O MEDO DO ESPELHO

Do espanhol Manuel Lucas Matheu, presidente da Sociedade Espanhola de Intervenção em Sexologia e integrante da Academia Internacional de Sexologia Médica, em entrevista à Folha:
“Elizabeth Badinter, discípula de Simone de Beauvoir, disse: ‘A homofobia contribui para reforçar a frágil heterossexualidade de muitos homens’. Isso vem corroborar um estudo multicêntrico conduzido por uma equipe formada por investigadores da Universidade de Rochester, da Universidade de Essex, e da Universidade da Califórnia em Santa Bárbara que conclui que a homofobia se dá com mais assiduidade em indivíduos com uma atração não reconhecida pelo mesmo sexo. As descobertas apoiam a teoria de que o medo, a ansiedade e a aversão que alguns heterossexuais sentem a gays e lésbicas podem crescer com a repressão de seus próprios desejos homossexuais”.
E Manuel Lucas Matheu arremata com um recado:
“A sexualidade é um valor e uma capacidade de desenvolver, e não algo sujo. A sujeira está nas suas mentes, que foram contaminadas com uma sexofobia patológica e doente, cheia de medos e insatisfações, de origem multifatorial, onde têm relação com fatores educativos, traumas infantis e graves problemas de apego. Pois que tomem nota o senhor Bolsonaro e os que têm o mesmo discurso homofóbico e se olhem no espelho”.

De mãos dadas

Acho que vamos esperar por muito tempo para ver no Brasil as cenas que todos viram esta semana em cidades da Holanda, quando homens héteros saíram de mãos dadas pelas ruas em solidariedade aos gays, depois da agressão sofrida por um casal homoafetivo.

Alegrete, onde tudo acontece (inclusive passeata de loucos), poderia liderar um gesto como este no Estado.

Que escolhessem um dia para que amigos, irmãos, vizinhos, primos, colegas de trabalho héteros saíssem de mãos dadas no Alegrete. Duvidam?

 

Ele vem aí

São fortes os sinais de que o ultraconservador católico Ives Gandra Martins Filho é mesmo o mais cotado para a vaga de Teori Zavascki no Supremo.

Só para lembrar, ele é o autor destas frases, entre aspas:

“O casamento de dois homens ou de duas mulheres é tão antinatural quanto uma mulher casar com um cachorro”.

“Casais homoafetivos não devem ter os mesmos direitos dos heterossexuais; isso deturpa o conceito de família”.

“A mulher deve obedecer e ser submissa ao marido”.

O século 19 pode estar de volta ao Supremo pela voz e pela postura reacionária do homem que teme gays e mulheres e defende o fim da legislação trabalhista.

As brasileiras poderiam iniciar a preparação de protestos semelhantes aos que mulheres realizam em cidades do mundo todo contra a opressão, a discriminação e o machismos em geral.

Não subestimem esse senhor que, segundo seus seguidores, vai falar no Supremo em nome de Deus.

Orlando, a juíza e os cínicos

juiza

Eu conheço, todos conhecemos alguém que jogou pesado contra o casamento de gays no CTG de Livramento, em 2014. E não eram só os tradicionalistas de bota e bombacha ou os reacionários da cidade.

Era gente de fora da Fronteira, muitos de Porto Alegre, inclusive colegas de jornalismo. O CTG foi incendiado, em nome da tradição, mas a juíza Carine Labres resistiu, e o casamento saiu, apesar de alguns “esclarecidos” terem tocado o tambor da intolerância para a gritaria homofóbica.

O argumento era imbecil – gays não tinham que se meter com as tradições, porque tradição é coisa de macho. E dito por gente que nunca entrou em CTG.

Quem defendia as tradições é o mesmo tipo que chora agora o massacre de gays nos Estados Unidos e ataca o apego do matador ao fundamentalismo.

São pregadores de mensagens fofas, quando a tragédia é dos outros, lá em Orlando, e ao mesmo tempo são disseminadores de preconceitos rasteiros, sem dissimulações, quando o assunto envolve personagens gaúchos.

Assim, o massacre em Orlando seria obra de extremistas que odeiam gays. Mas o extremismo em Livramento contra quem desejava apenas casar no lugar que frequentava seria o quê? Seria uma resposta ao acinte de gays contra as tradições. É o que eles disseram há dois anos. É muita cara de pau dos oportunistas.

A juíza Carine sabe bem de quem eu estou falando. O repórter Nilson Mariano, que esteve em Livramento, e todos os que acompanharam a guerra contra os gays também sabem.