para poder fazer contas e tentar colocar cada centavo de uma movimentação de R$ 1,2 milhão no seu quadrado.
Fabrício Queiroz depõe amanhã ao Ministério Público do Rio, duas semanas depois de denunciado como laranja dos Bolsonaros.
Todos estavam preocupados com seu sumiço, mas já estava tudo agendado bem bonitinho com os promotores. A direita sempre recebe bons prazos, para não cometer erros.
A grande pergunta é: o cara vai assumir tudo sozinho?
Claro que vai. Mas agora teremos as festas, a posse, o Carnaval, o Brasil em estado de felicidade geral.
Por tudo isso, é bem provável que não dê em nada. Com os laranjas dos tucanos nunca deu.

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