O SIMPLÓRIO SERGIO MORO

Sergio Moro é mesmo um simplório. A defesa de Lula pediu que o juiz fosse posto sob suspeição, depois de tirar fotos e frequentar evento patrocinado por João Doria Farinata Junior em Nova York.
O juiz respondeu que Lula também tem fotos ao lado de Aécio, Geddel e de outros políticos presos. Moro queria que Lula tivesse fotos ao lado do Pato Donald? Com quem Lula tiraria fotos, se é político há quase 40 anos?
Mas Lula não é juiz. Um juiz deve marcar sua atuação pela imparcialidade e pela impessoalidade.
Um magistrado, em democracias respeitáveis, nunca tiraria fotos e participaria de festas promovidas por políticos investigados por corrupção (mas sempre impunes) e que trabalharam abertamente por um golpe.
Mas Moro julga e manda prender Lula e tem um álbum de fotos com Aécio e Doria. Ele acha que tudo é normal e que a situação dele e de Lula com políticos é tudo a mesma coisa.
Moro nunca recebeu um voto na vida, por isso não pode conviver em convescotes com políticos, como se isso fosse da natureza da sua atividade. Não é.
Mas não haveria nada de excepcional se Moro tirasse foto com os caminhoneiros, por exemplo. Ele é ídolo dos caminhoneiros, assim como Bolsonaro.

As malas do Geddel

A notícia mais esdrúxula da semana foi esta. Geddel, o prestativo, o guarda-malas do Quadrilhão, quer saber do Supremo quem o delatou para a Polícia Federal e quem da PF recebeu o telefonema com a informação sobre a existência das malas.

Um bandido quer saber quem foi o comparsa que o dedurou, para poder, quem sabe, acertar contas. E quer saber também quem da polícia abriu caminho para que o serviço fosse feito?

Para quê? Por que Geddel teria o direito de saber quem foi o agente que recebeu a informação sobre as malas?

E agora vem a parte mais esdrúxula. Como os advogados de Geddel dizem que a operação foi ilegal, a partir de uma delação anônima, Geddel quer de volta as malas com os R$ 51 milhões.

A operação teria cometido uma falha formal de seguir rastros a partir da informação de uma pessoa que não se identifica.

O que Geddel quer mesmo é as malas com o dinheiro. Vocês podem estar rindo, porque um feriadão permite que se ria de qualquer coisa, mas não é para rir.

Em algum momento, algum juiz pode determinar que devolvam as malas do Geddel? É difícil, é improvável, é absolutamente impossível? Então tá.

Nada mais é impossível no Brasil da Lava-Jato em que Aécio está solto e o Quadrilhão governa e defende abertamente o trabalho escravo. Alguém pode determinar que as malas do Geddel devem ser devolvidas ao apartamento. Com juros e correção monetária. Duvidam? Vai depender do sorteio do caso no Supremo.

Qual é a da doutora Raquel?

E vamos começar a semana com essa dúvida provocada pela procuradora-geral. Geddel era mesmo chefe da quadrilha? Seria da quadrilha do jaburu? Mas a quadrilha do jaburu era chefiada pelo próprio jaburu, segundo Janot.
Todo mundo sabe que Geddel era apenas um prestativo, sem condições de ser subgerente da gangue do jaburu. Um sujeito que guarda R$ 51 milhões em um apartamento, na beira da janela, para pegar sol, não pode ser chefe de nada.
Vão dizer que Geddel foi ministro, por ser da cota do jaburu no governo do PT. Mas Mendonça Filho é ministro da Educação. Jucá foi ministro. Padilha é ministro. E ninguém sabe quem é o ministro do Trabalho. E o da Saúde, da Indústria, dos Esportes? Tiririca só não é ministro porque não quer. Ser ministro é uma barbada. Mas ser chefe do Quadrilhão é outra coisa.
Raquel Dodge pode ter indicado Geddel como chefe numa manobra para livrar o jaburu? Geddel, como capo, não poderia ser delator e não iria dedurar ninguém. E o jaburu, com proteção garantida pelos 300 picaretas, deixa de ser o líder. É uma teoria que corre por aí.
Geddel chefe de Padilha, de Moreira Franco, de Jucá, de Rocha Loures? É brabo acreditar. Geddel, o gordinho engraçado, amigo dos jornalistas (inclusive alguns gaúchos), o palhaço do jaburu, era o chefe do almoxarifado.
Geddel só chefiava as malas. Por que a procuradora nos deixa com essa dúvida? O que pretende a doutora Raquel?

O deixa-comigo do Quadrilhão

Ninguém mais duvida que Geddel, o prestativo, era o cofrinho de todo o Quadrilhão. O doleiro Lucio Funaro conta na delação que Geddel era o cara do deixa-comigo-que-eu-cuido-de-tudo-isso-aí.

Muita gente tem um Geddel por perto, não necessariamente um ladrão, mas um prestativo meio bobão que precisa ser reconhecido, até com bons cargos, pelo seu desprendimento. Geddel cuidava da grana, outros cuidam das mais variadas demandas. Na firma, na repartição, na família.

É o cara do eu resolvo. O sujeito aquele que sempre se encarrega de assumir  problemas, mas que também será visto sempre com desconfiança. Porque é um bobão.

Geddel era o bobo do Quadrilhão do PMDB, um aprendiz de coronel baiano. Por ser o cofre da turma do jaburu e de Cunha, ganhou cargos do PMDB nos governos do PT. Geddel era o prestativo da cota do jaburu.

O apartamento em Salvador, com as malas com R$ 51 milhões, era uma casa de passagem. Dali saía o dinheiro para, entre outras coisas, comprar o apoio ao golpe que derrubou Dilma. Geddel devia dizer todos os dias aos outros: fica tranquilo que está bem guardado.

Os outros tinham Geddel como o resolvedor, o prático, o ajudante-de-ordens. Nenhum dos demais membros da quadrilha faria esse trabalho de guardar  malas. Geddel fazia com gosto.

Todos nós conhecemos os Geddeis da vida, com aquela cara redonda, rosada, sempre fazendo piadas, amigão dos jornalistas. Mas esse é o sujeito que na História, na literatura policial e nos filmes faz o personagem que de uma hora para outra entregará sem querer todos os da quadrilha. É o faz-tudo que tropeça na soberba misturada à atrapalhação e à ingenuidade.

Os outros citados na denúncia de Rodrigo Janot, o Padilha, o Moreira Franco, o Henrique Alves e o Rocha Loures (a mula), deveriam ter boa parte de suas poupanças na malas do Geddel. Um dia Geddel vai falar, porque o faz-tudo não fica quieto.

 

O banco que pagou o golpe

Durante anos, os analistas políticos tentaram nos engambelar. Diziam que o poder de líderes da direita vinha da capacidade de articulação, do charme e até do perfume que usavam.
O poder, sabe-se agora, veio sempre da capacidade de distribuir dinheiro. Esse era o poder de Eduardo Cunha, como mostra a delação do doleiro Lúcio Funaro.
Cunha era, segundo o doleiro, “um banco de corrupção de políticos”. Ele pagava por apoios e mutretas.
Cunha, disse o doleiro, era articulado com o jaburu-da-mala. E o jaburu era chefe de Geddel, de Moreira Franco e de Padilha, segundo o Ministério Público. Todos juntaram muito dinheiro no Quadrilhão.
Funaro deve saber por cima o que só Eduardo Cunha e seus parceiros sabem a fundo: como foi comprado o apoio para derrubar Dilma? Quantas malas de Geddel foram usadas no golpe?
Mas a quem interessa essa informação, se não contribui em nada para o cerco a Lula?

AS DOENÇAS

No intervalo de uma das reuniões na ONU, Moreira Franco bateu na porta da suíte onde estavam o jaburu-da-mala e seus assessores. Moreira Franco pediu licença e entrou:

– Cumpre informar que o juiz não autorizou o tratamento para a cura do Padilha.

– Podemos falar disso depois? – indagou e ordenou o jaburu, alegando que precisava preparar uma proposta de paz entre Trump e o gordinho da Coreia e que esse plano seria decisivo para evitar a guerra.

Moreira Franco insistiu:

– Padilha deve ser curado logo.

– O que ele tem é saudade do Geddel – disse o jaburu.

Moreira Franco argumentou:

– E saudade é doença. Mas recorremos a um juiz de Brasília, o mesmo que disse que os gays são doentes, e ele disse que Padilha deve lutar para esquecer o Geddel. Ele não reconhece um homem saudoso como doente. Que Padilha é um homem sadio.

– E o Gilmar?

– Ainda não recorremos ao Gilmar.

– Pois faça-o. O Gilmar decide o que é doença, do resfriado às pestes medievais. Se for preciso, Gilmar prende as doenças e solta as doenças – disse o jaburu.

Quando Moreira Franco estava deixando a suíte, chegou Padilha.

– Saudade é doença, sim – disse Padilha.

– Mas o Geddel sairá logo – falou o jaburu, com a voz baixa, aquela voz em ponto morto que parece que não é dele, em tom de quem consola.

Padilha jogou-se na cama presidencial, agarrou-se ao travesseiro e começou a chorar.

– Mas e as malas? E as malas?

Padilha dava socos no travesseiro. O jaburu chamou Moreira Franco e fez um sinal com a mãozinha:

– Psss… Deixa ele quieto.

E virou-se para o assessor e continuou ditando, fazendo círculos com o dedo indicador no ar:

“Como eu estava dizendo, todavia, o Brasil oferece-se, no entanto, como potência mundial, a tratar a doença que acomete o mundo e que pode de inopino afastar-nos dos trilhos da paz, da bonanza…(com z mesmo)…”

A notícia das malas

O avião presidencial, o Air Force Jaburu One, fazia a curva de aproximação para aterrissar na Base Aérea. O voo de Pequim a Brasília havia sido tranquilo. Mas chegara a hora de alguém dar a notícia do sumiço das malas ao jaburu-rei.

Assessores de primeira linha só davam notícias boas ao jaburu. Notícias ruins, só com subalternos de subalternos. Um assessor de terceira linha foi então escolhido por sorteio e se dirigiu até a cabine presidencial, onde o jaburu ajeitava a gravata. O assessor foi direito ao assunto:

– Presidente, sumiram as malas.

O jaburu aprumou-se, deu uma ajeitada no pescoço, mesmo que quase não tenha pescoço, e retrucou:

– Sem problemas. Como sempre digo e tenho repetido, tudo o que perdemos num dia reencontrá-lo-emos no outro.

Outro assessor de terceira linha aproximou-se para tentar esclarecer:

– Presidente, não são as malas que o senhor está pensando…

O jaburu o interrompeu. Disse que malas são extraviadas com frequência em aeroportos. Mesmo em viagens presidenciais. E pediu que o assessor tomasse providências para recuperar as malas com as bugigangas que trouxera para o Moreira Franco e o Jucá:

– Se for preciso, acione o Padilha para que localize as malas.

– Mas…

E de novo o jaburu-da-mala não deixou que o assessor completasse a frase:

– Se não obtivermos resposta a contento, acione de inopino o Gilmar. Se as malas estiverem presas em algum lugar, que ele determine a libertação das malas.

Os dois assessores entreolharam-se, quando chegou um terceiro assessor de quarta linha. Esse assessor, mais decidido, disse com voz firme:

– Presidente, não foram as malas da viagem à China que sumiram. Foram as malas lá de Salvador. As malas da Bahia.

O jaburu-da-mala arregalou os olhos. O assessor continuou:

– Levaram tudo, presidente.

– As malas que estavam sob os cuidados do Geddel?

– Sim, presidente. As malas e as caixas.

O jaburu mudou a voz, como aconteceu naquele famoso discurso de maio do ano passado, quando tomava posse depois do golpe na Câmara.

Começou a tossir e se afogar nas mesóclises da própria saliva. E reagiu com voz trêmula e fraca, como se assoprasse uma voz que não era dele:

– Acionemos de imediato e sem vacilações a Polícia Federal.

– Mas foi a Polícia Federal que levou as malas – disse o assessor.

O jaburu caiu de costas e engoliu sem querer o comprimido que sempre usa para que a voz volte ao normal.

Ninguém sabe dizer o que aconteceu depois, porque o jaburu caiu como se fosse uma mala de batatas sobre as malas que estavam no chão, e os assessores chamaram as comissárias, que acionaram mais três assessores, que entraram na cabine tropeçando nas malas…

O dinheiro do gordinho

Deve ter quem acredite (a Lava-Jato acreditou) que Pedro Barusco era o único ladrão avulso da Petrobras. Gerente de terceira linha, Barusco roubou nos governos tucanos em 1997, 1998, 1999, 2000, 2001 e 2002 e depois continuou roubando em governos do PT.
Será que o tucano Barusco roubava para petistas? Há quem acredite até nisso.
Ele roubou pelo menos US$ 98 milhões. E confessou e devolveu esse dinheiro. A Lava-Jato liberou Barusco e nunca quis saber (será?) para quem ele roubava na Petrobras. Todos tinham quadrilha, menos o tucano Barusco.
Agora, deve ter quem acredite que os mais de R$ 40 milhões das malas de Geddel sejam só dele. De quem mais é esse dinheiro guardado pelo gordinho que há até bem pouco era ministro e homem de confiança do jaburu-da-mala?
Acredito que também desta vez não ficaremos sabendo. Mas muita gente, além do gordinho insuportável, deve estar lamentando essa perda.

E O CHEFE?

As malas de Geddel, o gordinho insuportável, segundo Renato Russo.
E dizer que Aécio quase manda matar o primo-mula por uma malinha com uns mirréis. E que o Rocha Loures levava uma malinha com R$ 500 mil para o jaburu. Isso é que é mala. E tudo bem arrumadinho.
Pelo menos Renato Russo está sendo vingado. E o chefe do gordinho? O chefe o Joesley deixou fugir.

https://www1.folha.uol.com.br/poder/2017/09/1915941-pf-encontra-bunker-em-salvador-e-vincula-a-ex-ministro-geddel.shtml