PROTEGIDO

Seria surpreendente se fosse o contrário. A Folha ficou sozinha nas reportagens sobre a violação pela Lava-Jato das conversas dos advogados de Lula. Esta semana, o jornal fez duas abordagens sobre o assunto.
Os outros estão quietos até porque nunca trataram do assunto. O Globo ataca o Queiroz e Flavio Bolsonaro para atacar Bolsonaro, mas não mexe com Sergio Moro.
O único jornal da grande imprensa que cutuca o ex-juiz é a Folha. Precisamos admitir, em respeito pelo trabalho de bons repórteres. Ontem, a Folha tinha duas matérias que denunciavam manobras de Moro, uma sobre os grampos ilegais de conversas dos advogados e outra sobre os encontros secretos de lobistas das fumageiras no Ministério da Justiça.
Além da Folha, só os blogs e os sites de esquerda tratam das ações ilegais de Sergio Moro quando juiz de Curitiba e das atitudes estranhas (vamos chamar de estranhas), já como ministro, com as fumageiras.
Ainda aguardamos manifestações do ex-juiz sobre a ideia maluca de Bolsonaro de criar uma moeda única Brasil-Argentina. O ex-magistrado deve dizer se esse dinheiro novo não afeta o cigarro nacional.

AS REUNIÕES SECRETAS DE SERGIO MORO

Reportagem de Angela Boldrini e Natália Cancian mostra na Folha que o Ministério da Justiça faz força para que sejam mantidos como secretos os encontros com lobistas da indústria fumageira.
Sergio Moro não informa nem à Folha e tampouco ao PSOL, que pediu informações, detalhes dos nomes, dos dias e dos motivos de pelo menos três encontros no Ministério com emissários dos fabricantes de cigarros.
Uma das questões mais estranhas do governo Bolsonaro (para chamar por enquanto de estranha) é o interesse de Sergio Moro em defender as fumageiras.
E tudo fica mais estranho com a negativa do ministro em esclarecer quem e quando foi ao Ministério para tratar da defesa do cigarro nacional contra o contrabando (seria esse o pretexto sempre alegado pelo ex-juiz).
Mas se esse é mesmo o argumento, por que o ministro não se manifesta sobre as reuniões? O que pode haver de secreto em encontros com fabricantes de cigarros? Quanta fumaça encobre esses segredos?
Sergio Moro é, até agora, um ministro muito preocupado com armas, balas e cigarros.

Tragadas

A Globo, via Jornal Nacional, entrou na estranha conexão de Sergio Moro com as fumageiras. Entra meio atrasada, mas entra, para esculhambar com a ideia do ex-juiz de proteger a indústria brasileira contra o contrabando de cigarro, porque a fumaça nacional faz menos mal à saúde….
A Folha estava sozinha nesse caso escabroso de um ex-juiz defendendo um vício verde-amarelo.
Alguém um dia vai contar que história é essa do ministro que passou a defender o cigarro com tanto empenho. Moro pode estar tragando fundo demais.

SERGIO MORO E AS FUMAGEIRAS

Sergio Moro passa todo tempo se explicando. Geralmente por causa de omissões. Explica-se pelo silêncio sobre o crime organizado dos milicianos, sobre a morte de Marielle.

Explica-se que uma hora considera caixa dois um crime qualquer, mas depois acha que é um crime grave. Esquece as biografias que diz ler e explica até quando fala conge.

Sergio Moro é um ex-juiz que se explica ou tenta se explicar a cada entrevista. E mais ainda agora quando o assunto é o pacto que teria feito com Bolsonaro para conseguir uma vaga no Supremo.

Mas numa questão ele passa batido e ninguém cobra. Qual é sua relação com as fumageiras? Por que Moro está tão preocupado em proteger a indústria do cigarro diante da concorrência do contrabando?

Por que logo o cigarro? Por que Moro criou um grupo de trabalho especial no Ministério da Justiça para tratar da proteção à indústria fumageira, com o argumento de que essa área sofre muito com a entrada de cigarros do Paraguai?

Que prioridade é essa? Por que só a Folha trata do assunto e todos os grandes jornais ignoram essa estranha relação de um ministro com a indústria de um vício que mata tanto?

A Folha publicou no começo de maio uma reportagem com um dado grandioso. Sergio Moro está lidando com uma empreitada que, a partir de estudos da própria indústria, poderia garantir ganhos de até R$ 7,5 bilhões no faturamento das fumageiras.

Esses estudos, levados em conta pelo time do ex-juiz, tem entre seus três autores dois pesquisadores Paraná, a terra de Moro. Um deles, Pery Shikida, virou conselheiro do Ministério da Justiça no Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária.

O estudo, diz a Folha, foi encaminhado a Moro pelo Idesf (Instituto de Desenvolvimento Econômico e Social de Fronteiras), que tem parceria com quem? Com a Souza Cruz.

É tudo muito estranho, mas talvez nem seja. Por que um ex-juiz preocupado com a moralidade se dedica com tanto empenho, logo que assume, à defesa do cigarro nacional, com o argumento de que o produto contrabandeado é mais danoso para a saúde e os cofres públicos?

Que prioridade é essa? Especialistas em saúde pública tratam do assunto com desconfiança. Porque não há uma explicação convincente para o esforço do ministro.

Sergio Moro, que passará um ano e meio (até conseguir a vaga no Supremo, se é que vai conseguir) explicando o pacto com Bolsonaro, deveria concentrar energias no esforço para chegar ao STF. Larga o cigarro, Sergio Moro.

Lobistas do fumo

Portrait of an old Chinese man wearing a traditional hat, taken in the hutongs near the Drum Tower and Bell Tower in Dongcheng District in Beijing, China.

Lobistas do cigarro no Brasil deveriam explicitar suas missões, para que não fiquem encobertos por artigos alegadamente independentes publicados com frequência pelos jornais.

Gente que conhece essa engrenagem já me advertiu que certas indústrias contratam formadores de opinião para que difundam “verdades” sobre o fumo.

Uma delas é a de que qualquer nova mudança na legislação (proibir a venda com exposição pública do cigarro e fazer embalagens padronizadas, por exemplo) favoreceria o contrabando.

Já li muitos artigos nessa linha, alguns escritos por gente das altas rodas (tem um autor gaúcho que se apresenta como filósofo, ligado ao interino de Brasília, que e vai fundo nos detalhes dos argumentos econômicos da indústria do fumo).

Eu não acredito que sejam articulistas sob encomenda. Não imagino que possam ser remunerados sob o disfarce do livre pensar ou de que apenas prestam consultoria.

O lobby em favor do cigarro é muito sério para ser exercido na penumbra.

Se os articulistas são pagos para defender a indústria e um vício que mata, que exerçam seu direito de opinar, mas deixem claro que são lobistas. Em nome da filosofia de vida que levam em meio à fumaça das fumageiras e de outras fumaças.