Indústria

Este é o título do artigo de Fernando Haddad na edição de domingo da Folha:
Indústria
Só uma palavra e uma palavra sem o menor apelo de leitura. Se o título fosse “A árvore”, chamaria mais a atenção.
Nesses tempos em que todo mundo tenta (ou deveria tentar) escrever para além da bolha de amigos e parentes, Haddad não pode titular um artigo como ‘Indústria’.
Imaginem daqui a alguns dias Haddad escrevendo sobre as redes sociais e o mundo virtual e titulando seu artigo assim:
Internet
Alguém deve dizer a Haddad que não pode, mesmo que para muitos um alerta possa significar uma crítica, e para a esquerda profissional uma crítica ao professor pode não pegar bem.
A esquerda profissional é muito sensível.
(O texto de Haddad é sobre a ausência de uma burguesia industrial no Brasil e, para completar, foi ilustrado pela Folha na versão online com uma foto de Eduardo Bolsonaro na Fiesp. Desastre total.)

OS PERIGOS DAS HONRARIAS

A medalha do Mérito Farroupilha iguala o véio da Havan e Fernando Haddad, o filho de Bolsonaro e Jean Wyllys.
É uma questão ingrata a ser debatida e não escamoteada. Se ninguém da esquerda for homenageado, a direita se adona da honraria e da vitrine que a homenagem da Assembleia gaúcha proporciona.
Mas, se o duelo direita-esquerda continuar, daqui a pouco a esquerda oferece a medalha a Chico Buarque e a direita põe o adorno no pescoço do Queiroz.
O que fazer? Continuar nesse jogo, até a homenagem se tornar uma afronta e ser rejeitada, ou tentar discutir critérios nesses tempos sem critério algum?
Boa parte da esquerda profissional prefere ficar quieta, porque é assim mesmo. E assim mesmo vai ficando.
“Os prêmios, as condecorações e os títulos são todos perigosos”, disse um dia o escritor Sinclair Lewis.
Sartre, John Lennon, Marlon Brando e tantos outros recusaram honrarias. David Bowie esnobou a condecoração da Ordem do Império Britânico.
Sabemos de escritores gaúchos que se negam a ser incluídos na lista de possíveis patronos da Feira do Livro. É um direito.
As medalhas estão cada vez mais perigosas.

ALÉTICA E DEÔNTICA

A coluna da Monica Bergamo está sensacional, com a reprodução de trechos da sentença que condenou Fernando Haddad pela acusação de caixa dois.
O que ela conta:
“A sentença do juiz Francisco Shintate, que condenou Fernando Haddad a quatro anos e seis meses de prisão por crimes eleitorais, tem mais de 500 páginas. O magistrado só começa a examinar o caso concreto na 361.
Nas páginas anteriores, ele fala sobre linguística — “veículo sígnico (o suporte físico), designatum ou significatum (a significação) e denotatum (o significado)” —, de lógica “alética e deôntica” e inclui citações de 50 páginas contínuas de trechos de livros.
O juiz chega a usar dezenas de fórmulas de lógica formal, como “(-q v -r –S)”. E esclarece: S é a relação processual entre “sujeito da relação primária e o Estado, titular do monopólio da coação”.
Enquanto isso, Onyx Lorenzoni, o caixa três, está solto e cuida do melhor sistema de esquartejamento para privatização da Petrobras.
A direita ocupou todas as áreas e está colocando fogo na Amazônica, na educação e no Judiciário.
Essa sentença parnasiana é mais um devaneio de alguém que teve frustrado o sonho de ser escritor ou professor. Mas no século 19.

História

Fernando Haddad na entrevista a Monica Bergamo na Folha:
“No dia da eleição, botei o CD do Renato Braz e ouvi “O Fim da História”, do Gilberto Gil. A letra fala do muro de Berlim, que foi construído e depois destruído, do Lampião, que era herói, virou demônio e voltou a ser herói. Fiquei emocionado de chorar. Poxa, estou vivendo o momento dessa música. Porque na política ninguém perde a guerra. Não existe a guerra, com começo, meio e fim. É só batalha. Uma atrás da outra”.

Tocaia

A GloboNews formou uma roda com sete jornalistas para cercar Fernando Haddad ontem. Ali é sempre assim, eu sei.
Mas existe em algum lugar um jornalismo com esse modelo, em que o entrevistado é cercado por sete inquisidores? Sete!!!
A tática é a mesma do futebol. Um faz a primeira falta no tornozelo, o outro vem e ataca com o cotovelo e depois surge mais outro, sempre tentando atacar pontos vulneráveis, em rodízio, para minar a resistência do adversário.
A GloboNews dos entrevistadores de olhos arregalados é uma patologia a ser estudada nas escolas de comunicação.
Que estudem também como a caça, no caso Haddad, conseguiu reagir com força aos ataques, como se tivesse sido tocaiado por hienas.
Haddad mostrou a cada um (com uma dose certa de ironia) que todos estavam despreparados para o cerco. E que todos eles contribuem, sim, para fomentar os ódios que dizem condenar.