TORCER CONTRA O FLAMENGO OU CONTRA A ALEGRIA?

Não me convidem para reforçar o coro dos que torceram contra o Flamengo, não porque são torcedores de outros clubes, mas porque o campeonato mundial seria usado pelos fascistas que mandam no Rio, desde Witzel, passando por Crivella e pelos Bolsonaros.

Eu não cometeria a crueldade de torcer contra a chance de alguns dias de alegria para o povo de um Estado maltratado pelas máfias de políticos e de milicianos.

Se esse raciocínio valesse para todo o Brasil, poucos teriam o direito de comemorar alguma coisa, porque a política da direita tira proveito de quase tudo hoje.

Se o povo fosse impedido de ficar feliz por alguns dias, com a desculpa de que a sua felicidade sempre é apropriada pelo reacionarismo, estaríamos todos condenados à infelicidade permanente. Não haveria nunca o que comemorar.

Claro que torcedores de outros times secaram o Flamengo, para que não ficasse pela segunda vez com um troféu raro. Tudo bem. A secação é da natureza do futebol e de quase todos os esportes.

Mas não dá pra torcer contra achando que derrotas como a sofrida diante do Liverpool reduzem o impacto político da ação de manipuladores da ingenuidade e da ignorância, ou que assim o Flamengo (e não o povo que o transformou no maior clube do país) será punido por não ter indenizado as famílias dos 10 adolescentes mortos no incêndio nos alojamentos do Ninho do Urubu.

Podem até dizer que os cariocas merecem os maus tratos das máfias, porque elegeram as nulidades que os exploram. Os brasileiros de toda parte (com exceção dos nordestinos) merecem muito mais. Bolsonaro é uma aberração eleita pela maioria da torcida nacional.

OS FLAMENGUISTAS E A FELICIDADE

Quem não gosta de futebol (ou não entende ou percebe seu alcance como expressão de pertencimento) pode estar vendo a euforia dos flamenguistas como um exagero.
Até quem gosta e entende a força simbólica do futebol também vê um certo excesso nas comemorações.
Quem mora num Estado dominado por milicianos amigos dos Bolsonaros, governado por um sujeito de extrema direita, onde só pobres e negros morrem por ‘balas perdidas’, onde os políticos são mais perigosos do que os traficantes, onde o prefeito odeia Carnaval, só quem mora no Rio maltratado pelos fascistas e dominado pelo poder dos neopentecostais sabe o que essa alegria significa.
Os moradores do Rio podem viver plenamente essa felicidade demasiada sem dar explicações aos que acham que tudo precisa ser explicado.
Um dia essa alegria que hoje enfrentou a repressão da polícia nas ruas terá aqui a energia e a força política que tem no Chile, na Bolívia, na Colômbia, no Equador, na Argentina.

GABIGOL NOS CONFUNDE

GABIGOL NOS CONFUNDE
A cena em que Witzel é esnobado por GabiGol, ao se ajoelhar diante do atacante (e simular que vai engraxar sua chuteira, como fazem os jogadores) significa o quê?
1) Que ele não quer aproximação com um sujeito da extrema direita.
2) Que o craque o esnobou porque Witzel é ex-bolsonarista e crítico de Bolsonaro.
3) Que GabiGol é um militante de esquerda ainda no armário.
4) Que ele nem sabe quem é Witzel.
5) Que o jogador é apenas e tão somente um marrento.
(O vídeo está na área de comentários)

IMITADORES DE MANIFESTANTES

O que diferencia o Brasil dos países latino-americanos hoje? Esta notícia de ontem talvez ajude a entender algumas diferenças.

“Depois de ficar quase nove horas parados em Pozo Almonte, região de Tarapacá, no norte do Chile, o ônibus que está levando torcedores do Flamengo para a final da Libertadores em Lima, no Peru, foi liberado para seguir viagem. Mas antes os torcedores cantaram e dançaram com os manifestantes.
O protesto é contra uma usina de minério, perto da estrada, e os manifestantes têm a intenção de bloquear a chegada dos caminhões ao local.
Nas manifestações que ocorrem no país há mais de um mês, o bloqueio de ruas e estradas tem sido constante. Alguns torcedores até posaram para fotos depois da liberação”.

Resumindo: manifestante é manifestante e torcedor é torcedor.
Os torcedores do Flamengo viveram pelo menos a experiência de brincar de manifestante.
É dureza, mas até agora é o que nos cabe nesse latifúndio de revoltas na vizinhança: imitar participantes de protestos para poder ver um jogo de futebol.
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O futebol bolsonarista

O caráter do Brasil bolsonarista se manifesta em todas as áreas. Essa dos 102 conselheiros do Vasco que se rebelaram pelo gesto de solidariedade do clube com o Flamengo, pela morte dos 10 atletas adolescentes, é mais uma manifestação de um país brutalizado sob a inspiração de Bolsonaro.
Essas figuras sinistras não aceitam que o Vasco tenha aplicado na camiseta do time, em jogo desta semana, o escudo do Flamengo. Porque usar o escudo de um adversário é desrespeitar os estatuto do clube.
A direção do Vasco homenageou muio mais os flamenguistas do que o rival. Mas vai tentar explicar isso a sujeitos que usam o futebol apenas como pretexto para odiar.
O sentido do gesto é óbvio: dizer que, em meio a um drama coletivo, o futebol é o que menos importa, que a rivalidade não vale nada numa hora dessas.
É um gesto grandioso de solidariedade. Mas a direita não é solidária nem em tragédias.

POBRE RIO

O Rio deveria ser para sempre a cidade mais bela e alegre do Brasil, porque o Rio era o que toda cidade gostaria de ter sido. Era.

O Rio se transformou no centro irradiador de desgraças políticas e de tantas outras desgraças, em todas as áreas.

O Rio tem um prefeito que vê o diabo se movimentando entre o povo que o elegeu, porque o prefeito odeia Carnaval.

O Rio elegeu um prefeito fundamentalista que abomina as liberdades e a alegria da cidade. E agora elegeu um governador também fundamentalista que estimula a polícia a matar quem se mexer e estiver sob suspeita.

E os que estão sempre sob suspeita são os jovens pobres e negros, que são mortos mesmo quando não se mexem. Os pobres elegeram esse governador.

O Rio inventou as milícias. E as milícias chegam agora ao poder como amigas dos Bolsonaros, porque o Rio também nos deu os Bolsonaros. Os Bolsonaros são uma genuína invenção carioca.

Esse Rio tão lindo propaga desgraças políticas e convive com todo tipo de tragédia, das ditas ‘naturais’, que também pune os pobres, às tragédias anunciadas, como essa do incêndio no Flamengo, num lugar que deveria estar interditado.

O clube mais popular do Brasil faz o Brasil chorar com a morte de adolescentes vindos de toda parte do país para levar adiante o maior de todos os sonhos de um menino brasileiro. Eles queriam ser craques. O Rio mata Marielles e mata craques.

Mario Quintana disse do Rio que seus túneis tinham a função de fazer seus olhos descansarem de tanta beleza.

Nelson Rodrigues escreveu assim sobre o Rio: “Em São Paulo, de vez em quando eu tenho vontade de sentar no meio fio, na Avenida São João, e chorar de saudade, de nostalgia profunda”.

Nelson falou dessa saudade do Rio em 1967. Que falta sentimos todos nós desse Rio literário do tempo de Nelson Rodrigues, quando ainda era possível romantizar toda forma de miséria humana.

OS NEGROS NO MARACANÃ

Foi linda e foi triste a imagem mostrada ontem com 50 mil pessoas no Maracanã. Nunca os cariocas viram tantos pobres e tantos negros desde a remodelação do estádio para a Copa de 2014.
Nunca o novo Maracanã viu tanta gente cantando. E por que isso é triste? Porque aquela é a imagem da discriminação dos pobres pelo futebol, uma imagem rara que dificilmente se repetirá.
O Maracanã teve sua torcida de volta, a velha torcida do maior estádio do mundo, a torcida do Canal 100, porque aquilo era um treino. Não era um jogo.
Um jogo não tem pobres e negros. O Flamengo abriu o treino (porque vai jogar com portões fechados hoje em Brasília) por um quilo de alimento. Só por isso o Maracanã estava cheio de povo.
As máfias do futebol conseguiram provar que os estádios sobrevivem sem povo. Pobre só entra no Maracanã quando pode levar comida para ver treino.
Se não fosse assim, se fosse em dia normal, o Maracanã estaria cheio de brancos, de gente da classe média e de ricos. É assim em todo o Brasil. É o que se vê nos jogos transmitidos pela TV. Só tem branco, com meia dúzia de negros.
Pobre não entra mais em estádio, não tem como pagar R$ 100 ou mais por um ingresso. Só entra quando tem treino e pode levar um quilo de feijão.
(Esta foto aí é de um vídeo do jornal O Globo)