UM JUIZ SÓ DELES

O debate do fim do ano é o que envolve a figura do juiz de garantia. Flavio Bolsonaro poderá ser salvo por essa figura que ninguém, além de juristas e operadores do Direito, sabia que poderia existir?
Mas agora todo mundo é jurista. Um juiz de garantia, pelo que dizem, pode salvar toda a família e até o Queiroz. Basta que seja um ‘bom’ juiz de garantia.
O ministro Marco Aurélio discorda, porque a nova lei não poderia retroagir ao caso das milícias dos Bolsonaros. Mas quem mais estará com ele?
Serra, Aécio e Fernando Henrique livraram-se de todas as acusações (muitas por prescrição) sem juiz de garantia.
Será que os Bolsonaros conseguirão tomar conta de parte do Judiciário?

BOLSONARO ESTÁ PEDINDO SOCORRO

O Brasil perdeu o controle da criatura. Ao avisar que, “se não estiver com a cabeça no lugar, eu alopro”, Bolsonaro fez uma advertência: saiam de perto porque pode vir coisa pior.

Os eleitores brasileiros criaram Bolsonaro como a sua grande aberração. Bolsonaro é uma criação coletiva, a representação de um Brasil que dissimulava suas deformações e crueldades e decidiu expô-las sem disfarces.

Mas Bolsonaro também cumpre agora o roteiro das criaturas que passam a agir fora do controle de quem achava que poderia manejá-las. Os ricos, a classe média atormentada, os liberais, os pobres desnorteados, todos os que inventaram Bolsonaro já sabem que não há mais como controlar Bolsonaro.

A criatura deveria ser apenas um antiPT, um antiLula, um cara que afronta o ‘sistema’, um medíocre que leva o brasileiro mediano e reacionário ao poder.

Mas Bolsonaro avisa que pode ser pior do que a invenção idealizada. Ele e os filhos são criaturas pedindo socorro.

Carluxo pede socorro quando escreve o que não ninguém entende no Twitter. Eduardo pede socorro quando tenta fugir para os Estados Unidos como embaixador. E Flavio pede socorro, tardiamente, sob cerco do Ministério Público, ao tentar se livrar dos milicianos cariocas.

Bolsonaro tenta minimizar o desfecho da tragédia anunciando-se como o aloprado, o cara que não consegue se controlar em situações que o atrapalham. É mais do que isso, Bolsonaro não é um Jerry Lewis.

Bolsonaro é um sujeito sob tensão permanente, com medo das reações dos filhos, dos ex-aliados, dos arquivos que guardam seus segredos, dos generais.

Bolsonaro tem de provar a todo instante que é macho, que sua família é de machos e que as mulheres (as mães) são as culpadas pela sua insegurança.

Todas as figuras incumbidas de fazer o mal, na realidade e na literatura, avisam que em algum momento o mal será produzido. Avisam, alertam, gritam que farão o mal.

Bolsonaro é a versão verde-amarela do Mister Hyde do Médico e o Monstro, que o Brasil criou para manter sob controle. É a figura que avisa, desde o começo, que não tem como calibrar seus próprios medos e ódios, porque ele e o Brasil que o inventou se misturam no que de fato são.

Bolsonaro deveria ser uma representação administrada do mal cotidiano, um susto nas esquerdas, uma tentativa de resgate da autoestima da classe média quebrada e assustada com os pobres e negros nas universidades (e nos shoppings). Virou isso aí.

Bolsonaro está dizendo: saiam de perto, porque eu só consigo dizer que sou aloprado. Seria bom se eu fosse apenas aloprado. Eu sou o que, no fundo, vocês sabiam que eu, quando estivesse completo, viria a ser.

CARA DE HOMOSSEXUAL E CARA DE MILICIANO

A Globo censurou no Jornal Hoje o trecho da entrevista em que Bolsonaro disse a um jornalista que ele tinha “uma cara de homossexual terrível”.
A Globo encara Bolsonaro até o limite das próprias covardias.
Bolsonaro achou que ofenderia o jornalista. O repórter ficaria ofendido se alguém dissesse que ele tem uma cara de miliciano terrível.
Que é a cara de Flavio Bolsonaro.

O PACTO DOS CRIADORES DO MILICIÃO

Os irmãos Bolsonaro firmaram um pacto, quando o pai foi eleito e eles se deram conta de que toda a família chegava ao poder. Flavio, Carlos e Eduardo assumiram o compromisso de que nunca cometeriam nada de ilegal que pudesse levá-los à cadeia.

Eduardo falou do pacto aos repórteres Catarina Alencastro e Bruno Góes, do Globo. A declaração foi manchete do jornal online no dia 1.º de novembro de 2018, logo depois da eleição.

O pacto era, pelo tom de Eduardo, um acordo de que ninguém iria comprometer ninguém. Todos seriam honestos. Se todos estivessem limpos, nenhum deles ficaria em situação ruim.

Quando o pacto foi firmado, eles já estavam em situação muito ruim. O Ministério Público do Rio mostra que a relação da família com milicianos (e os rolos daí decorrentes) são de muitos anos.

Mas, mesmo assim, os garotos firmaram o pacto, sabendo que a cadeia era uma possibilidade a ser considerada. Não fica claro na reportagem se o acerto foi entre a família toda, ou apenas entre os irmãos.

Porque, dependendo dos termos do acordo, seria o caso de rever o que foi acertado. Flavio Bolsonaro está ainda mais enredado com Queiroz, agora que o Ministério Público voltou com vigor às investigações sobre a quadrilha formada em torno do então deputado estadual do Rio.

O pacto também poderá ser reavaliado, se for confirmada a suspeita de que Bolsonaro parece ter jogado o filho na sarjeta ao falar hoje com os jornalistas.

“Eu falo por mim. Os problemas meus, podem perguntar que eu respondo. Dos outros, eu não tenho nada a ver com isso”. Dos outros, no caso, seria de Flavio Bolsonaro. Flavio era chefe de Queiroz, que depositou dinheiro na conta da mulher de Bolsonaro.

Para explicar a operação, Bolsonaro disse que Queiroz estava apenas devolvendo uma parcela de um empréstimo que ele havia feito ao miliciano.

Os problemas dele e os problemas de Flavio no fim são problemas de toda a família, que conseguiu um patrimônio de R$ 15 milhões em imóveis, só no Rio, graças à capacidade de multiplicação de dinheiro de Flavio.

Se Bolsonaro abandonar o filho, como fica o pacto, que era retórico e dificilmente seria cumprido?

Eduardo disse ao Globo, há pouco mais de um ano, que os irmãos não iriam repetir o petrolão e o mensalão. Nem era preciso. Eles criaram o milicião.

OS FILHOS

As manobras da direita, desde o golpe, são bem calculadas. Como o Ministério Público voltaria a investigar o filho de Bolsonaro e os milicianos ligados a ele e a Queiroz (depois da tentativa fracassada de bloquear os dados do Coaf), era preciso dar o troco.
Com Lula em liberdade e a popularidade de Bolsonaro desabando – e como era impossível encarcerar Lula de imediato de novo -, requentaram uma denúncia antiga e saíram atrás de Lulinha.
Tentam fazer com que o filho de Lula seja um contraponto ao filho de Bolsonaro, com a diferença de que correm atrás de provas para pegar o primeiro em reformas na cozinha de um sítio e há provas em abundância envolvendo o segundo com as milícias.
São ingênuos os que pensam que essa caçada a Lulinha, no desespero para empatar o jogo, pode encerrar as represálias pela soltura de Lula.
O lavajatismo, o milicianismo e o bolsonarismo estão tramando outras ações contra Lula e as esquerdas.

PRESENTE

Quando avisou que mais coisas iriam surgir para atingir a família, Bolsonaro quis dizer apenas que recebe informações privilegiadas sobre o cerco do Ministério Público ao filho.
Estão vazando informações para o grupo investigado. A Folha informa hoje que Bolsonaro só errou a data.
Esperava que a operação de ontem contra Flavio fosse feita no início do ano.
O MP antecipou as buscas e apreensões para que os Bolsonaros tivessem um presente de Natal.

PAPAI NOEL EXISTE

Queiroz é alvo de operação comandada pelo Ministério Público no Rio.
Agentes estão em endereços de Queiroz e de outros ex-assessores de Flávio Bolsonaro, entre eles, parentes de Ana Cristina Valle, ex-mulher do presidente Jair Bolsonaro.
A Folha assegura que é verdade. Desta vez não são nem a polícia nem o Ministério Público comandados por Sergio Moro.
O MP vem com força, depois da tentativa dos Bolsonaros de evitar as investigações com dados do Coaf e da decisão do Supremo contra os milicianos.
Queiroz vai estragar o Natal da família.

A vez do entregador de gás?

Com a decisão do Supremo que libera os dados do antigo Coaf para investigações, vai começar tudo de novo.
Queiroz, laranjas, milicianos, Flavio Bolsonaro, empréstimo de Bolsonaro para o Queiroz, depósito de Queiroz para a mulher de Bolsonaro.
A família volta a ser notícia, até surgir um novo impasse que tranque tudo mais uma vez, ou até aparecer um novo personagem misturado aos milicianos, um jardineiro, uma faxineira, um entregador de gás ou até outro porteiro.