A ENTREVISTA

Ainda sobre a entrevista de Fernando Haddad a William Bonner e Renata Vasconcelos no Jornal Nacional. Algumas perguntas:

1. A dupla atacou desde o início apenas para tentar desqualificar Lula, Dilma, o PT e Haddad? Não.

2. Foram agressivos para que ficasse claro que eles têm a razão e que os petistas são todos corruptos, enquanto Alckmin e os tucanos seriam honestos? Não.

3. Interromperam Haddad várias vezes para mostrar que eles são os espertos e têm mais argumentos e sabedoria do que o candidato do PT? Também não.

A desqualificação de Lula, Dilma, do PT e do próprio Haddad (chamado de poste) era o que a Globo esperava de ganho acessório. O grande ganho era outro.

Bonner e Renata não estavam preocupados em desconstituir o PT, porque fazem isso todos dias e não precisavam gastar tempo com ataques que a imprensa de direita repete sem parar em horário nobre da TV e nos jornais.

O que eles tentaram fazer, por orientação do alto comando, foi desestabilizar Haddad. Tudo o que eles buscaram todo o tempo foi isso: com as acusações, queriam forçar Haddad ao erro, ao vacilo e, o que seria pior, ao descontrole.

A entrevista não foi feita para atacar por atacar. Os ataques foram parte do esquema montado para que Haddad tombasse diante deles, ao vivo, em rede nacional, por desinformação, insegurança ou agressividade.

O Jornal Nacional queria que, ao final da entrevista, um Haddad descabelado fosse mostrado ao Brasil como alguém sem condições de governar.

O que se viu foi o contrário. Os dois tombaram diante de um Haddad que, se cometeu algum erro, foi o de excesso de cordialidade com dois agressores que mais uma vez desqualificaram o jornalismo.

NOVE VALENTES E CALADOS

A gafe cometida por Miriam Leitão ontem à noite na Globo News, ao ler uma nota em que a Globo volta a se desculpar por ter apoiado a ditadura, foi o desfecho de uma sequência de erros.
Quando Bolsonaro acusa a Globo de ter colaborado com a ditadura, e cita inclusive trechos de um editorial com elogios ao golpe de 64, todos os jornalistas que o entrevistavam ficaram quietos.
Não deveriam ter ficado. Eram nove jornalistas da Globo no estúdio. Nove. Quase um time de futebol. Nenhum deles, em nenhum momento, fez o que um jornalista deve fazer em situações como aquela.
Quando Bolsonaro diz que a Globo apoiou o golpe, não era preciso que nenhum deles defendesse a Globo. Se quisessem, poderiam defender, é um direito deles.
Mas eles deveriam tentar se comportar como jornalistas. E como jornalistas deveriam ter esclarecido que o jornal O Globo (a TV ainda não existia) de fato apoiou o golpe.
E que em agosto de 2013 o grupo dos Marinho pediu desculpas e se disse arrependido. Também em editorial.
Por que nenhum deles tomou a iniciativa de esclarecer a posição da Globo, não só para dar a resposta a Bolsonaro, mas para dar a informação aos espectadores? Porque Bolsonaro os manteve acuados.
A entrevista com Bolsonaro foi um dos vexames do jornalismo este ano. Com um detalhe: a nota lida por Miriam Leitão não esclarece que o jornal O Globo na verdade não só apoiou o golpe editorialmente, como foi cúmplice da ditadura.
(Minha observação a respeito dessa cumplicidade está em texto curto que publiquei este ano no meu blog. Link abaixo.)

 

O SILÊNCIO DOS CRIMINOSOS

 

 

JUNINHO PERNAMBUCANO E O JORNALISMO INTOCÁVEL

Por que Juninho Pernambucano teve de deixar o SportTV e a Globo, onde vinha comentando jogos de futebol? Porque criticou jornalistas ao vivo e ninguém no Brasil pode criticar jornalistas.
Jornalistas criticam papas, jogadores e técnicos de futebol, engenheiros, professores, governadores, deputados, sindicalistas, ambientalistas e até miseráveis que ocupam prédios porque não têm onde morar.
Jornalistas fofos vivem de falar bem do outono e dos pássaros e de falar mal de Lula, das esquerdas, de professores em greve, de manifestações que atrapalhem o trânsito. Mas ninguém pode falar mal de jornalistas.
Eu vivi e vivo também de sofrer ataques (tenho ex-colegas que me atacam diretamente, sem rodeios, até aqui no meu perfil). É do jogo, com os limites da crítica. Não me acanho diante de discordâncias.
Mas, na média, os jornalistas odeiam a crítica. Porque a maioria se acha neutro e imparcial, o que é uma grande bobagem. Eles acham que a crítica seria o cerceamento da liberdade de expressão. Todo jornalista que diz isso é invariavelmente de direita, da mais moderada à mais radical.
Juninho cometeu o erro de ter opinião (é um comentarista acima das obviedades) e de criticar jornalistas setoristas de clubes de futebol ao vivo. Na mesma hora, a direção do SportTV emitiu uma nota em resposta, como se qualquer coisa que dizem dos jornalistas devesse ter uma reação patronal. Juninho não suportou os constrangimentos e pediu para sair. Fez bem, porque assim denunciou a farsa da diversidade e do respeito às opiniões alheias.
O jornalismo brasileiro resistiu à ditadura, depois de 68, mesmo que em alguns casos de forma titubeante. Mas as redações tiveram como marca a decisão de lutar pela democracia. Hoje, o jornalismo enfrenta sua pior crise porque anda na direção contrária.
Um jornalismo que caça quem o critica é deplorável. E um mau exemplo para estudantes de Comunicação. O jornalismo censor é mais um produto do ambiente do golpe. E sem disfarces.
(O vídeo com a fala de Juninho e reação patronal está na área de comentários.)

(Este é o link para o vídeo com a fala de Juninho e a reposta do SportTV)

https://www.youtube.com/watch?v=OG6A6CSpbSs

 

 

 

A GLOBO ESTÁ FORA

A pergunta do dia é esta: por que a Polícia Federal aceitou levar adiante o acordo de delação de Palocci, antes esnobado pelo Ministério Público?
Uma resposta possível: Palocci não tinha, como o MP pensava, novas munições contra Lula e Dilma. Mas a PF não quer saber se ele tem pouco ou muito a dar para atingir os ex-presidentes.
Tem outra suspeita, a partir de uma informação que está solta hoje na coluna de Mônica Bergamo na Folha. Ao tentar primeiro o acordo com os procuradores, Palocci disparou contra Lula, contra os bancos e contra a área de comunicação (leia-se a Globo).
O MP não queria saber de bancos e Globo, mas de continuar atacando Lula. Com a PF, o acordo é outro. A colunista informa que, além de Lula e Dilma, sobraram apenas os bancos na delação. Esses seriam os alvos de Palocci. A Globo saiu da lista.
Alguém deve saber porque o sujeito recuou. Palocci pode ter descoberto que, se atirasse contra a Globo, nunca mais sairia da cadeia.

O VERDADEIRO CHICO

O vídeo com o ‘falso’ Chico Pinheiro (será?) é uma das coisas mais sensacionais desde o início da internet.
Pela imitação, pela perfeição do tom de voz e das pausas, pelo texto, pelo roteiro e pela edição de imagens, a cantiga de Pesadelo, de Paulo César Pinheiro, em que ele troca a palavra muro por Moro, como observaram os que conhecem MPB.
É fake? Mas aí, meu amigo, o que é verdadeiro hoje na política fora a coragem do Lula?, como diria esse Chico Pinheiro que parece ter encarnado o espírito de Orson Welles para emocionar o Brasil.
Isso não é fake news, é arte, até porque o próprio autor sabia que seria desmascarado, ou não.
Eu passei a integrar o grupo dos que acreditam que aquele é o Chico verdadeiro. O mundo não é só dos Wlllians Waacks.
(Que não apareça um perito de voz da própria Globo, aquele tal Ricardo Molina, tentando acabar com essa bela confusão.)

FUI LOGRADO (DE NOVO)

Esperei até agora pra ver a tal reportagem do Fantástico sobre corruptos impunes. Eu sabia que seria enganado, mas me sinto atraído por estas pilantragens do ‘jornalismo’. Foi um fiasco.

Não deram uma linha, uma só, sobre os 10 anos de investigações e impunidade dos tucanos paulistas no caso das propinas do metrô paulista.

Não deram uma linha, uma só, sobre a impunidade de José Serra, denunciado por ter mais de R$ 20 milhões em propinas da Odebrecht na Suíça, mas cujo processo prescreveu no Supremo por culpa do próprio Supremo.

Não se lembraram da impunidade do Quadrilhão liderado pelo jaburu, que enfrenta dois inquéritos no Supremo e já foi denunciado duas vezes pela Procuradoria da República e escapou por proteção do Congresso corrupto.

Não falaram nada sobre o esquema de corrupção tucano que vinha desde Mario Covas e passou por José Serra e Geraldo Alckmin e era comandado pelo arrecadador Paulo Preto, o laranja tucano preso na quinta-feira, sem que ninguém mais fale dele. Preto é o laranja de uma conta tucana de R$ 130 milhões na Suíça.

Esconderam a corrupção de Aécio Neves, flagrado pedindo dinheiro para Joesley, enquanto ameaçava matar o primo mula depois flagrado com malas de R$ 2 milhões.

Não disseram nada sobre a proteção que Aécio obteve do Supremo para que uma denúncia contra ele fosse engavetada pelo Senado.

Calaram sobre a mala do jaburu carregada pela mula Rocha Loures.

Falaram apenas do tucano Eduardo Azeredo, chefe do mensalão mineiro, mas Azeredo é galinha morta. Os tucanos vivos e similares foram poupados.

Mas pouco antes contaram tudo sobre a corrupção… no Peru.

MARIELLE NAS MÃOS DA GLOBO

A Globo quer se apropriar da imagem de Marielle Franco. Ontem, para homenageá-la, o Fantástico descobriu a Declaração dos Direitos Humanos e informou que se trata de uma convenção assinada também pelo Brasil.

A Globo sabe que a direita sabe o que significa a Declaração. Todos os que combatem defensores de direitos humanos sabem. Bolsonaro e seus seguidores sabem muito bem.

E todo mundo sabe que a Globo exalta sem parar a memória de uma defensora dos direitos humanos porque Marielle Franco está morta. Não há na história da Globo nada que recomende a ver sinceridade nessa exaltação.

A Globo teatraliza questões fundamentais e temas como esse em novelas e no jornalismo, mas foge da realidade que a incomoda. A esquerda em que Marielle militava incomoda a Globo. Os vínculos de gente com a bravura de Marielle com negros e pobres também incomodam.

A esquerda incomoda a Globo e os que fingem não saber o que são direitos humanos. Mas a Globo gosta de heróis mortos como figuras míticas e finge gostar até de Che Guevara.

Para a direita, guerreiro bom é guerreiro morto. Guerreira valente é a que pode ser explorada pelo marketing global. A Globo teme e esconde de seus programas os militantes de esquerda vivos e só espera que virem mártires para poder usufruir de suas imagens.

Foi o que fez ontem com Marielle, a vereadora eliminada no começo de uma intervenção que ela condenava, porque somente iria pegar os pobres.

A Globo exaltou Marielle, fez o Brasil chorar de novo por Marielle e no fim defendeu a intervenção, como irá defender de novo hoje, contra negros e pobres.

A memória de Marielle não pode ser manipulada pela Globo, pela grande imprensa e por jornalistas fofos a serviço do golpe e da intervenção.

Alguém disse que Marielle era “uma potência” por sua capacidade de agregar, mobilizar, de acusar as milícias, criar empatia, de defender seu povo. Pois a Globo quer tratar Marielle a seu modo, para que sua imagem seja pasteurizada e perca a potência que a grande imprensa teme nos que continuam vivos.

A direita deve cuidar da imagem de Sergio Moro e de Bolsonaro. Marielle era uma radical da democracia e dos direitos humanos.

O SINHOZINHO FICOU MAL

Com a barbeiragem na tentativa de emplacar Luciano Huck como candidato tucano, Fernando Henrique Cardoso virou a figura folclórica do PSDB.
O sinhozinho que liderava a mesa dos chefes tucanos no Restaurante Fasano hoje é como aquele tio-avô que todo mundo ouve, por formalidade, mas ninguém mais leva a sério.
A estratégia com Huck é coisa de coronel. FH jantou com o preposto da Globo no restaurante e combinou que sairia a dar entrevistas a rádios e jornais defendendo o pupilo.
Depois, era só esperar a reação dos parceiros. Ele seria o fiador de Huck. Foi chamado de caduco.
FH poderia ter optado pela construção de um protagonismo de estadista. É um ex-presidente enfiado em brigas miúdas do partido e nas lambanças contra Lula.
Um dia ainda teremos a exata noção da sua mediocridade também como governante que vendeu estatais a preço de banana e quebrou o país no segundo mandato.
Luciano Huck é a cara de Fernando Henrique, apenas com um nariz mais potente.

O SILÊNCIO DOS CRIMINOSOS

Em agosto de 2013, o grupo Globo admitiu que errou ao apoiar ‘editorialmente’ a ditadura no jornal dos Marinho. Levou 48 anos e cinco meses para confessar o que todos sabiam.
Talvez seja o caso de ir um pouco adiante, como fez a Volks agora, e admitir que colaborou com a ditadura.
A Volks confessou que diretores da empresa no Brasil delatavam funcionários ‘subversivos’, que seriam depois perseguidos pelos militares.
A imprensa colaboracionista e os empresários brasileiros que cometeram o mesmo crime da Volks continuam calados.