A Globo dá tribuna para Barroso

O discurso rococó de Luís Roberto Barroso em defesa da Lava-Jato ocupou mais espaço no Jornal Nacional que o tempo somado de todos os sete ministros que condenaram os métodos dos justiceiros de Curitiba.
Barroso defendeu o indefensável. Que se preserve a Lava-Jato, para que seus delitos não desmontem tudo o que foi feito em nome da lei.
Como disse Gilmar Mendes, para condenar criminosos, a Lava-Jato queria ter o direito de cometer crimes.
Não levou. Que Dias Toffoli não tente inventar uma gambiarra para dar sobrevida ao lavajatismo.

A GLOBO E A AMAZÔNIA

A Globo encerrou o Jornal Nacional com uma estranha correção. Depois de quase meia hora de reportagens sobre a devastação da Amazônia, William Bonner disse em tom de advertência, com a voz grave, como se estivesse fazendo uma grande descoberta bolsonarista, que a Amazônia NÃO é o pulmão do mundo. Ohhhh!!!
Tudo bem, não é. Mas essa é uma falsa controvérsia, antiga, que a direita sempre usa para sustentar seus ataques ao meio ambiente.
A Amazônia deve ser preservada não só porque possa ou não ser o pulmão do mundo. A floresta deve ficar como está porque tem vida (metade da biodiversidade do mundo), tem gente, tem rios, tem bichos e tem árvores. A Amazônia acolhe e reproduz vida permanentemente, e até hoje não foi decifrada por completo.
A Amazônia é decisiva para o equilíbrio ambiental de quase todo o Brasil e de boa parte do mundo, e não só da sua área. A Amazônia é mais do que uma floresta, mas só tem sentido como floresta.
Mas a Globo tinha que, no final do JN, dizer que a Amazônia não é o pulmão do mundo.
Nunca espere muito deles, mesmo quando parece que estão fazendo a coisa certa.
O que a Globo quer é fazer marketing ambiental e brigar com Bolsonaro, e não proteger a Amazônia.

A IMPRENSA DAS MAQUININHAS E AS ESQUERDAS

Que jornalismo que nada. A Folha será daqui a pouco muito mais negociante de intermediação de operações com dinheiro do que produtora de informação.

A Folha é dona do PagSeguro, das maquininhas de cartão, o que mistura os negócios da família Frias com o jornalismo e outros interesses.

E agora a Globo vai entrar na briga, não pela informação, mas também por uma fatia desse mercado. Os Marinho se associaram à Stone, outro grupo de maquininhas, do multibilionário Warren Buffett.

A própria Globo está noticiando a parceria. O mercado da notícia e do entretenimento no Brasil passa a ser, para tradicionais corporações de mídia, o mercado de outras coisas.

Ampliou-se a crise da atividade e do produto que vendem. E estão morrendo (Otávio Frias Filho foi a perda mais recente) ou abandonando o negócio os representantes da última geração das famílias da grande imprensa conservadora dita liberal que acreditavam em jornalismo.

O que fica claro, nessa confusão de interesses, é que o jornalismo brasileiro pede outro formato, com outros protagonistas. Alguns já estão aí, marcando posição e construindo reputações, mas ainda é pouco.

A esquerda brasileira vê a direita dita liberal enfraquecer o próprio negócio da comunicação, fazendo a opção pela intermediação de operações financeiras, mas não há nenhum grande projeto de perfil progressista nessa área. O que há é fragmentação.

A esquerda, que ficou 13 anos no poder, perdeu a eleição achando que perdera a guerra do WhatsApp para o Carluxo. O que a esquerda perdeu foi a guerra da informação. A esquerda abandonou inclusive a classe média à própria sorte.

A abstinência de informação (uma informação de esquerda que havia sido farta e vigorosa durante a ditadura) ajudou na condução ao bolsonarismo e à multiplicação de ignorâncias.

Mas ainda há muita gente nas esquerdas achando que pode vencer a guerra com mensagens que se contraponham ao WhatsApp e ao Twitter do filho de Bolsonaro.

A esquerda brasileira também foi hipnotizada pelo bolsonarismo e arrastada para uma batalha de torpedos, ditados e palavras de ordem que nunca irá vencer. Porque a arma é apropriada à munição deles, e não às armas das esquerdas.

A guerra pela informação não é a guerra das mensagens proposta pela extrema direita. A guerra de mensagens pode ser parte de táticas, ajustadas às circunstâncias. A grande guerra estratégica é a da comunicação, e esta a esquerda abandonou há muito tempo.

(Por favor, peço mais uma vez que não apontem exceções. Não estou falando de exceções, nem de guerrilha de informação de blogs e sites, mas de comunicação pesada, como há na Argentina e no Uruguai, inclusive com TV de esquerda. Vamos tratar da realidade, não da exceção que apenas a explica e justifica.)

OS IRMÃOS MARINHO DE MÃOS DADAS COM BOLSONARO

Estão confirmadas as suspeitas. O site porta-voz do bolsonarismo e do morismo está informando: Bolsonaro e a Globo estão encaminhando uma trégua.
Segundo O Antagonista, Fabio Wajngarten, secretário de Comunicação do Planalto, almoçou com João Roberto Marinho.
Está explicada a decisão da Globo de abandonar completamente a cobertura do sumiço do Queiroz e do mandante do assassinato de Marielle.
A Globo está de namoro com o bolsonarismo. O diretor do Antagonista, o homem-mosca Diogo Mainardi, dá a informação para agradar o patrão.
Mainardi é da turma que faz o jogo sujo e homofóbico da Globo contra Glenn Greenwald, muito mais do que contra o Intercept.
Os Marinhos tentaram derrubar o jaburu Michel Temer e não conseguiram. Tentaram enfrentar Bolsonaro, que ameaçou destruir a Globo, e fracassaram.
Tudo tem explicação, e esse namoro é esclarecedor. Ninguém almoça impunemente com um emissário de Bolsonaro. Muito menos um Marinho preocupado com a perda de receita da publicidade do governo. Eles se acharam e se merecem.

SABUJOS

Merval Pereira, o Alexandre Garcia que deu certo (porque tem uma sobrevida impressionante), insinua que Manuela D’Avila e Glenn Greenwald podem ter pago o hacker filiado ao PFL.
É o recado da linha a ser seguida pela polícia política de Sergio Moro. Merval só passa a mensagem adiante.
A Globo agarrou-se a Sergio Moro, e os dois afundam juntos no redemoinho. Há meses nenhum veículo do grupo publica uma linha sequer contra Bolsonaro. Para não desgostar o ex-juiz amigo, encurralado pela própria armação dos hackers de Araraquara.
A Globo decidiu que seus humoristas ficarão fazendo piadinhas pretensamente críticas, que apenas humanizam os Bolsonaros, enquanto o jornalismo sesteia e Merval, Diogo Mainardi e outros fazem o jogo sujo.
A Globo perdeu até para o Queiroz. Não sai mais nada sobre o chefe dos laranjas no jornal dos Marinho. Muito menos sobre o mandante do assassinato de Marielle. Os milicianos chegaram ao poder e puseram a Globo de joelhos.
Ontem, depois do jogo do Palmeiras, Bolsonaro foi ao vestiário para dizer a Felipão que tem um cachorro com seu nome.
Felipão, adorador de Pinochet, achou o máximo. Alguns jornalistas da Globo ficaram com ciúme de Felipão.

Globo ignora os desesperados

O principal fato do dia e um dos mais trágicos desde a ascensão do bolsonarismo foi ignorado pelo Jornal Nacional.
Um grande empresário, líder industrial, quebrado e desesperado, se mata em público com um tiro na cabeça, diante de um ministro e de um governador, e a Globo finge que não aconteceu nada.
São falsos pruridos. Se o suicídio tivesse acontecido fora do Brasil, seria notícia. Se o suicida fosse de esquerda, teria sido manchete.
O jornalismo de direita continua dentro dos limites de sempre. A Globo tem uma briga particular com Bolsonaro, que a ameaçou de destruição, mas ainda é a mesma do golpe de agosto de 2016.
Na imprensa do bolsonarismo moribundo, ainda não há espaço para os desesperados que desistem de viver.

O DUELO GLOBO-INTERCEPT

Por que a Globo passa a insistir na teoria da infiltração dos russos no escândalo dos vazamentos? Porque, se a aparecer alguma coisa que a envolva no pântano de Curitiba, tudo terá sido obra dos comunistas.
O duelo agora não é mais entre a Globo e Bolsonaro, pelo menos por enquanto. Agora é do Intercept de Glenn Greenwald com a Globo.
Há armadilhas nessa briga em que Greenwald diz que a Globo é parte do conluio da Lava-Jato contra Lula, e a Globo tenta desqualificar os arquivos dos vazamentos das conversas em que se confirma que Moro mandava em Dallagnol.
A armadilha seria esta: Moro pode cair, mas os Bolsonaros, o pai e os filhos, podem se fortalecer. Uma Globo fragilizada, com eventuais vazamentos que a comprometam, teria que força para continuar enfrentando Bolsonaro?
“A Globo foi para a força tarefa da Lava-Jato aliada, amiga, parceira, sócia”, diz Glenn Greenwald. O jornalista avisa: tem mais coisa guardada.
A Globo terá de levar adiante a tese da espionagem dos russos. E combinar com a turma de Curitiba que a estratégia agora é insinuar que todo vazamento é falso. Depois de admitirem, na arrancada, que as conversas eram verdadeiras.
Temos então a batalha entre o jornalismo meia boca da Globo (que tentava pegar Bolsonaro para se livrar da extrema direita que ameaça a organização) e o jornalismo de verdade do Intercept.
A Globo, que ajudou no golpe, que abandonou Eduardo Cunha, que não conseguiu depois derrubar o jaburu, que inventou Bolsonaro e que se volta agora contra a criatura enfrenta não só um site, mas toda uma rede alternativa que faz jornalismo sem falsas neutralidades, à margem do esquema poderoso da grande imprensa.
Uma pedrada na testa pode acabar com tudo.

GLOBO ATACA GREENWALD

A Globo pegou pesado com Glenn Greenwald, o diretor do Intercept Brasil. Esta é a nota divulgada há pouco pelo site Agência Pública em que a Globo ataca o jornalista pela entrevista concedida ao mesmo site.

“Segue esclarecimento da Comunicação da Globo sobre a entrevista de Glenn Greenwald, publicada por seu veículo.

Glenn Greenwald procurou a Globo por e-mail no último dia 29 de maio para propor uma nova parceria de trabalho. Em 2013, a emissora já havia dividido com ele o trabalho sobre os documentos secretos da NSA referentes ao Brasil. Uma parceria que mereceu elogios dele pela forma como foi conduzido o trabalho.

Greenwald ficou ainda mais agradecido por um gesto da Globo. Nas reportagens que a emissora divulgou, em algumas frações de segundo era possível ver nomes de funcionários da agência americana, que não trabalhavam em campo, mas em escritório. Mesmo assim, tal exposição poderia levá-lo a responder a um processo em seu país natal, os Estados Unidos. A Globo, então, assumiu sozinha a culpa, declarando que, durante a realização da reportagem, Greenwald se preocupava sobremaneira com a segurança de seus compatriotas. Tal atitude o livrou de qualquer risco.

Ao e-mail do dia 29 de maio seguiram-se alguns telefonemas na tentativa de conciliar agendas (ele estava viajando) para um encontro, finalmente marcado. Ele ocorreu na redação do Fantástico no dia 5 de junho. Na conversa, insistindo em não revelar o tema, ele disse que tinha uma grande “bomba a explodir” e repetiu que queria voltar a dividir o trabalho com a Globo, pelo seu profissionalismo. Mas, antes, gostaria de saber se a emissora tinha algo contra ele, sem especificar claramente os motivos da pergunta, apenas dizendo que falara mal da Globo em algumas ocasiões. Provavelmente se referia a um artigo que seu marido, o deputado David Miranda, do PSOL, tinha publicado no Guardian com mentiras em relação à cobertura do impeachment da presidente Dilma Rousseff. O artigo foi rebatido por João Roberto Marinho, presidente do Conselho Editorial do Grupo Globo, fato que deu origem a comentários desairosos do próprio Greenwald.

Na conversa de 5 de junho, ele afirmou que “tudo estava no passado”. Prontamente, ouviu que jamais houve restrição (de fato, David Miranda já foi inclusive convidado para entrevista em programa da GloboNews). Greenwald ouviu também, com insistência, por três vezes, que a Globo só poderia aceitar a parceria se soubesse antes o conteúdo da tal “bomba” e sua origem, procedimento óbvio. Greenwald se despediu depois de ouvir essa ponderação.

A Globo ficou aguardando até que, na sexta-feira à tarde, Greenwald mandou um e-mail afirmando que não recebeu nenhuma resposta da Globo e que devia supor que a emissora não estava interessada em reportar este material. Como Greenwald, no e-mail, continuava a sonegar o teor e origem da “bomba”, não houve mais contatos. Não haveria como assumir qualquer compromisso de divulgação sem conhecimento do que se tratava.

No domingo, seu site, o Intercept, publicou as mensagens atribuídas ao ministro Sergio Moro e procuradores da Lava-Jato, assunto que mereceu na mesma noite destaque em reportagem de mais de cinco minutos no Fantástico (e depois em todos os telejornais da Globo).

Na segunda, uma funcionária do Intercept sugeriu que o programa Conversa com Bial entrevistasse um dos editores do site para um debate sobre jornalismo investigativo. Como o próprio site anunciou que as publicações de domingo eram apenas o começo, recebeu como resposta que era conveniente esperar o conjunto da obra, ou algo mais abrangente, antes de se pensar numa entrevista.

Por tudo isso, causam indignação e revolta os ataques que ele desfere contra a Globo na entrevista publicada na Agência Pública. Se a avaliação dele em relação ao jornalismo da Globo e a cobertura da Lava-Jato nos últimos cinco anos é esta exposta na entrevista, por que insistiu tanto para repetir “uma parceria vitoriosa” e ser tema de um dos programas de maior prestígio da emissora? A Globo cobriu a Lava-Jato com correção e objetividade, relatando seus desdobramentos em outras instâncias, abrindo sempre espaço para a defesa dos acusados. O comportamento de Greenwald nos episódios aqui narrados permite ao público julgar o caráter dele.”

A MORAL DA GLOBO

O repórter Mauro Naves foi suspenso pela Globo porque teria passado dos limites nas regras, muitas vezes nem escritas, da relação de um jornalista com suas fontes.

Naves teria passado “contatos” (as notícias não esclarecem que contatos são esses) do pai de Neymar para os advogados de Najila Trindade, a moça que acusa o jogador de estupro.

Diz a nota da Globo: “Mauro Naves é um profissional excelente, com grandes contribuições ao Jornalismo Esportivo da Globo. Mas há evidências de que as atitudes dele neste caso contrariaram a expectativa da empresa sobre a conduta de seus
jornalistas”.

Expectativas? Se a Globo e as grandes corporações da imprensa brasileira tornarem tal decisão uma regra, sobrarão poucos. A imprensa vive dessa troca.

O chamado jornalismo de fontes, que ouve declarações nos cantinhos e em elevadores, manda recados, obtém furos e faz muitas vezes apenas o que a fonte quer, é quase regra na política. Mais do que no futebol, muito mais.

A grande imprensa vive disso. Muita gente fez fama com essa tática que alguns podem achar promíscua. Sem isso, não existiria jornalismo, nem Watergate, nem Lava-Jato.

A Lava-Jato é um resultado clássico dessa relação quase sem limites de jornalistas com os condutores de uma caçada, no Ministério Público de Deltan Dallagnol e no Judiciário de Sergio Moro, ou nada se saberia de delações e vazamentos.

O furo que Sergio Moro oferece de bandeja à Globo, quando grampeia Lula e Dilma e oferece a gravação da conversa à Globo, é o maior troféu dessa promiscuidade nos últimos anos.

Aquilo foi um delito do juiz e só existiu porque alguém da Globo topou a troca. A Globo ajudava a derrubar Dilma e a comprometer Lula, e o juiz ganhava fama.

A Globo tenta agora punir Mauro Naves porque o caso tem repercussão por um aspecto, o da moralidade dos costumes, que pune também a moça enquanto tenta punir o jogador.

A Globo nunca temeu se misturar a vazadores de informações sobre corrupção do PT e apenas do PT. Mas teme se envolver com vazamentos envolvendo estupro. Talvez porque Neymar precise de uma “proteção ética” que Dilma e Lula nunca tiveram.

É uma atitude muito ruim. É falsa. É cínica.

#CadêOQueiroz?

A Globo encontrou até a viúva de Pablo Escobar para uma entrevista no Fantástico, mas não encontra o Queiroz.
A Folha encontrou o manifestante atropelado por um tanque nas ruas de Caracas, mas não encontra o Queiroz.
O Estadão encontrou o último deputado liberal perdido entre bolsonaristas na Câmara, mas não encontra o Queiroz.
Os jornais são capazes de encontrar o último cágado das ilhas de Ubatuba. Mas não encontram o Queiroz.
Sergio Moro pode até dizer que não é com ele, porque ele não interfere em mais nada desde que saiu de Curitiba. Mas nós podemos perguntar: cadê o Queiroz, Sergio Moro?