Os Papas, de novo

Por que Jonathan Price, o Francisco, foi indicado para o Oscar de melhor ator, e Anthony Hopkins, o Bento XVI, concorrerá como ator coadjuvante, se os dois deveriam ser vistos com o mesmo protagonismo no filme Dois Papas?
Porque dirão que tecnicamente um filme não pode ter dois atores principais. Pois é.
Mas o que vai acontecer é que a Academia finalmente vai reconhecer o grande problema do filme. ‘Dois Papas’ deveria ter dois protagonistas (está no título), mas só mostra a história de um e se esforça o tempo todo para esconder o passado do outro.

OS PECADOS POLÍTICOS DE ‘DOIS PAPAS’

‘Dois papas’ seria um filme médio, se tratasse de dois idosos anônimos que buscam a remissão confessando-se mutuamente sobre pecados de tempos idos. Mas o filme é sobre duas celebridades da Igreja e por isso acaba sendo um fracasso pela sua desconexão com a verdade.

Pois vi o filme, depois dizer que me negaria a aceitar como natural uma história distorcida sobre figuras reais e edificantes. Decidi ver por insistência de amigos. O que vou escrever aqui, e vou escrever muito, pode incomodar quem já viu e quem ainda pretende ver o filme de Fernando Meirelles.

Aprendemos que não se brinca impunemente com personagens reais e vivos, mesmo que a arte, qualquer arte, permita devaneios sobre a realidade ou não seria arte.

O filme não parece propor um espelho de opostos, ao colocar um diante do outro, mas está clara a intenção de tratar os dois papas como protagonistas do mesmo tamanho.

Nenhum deles está ali para fazer escada para o outro, ou o filme não existiria. A intenção está no título original e no título traduzido: dois papas.

Mas o Joseph Aloisius Ratzinger de Meirelles é uma figura quase fictícia, apenas escorada num personagem real.

Não interessa se metade das cenas não reflete a realidade. O que importa é que Meirelles expõe os dramas de Jorge Mario Bergoglio e esconde os dramas ainda mais terríveis de Ratzinger.

Nas sequências que sustentam a ideia do filme, Meirelles comete o grande desastre. É quando o argentino fala dos seus erros ao tentar proteger os colegas jesuítas do terror da ditadura argentina e, na sequência, o alemão confessa suas omissões diante das denúncias de pedofilia na Igreja.

Não há contraponto possível na abordagem escolhida por Meirelles e que o diretor pode jogar no colo do roteirista. O argentino fica exposto como um líder religioso que fraqueja politicamente diante dos ditadores. O alemão, logo depois, confessa que também foi fraco com os pedófilos. E diz apenas isso, o que não é pouco, mas não é tudo.

Os dilemas de Bergoglio são mostrados em imagens, com sequências fortes, lembranças pessoais, personagens reais. A confissão de Ratzinger é balbuciada, sem nada que sustente a dimensão trágica da sua fala, apenas com a citação de um nome de um dos principais acusados de pedofilia.

O drama do argentino é dolorosamente político e humano, enfileirando os algozes e suas vítimas. O drama de Ratzinger é resumido a uma chaga religiosa. Não há personagens no drama do alemão.

As vítimas dos padres pedófilos são hoje adultos e já foram representadas em outros filmes. E os seus parentes? E as suas histórias? E as articulações de Ratzinger para proteger os acusados?

Meirelles não quis ou não conseguiu tomar a decisão que transformaria o filme médio num filmaço. Não contrapôs, no momento das confissões, os dramas dos papas com a dimensão que têm.

Logo depois de mostrar o aniquilamento de Bergoglio com a desastrada intervenção que desagradara os jesuítas perseguidos, e a sua imediata tentativa de redenção (inclusive lendo livros escritos por brasileiros), Meirelles era obrigado a fazer o óbvio: a confissão de Ratzinger também deveria ter força política, em voz alta, como a que o alemão ouvira do argentino.

Bergoglio disse: eu tentei proteger meus irmãos e admito que devo ter errado, enquanto eles lutavam com radicalidade para afrontar os ditadores.

Ratzinger deveria dizer, para que fosse além da confissão sobre o acobertamento dos horrores da pedofilia: eu, muito antes de proteger pedófilos, na condição de alta autoridade da Igreja, persegui e reprimi meus irmãos que lutaram contra as ditaduras e por um catolicismo menos reacionário.

Ratzinger deveria ter dito, para ser o contraponto à altura de Bergoglio, que muitos dos livros que o argentino lia, quando tentava se livrar das culpas e entender a luta dos ‘radicais’, foram escritos por católicos progressistas que ele odiava e que ajudou a massacrar, entre os quais frei Leonardo Boff.

Mas não. Meirelles prefere dar à confissão de Ratzinger o tom religioso dos que falam em voz baixa, como se os pecados do então papa devessem ser tratados com cuidado, como os crimes que a igreja do alemão tentou camuflar. Meirelles ajuda Ratzinger a simular sua remissão, que fica abafada e incompleta.

E isso é importante, podem perguntar? É a essência do filme, ou deveria ser. Bergoglio confessa e transcende, consegue passar o sentimento de que está em dia com a sua consciência e com o seu Deus. Ratzinger, o guardião dos dogmas da Igreja, não tem essa chance. Meirelles o compromete ao tentar protegê-lo.

Meirelles pode ter contado a história possível. Ratzinger é um velhinho que, por tudo que fez pela Igreja, acaba sendo perdoado. Mas tudo o que ele fez não aparece no filme, e nem vamos falar de sua juventude hitlerista.

É paradoxal também que Ratzinger tenha a compreensão e a admiração pela trajetória de Bergoglio, se o que fez durante toda a vida no Vaticano foi conspirar contra a Igreja progressista que acaba por conquistar o argentino.

O Ratzinger denso, mas sempre bondoso, é interpretado por um Anthony Hopkins contido, e Meirelles acredita que por isso ficou doce demais, porque a figura de Hopkins o suavizou (o diretor não deve ter esquecido que Hopkins já foi Hannibal Lecter). O Bergoglio de Jonathan Pryce é latino, argentino, italiano, um Francisco real e poderoso.

Se ‘Dois papas’ não fosse um filme, mas uma reportagem, Meirelles teria contribuído para a disseminação de uma das mais danosas fake news sobre duas personalidades da igreja católica.

O filme emociona, mas isso não basta. Como trata de pessoas reais e vivas, ‘Dois papas’ presta um péssimo serviço à História. Um dia talvez Meirelles tenha a chance da remissão que insinua conceder, mas não concede, a Joseph Ratzinger.

Afastem de mim esse filme

Um filme, só com diálogos presumidos e edificantes, em que Ratzinger é humanizado (as pessoas e as suas muitas faces), numa história propícia para as fortes emoções de fim do ano?
Ratzinger humanizado? Autoindulgência de cristãos de festa de Natal?
O momento está mais para cristãos revolucionários do que para esses cristianismos de altruístas arrependidos da extrema direita da Igreja.
To fora. Bem fora.
(E que fique claro, se é que precisa: viva Francisco)

Coringa

Nos anos 70 e 80, num debate depois da sessão, esse Coringa seria explicado de cabo a rabo. Sob os pontos de vista sociológico, antropológico, político, psiquiátrico. E com todas as abordagens possíveis dos clichês freudianos (é o que mais tem no filme).
Tudo se explicava naqueles debates no cinema, que às vezes eram melhores do que o filme.
Todo mundo ia dormir com as explicações oferecidas por pessoas sábias. Aquilo nos confortava.
Quantas vezes, num daqueles debates, uma voz iluminava tudo e aquela cena aparentemente incompreensível ficava cristalina, e as pessoas diziam: é mesmo, é isso, ele pegou a ideia.
Hoje, a coisa tá mais complicada. Coitado do Coringa com o que anda ouvindo a seu respeito.

FREDDIE E AS TREVAS

Quem anda com vontade de chorar e não chora há muito tempo deve ver Bohemian Rhapsody. Tudo é bonito e emocionante. O ator Rami Malek faz um Freddie Mercury denso e divertido. As grandiosas cenas finais valem o filme.

Mas tem um quê, um senão, um detalhe que não é detalhe, mais ainda nos dias de hoje. O filme é travado na abordagem do que alguns resumem como a sexualidade de Freddie, mas não é apenas sexualidade, é sua condição humana, seus afetos, seus amores, acima das controvérsias simplistas e reacionárias sobre gênero e sexo.

O filme não trata da vida de Freddie Mercury como deveria, a vida que as grandes biografias devem contar.

Bohemian Rhapsody é lindo, mas é também o filme da nossa época, dos Trumps, dos Bolsonaros, de gente que odeia artistas, negros, gays, índios, professores.

Fizeram um filme sobre um grande artista no seu tempo de preconceitos, mas esconderam hoje o que os tempos atuais, tão ou mais sombrios, pedem que seja escondido.

Sabemos que ele era tímido, reservado em público como bissexual, e ninguém pode desejar que esse cuidado seja traído.

Mas o filme poderia ser menos cerimonioso com a moral imoral dos nossos tempos fascistas de perseguições e trevas. Prevaleceu o entretenimento (e vale o filme), mas esconderam o que poderia revelar quem foi mesmo Freddie Mercury.

CADA UM COM A SUA IMPRENSA

Vi um filmaço. The Post, A Guerra Secreta, sobre a valentia do jornal Washington Post ao enfrentar o poder (inclusive da Justiça) e denunciar, em 1971, as mentiras dos governos americanos sobre a guerra do Vietnã.
Nixon peitou o Post e acabou sendo derrubado pelo jornalismo logo depois, no caso Watergate.
É a mesma imprensa que, com todas as suas imperfeições, pode acabar derrubando Trump.
No Brasil, a nossa imprensa ajudou a derrubar Getúlio, depois contribuiu para o seu suicídio, derrubou Jango e golpeou Dilma.
E hoje, meio constrangida, apoia o jaburu-da-mala e seu Quadrilhão e todos os tucanos corruptos impunes que sustentaram e ainda sustentam o golpe.

O cinismo americano

Volto do cinema recompensado por ter me divertido com “Feito na América”. Fui arrastado e saí bem faceiro. Tom Cruise está impagável, como se dizia antigamente. E Doug Liman sempre acerta a mão, misturando aventura, comédia e drama em doses iguais para contar a história verdadeira do piloto de avião que fazia jogo duplo trabalhando para a CIA e para traficantes colombianos.
O filme é mais um escracho com a moral americana da defesa da democracia e da rigidez da política antidrogas, quanto tudo que eles fazem é o contrário. Doug Liman não poupa o cinismo de ninguém, de republicanos ou democratas.
Mudaram muito os tempos mostrados no filme, em que os interesses dos Estados Unidos ainda dependiam de armas, aventureiros, mercenários, professores de tortura e generais ditadores para combater e golpear as esquerdas na América Latina.
Este artesanato bélico foi trocado pela ‘sutileza’ das ações locais ‘limpas’ e civis, articuladas apenas por um Quadrilhão de corruptos e o apoio de um Judiciário seletivo. Com 300 picaretas, um pato e alguns juízes, nas baixas e nas altas instâncias, a direita aplica golpes e persegue políticos da esquerda com a maior facilidade.
O filme é um belo deboche, do início ao fim, das lições de ‘democracia’ exportadas pelos Estados Unidos. E com Tom Cruise? Pois é. O cinema americano sempre surpreende.

Moonlight

Para fugir um pouco da política no fim de semana, vou dizer aqui algo que talvez tenha a discordância da maioria. Me decepcionei muito com Moonlight. Não foi decepção pequena, foi das grandes.

Moonlight é uma bela história (dizem que de uma grande peça), com um tema poderoso, que vira filme num momento adequado, mas o resultado é um desperdício.

Os personagens são esquemáticos, as falas são de teatro de colégio e há todos os clichês possíveis de filme de bullying. Claro que tem o mérito de tratar de um assunto nunca abordado desta forma (um adolescente negro, gay e pobre e sua única possibilidade de redenção). Mas e daí? Um bom tema não salva um filme.

A impressão é de que em alguns momentos (as conversas na mesa, por exemplo) o diretor Barry Jenkins está filmando a peça.

Queria ver esta história na mão de um dos Lee (o Spike e o Ang) ou mesmo de um Fernando Meirelles. O filme é maneiroso, mas parece não ter pegada. Confesso que não me emocionei.

 

Buscapé

cidadededeus

Cidade de Deus, que aparece agora em uma lista de críticos de todo o mundo entre os 100 maiores filmes do século 21, é também, no seu desfecho grandioso, um filme sobre o jornalismo.
Nunca se fala dessa virtude de Cidade de Deus, de mostrar a conduta de um adolescente candidato a repórter fotográfico, em meio a crueldades, vinganças, traições e inverdades.
O atormentado Buscapé (Alexandre Rodrigues, na foto) tem muito a ensinar a jornalistas em geral em tempos de negaceios, dissimulações e vergonhosas adesões a golpes.