O GESTO DE FERNANDO HENRIQUE

Ciro Gomes e Guilherme Boulos já assumiram o compromisso com a democracia. Eu teria votado em qualquer um deles no primeiro turno, se não tivesse a convicção de que o candidato mais forte era mesmo Haddad, não só por ser do PT.
Ciro e Boulos são decisivos agora, mas talvez não sejam suficientes. O Brasil precisa de outros engajamentos, para que uma tragédia não seja consumada.
Sim, eu falo de Fernando Henrique Cardoso, com todos os limites, os conflitos e as contradições que envolvem os interesses dos tucanos em São Paulo.
É a grande chance de Fernando Henrique se reconciliar com suas origens na resistência contra a ditadura.
Se Fernando Henrique declarar apoio ao projeto que pode derrotar o fascismo, o Brasil estará diante de um dos mais grandiosos gestos da política de todos os tempos. Por sua força real e simbólica.
Se Fernando Henrique se juntar aos que podem evitar uma tragédia, a História irá registrar o ano em que a grandeza política passou por cima de ressentimentos e diferenças para salvar a democracia.

O SINHOZINHO FICOU MAL

Com a barbeiragem na tentativa de emplacar Luciano Huck como candidato tucano, Fernando Henrique Cardoso virou a figura folclórica do PSDB.
O sinhozinho que liderava a mesa dos chefes tucanos no Restaurante Fasano hoje é como aquele tio-avô que todo mundo ouve, por formalidade, mas ninguém mais leva a sério.
A estratégia com Huck é coisa de coronel. FH jantou com o preposto da Globo no restaurante e combinou que sairia a dar entrevistas a rádios e jornais defendendo o pupilo.
Depois, era só esperar a reação dos parceiros. Ele seria o fiador de Huck. Foi chamado de caduco.
FH poderia ter optado pela construção de um protagonismo de estadista. É um ex-presidente enfiado em brigas miúdas do partido e nas lambanças contra Lula.
Um dia ainda teremos a exata noção da sua mediocridade também como governante que vendeu estatais a preço de banana e quebrou o país no segundo mandato.
Luciano Huck é a cara de Fernando Henrique, apenas com um nariz mais potente.

FH mudou de novo

Fernando Henrique Cardoso larga uma cópia por dia de uma nota em que pede a renúncia do jaburu-rei e adere à campanha das Diretas. A nota saiu na Lupa da revista Piauí ontem e hoje saiu no Globo.

Mas ninguém mais dá bola para Fernando Henrique. Porque FH é muito enrolado. A revista Piauí flagrou as contradições do príncipe, que uma hora quer que o jaburu fique, outra hora pede que renuncie.

Hoje pelo menos ele está do lado certo. Amanhã pode mudar. Mas os tucanos que seguem Fernando Henrique cabem num lado da mesa do restaurante Fasano.

O outro lado era ocupado por José Serra e Aécio, que sumiram. Os ouvintes de FH hoje são o Tasso Jereissati e o Aloysio Nunes Ferreira. Mas Aloysio só vai ao almoço, porque defende que o jaburu resista. E nem o Jereissati sabe a própria posição a respeito do jaburu.

Vamos aguardar, sem pressa, a próxima nota ou a próxima entrevista de FH.

http://piaui.folha.uol.com.br/lupa/2017/06/15/contradicoes-fh-governo-temer-psdb/

A confusão que não interessa aos golpistas

Fernando Henrique Cardoso, o legalista seletivo, acha que o Tribunal Superior Eleitoral não deve cassar o homem do Jaburu. Uma cassação complicaria o ambiente político. Que cassem de novo apenas Dilma Rousseff e tudo estará resolvido.

FH disse em entrevista à Rádio CBN (ele dá uma entrevista por dia): “Já temos tantas dificuldades hoje, o Congresso ainda vai eleger uma pessoa pra ser presidente por um ano? É mais confusão”.

Na hora de golpear Dilma, tudo o que eles queriam era confusão, porque deveriam, segundo gente como FH, puni-la pelo crime das pedaladas. Mas para cassar o chefe do Jaburu, aí surgem então as desculpas da governabilidade.

Mas governabilidade com a quadrilha do Jaburu? E isso que dizem que Fernando Henrique é a reserva moral dos tucanos.

Os candidatos

Nomes que circulam nas altas rodas da sociedade frequentada pela imprensa dita independente como possíveis candidatos numa eleição indireta para presidente em 2017.

Aí estão 10 nomes, mas é claro que podem ser acrescentados muitos outros. O Brasil espera ansioso esta eleição indireta, quando nada será impossível.

Dizem que a Globo vem tentando incluir nas listas o nome do Galvão Bueno. E a Fiesp se queixa de que as listas não incluem o pato amarelo.

E não temos mais a Dercy Gonçalves para gargalhar disso tudo… ou para também ser candidata.

Eis os nomes:

1 – Fernando Henrique Cardoso.

2 – Cármen Lúcia.

3 – Nelson Jobim.

4 – Joaquim Barbosa.

5 – José Serra.

6 – Gilmar Mendes.

7 – Ayres Brito

8 – Roberto Justus.

9 – Luciano Huck.

10 – Ronaldo Nazário (indicado pela CBF).

 

A Odebrecht e o ex-presidente (Parte 2)

Este texto de Elio Gaspari foi publicado em 10 de novembro de 2002, na Folha de S. Paulo, quando os empreiteiros tinham os mesmos interésses, como diria Brizola, mas os amigos eram outros. 

Registre-se que, apesar da advertência contida no texto, o então presidente, ainda no poder, foi até o fim e ganhou de presente, com a vaquinha de empreiteiros e outros empresários, a sede para o seu instituto.

Publico o texto de Gaspari na íntegra:

FFHH deve suspender a coleta do Alvorada

Elio Gaspari

FFHH deve suspender a coleta de fundos para a sua ONG, o Instituto Fernando Henrique Cardoso. Deve-se ao doutor Cardoso a fundação de uma das instituições que mais influenciaram o pensamento político brasileiro. Foi o Centro Brasileiro de Análise e Planejamento, o Cebrap, em 1969. Agrupava professores expulsos da USP, teve a ajuda de empresários e o amparo da Fundação Ford. É uma linda história de sucesso. Não fica bem para o professor, hoje um presidente em fim de mandato, coletar fundos reunindo empresários para jantar no Palácio da Alvorada como fez na última segunda-feira.

Em 1969, tratava-se de financiar uma instituição de intelectuais proscritos. Pelo menos um banqueiro fez sua doação depois de obter um “nihil obstat” do poderoso ministro Antonio Delfim Netto, da Fazenda.

Agora a situação é outra. O presidente da República reuniu 12 empresários. Lá estavam Emílio Odebrecht, Benjamin Steinbruch (CSN), Pedro Piva (Klabin), e David Feffer (Suzano). Todos quatro comandam grandes empresas financiadas pelo BNDES. A Klabin está com um empréstimo de R$ 450 milhões pronto para sair do forno. Os três primeiros, além de terem recebido financiamentos do velho e bom banco, renegociam parte de seus débitos. Juntos compõem uma carteira de pelo menos R$ 2 bilhões. À mesa estava também o banqueiro Lázaro Brandão (Bradesco), que emprestou algum a todos os demais e tem um justo interesse em receber o seu de volta.

Com exceção da Klabin, os outros quatro compraram parte do patrimônio da Viúva durante a grande liquidação tucana. Em alguns casos compraram empresas pequenas, em outros, gigantes, como a Vale do Rio Doce, que ficou com Steinbruch (R$ 391 milhões no BNDES) e hoje está com o Bradesco. O empresário Jorge Gerdau, que estava no jantar comprou umas poucas coisas. Numa demonstração de que o país vive bons tempos, tanto ele como Steinbruch, estavam na quinta-feira numa reunião com Lula. Nela, o Bradesco tinha outro representante.

Como na gerência de quermesses, cada um ficou com a tarefa de conseguir interessados em subscrever cotas da ONG do futuro ex-presidente. FFHH deve suspender essa arrecadação porque não tendo feito em oito anos de mandato nenhuma loucura presidencial, não tem porque fazê-la agora. Bill Clinton, por exemplo, alugava quartos na Casa Branca em troca de doações ao partido Democrata. Ronald Reagan teve uma vaquinha de empresários e ganhou uma casa de presente.

Pode-se argumentar que FFHH tem a virtude de arrecadar recursos às claras. Verdade. Pode-se também dizer segue a norma de presidentes americanos que aceitaram doações de empresários para organizar suas bibliotecas e centros de estudo. Falso, por duas razões. Os presidentes americanos não ficam na política, como FFHH já mostrou que vai ficar. Ademais, e aí é que a porca torce o rabo, nos Estados Unidos não há BNDES. Falta à boa cultura capitalista americana a figura do grande empresário com dívida e/ou rolagem no banco estatal.

São muitas as dificuldades dos empresários nacionais, sobretudo daqueles que, como os Klabin, Suzano e Steinbruch, produzem mercadorias. É justo, racional e necessário que uma economia como a brasileira tenha um banco de desenvolvimento como o BNDES. O que não faz sentido é que o BNDES empreste dinheiro para depois rolá-lo, muito menos que empreste à mesma empresa a cada cinco anos. É absurdo que um empresário seja financiado pelo BNDES num guichê e, noutro, ponha dinheiro na ONG do presidente. Poderiam botar o mesmo ervanário num fundo de amparo aos trabalhadores que desempregaram por conta da polítikekonômika dos últimos oito anos. Pode-se estimar que, desde 1995, os convidados da mesa do Alvorada tenham fechado pelo menos 10 mil postos de trabalho.

(Como se vê e se lê, eram outros tempos, com outro Gaspari…)

A odebrecht e o ex-presidente (Parte 1)

Leia o trecho abaixo de um artigo do jornalista Mario Sergio Conti, publicado na Folha de S. Paulo de 2 de fevereiro deste ano e que nunca provocou contestações.

É sobre um certo instituto e sua relação com empreiteiras, entre as quais a Odebrecht.

Leia o que diz o texto:

“Ele saiu de um apartamento na Rua Maranhão, em Higienópolis, para outro a uma quadra, na Rua Rio de Janeiro. O apê atual, amplo e classudo (nada de samambaias, como o anterior), foi decorado com capricho por sua esposa.

E trocou o escritório no Bixiga pelo instituto com o seu nome no Anhangabaú, onde ficava o Automóvel Clube. Ocupa um andar e tem mobiliário modernista. Quem o comprou foi um grupo de empreiteiras, reunidas por ele com esse intuito num jantar no Palácio da Alvorada, quando ainda morava lá. A Odebrecht, cujo dono foi preso pela Lava Jato, ajudou a mantê-lo”.

Eu apenas substitui o nome do personagem por “ele” no texto. E ele, neste caso, não é Lula.

É ele mesmo, Fernando Henrique Cardoso, cujo instituto só existe porque o próprio FH pediu que grandes empresários amigos fizessem uma vaquinha e o presenteassem com um andar inteiro todo mobiliado.

Tudo isso (da notícia da reunião comandada por FH em Brasília para formação da vaquinha até os mimos oferecidos pelos empresários ao ex-presidente) está publicado, é só ir ao Google e pesquisar.

E tudo em detalhes. FH tem um instituto que foi bancado por empreiteiros amigos. E nunca abriram um inquérito para investigar essas relações, porque naquele tempo os empreiteiros tinham outras amizades e outras imunidades.

E o povo?

Por que Fernando Henrique Cardoso, José Sarney e o homem do Jaburu se articularam para salvar Renan Calheiros?

A resposta é óbvia. Porque, com o risco da saída de Renan do Senado, o serviço sujo a ser cumprido pelo presidente interino (que fica apenas até o novo golpe) estaria incompleto.

A direita salvou Renan para salvar a PEC 55, a reforma da Previdências que preserva os de sempre, outras crueldades planejadas e o alongamento do governo jaburesco até o fim do ano.

A partir de janeiro a conversa é outra.

As turmas de Fidel e FH

Há um estranhamento geral com a nota em que Fernando Henrique Cardoso reconhece as virtudes de Fidel Castro e escreve uma frase que muitos de esquerda assinariam:
“A luta simbolizada por Fidel dos “pequenos” contra os poderosos teve uma função dinamizadora na vida política no Continente”.
Mas estão batendo em FH porque é tucano, porque é da turma do Serra, do Aécio e do Alckmin, porque conspirou e ajudou a derrubar a Dilma etc.
Mas o que prevalece na carta é o antigo FH pré-politico que refletia sobre o Brasil e o mundo. FH, ao contrário de Serra (que nunca escreveu uma linha na vida e nunca foi ideologicamente bem definido), foi um pensador de lastro marxista. De Aécio e Alckmin nem vamos falar.
Foi com ferramentas marxistas que ele escreveu, aos 30 anos, Capitalismo e Escravidão no Brasil Meridional, sobre o escravismo e seus danos à economia e à alma do Rio Grande do Sul.
Se esse livro fosse lido ainda hoje nas escolas (é um crime que seja ignorado), poderíamos entender muito do que esse Estado vaidoso e quebrado é até hoje.
É esse FH jovem, do livro de 1962, que ele parece querer ressuscitar agora nessa nota em que pede que os cubanos preservem “o sentimento de igualdade que ampliou o acesso à educação e à saúde”.
Eu corro o risco de dizer que me comovo com uma nota em que um homem de 85 anos, que foi para a turma errada, tenta se reencontrar com o jovem que ainda o cutuca de vez em quando.

(Alguns vão dizer que já escrevi demais sobre este livro do Fernando Henrique. Sim, escrevi. E vou continuar escrevendo. É o mais importante livro sobre a paisagem sociológica do RS do século 19 e sobre a nossa herança escravista sempre camuflada. FH e Tau Golin, com a monumental série “A Fronteira”, escreveram, com temáticas e abordagens diferentes, é claro, as mais decisivas obras para compreensão do Rio Grande do Sul.)

Exatamente

Elio Gaspari mostrou, nos anos 90, que Fernando Henrique Cardoso raciocinava pela negação. O jornalista fez um levantamento e viu que quase todas as frases, em discursos e entrevistas, começavam com um não.
Não deixaremos a inflação crescer… Não seremos cúmplices do desemprego… Não desistiremos do desenvolvimento…. Não manipulamos as privatizações… E assim funcionava a cabeça de FH. Negando tudo.
Hoje, Fernando Henrique diz: não nos pegarão com essa história de corrupção… (e não pegam mesmo).
Pois a Folha fez um levantamento das expressões mais usadas hoje pelo homem do Jaburu e constatou que, além dos advérbios, ele gosta mesmo destas duas palavras: “exata e precisamente”. Usadas assim, sempre juntas.
Em todos os discursos, ele diz que tal coisa é “exata e precisamente”. E vai e volta e sai de novo “exata e precisamente”.
Se não houve o golpe dentro do golpe e o PSDB não tomar o poder, teremos que aguentar por mais dois anos esse palavreado repetitivo do século 19.