A vez do entregador de gás?

Com a decisão do Supremo que libera os dados do antigo Coaf para investigações, vai começar tudo de novo.
Queiroz, laranjas, milicianos, Flavio Bolsonaro, empréstimo de Bolsonaro para o Queiroz, depósito de Queiroz para a mulher de Bolsonaro.
A família volta a ser notícia, até surgir um novo impasse que tranque tudo mais uma vez, ou até aparecer um novo personagem misturado aos milicianos, um jardineiro, uma faxineira, um entregador de gás ou até outro porteiro.

A carta de Getúlio e o voto de Toffoli

A carta-testamento de Getúlio Vargas, o mais dramático documento da política brasileira, pode ser lida em três minutos, sem nenhuma pressa.
O gongórico voto de Dias Toffoli sobre o imbróglio do Coaf, que poderá livrar a cara de Queiroz, dos milicianos e de Flavio Bolsonaro, durou mais de quatro horas.
No tempo usado por Toffoli, poderiam ser lidas pelo menos 80 cartas-testamento.
Getúlio foi breve para dizer que havia resistido até o seu limite, em defesa dos interesses do povo, e que iria se matar para entrar para a História.
Toffoli usou quatro horas para tentar enrolar todo mundo e dizer que talvez esteja saindo da História da pior forma possível.
Getúlio era muito singelo. Não tinha a verve do latim exuberante de um Dias Toffoli.

O PODER DE QUEIROZ

O áudio em que Queiroz ressurge como participante da partilha de cargos dos Bolsonaros em Brasília é um deboche largado no colo do Ministério Público, do Supremo e de todo Brasil alienado e acovardado.
“Tem mais de 500 cargos lá, cara, na Câmara e no Senado. 20 continho caía bem”, diz o chefe dos laranjas dos Bolsonaros.
Não interessa se ele está blefando. O blefe também é um deboche. O que o miliciano diz é que ele sabia de tudo no Rio e agora sabe como as coisas funcionam em Brasília.
Queiroz pode aparecer amanhã dizendo que ele é quem chefia a distribuição de cargos nos gabinetes do pai e dos filhos, e não acontecerá nada.
Queiroz tem o controle da situação e da família. Os Bolsonaros brigam com aliados, com generais, com a China, com a Argentina, mas não brigam com Queiroz.
Em qualquer democracia séria, polícia, Ministério Público e Judiciário seguiriam os passos, o dinheiro, os laranjas e os empréstimos de Queiroz para chegar aos donos do poder.
O Ministério Público do Rio bem que tentou, mas foi amordaçado pelo Supremo. Queiroz é mais temido pelos Bolsonaros do que os generais dissidentes.
Os generais mandados embora nem tropas têm mais. Queiroz tem as milícias e conhece tudo o que os Bolsonaros fizeram nas últimas décadas.
Queiroz vale muito mais do que vinte continhos.

A CONFISSÃO DE BOLSONARO

Quando disse, lá em dezembro, que os R$ 24 mil depositados por Fabrício Queiroz na conta de Michele Bolsonaro eram parte da devolução de um empréstimo, Bolsonaro largou uma senha. Poucos prestaram atenção no seguinte detalhe.

Bolsonaro disse que, além dos R$ 24 mil, tinha mais dinheiro de mais empréstimos para Queiroz. “Foram vários”, disse Bolsonaro.

Lembrem o que ele disse:
“Não é apenas esta vez. O Coaf fala que foram R$ 24 mil. Na verdade foram R$ 40 mil. Foi uma dívida que foi se acumulando dele até que eu cobrei dele e a maneira de cobrar foi o quê? Me dá um cheque”.

O que ele estava querendo dizer? Que se preparava para outras movimentações que poderiam aparecer. E agora finalmente vão aparecer, com a quebra pela Justiça do sigilo bancário de Flavio Bolsonaro e de Queiroz. R$ 40 mil são o troco.

Vai saltar dinheiro pra todo lado. O Ministério Público terá acesso às movimentações dos dois desde 2008. Bolsonaro deve se preparar para mais explicações, apesar de um detalhe importante: as investigações correm em segredo de Justiça.

Vai ser difícil ter vazamento do que irá rolar a partir de agora e que pode empurrar todos os Bolsonaros para o penhasco. Só haveria vazamento se Sergio Moro estivesse comandando o caso e o acusado fosse do PT, como ele fez (e admitiu que fez) com a conversa de Lula e Dilma.

Muitos outros vazamentos foram feitos pela Lava-Jato, ou os jornais não teriam acesso às informações das delações. A Lava-Jato só foi adiante porque vazou informações seletivas aos borbotões para os amiguinhos da imprensa.

Quem vai vazar, se é que vai, as informações sobre as contas dos Bolsonaros, que conseguiram dinheiro para investir R$ 15 milhões só em imóveis no Rio?

Aguardemos, sem perder a esperança. O Ministério Público não é todo da direita.

#CadêOQueiroz?

A Globo encontrou até a viúva de Pablo Escobar para uma entrevista no Fantástico, mas não encontra o Queiroz.
A Folha encontrou o manifestante atropelado por um tanque nas ruas de Caracas, mas não encontra o Queiroz.
O Estadão encontrou o último deputado liberal perdido entre bolsonaristas na Câmara, mas não encontra o Queiroz.
Os jornais são capazes de encontrar o último cágado das ilhas de Ubatuba. Mas não encontram o Queiroz.
Sergio Moro pode até dizer que não é com ele, porque ele não interfere em mais nada desde que saiu de Curitiba. Mas nós podemos perguntar: cadê o Queiroz, Sergio Moro?

QUEIROZ DESAFIA O MINISTÉRIO PÚBLICO

A Folha finalmente voltou a falar do Queiroz, para mostrar que o amigo dos Bolsonaros não está nem aí para o Ministério Público. Transcrevo toda a reportagem, porque há horas digo que a Folha deixou o Queiroz em paz.

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FOLHA DE S. PAULO
Queiroz completa 40 dias sem apresentar assessores informais de Flávio
Ex-assessor de Flávio Bolsonaro prometera informar os que receberam remuneração informal
Italo Nogueira
RIO DE JANEIRO
Mais de 40 dias após afirmar ao Ministério Público do Rio de Janeiro que coordenava uma “desconcentração de remuneração” no gabinete de Flávio Bolsonaro (PSL-RJ), Fabrício Queiroz ainda não entregou a lista dos funcionários informais que atuavam para o então deputado estadual e hoje senador.
Na petição entregue em 28 de fevereiro à Promotoria, a defesa de Queiroz havia informado que disponibilizaria nomes e endereços dos beneficiários “com o fito [objetivo] de comprovar todas as questões aduzidas”.
Alvo de investigações cível e criminal por movimentação financeira atípica, o ex-assessor de Flávio disse por meio de sua defesa que recolhia parte do salário dos funcionários do gabinete para distribuir a outras pessoas que também trabalhavam para o então deputado estadual. Segundo ele, Flávio não tinha conhecimento da prática.
Embora tenha se comprometido a fornecer as informações sobre os “assessores de base”, como chamou, Queiroz não tem prazo nem sequer é obrigado a apresentar os nomes ao Ministério Público. A versão é vista com reservas por investigadores.
Único ex-assessor de Flávio a prestar depoimento presencial, o policial militar Agostinho Moraes da Silva não relatou a prática de “desconcentração de salários”. Silva disse aos promotores em janeiro que repassava quase dois terços de seu vencimento para investimento na compra e venda de carros que rendiam, segundo o relato, até 18% ao mês.
A versão de Queiroz sobre a contratação de assessores informais para Flávio teve como objetivo explicar a movimentação atípica de R$ 1,2 milhão em sua conta bancária entre janeiro de 2016 e janeiro de 2017 identificada pelo Coaf (Conselho de Controle das Atividades Financeiras).
Além do volume movimentado, chamou a atenção a forma de operação, com seguidos depósitos em dinheiro em espécie de altos valores e saques subsequentes. A entrada do dinheiro ocorria logo após as datas de pagamentos dos servidores da Assembleia, o que levantou a suspeita da prática da “rachadinha” —devolução de parte do salário do funcionário.
O Coaf também identificou transferência de ao menos dez funcionários do gabinete de Flávio para Queiroz, incluindo a filha e a mulher do PM aposentado. Todos foram intimados a depor no fim do ano passado e são alvo das investigações cíveis e criminais —incluindo mulher e a mãe do ex-PM Adriano da Nóbrega, foragido apontado como chefe da milícia de Rio das Pedras.
Os dois procedimentos são sigilosos, motivo pelo qual o Ministério Público não se pronuncia sobre seu andamento.
A Folha apurou que não foram feitas novas intimações para depoimento desde o ano passado. Os promotores ainda aguardam o levantamento de informações cadastrais de investigados para avaliar o andamento.
O mesmo trabalho está sendo feito nos procedimentos que envolvem outros 26 deputados e ex-deputados estaduais mencionados no relatório do Coaf. Há políticos de 13 partidos sob investigação, incluindo DEM, MDB, PSC, PSOL e PT —este último, envolvendo o presidente da Assembleia, André Ceciliano (PT).
A defesa de Queiroz afirmou “que já prestou os esclarecimentos necessários e aguarda o momento processual adequado para se manifestar novamente”.
“A defesa de Fabrício Queiroz se surpreende que, por mais que existam 20 inquéritos instaurados, o único que desperta a curiosidade insaciável de parte da mídia é o seu, chegando a desprezar fatos muito mais relevantes, como por exemplo a movimentação de uma assessora de mais de R$ 50 milhões”, afirmou, em nota, a defesa de Queiroz.
O senador Flávio Bolsonaro disse que não iria comentar o caso.

OS AMIGOS DO QUEIROZ 

Lauro Jardim, que vem metendo furo em cima de furo no Globo sobre o rolo dos Bolsonaros, informa que o motorista laranja está bem protegido.
Fabrício Queiroz refugiou-se na favela do Rio das Pedras, na zona oeste do Rio, desde que saiu do hospital.
O jornalista diz que a favela é dominada da primeira à última rua pela milícia mais antiga do Rio. Queiroz foi em busca dos amigos leais.
Muita gente já sabia com quem os Bolsonaros estavam (ou ainda estão) metidos.
Será que os Bolsonaros agiriam com sensatez se decidissem abandonar Queiroz com seus amigos no Rio das Pedras?

BOLSONARO E SERGIO MORO NO AVIÃO

Bolsonaro embarca no avião presidencial que vai levá-lo a Davos e logo manda chamar Sergio Moro, que havia sentado bem ao fundo, na janelinha da direita.

O ministro da Polícia senta-se ao lado do presidente e ouve sua ordem, com alguma rispidez: é preciso parar com os vazamentos no Coaf.

O presidente diz que as informações sobre a dinheirama de Queiroz e de Flávio Bolsonaro, vazadas para a Globo, vão destruir o filho, a família, o governo e o Brasil.

– Você manda no Coaf – afirma Bolsonaro.

Sergio Moro responde com a voz um pouco mais fina do que a normal.

– Mas não consigo controlar essa gente. As investigações foram feitas antes da minha chegada. Eles não são dos nossos no comando do Coaf.

– Mas você pode conter os vazamentos contra o meu filho.

– Vou ver se posso. Eu mesmo vazei, e vazei muito, quando comandei a Lava-Jato. O grampo da Dilma na conversa com Lula foi vazado por mim para a Globo.

– Eu me lembro.

– Eu sempre vazei o que era possível vazar e sempre argumentei com essa frase, que disse num seminário da revista Veja, em novembro de 2017: “Não cabe ao Judiciário ser guardião de segredos sombrios”.

– E daí? Agora não há segredos sombrios. Nada na minha vida é sombrio, nem o Queiroz.

– Eu sempre repeti que o interesse público está acima disso tudo, que a divulgação de fatos investigados ajuda a missão do Judiciário contra a corrupção – diz Sergio Moro.

– É complicado isso daí.

– O senhor estava nesse seminário. Essa outra frase também é minha: “Dentro de uma democracia liberal como a nossa, é obrigatório que essas coisas sejam trazidas à luz do dia”.

– Que coisas? Tudo?

– Estou falando da Lava-Jato. Não falo do senhor e dos seus filhos, que são honestos. Mas o que eu gostaria mesmo é de ficar em silêncio e só falar em juízo.

– Mas você não está sendo processado.

Moro passa a mão na testa e fala com a voz ainda mais fina, como se fosse a voz de um adolescente em falsete:

– É verdade, meu presidente.

Bolsonaro pede então que Sergio Moro se retire. Quando o ministro da Polícia se levanta, Bolsonaro determina:

– Agora me chama o Onyx.

E Onyx, que está bem no fundo do avião, conferindo notas de gastos numa lancheria de Brasília, caminha firme em direção à poltrona presidencial.

O avião começa a taxiar na pista e o comandante anuncia aos ilustres passageiros:

– Iniciamos nesse momento nossa viagem com Deus acima das nuvens e de todos.

Bolsonaro toma um gole de suco de laranja e diz a Onyx:

– Preciso da tua ajuda.

O avião balança, como se tivesse entrado numa zona de turbulência, mesmo estando no solo, o copo pula e vira o suco de laranja na gravata amarela de Bolsonaro.

MAIS UM TIRO

A Globo tem mesmo munição para uma guerra longa (ou que talvez venha a ser curta). A manchete do jornal O Globo de hoje pode acabar com tudo: Fabrício Queiroz movimentou R$ 7 milhões em três anos.

É de novo informação do Coaf para o colunista Lauro Jardim. Agora, entende-se o que levou Bolsonaro a tirar o Coaf da Fazenda e transferi-lo para o Ministério da Polícia de Sergio Moro.

O ex-juiz foi usado numa manobra desesperada para que o Coaf seja controlado pela família. Claro que os informantes, com dados conseguidos muito antes da chegada de Moro, não estão sob o controle do ex-juiz.

A Globo é abastecida por gente que Sergio Moro pôs a correr da direção do órgão quando assumiu o Coaf.

Moro cometeu um erro ao demitir Antonio Carlos Pereira de Sousa do comando do Coaf como se caçasse um inimigo. O Coaf tem uma equipe de 37 técnicos.

Os vazamentos são parte da vingança desses técnicos contra o esquema montado para que o bolsonarismo tivesse o controle absoluto das atividades de controladoria da movimentação de dinheiro sujo.

Moro achou, por excesso de soberba, que ainda estava em Curitiba. Foi politicamente amador. Pode estar mandando para o ralo sua estratégia de usar o Ministério da Polícia para chegar ao Supremo.

Só um milagre ou uma gigantesca manobra imoral seriam capazes de oferecer um desfecho “feliz” (para eles, os Bolsonaros e sua turma) nesse caso.

Uma manobra imoral do tamanho da que derrubou Dilma ou da que levou Lula para o cárcere. Ou a direita não tem mais como manobrar?

Bolsonaro não deveria ter autorizado o porte de armas para um jornalismo que hibernava desde o golpe, sem saber direito como iria sobreviver.

Está sendo bombardeado pelo grupo que ajudou a criá-lo como solução para acabar com o lulismo.

Bolsonaro salvou o jornalismo da Globo e pode salvar toda a Globo.

O DINHEIRO DO CHEFE DO QUEIROZ

No dia em que apareceu o dinheiro de Flávio Bolsonaro, arranjaram um jeito de fazer Palocci reaparecer.
Palocci disse hoje em mais uma delação que levou dinheiro de propina para Lula. Prova? Nada. Nenhuma.
A delação de Palocci só existe para produzir notícia em momentos difíceis para a direita.
Nunca acharam contas em nome de Lula ou dinheiro com Lula.
Pois hoje, no mesmo dia da acusação sem provas de Palocci, apareceu uma prova concreta, com dinheiro, contra Flávio Bolsonaro. Furo do jornalismo da Globo, a partir de informações do Coaf.
Flávio, o chefe do Queiroz, recebeu R$ 96 mil em sua conta entre junho e julho de 2017. Foram 48 depósitos de R$ 2 mil em sequência, em dinheiro vivo. Tudo dinheiro picado.
Dinheiro depositados pelos assessores na conta de Queiroz e depois depositados pelo Queiroz na conta de Flávio?
Por que depósitos picados em dinheiro vivo? Para fugir dos controles? É o que as investigações vão ter que esclarecer.
O que a Globo dá a entender é que se trata de uma amostra, de uma movimentação de um período. Deve ter mais.
Chegaram ao filho de Bolsonaro com provas, com grana, e não com conversas.
Mas Lula continua preso e Flavio Bolsonaro e Queiroz continuam soltos.