A história não terminou

O texto é comovente, mas falta um detalhe no artigo de Francis Fukuyama hoje na Folha sobre a vitória de Trump. Fukuyama é o mais frustrado dos pensadores do nosso tempo.
Ele previu, em artigo em 1989 (depois transformado em livro), que os valores ocidentais da democracia, do liberalismo, enfim, do que seria o conjunto da civilização, tudo isso seria um dia vitorioso. Com a queda do muro de Berlim, o mundo começaria a andar só pra frente. Estávamos caminhando em direção ao fim da história.
Hoje na Folha ele escreve:
“A classe social, hoje definida pelo nível educacional da pessoa, parece ter se tornado a fratura social mais importante em incontáveis países industrializados e de mercado emergente. Isso é propelido diretamente pela globalização e pela marcha da tecnologia, que foram facilitadas pela ordem mundial liberal criada em larga medida por influência dos EUA, de 1945 em diante”.
Mais adiante, diz:
“Mas todo mundo está dolorosamente consciente agora de que os benefícios desse sistema não se estenderam a toda a população”.
E encerra o texto afundado na melancolia de quem sabe que errou:
“Hoje, o grande desafio para a democracia liberal não vem de regimes abertamente autoritários, como a China, mas de dentro”, ou seja, dos Estados Unidos e da Europa. O que prosperou foi o ultranacionalismo
Só faltou um detalhe: Fukuyama precisa finalmente admitir que falhou. Porque parece que ele trata hoje de um assunto abordado apenas pelos outros.
O liberalismo defeituoso (as esquerdas também levam pau no texto), por ele idealizado como a receita para o mundo, é um fracasso. A democracia, como já se sabe, está nas mãos de Trump e seus seguidores e assemelhados em todo o mundo.
É o melhor texto sobre a vitória de Trump e seus desdobramentos que li até aqui. Publico o link, mesmo sabendo que os não-assinantes da Folha talvez não tenham acesso.

http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2016/11/1831920-nova-era-nacionalista-pode-estar-a-caminho-com-vitoria-de-trump.shtml

 

Virou tudo

calvin

Leio na Folha, na voz de um dos organizadores do Fronteiras do Pensamento, que o evento deste ano em São Paulo vai debater a grande virada.

Que estão trazendo até o Fukuyama, o cara aquele que erra todas as previsões, para anunciar a grande virada.

O que eu estaria perdendo? Fui ver o que seria a grande virada. Diz esse organizador que o momento é de mudanças profundas no comportamento das pessoas e das economias no mundo. Mudanças individuais e coletivas. Por isso, a grande virada.

Mas grande virada onde, cara pálida? Quem tem uma grande virada a me oferecer, com os refugiados sem saber para onde vão, com os britânicos fugindo da Europa e com o Donald Trump acabando com a respeitável direita americana.

Li e reli e conclui que é isso mesmo. Que o espírito marqueteiro da auto-ajuda chegou ao debate dito complexo ou mais chique. Deve ser esta a grande virada.