LULA E OS GENERAIS

A notícia do dia é esta: Lula quer conversar olho no olho com os militares. Quer saber o que os militares têm contra ele e contra o PT.
Que antes Lula ouça o presidente Tabaré Vázquez, do Uruguai. É consenso nas esquerdas que Lula e Dilma confiaram demais nas alianças políticas com a direita, nos militares e na Globo. Tabaré desconfiou de quem poderia surpreendê-lo.
Os militares foram enquadrados pelo poder civil no Uruguai, com uma série de providências que incluiu até a redução do número de generais.
A notícia sobre a intenção de Lula é boa e deixa solta uma curiosidade. Com quais generais Lula irá conversar?
Outra pergunta: quais generais fora do governo não concordam com a partilha de poder civil-militar feita por Bolsonaro, que tem 2.500 oficiais nos altos escalões de Brasília?
(Um detalhe importante: os generais não foram protagonistas no golpe que derrubou Dilma.)

OS GENERAIS DE BOLSONARO

O bolsonarismo nos ajuda a enxergar o que talvez nunca viesse a ser exposto sem a extrema direita no poder: não há uma elite de generais no Brasil com um mínimo de brilho ou de pensamento complexo, como havia na ditadura.

Há apenas operadores a serviço de Bolsonaro. Ou há elite pensante entre os que estão fora do poder? Ou esses que estão aí podem ser considerados de elite? Ou o conceito de elite mudou?

O vice, general Hamilton Mourão, de quem alguns esperavam alguma coisa e hoje ninguém espera mais nada, escreveu ontem essa barbaridade no Twitter:

“Na data de hoje, em 1532, o Rei D. João III criava as #capitanias no #Brasil. Descoberto pela mais avançada #tecnologia da época, o País nascia pelo #empreendedorismo que o faria um dos maiores do mundo. É hora de resgatar o melhor de nossas origens”.

Imaginem que o homem publicou #capitanias assim mesmo, com hastag, imaginando que sua surpreendente análise iria bombar. E bombou, submetida a todo tipo de sarro.

Fernando Haddad acompanhou as reações da maioria e escreveu:
“Opinião de um dos cérebros do governo”.

Algum déficit de formação pode ter mediocrizado os generais a ponto de um deles defender as capitanias hereditárias como exemplo de empreendedorismo e de outro pregar que a Terra é plana. Os acadêmicos poderiam investigar.

Se eles pensam assim na paz, nos atemoriza o que poderiam pensar numa guerra, se Bolsonaro decidir invadir a Venezuela ou se a China invadir a Amazônia.

O TEMOR DOS GENERAIS

Os quatro principais colunistas do Globo batem em Bolsonaro. A manchete do jornal online agora (e está na capa da edição impressa) é esta:
“Ex-assessores têm dificuldade de explicar trabalho para Flávio Bolsonaro”
A Globo aperta ainda mais o garrote, com a Folha tentando acompanhar o trote.
A manchete do Globo impresso hoje trata da apreensão dos generais com as loucuras de Bolsonaro.
“O que pensam os generais no governo”
O Globo começa a explorar o sentimento dos militares de alta patente, apresentados como uma maioria de moderados.
É um recado claro de que podem estar chegando ao limite do desconforto. O maior temor é com a possibilidade de serem acusados mais adiante como cúmplices de um desastre.
Nessa toada, fica fácil de prever. Não vai durar muito.

GUERRA SEM VOLTA

Os Bolsonaros, o pai e os três filhos, podem até fazer uma trégua com os generais, para que continuem convivendo no poder como se os conflitos entre eles fossem da natureza da cada vez mais imunda política brasileira.
O pais e os filhos podem fingir que é assim mesmo, que parceiros no poder nem sempre convergem. Que as desavenças fazem parte das concessões de quem chega ao governo e que é preciso lidar inclusive com os mais agressivos desaforos, como disse o Bolsonaro pai.
Mas não nesse caso. Essa não é uma briga entre civis que articulam traições, como a traição que o jaburu armou para Dilma. É um confronto de forças que envolve civis contra militares, muitos militares de alta patente, mesmo que de pijama, como nunca antes eles se envolveram.
Amanhã ou depois os generais e os Bolsonaros podem dar a entender que superaram os desentendimentos. Mas não poderão se livrar das sequelas da motivação do confronto: a suspeita de que há gente tramando um golpe no governo.
Os generais e os Bolsonaros sabem que uns e outros apenas compartilham o poder, mas não convergem no que mais importa para que um governo siga em frente. Falta afinidade, falta fidelidade. Falta o mínimo de respeito mútuo.
Esse é um governo em que todos passarão a dormir de olhos abertos.
Cada um tem o Game of Thrones que merece. A guerra da direita fardada e apijamada com a extrema direita das facções amigas dos milicianos é o que merecemos no momento.

NO URUGUAI É DIFERENTE

O Uruguai tem o que não temos hoje, um presidente civil com poder para fazer valer a Constituição e enquadrar os militares.
O presidente Tabaré Vázquez mandou embora hoje o ministro da Defesa, Jorge Menéndez, o subsecretário da pasta, Daniel Montiel, e o chefe do Exército, José González (na foto com Tabaré), que havia sido nomeado recentemente.
A acusação é de que todos (além de outros dois generais) teriam se omitido quando um militar confessou ter atirado o corpo de um “subversivo” no Rio Negro, durante a ditadura de 1973 a 1985.
O delator José Gavazzo havia dito a um tribunal militar que oficiais das Forças Armadas assassinaram o militante tupamaro Roberto Gomensoro.
Gavazzo admitiu que jogou o corpo no rio. Mas ele é acusado por outro delator de ter torturado o tupamaro até a morte.
A confissão de Gavazzo ocorreu no ano passado, e todos os generais ficaram quietos.
Tabaré decidiu que todos deveriam ser demitidos sumariamente, até que a justiça militar se manifeste sobre o silêncio cúmplice que favoreceu torturadores.
O que teria acontecido no Brasil?

Sem medo

Os generais que ficaram duas décadas no poder temiam o povo, os professores, os estudantes, o jornalismo de resistência, os sindicatos, a OAB e as instituições, porque a possibilidade de revolta e de retomada da democracia era real e estava sempre presente.
Os que tomaram o poder agora não temem mais nada. Se Bolsonaro anunciar amanhã que cada família terá de vender um filho para os europeus, para que o Brasil ajude Trump a pagar o muro da fronteira com o México, os filhos serão vendidos.
E não acontecerá nada. Nada. Mesmo que, depois da venda dos filhos, as famílias sejam avisadas de que Bolsonaro se equivocou.