POR QUE GLOBO E FOLHA ODEIAM BOLSONARO

Se não estivessem sob o ataque de Bolsonaro, que tomou a iniciativa da guerra, Globo e Folha teriam a mesma fúria contra a criatura que ajudaram a inventar com o golpe de agosto de 2016?
Foi Bolsonaro quem determinou que Globo e Folha eram inimigas e deveriam ser derrotadas, e não o contrário. No dia 1º de dezembro de 2017, Bolsonaro declarou, em vídeo caseiro, no primeiro ataque direto ao que definiu como “trabalho sujo da Globo”, quando ainda era pré-candidato:
“Vocês aí têm uma audiência de 40% (referindo-se à Globo). Mas pegam 80% da propaganda oficial do governo, que em grande parte sustenta a mídia. Se eu chegar lá, vou fazer justiça, vão perder metade disso, vão ganhar só 40%”.
Lula liderava as pesquisas e Bolsonaro vinha em segundo. A Folha só iria ser atacada diretamente no dia 29 de outubro do ano passado, quando Bolsonaro, já eleito, concedeu entrevista ao Jornal Nacional.
Ao comentar reportagens da Folha sobre seus assessores laranjas, Bolsonaro disse que “por si só, esse jornal se acabou”. E completou: “Não quero que [a Folha] acabe. Mas, no que depender de mim, imprensa que se comportar dessa maneira indigna não terá recursos do governo federal”.
A partir daí, a guerra não teve tréguas. Bolsonaro reduziu as verbas do governo para a Globo, tentou acabar com a obrigatoriedade de publicação de balanços de empresas em jornais (a MP caducou por boicote da base aliada) e determinou que o Planalto cancelasse as assinaturas online da Folha.
Nunca os jornalistas de Globo (TV, rádio e jornal) e Folha estiveram tão à vontade para bater num governo de direita como agora. Talvez nem nos governos petistas a artilharia das duas organizações tenha sido usada com tanta intensidade, todos os dias, na direção de Brasília. Até Merval bate na direita.
Não há, na Globo e na Folha, ninguém que defenda Bolsonaro. As concessões são feitas apenas a figuras, em especial Paulo Guedes e Sergio Moro. O caçador de Lula e fornecedor de grampos ilegais merece tratamento vip. A dívida da Globo com Moro é impagável.
Guedes é exaltado pela sua obstinação com as ‘reformas estruturais’, que interessam aos bancos e aos empresários. E agora ainda tem a festa para o pibinho do trimestre.
Os inimigos de Bolsonaro nos jornais e na TV calibram os ataques quando o foco é a economia e o desmonte do Estado, porque concordam com a liquidação do pré-sal e do que resta de patrimônio público, a precarização de serviços na saúde e na educação (para que sejam assumidas pela área privada) e a depreciação da imagem do servidor público.
Não há uma crítica, uma só, de Folha e Globo, ao Ministério da Agricultura e à liberação criminosa de venenos para a lavoura. Porque a Globo tem um compromisso com o agronegócio, e o agro é pop.
Para quase todo o resto, Globo e Folha mandaram um recado: salvem-se os que puderem se salvar. As mais fulgurantes estrelas do reacionarismo na imprensa brasileira são agora críticos implacáveis de um governo de direita.
As redações de Globo e Folha se divertem com a possibilidade de atacar Damares, Araújo, Weintraub, os subalternos dos órgãos culturais, o filho que pretendia ser embaixador, o negro que se revela racista, o sujeito que acusa os Beatles de disseminarem o comunismo e a adoração ao diabo, os terraplanistas olavistas e o Salles omisso com grileiros e incendiários da Amazônia. A Globo defende a floresta, porque também nessa área há munição para atacar Bolsonaro e fazer o marketing do ambientalismo.
Mas Globo e Folha atacariam os Bolsonaros, sairiam atrás da história do Queiroz e debochariam do fundamentalismo religioso do governo, se Bolsonaro não tivesse declarado guerra?
Como seriam as relações das organizações que Bolsonaro quer exterminar, se o armistício tivesse sido assinado logo depois da posse, e Globo e Folha mantivessem, apenas por protocolo, uma postura crítica branda diante dos desatinos de Bolsonaro?
A Folha continuaria dizendo, como assegurou em outubro, em meio à campanha, que Bolsonaro não era um candidato da extrema direita? Hoje, para a Folha em guerra, é um autoritário “fantasiado de imperador”.
A briga é boa, porque pode reposicionar a Folha golpista e prolongar mais um pouco a sobrevida do jornal impresso. E pode salvar a Globo, se Bolsonaro cair e só se Bolsonaro cair.
Mas Globo e Folha teriam a mesma fúria se Bolsonaro não tivesse declarado guerra aos seus interesses? Os donos, os jornalistas, os leitores, os ouvintes, os telespectadores sabem que não. Bolsonaro também sabe.

A ECONOMIA FANTASIOSA DA GLOBO

O Jornal Nacional decidiu atuar como animador de auditório do bolsonarismo.
Deu agora que as fábricas de embalagem do Brasil estão produzindo como se fossem da China.
A economia está explodindo. As indústrias atacam trabalhadores nas ruas. A estagnação foi embora.
O JN está induzindo as pessoas ao consumo. É a Globo cedendo a Bolsonaro e Paulo Guedes.
E os preços da carne, da gasolina, do gás, do dólar? Disso daí o JN não fala nada, talquei?
A Globo é inimiga eventual da extrema direita e está em guerra com as milícias e os neopentecostais, para não perder espaço para a Record, mas sempre será a Globo.
A notícia de agora à noite sobre a farsa da recuperação da economia (que na verdade é um suspiro produzido pela gambiarra do FGTS) é uma das mais descaradas fake news do ano.

GOLPE NA BOLÍVIA REAPROXIMA BOLSONARO E A GLOBO

Gustavo Maia é o repórter que conseguiu uma estranha proeza, a entrevista exclusiva de Bolsonaro, por telefone, para O Globo.
“A palavra golpe é usada quando a esquerda perde”, disse Bolsonaro na entrevista que virou manchete do Globo online na noite de domingo.
Se Bolsonaro quer destruir a Globo e nunca mais concedeu entrevistas a veículos do grupo desde a declaração de guerra aos Marinho (e ataca todos os dias os comentaristas da GloboNews), por que dar entrevista agora? E entrevista exclusiva.
Que história é essa de Bolsonaro atender telefonema da Globo, domingo à noite, para comentar a situação na Bolívia?
Bolsonaro se esqueceu de que seu projeto prioritário é a destruição da Globo?
Será que a Globo e Bolsonaro finalmente se entenderam e decidiram que o inimigo comum é Lula? Ou um golpe sempre restitui afinidades eventualmente abaladas entre golpistas?

O DRAMA DA GLOBO E DO JORNALISMO FOFO

O jornalismo fofo está mais apavorado do que o jornalismo da extrema direita. A turma da extrema direita agarra-se a Bolsonaro, a Sergio Moro e aos milicianos e está tudo resolvido.
É a guerra deles, na Record, na Band e similares, contra Lula em liberdade.
Mas os jornalistas fofos estão num dilema. Precisam bater em Bolsonaro e bater em Lula.
Os fofos estão com dois inimigos. É a situação de muita gente da direita moderada da Globo e de suas afiliadas.
A Globo não sabe qual batalha é prioritária e se tem armas para atuar em duas frentes.
Bate em Bolsonaro, mas com cuidado, para não bater em Guedes e nas reformas. E ao mesmo tempo precisa bater em Lula.
É complicada a situação dessa gente, que muitas vezes acaba fazendo o mesmo jogo das facções ligadas aos milicianos.
O jornalismo fofo cobra seu preço. Lula em liberdade é um problemão.

A SALVAÇÃO DA GLOBO

Os piores jornalistas, em toda parte, nos jornais de Itaqui, de Araraquara ou da Islândia, são os de direita. Defendi o seguinte hoje no almoço da nossa confraria de jornalistas em que um dos confrades é Mario Marona, ex-editor-chefe do Jornal Nacional.

Eu disse ao Marona, mesmo que ele não precise ouvir palpites e lições sobre o que mais sabe: a Globo só se salvará da armadilha que criou sobre o caso do porteiro se apostar em jornalistas de esquerda. Jornalistas mesmo.

Jornalistas de direita estão condenando a grande imprensa à morte precoce. Ali Kamel, diretor de jornalismo da Globo, nunca foi repórter. Sempre foi chefe. Já nasceu como chefe, como muitos jornalistas gestores. Kamel é um reacionário que atua como intérprete das vontades do dono.

Essa história do porteiro é exemplar do jornalismo que tenta atender as demandas do chefe. Os Marinho precisam bater nos Bolsonaros. Surgiu o porteiro. Mas os jornalistas, sob pressão, lidaram mal com a pauta, tudo porque o comando das redações da Globo é de gerentões de direita.

Jornalistas de direita são o horror das redações. Sempre foi assim. Não existem jornalistas de direita. Existem gestores de custos, bajuladores e palpiteiros.

A Globo precisa, com urgência, contratar jornalistas que não sejam apenas cumpridores de ordens, ou será derrotada por 7 a 1 pelos Bolsonaros. Precisa de gente que transgrida e desafie os próprios chefes.

As grandes redações brasileiras, em todos os tempos, foram tomadas de gente de esquerda, com muitos comunistas. Faltam comunistas nas redações, que foram sequestradas por gerentes e amigos dos gerentes.

A Globo precisa chamar os ‘comunistas’ de volta, no sentido amplo do significado da palavra. Chamem os talentos de esquerda.

Jornais conservadores que fizeram história foram sustentados por equipes progressistas. Chamem os jornalistas de esquerda ou a extrema direita vai apressar a morte do jornalismo da grande imprensa, que tenta sobreviver fazendo média com a audiência conservadora.

As redações tomadas por jornalistas de direita, enquanto tentam enfrentar Bolsonaro, são tão absurdas quanto churrascarias com cozinheiros vegetarianos.

Deixem os jornalistas de direita em funções corporativas e institucionais. Chamem jornalistas jovens, atrevidos, mas de esquerda. Chamem já.

A Globo dá tribuna para Barroso

O discurso rococó de Luís Roberto Barroso em defesa da Lava-Jato ocupou mais espaço no Jornal Nacional que o tempo somado de todos os sete ministros que condenaram os métodos dos justiceiros de Curitiba.
Barroso defendeu o indefensável. Que se preserve a Lava-Jato, para que seus delitos não desmontem tudo o que foi feito em nome da lei.
Como disse Gilmar Mendes, para condenar criminosos, a Lava-Jato queria ter o direito de cometer crimes.
Não levou. Que Dias Toffoli não tente inventar uma gambiarra para dar sobrevida ao lavajatismo.