Tocaia

A GloboNews formou uma roda com sete jornalistas para cercar Fernando Haddad ontem. Ali é sempre assim, eu sei.
Mas existe em algum lugar um jornalismo com esse modelo, em que o entrevistado é cercado por sete inquisidores? Sete!!!
A tática é a mesma do futebol. Um faz a primeira falta no tornozelo, o outro vem e ataca com o cotovelo e depois surge mais outro, sempre tentando atacar pontos vulneráveis, em rodízio, para minar a resistência do adversário.
A GloboNews dos entrevistadores de olhos arregalados é uma patologia a ser estudada nas escolas de comunicação.
Que estudem também como a caça, no caso Haddad, conseguiu reagir com força aos ataques, como se tivesse sido tocaiado por hienas.
Haddad mostrou a cada um (com uma dose certa de ironia) que todos estavam despreparados para o cerco. E que todos eles contribuem, sim, para fomentar os ódios que dizem condenar.

O trem da economia em ucraniano

Thais Heredia era comentarista de economia da GloboNews. Assumidamente governista, quase tudo o que dizia tentava reforçar a história do trem da economia do jaburu.
Era quem anunciava na Globo a fantástica recuperação do emprego para desempregados pelo golpe que a assistiam em casa. E quase tudo que olhava para trás tinha sempre a culpa dos governos do PT.
Foi demitida pela Globo porque era atrapalhada demais. Aí vai aparecer um jornalista amigo dizendo assim: mas como, jornalista comentando trabalho de jornalista?
Sim, sem problema. Jornalista que não comenta a própria atividade, em nome de uma alegada neutralidade, pode ser qualquer coisa, menos jornalista. O jornalismo é uma das atividades mais públicas das democracias.
Jornalista que condena quem eventualmente analisa o trabalho da imprensa é mais do que um omisso corporativo, é um cúmplice do mau jornalismo. Isso não significa ‘falar mal de colegas’, mas do trabalho que realizam. Não tem essa de ficar quieto para poupar amigos. Jornalista não poupa ninguém. Então, essa é uma alegação furada.
Thais Heredia era uma espécie de William Waack de saias da GloboNews, com a diferença de que ele tinha algum café no bule, mesmo que fosse café requentado pelos tucanos. Esse vídeo mostra bem quem era a analista empolgada que caiu em desgraça na casa.

Marina poupada

Fiquei até agora vendo a entrevista de Marina Silva a Roberto d’Avila, na GloboNews (não sei se é reprise), para ouvir frases como “é preciso passar o país a limpo” e “ninguém está acima da lei”.
Nenhuma pergunta, uma só que fosse, sobre questões essenciais, que estão acima dos temas meramente políticos, como as sempre controversas questões de gênero, relações homoafetivas e respeito à singularidade de cada um.
Parece que os jornalistas brasileiros perderam a capacidade de perguntar (e não de interrogar, mas de perguntar mesmo), para não incomodar seus entrevistados com assuntos delicados.
E essas questões são sempre delicadas para a titubeante e enrolante Marina, que parece ter perdido vigor na defesa de ideias resumidas em frases do senso comum.

A reportagem que não existe

 

Os grandes prêmios da imprensa são os que reconhecem a reportagem como a alma do jornalismo. Carlos Wagner, o mais premiado jornalista gaúcho, fez um puxado em casa para guardar mais de 200 troféus como repórter.

Nilson Mariano tem um acervo do mesmo tamanho. Cid Martins é o repórter mais premiado do rádio brasileiro. Todos são re-pór-te-res. Vão a campo, correm riscos, não recebem nada de mão beijada.

Mas o que o repórter Marcelo Cosme tem a ver com este prêmio para uma gravação que o juiz Sergio Moro mandou para a Globo, ilegalmente, com o grampo da conversa de Lula com Dilma?

Qual é a conexão de um repórter com o conluio em que um juiz, na tentativa de incriminar Lula antes do tempo, presenteia a direção da TV com uma gravação ilegal?

Onde está a atuação do repórter nesse caso reconhecido como “furo de reportagem” por um festival de TV de Montecarlo? Que esforço de reportagem existe por trás desse prêmio? Ou pela frente mesmo…

Isso não é reportagem. É assessoria de imprensa para um juiz e uma ação que o Supremo considerou ilegal.

Mas o jornalismo brasileiro da cobertura política virou isso mesmo: é apenas divulgador de delações, grampos e vazamentos seletivos. Montecarlo reconhece.

 

Jorge e Bianca

jorgefurtado

Vou dormir tarde hoje, mas vou dormir bem. Já escolhi o merlot que vou beber vendo a entrevista do Jorge Furtado no Ofício em Cena, da Globo News.
Vale pelo entrevistado e vale sempre pela entrevistadora. Bianca Ramoneda conduz a conversa com sabedoria e delicadeza, sem nunca tentar ser mais importante do que o entrevistado.
É às 23h30min e sempre parece tarde. Mas pra quem já viu jogo da nossa seleção com o Gil na zaga e depois da meia-noite…