Até tu, Dallagnol?

Agora, até Deltan Dallagnol pega pesado com Gilmar Mendes. O procurador disse no Twitter que Mendes “desmoraliza a Justiça” ao impedir que Sergio Cabral seja transferido para um presídio federal. Uauuu, como dizem aqui no FaceBook.
Está bem atrasadinho o chefe da força-tarefa da Lava-Jato. Atrasado pelo menos uma década em relação a tudo que já foi dito do juiz da mais alta Corte que, segundo o ministro Luís Roberto Barroso, age de acordo com seus correligionários.
Nunca vi Dallagnol dizer que Mendes desmoraliza a Justiça por causa das suas relações explícitas com os tucanos.
Nunca ninguém leu nada de Dallagnol sobre as desmoralizantes relações de Mendes com Aécio Neves e sobre suas decisões sempre favoráveis à direita tucana.
Dallagnol consegue ser o último dos retardatários das críticas a Gilmar Mendes.
O procurador chegou atrasado demais. Qualquer um agora bate em Gilmar Mendes. Já estou até com pena do homem.

O mundo subterrâneo do Judiciário

A Folha tem boas ideias executadas pela metade. Essa pauta ‘investigativa’ de hoje sobre as ligações partidárias da família do desembargador Rogério Favreto, por exemplo, deveria ser completa.
Favreto, que eu saiba, não tem obsessões justiceiras. Por que a Folha não faz a mesma pauta sobre as ligações subterrâneas de outros juízes dos mais variados tribunais, inclusive a nossa mais alta Corte, para que o leitor saiba bem em que lastro se sustentam os punitivistas seletivos que proliferam no Brasil? Inclusive no Ministério Público.
A Folha e todos os grandes jornais, com suas fabulosas equipes, poderiam descobrir, por exemplo, por que o ministro Luis Roberto Barroso disse esta frase, apontando o dedo em direção a Gilmar Mendes: “Vossa Excelência muda a jurisprudência de acordo com o réu. Isso não é Estado de Direito, é estado de compadrio. Juiz não pode ter correligionário”.
Que história é essa de compadrio? Mudar jurisprudência? Juiz pode ter correligionários? Só se forem de direita? A Folha precisa fazer esta pauta. Pode começar pelos nossos juízes mais ‘liberais’, esses que andam muito quietos.

Os monges do Supremo

Notícias de jornais informam que os ministros do Supremo estão escandalizados com a briga entre Gilmar Mendes e Luis Roberto Barroso. Mendes acusa Barroso de soltar corruptos e Barroso chama Mendes de mentiroso e de mudar a jurisprudência de acordo com o réu. E seus pares se surpreendem.

Deve mesmo ser um escândalo. O Supremo é o reduto dos monges. É só relembrar alguns exemplos da boa conduta dos colegas dos brigões.
Em 2007, quando Joaquim Barbosa se preparava para assumir a relatoria do mensalão, dois ministros trocaram mensagens pelo computador, flagradas pelo fotógrafo Roberto Stuckert Filho, do Globo.

Os dois ministros fofoqueavam sobre os grupos formados no STF, sobre a apresentação da denúncia e sobre as posições dos colegas, quando Barbosa virou tema da conversa. Um deles escreveu: “Esse vai dar um salto social”.

“Esse” era Joaquim Barbosa, o único negro do STF. A frase foi escrita pela atual presidente do Supremo, Carmén Lúcia. O interlocutor dela nas fofocas era Ricardo Lewandowski, revisor do mensalão, que passaria todo o julgamento brigando com Barbosa.

O próprio Lewandowski daria mais diante seu salto social, quase um duplo twist carpado, como presidente do Supremo, ao comandar a famosa sessão do Senado de 31 agosto do ano passado que aplicou o golpe em Dilma Rousseff.

Os ministros do Supremo estão surpresos com a briga Gilmar-Barroso porque esqueceram outra escaramuça, entre tantas outras, envolvendo o mesmo Gilmar e Joaquim Barbosa.

Foi em abril de 2009. Em determinado momento de um bate-boca, Mendes diz a Barbosa que ele não tem condições de dar lições em ninguém. E Barbosa responde: “Vossa excelência, quando se dirige a mim, não está falando com os seus capangas do Mato Grosso”.

Como aconteceu esta semana na briga com Barroso, o duelo foi encerrado com Gilmar Mendes nocauteado, com um sorriso de canto de boca. Nunca se ficou sabendo detalhes da história dos capangas.

Por isso, porque não se lembram de outros barracos e atitudes esdrúxulas (para usar uma palavra leve), os ministros disseram aos jornais que estão constrangidos com a última briga.

Tão constrangidos como ficaram na sessão que livrou Aécio e empurrou seu caso para a Câmara, quando a ministra Cármen Lúcia não conseguiu tornar compreensível o que afinal havia decidido, no voto de minerva em favor do tucano.

Por tudo isso, se quiserem bons exemplos para tentar reordenar suas vidas, pequenos e grandes bandidos sabem que qualquer exemplo, por mais básico que seja, não será encontrado neste Supremo.

O fantástico mundo das coincidências

1 – Num dia, Gilmar Mendes leva uma goleada de 10 a 1 em votação no Supremo e no outro é sorteado para cuidar do pedido de libertação de Joesley Batista.
O homem tem sorte para o jogo mesmo. Dizem que Gilmar era o terror das quermesses no Mato Grosso. A J&F, controladora do grupo JBS de Joesley, deu R$ 2,1 milhões em patrocínios para o instituto de direito público de Gilmar Mendes.
Mas não há por que achar que o julgamento não será justo e imparcial. Casualidades acontecem.
2 – De repente, num lampejo, o advogado Antonio Claudio Mariz de Oliveira descobriu, não se sabe como (e só agora), que havia sido advogado do doleiro Lúcio Funaro antes de ser advogado do jaburu.
E assim acabou descobrindo que Funaro acusa o jaburu de ser chefe de quadrilha. E assim também, entre o jaburu e Funaro, decidiu não ficar com nenhum dos dois.
Como diria Sergio Chapelin no Globo Repórter, são estranhos e fantásticos os mundos das coincidências de Gilmar Mendes e do jaburu.

Merecemos

Em qualquer outro lugar, na Síria, na Líbia, na Albânia ou no Paraguai, Gilmar Mendes seria uma figura sem condições de continuar integrando a mais alta corte do país, depois de uma sequência histórica de atos no mínimo indecorosos e de ser o único, entre 11 ministros, a votar a favor de um governo golpista.
Mas Gilmar Mendes é o ministro do Supremo que um país anestesiado, acovardado e constrangido com suas próprias panelas acaba por merecer.
A sensação hoje é de que o Brasil é um país sem cura. Mas a ciência está sempre avançando.

O teatro de Gilmar Mendes

Gilmar Mendes quebrou 124 flechas de Rodrigo Janot durante a defesa do seu voto contra a apresentação da nova denúncia do Ministério Público em que o jaburu-da-mala é apontado como chefe de quadrilha.
Mendes quebrou o arco, quebrou as flechas, pulou em cima e só não sentou nas flechas porque é perigoso. Atacou Janot, os procuradores de Janot, atacou Joesley Batista, fez mais do que o advogado de defesa do jaburu tentou fazer.
Mas perdeu por sete votos a um. Seu voto foi, até agora, o único contra o prosseguimento da denúncia, que deve agora ser encaminhada à decisão da Câmara, para ser recusada pelos mesmos que refugaram a primeira acusação contra o jaburu.
Gilmar Mendes não tem mais nenhuma preocupação em atuar como advogado do jaburu no Supremo. E ninguém poderá impedi-lo de continuar atuando. O Supremo é um teatro desqualificado por frases em latim, argumentos rococós, poesia ruim e pela performance patética de Gilmar Mendes.

 

Amigos, mafiosos e casualidades

A Folha de S. Paulo ouviu juristas diversos sobre a situação de Gilmar Mendes como amigo de pessoas influentes e de mafiosos que acabam envolvidos em algum processo que passa por ele.
A conclusão geral é a da casualidade, e não a do compadrio. Mendes não é assim tão amigo de ninguém.
O caso tratado é o da suspeição levantada por Janot em torno do processo do mafioso dos ônibus do Rio, tão íntimo que Mendes foi padrinho de casamento da filha do homem.
Mas, por casualidade, Mendes está sempre envolvido ou com essas figuras ou com algum processo que tenha como personagens Aécio ou o jaburu-da-mala, entre outros.
Segundo a maioria dos juristas, é tudo normal. Porque ninguém pode impedir que um juiz do porte de Gilmar Mendes tenha amizades e que essas amizades, por acaso, respondam a processos por atividades mafiosas. E que esses processos, por acaso, caiam nas mãos de Mendes. E muito menos que sua mulher tenha trabalhado, por acaso, para escritórios nos quais os mafiosos são defendidos.
Por tudo isso, o conluio pode ser maior do que o imaginado por Jucá, que incluída o Supremo. O conluio inclui juristas e altas sumidades do Direito. Os mais divertidos são sempre os ‘especialistas’ em alguma coisa da FGV.

Frases exemplares

As frases inspiradoras que voltamos a ouvir esta semana e que iremos ouvir até o fim dos tempos, se o golpe e a mediocridade continuarem vencendo.
Jaburu-da-mala: “A economia está entrando nos trilhos”.
Sergio Moro: “A justiça é para todos”.
Gilmar Mendes: “O rabo não abana o cachorro”.
Cachorro anônimo: “Nos deixem fora dessa”.

Eles temem Lula preso

Esta é a nova tese que se espraia pelo Brasil. Gilmar Mendes estaria soltando todo mundo, no atacado, porque vai ter que soltar graúdos da direita a granel mais adiante.
E a própria direita se diverte com a complementação da teoria. Ontem, Mendes mandou soltar um condenado julgado em segunda instância, porque é preciso preparar argumentos para mais adiante.
Lula poderia ser beneficiado pelo mesmo critério que libertou Vicente Oliveira, condenado por crime tributário, se tiver a condenação determinada por Sergio Moro, no processo do tríplex, confirmada pelo Tribunal Regional Federal da 4ª Região em Porto Alegre.
Ninguém sabe quem é Vicente Oliveira, que hoje seria apenas um pretexto para que a ideia de Gilmar Mendes possa prosperar. Liberta-se um Vicente qualquer agora, contrariando até o que o próprio Mendes pensava sobre a soltura de condenados em segundas instância, para libertar outros réus com grife depois.
No caso de Lula, a caçada ficaria pela metade, mas a parte decisiva estaria preservada, que é condená-lo para que não possa concorrer em 2018.
O detalhe é importante: ao não mandar Lula para a cadeia, a direita evitaria uma reação popular imprevisível. E Lula seria ‘apenas’ inelegível, e não um perigoso mártir na prisão.
A extrema direita, essa que está em articulação com o PSDB para o ano que vem, quer Lula preso. Mas a direita mais ‘racional’ não é tão imbecil.
Divirtam-se com a teoria, mas não debochem, porque o golpe segue em frente. Como disse Jucá, com todos juntos e mancomunados.