A FOLHA AJUDOU A CRIAR O CHEFE DO BANDO

O editorial em que a Folha de S. Paulo ataca Bolsonaro, definido como um ignorante e machista abjeto, com espírito de facção e de chefe de bando, tem alguns esquecimentos.

A Folha não identifica as origens de Bolsonaro no golpe que o próprio jornal ajudou a articular e tampouco cita os cúmplices do bolsonarismo entre os pares da Folha no empresariado nacional.

A Folha tenta ver Bolsonaro como um sujeito solto no mundo, apenas com seus parceiros de milícia, quando se sabe que ele é uma invenção da direita que derrubou Dilma e ajudou a encarcerar Lula.

A Folha se faz de boba, ao citar apenas “os jagunços de Bolsonaro”, como se a aberração política no governo fosse somente um produto dos banditismos cariocas e da articulação do amigo de Adriano da Nóbrega com militares e com Sergio Moro. A Folha estaria admitindo que o ex-juiz é um dos jagunços?

Bolsonaro é o bicho brabo saído da cabeça da direita, que vive agora atormentada com os extremismos da criatura. A Folha contribuiu para que Bolsonaro existisse com a forma que ganhou desde muito antes de eleito.

O jornal faz bem em atacá-lo, não só porque o sujeito agrediu covardemente a repórter Patrícia Campos Mello, mas porque Bolsonaro é um insulto à democracia, inclusive aos idiotas que o elegeram.

Mas a Folha precisa dizer que essa aventura, como o jornal define a gestão do sujeito, foi iniciada com o aval da imprensa. Para a Folha, Bolsonaro era apenas chefe de uma facção ao almejar o poder.

Escolhido como único nome capaz de derrotar o PT, foi eleito e se transformou no líder do empresariado dito liberal, o reduto do qual faz parte o comando da Folha. O editorial esqueceu de dizer que a Fiesp é Bolsonaro e que a elite brasileira sustenta seus projetos nos planos do bolsonarismo.

A Folha esquece de admitir que a própria Folha, em recomendação interna aos jornalistas, uma semana antes do primeiro turno da eleição de 2018, determinou a todos os profissionais da casa: não tratem Bolsonaro como um candidato da extrema direita,

Para a Folha, não havia no Brasil político de extrema direita, mas apenas políticos de direita, e Bolsonaro era um deles. Bolsonaro foi colocado ao lado de Álvaro Dias, Aécio, Henrique Meirelles, Alckmin, Amôedo.

O editorial, além das enrolações de conteúdo, é muito ruim na forma, como texto de opinião do comando do maior jornal do país num momento grave. É uma peça do século 19 no diário que pretende ser parte do que chama de “jornalismo com vocação de longo prazo”.

A Folha está enrolada no curto prazo. A Folha é esquecida quando interessa esquecer que, antes de tentar abandonar a criatura, já havia sido por ela abandonada.

EDUARDO BOLSONARO E AS PATRÍCIAS

A Folha vai ficar só na manifestação de indignação com o ataque de Eduardo Bolsonaro e de outro sujeito da extrema direita à jornalista Patrícia Campos Mello?
A Folha já desmentiu o indivíduo que acusou Patrícia de ter se insinuado sexualmente para obter informações sobre a disseminação de mentiras na campanha de 2018.
O acusador é Hans River do Rio Nascimento, que trabalhou para a Yacows, de maurketing digital, denunciou a empresa e depois se arrependeu.
Eduardo Bolsonaro pegou carona na história do sujeito, contada ontem na CPMI das Fake News, e reforçou a acusação contra Patrícia.
E o que a Folha pode fazer, além de lamentar a acusação?
Pode, além das chamadas medidas legais, fazer jornalismo e retomar o curso de uma informação abandonada pela própria Folha sobre um processo em que Eduardo Bolsonaro foi acusado de ameaçar de morte uma ex-namorada.
O processo dormiu numa gaveta da Justiça em Brasília, até ser arquivado no ano passado. Por que foi arquivado, depois de passar até pelo crivo da Procuradoria-Geral da República?
Por acaso, a mulher que se dizia ameaçada também é jornalista. Por acaso, também é Patrícia.
A outra Patrícia, a Patrícia de Lélis, a ex-namorada cercada e massacrada pelos bolsonaristas, não tinha o poder e a trajetória da Patrícia da Folha.
A Folha pode tentar saber por que o processo contra a outra Patrícia foi jogado na cesta do lixo, para ajudar na compreensão dos ataques do bolsonarismo às mulheres.

Sozinho e abandonado

A Folha fez o que se espera do jornalismo. Foi ao local do crime na Bahia. A reportagem ainda é precária, pelo pouco tempo e circunstâncias, mas indica na direção da suspeita generalizada.
O miliciano Adriano da Nóbrega foi cercado e morto em pouco tempo. Não há nada que indique uma abordagem planejada com a intenção de forçá-lo a uma rendição.
Sergio Moro não incluiu Adriano na sua lista de bandidos procurados talvez porque soubesse que ele já havia sido localizado. Só faltava um grupo ir ao esconderijo e fazer o serviço.
Adriano era protetor e protegido da família Bolsonaro. Morreu sozinho, abandonado pelos antigos parceiros.
Mataram um homem solitário dentro da casa de um sítio no meio do mato. Não há nem mesmo uma vaca como testemunha.

https://www1.folha.uol.com.br/poder/2020/02/cenario-de-fuga-e-morte-de-miliciano-ligado-a-flavio-traz-duvidas-sobre-apoios-e-acao-policial.shtml

HUCK SE ATIRA NOS BRAÇOS DOS POBRES

Finalmente temos uma notícia nova. Está lançada a candidatura de Luciano Huck. A Folha abriu suas páginas para um textão do moço com seu programa de governo em defesa dos pobres, da educação pública e da tributação dos ricos.
Está ressuscitada a ideia do pacto, que a direita resgata em situações como essa:
“Este é o momento de o Brasil fazer um novo contrato social. O Brasil precisa de uma ampla coalizão política para enfrentar a desigualdade de oportunidades, replicando as boas experiências e as boas práticas, sejam elas da direita ou da esquerda. Principismo ideológico, irredutibilidade e aversão aos fatos não vão gerar políticas públicas eficazes para resolver os problemas mais graves e urgentes do país”.
Gostei da parte do “principismo ideológico”.
Huck tenta entrar na faixa do eleitorado de Lula, começa o texto com a história de um rapaz pobre e se apresenta como a cara de uma nova elite comprometida com a redução das desigualdades.
A palavra saúde não aparece no texto. A palavra trabalho tem uma citação, mas para dizer que “precisamos de políticos e servidores públicos comprometidos, tecnicamente e eticamente capacitados para o trabalho”.
O candidato insinua que Bolsonaro não conseguirá cumprir “suas promessas de tornar o Brasil um país melhor”. Mas o tom geral é de um mediador, um calouro em busca do centro perdido para o bolsonarismo.
Fomos jogados no caldeirão do Huck e da Globo. É um caldo com tudo dentro. Tem pitadas de Jânio, Sarney, Collor, Fernando Henrique, Aécio, Temer. A direita tenta se reinventar com um bacana. Fartem-se.
(Um detalhe: a Folha não deu chamada de capa para o lançamento da candidatura)

O IRMÃO EMPREENDEDOR

Enquanto Bolsonaro procura a caixa preta do BNDES, o irmão dele se diverte com as caixas de todas as cores das verbas federais.
É a manchete da Folha online:

“Sem cargo público, irmão de Bolsonaro faz
intermediação de verbas do governo federal”

E este é o começo do texto:
“Renato Bolsonaro viabilizou a liberação de ao menos R$ 110 milhões para prefeituras de São Paulo.
O comerciante Renato Bolsonaro, irmão do presidente da República, Jair Bolsonaro, tem atuado como mediador informal de demandas de prefeitos do estado de São Paulo interessados em verbas federais para obras e investimentos.
A Folha identificou a participação do irmão do presidente na liberação de dinheiro para ao menos quatro municípios do litoral e do Vale do Ribeira, região de origem da família Bolsonaro.
Sem cargo público, Renato participa de solenidades de anúncio de obras, assina como testemunha contratos de liberação de verbas, discursa e recebe agradecimentos públicos de prefeitos pela ajuda no contato com a gestão federal comandada pelo irmão.
Ao todo, após a atuação de Renato, foram mais de R$ 110 milhões repassados para construção de pontes, recapeamento asfáltico e investimento em centros de cultura e esportes nas cidades de São Vicente, Itaoca, Pariquera-Açu e Eldorado, município onde moram familiares do presidente”.

Pelo que conta a reportagem, o irmão de Bolsonaro não enfrenta teto de gastos e nenhum problema de contingenciamento de verbas federais.

O irmão do homem pode ser a solução mágica para que o setor público volte a investir em obras e o país saia da recessão.

A AGILIDADE DE UM JUDEU ATRASADO

Hélio Schwartsman, um dos principais colunistas da Folha, um dos defensores do golpe de 2016 e agora um dos jornalistas retardatários antiBolsonaro, apresenta-se também como pregador judeu indignado com os extremismos da família e seus cúmplices no poder.

Com mais de dois anos de atraso, ele escreve hoje na Folha, deixando claro que se manifesta na condição de judeu:

“(…) na condição de membro relapso da comunidade judaica (não fiz bar-mitzvá e não acredito em Deus), confesso-me intrigado ao ver judeus apoiarem um político extremista, em especial um que minimiza a importância dos direitos humanos e de minorias e faz pouco das garantias do Estado de Direito. Até por razões epigenéticas, judeus deveriam manter-se tão longe quanto possível desse gênero de dirigente, situe-se ele à direita ou à esquerda”.

Só agora esse apelo, senhor Schwartsman? Só agora essa contundência? Só depois da teatralização nazista de Roberto Alvim?

Muito antes, quando Bolsonaro se exibiu para a comunidade judaica, em evento de abril de 2017 na Hebraica do Rio, debochando dos negros e anunciando que iria caçar índios, poucos se levantaram.

Muitos dos reacionários que estavam na palestra gargalhavam em êxtase.

E só agora o senhor faz um apelo à comunidade, em nome de uma ética genética? Antes, não? Antes Bolsonaro não incomodava os judeus?

Schwartsman deveria conhecer judeus gaúchos, que sempre assumiram posição corajosa diante do bolsobarismo e que hoje irão rir da sua pregação retardatária.

Esses bravos não precisam da retórica oportunista do cara que vira antibolsonarista porque Alvim passou dos limites e porque o jornal em que trabalha trava uma guerra com Bolsonaro.

Estaríamos todos condenados, se ficássemos à espera de alertas como esse sobre a índole nazista do bolsonarismo.

A Folha à procura de ex-petistas

A Folha finalmente fez a reportagem sobre as pessoas que aplaudem Bolsonaro e vaiam os jornalistas no cercadinho da saída do Alvorada.
A Folha diz que aquele encontro para as falas agressivas e esdrúxulas de Bolsonaro se chama talkey show.
E o que a Folha descobriu? Eis o título:
“Talkey show de Bolsonaro reúne ex-petistas, padres e youtubers”
A Folha só fez a reportagem depois de achar duas pessoas que votaram em Lula e Dilma. E se votaram em Lula e Dilma e não votam mais, são ex-petistas. E ainda achou um padre.
A reportagem é precária e usa o truque manjado do jornalismo isentão.
Para falar de Bolsonaro, o jornal tem sempre que falar de Lula. A Folha se esforça pra ser o Roberto Alvim da imprensa.

A VOLTA DO CARLUXO

Por que Bolsonaro diz que jornalista é raça em extinção? Porque sabe que a Folha e a Globo não vão conseguir derrubá-lo.
Bolsonaro não está se referindo aos sites chamados de alternativos, mas aos seus grandes inimigos passionais.
Até hoje nem Folha nem Globo mexeram com uma das mais graves denúncias sobre desmandos do governo, que é a estrutura criminosa de produção de fake news e difamação dentro do palácio.
Joice Hasselmann foi apenas uma das denunciadoras, oferecendo muitas pistas sobre a participação de funcionários e de Carluxo no esquema.
Os jornais não mobilizaram um repórter, um só, para investigar a usina de fake news, que já foi abordada várias vezes também por Alexandre Frota. Os dois sabem do que falam.
Por isso Bolsonaro tem certeza de que jornalista da grande imprensa é bicho ameaçado de extinção.
Escrevo esse texto porque uma notícia na capa da Folha anuncia a volta do Carluxo à ativa nas redes sociais, depois de um mês e meio brigado com o pai.
Carluxo é o estrategista pavão misterioso de Bolsonaro, que diz o que o pai não pode dizer. A extrema direita da máquina virtual de produção de besteiras de Brasília está em festa com o retorno de Carluxo.

IR PRA ONDE?

O engenheiro e urbanista Jorge Abrahão escreve hoje na Folha sobre uma pesquisa realizada há um ano em São Paulo.
Entre muitas coisas desagradáveis (relacionadas com racismo, homofobia, violência), 63% dizem que iriam embora da cidade se pudessem morar em outro lugar. É um índice muito alto, e ele pergunta qual seria o percentual hoje.
As pessoas querem mesmo se mudar de Porto Alegre, Curitiba, Rio, Livramento, João Pessoa, Erechim, Sorocaba?
Eu me mudaria para uma cidade em que ninguém fosse obrigado a ouvir a música do vizinho.
Uma cidade em que houvesse uma lei que levasse para o cárcere, na mesma cela do Ronnie Lessa, quem passasse o dia obrigando o vizinho a ouvir essas músicas sobre o amor que foi embora.
Mudar-se, parece que todo mundo quer. Mas morar e trabalhar onde? Num lugar lindo como esse da foto, onde o tédio pode matar quem não é turista?
Sergio Moro, por exemplo, iria pra onde, se decidisse enfrentar Bolsonaro e sair do governo? Quem gostaria de ser vizinho de Sergio Moro?

QUEM A FOLHA ESTÁ PROTEGENDO?

Por que a Folha informa que Gregório Duvivier falou com o hacker que invadiu os celulares do pessoal da Lava-Jato e não diz quem são os jornalistas que agiram em conluio com Deltan Dallagnol e Sergio Moro para trocar informações e até dedurar possíveis suspeitos?
A Folha informa desde hoje cedo que Duvivier perguntou ao hacker, por curiosidade, se ele havia grampeado certos jornalistas, incluindo William Bonner.
O hacker trocou mensagens com Duvivier depois do começo dos vazamentos, e a Folha teve acesso às conversas do humorista, que estão sob guarda da Polícia Federal.
Mas a Folha não cita os nomes dos jornalistas de outra reportagem, que trocavam informações com a turma da Lava-Jato, chegando ao ponto de dedurar possíveis suspeitos.
Duvivier tem o nome exposto. Mas a Folha protege os nomes de outros jornalistas (não seriam poucos) que aparecem em outros vazamentos obtidos pelo Intercept como parceiros da Lava-Jato e participantes de uma estrutura podre de bajulação e vazamentos seletivos.
Quem a Folha está protegendo?