Estudantes

Enquanto a maioria dos estudantes perde tudo e só reclama, os alunos da Universidade Federal de Santa Catarina fazem o que deve ser feito. Vão para a greve geral.
O bolsobarismo não será derrotado sem os estudantes.
Em lugar algum o fascismo foi enfrentado sem a força dos jovens.
Se eles não têm nada a perder, o que explica a resignação diante da destruição das universidades e do sistema de bolsas de estudos?

E SE ACONTECER O GOLPE?

O Congresso decidiu dar recados a Bolsonaro. Pode estar sendo fechado o cerco. Bolsonaro não ganha uma. É fraco, é ignorado, é humilhado até por parceiros da extrema direita.
Tem gente lembrando que, lá em setembro, Hamilton Mourão falou do autogolpe, que ficou no ar como uma ameaça. E se acontecesse de Mourão assumir o comando para que o governo tivesse o mínimo de respeito?
Com quem ficariam as esquerdas? Com a defesa da democracia (mesmo que ao lado de um Bolsonaro desmoralizado e golpeado) ou com os generais? Com o apelo por uma nova eleição já?
Não pensem que a hipótese é absurda. Absurdo é Olavo de Carvalho, em nome dos Bolsonaros, atacar um general por dia e tudo continuar nessa estranha normalidade.

O GOLPE GOLPEIA BOLSONARO

A mais recente tentativa de golpe na Venezuela é coisa de filme do Monty Python. Na primeira tentativa, em fevereiro, teve aquele pastelão da ajuda humanitária com dois caminhões com sacos de farinha de trigo. Deu no que deu.

Nessa tentativa de hoje, os militares brasileiros e a inteligência americana estavam certos de que os generais de Maduro iriam se bandear para o lado do Trump e do Bolsonaro.

Seria tudo muito fácil. E aí começou a comédia. Leopoldo López, um dos golpistas, saiu da prisão domiciliar e foi para as ruas, atraído por uma armadilha do farsante Juan Guaidó.

Guaidó disse a López que os generais já eram deles. O Departamento de Estado americano informou que Maduro estava acomodado na primeira classe de um avião russo que seguiria para Cuba.

Sonia Coutinho, correspondente da Globo em Nova York, disse depois no Jornal Nacional que suas fontes no Departamento de Estado não sabiam de nada.

A moça desqualificou as fontes e o próprio trabalho. Suas fontes achavam que o golpe seria apenas no Primeiro de Maio. Que fontes?

A correspondente depreciou no ar informantes de quinto escalão, que podem ter sido os mesmos que informaram Bolsonaro, o Itamaraty e os generais brasileiros.

No Brasil, durante toda a tarde a GloboNews dizia que estava tudo pronto para o fim da Era Maduro. Que os generais de Bolsonaro sabiam de tudo. E que Bolsonaro já havia declarado a guerra.

Logo depois, Rodrigo Maia mandou um recado a Bolsonaro. Disse ter lido a Constituição e que a Constituição determina que uma declaração de guerra só é feita com autorização do Congresso. Claro que Bolsonaro não sabia. Bolsonaro não sabe nem onde fica a Venezuela.

Mas, pela Constituição, o próprio Maia, o Alexandre Frota, o Bibo Nunes, a Joice Hasselmann, o Pastor Feliciano, o Major Olímpio e o Flavio Bolsonaro tinham que liberar Bolsonaro para o ataque, tudo em nome do Congresso, do povo e da democracia.

Em Roraima, Eduardo Bolsonaro visitava venezuelanos refugiados, com pose de estadista, pronto para entrar na guerra pela fronteira com duas arminhas de dedos.

E assim foi até o anoitecer, quando Leopoldo López buscou asilo na Embaixada do Chile (depois foi para a Embaixada da Espanha) e Guaidó desapareceu.

O resultado prático é que dezenas de militares venezuelanos de baixa patente cruzaram a fronteira e pediram asilo no Brasil.

Desde que assumiu, Bolsonaro incitou os militares para que derrubassem Maduro. E os militares golpistas se acovardaram e procuraram refúgio no Brasil, para ficar ao lado de Bolsonaro.

Os milicos que deveriam acabar com o bolivarianismo acabam se transformando em perdedores que passam a viver por conta do Brasil.

O golpe fracassou de novo, e Brasília está lotada de valentes oficiais venezuelanos. Se o ritmo for mantido, até o fim do ano todas as Forças Armadas venezuelanas terão se transferido para o Brasil.

Bolsonaro fracassa até como ajudante de golpistas.

O VÍDEO CLANDESTINO

O governo teve de contratar um ator para fazer o tal vídeo em que defende o golpe e a ditadura. É o que informa O Globo.
O ator chama-se Paulo Amaral e diz ter sido contratado por alguém para ler um texto. O homem não sabe dizer quem o contratou, qual é a produtora e quem fez a encomenda. Só diz que foi pago.
O vídeo saiu do Palácio do Planalto, mas sem que ninguém se responsabilize pela mensagem de exaltação do regime que consagrou a atividade de torturadores.
Eduardo Bolsonaro, o filho, andou divulgando o vídeo e deve saber quem armou tudo. Por que a direita precisa de atores para defender a ditadura?
O interessante é que os adoradores da ditadura arranjaram um delator. O vídeo é mais uma farsa da extrema direita.

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Só três

Apenas três clubes da elite do futebol divulgaram mensagens hoje nas redes sociais em defesa da democracia.
Só três, segundo a Folha. Apenas Corinthians, Bahia e Vasco tiveram coragem.
E os outros? Os outros podem dizer que não se metem com política e ficam vendo a banda passar.
É a desculpa dos omissos. E a omissão diante de questões essenciais é a mais antiga das atitudes políticas.
O futebol brasileiro é cada vez mais um negócio de elite (e cada vez menos paixão do povo) e seus dirigentes fazem política quando se dedicam à bajulação da direita.

POR QUE O SILÊNCIO?

A Folha trata hoje de uma reportagem que não conseguiu fazer sobre o 31 de março, porque os militares silenciaram.

A partir de fevereiro, o jornal enviou perguntas sobre o golpe a 50 dos principais militares do primeiro e o segundo escalões do governo Bolsonaro. Nenhum quis responder.

A Folha perguntou se o militar considerava um erro ou um acerto o envolvimento das Forças Armadas nos eventos de 31 de março de 1964. Se achava que os comandantes das três Forças agiram acertadamente naquele ano. E se o militar aprendera sobre o assunto, nas escolas militares, ao longo da carreira.

Diz a Folha: “A reportagem pretendeu debater o assunto por meio de entrevistas pessoais ou por escrito, mas nenhum dos militares aceitou falar sobre a participação das Forças Armadas no golpe de 1964, incluindo o vice-presidente Hamilton Mourão e o ministro do GSI (Gabinete de Segurança Institucional), Augusto Heleno, dois dos principais integrantes do governo Bolsonaro”.

Dos 50 militares procurados, 26 ofereceram algum tipo de resposta, mas apenas para dizer que não manifestariam posições pessoais. O resto ficou calado.

O jornal não tira conclusões, mas eu tenho as minhas. Se os Bolsonaros estão aí para falar, os militares não precisam dizer nada. Que deixem pai e filhos dizerem o que pensam.

O desgaste fica por conta da maluquice da família e seus seguidores. Mas uma pergunta continua inquietando: por que tanto silêncio, se o golpe é visto como algo democraticamente ‘normal’ pelas Forças Armadas?

Se o golpe foi aplicado como algo normal e sob respaldo institucional, cívico e moral, por que os militares não falam do 31 de março? Que normalidade é essa que silencia os militares?

O silêncio constrangedor dos militares é a resposta mais contundente.

SEM FESTAS PARA O GOLPE

Vamos reconhecer e aplaudir a decisão do Ministério Público Federal de advertir os militares para que não comemorem o golpe de 64 no dia 31 de março. Assim devem funcionar as instituições.
É a mais importante deliberação do MP em defesa da democracia nos últimos anos. Porque é forte, é substantiva e é simbólica.
Em pelo menos 18 Estados (e os outros estão quietos?) foram ou serão emitidas recomendações para que os quartéis se abstenham de qualquer tipode festividade.
Os comandantes terão de explicar, em 48 horas, que medidas foram adotadas para evitar festejos dentro dos quarteis. A ação do MPF é coordenada pela Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão.
Ontem, a Defensoria Pública da União já havia ingressado com ação civil pública na Justiça Federal, para que as Forças Armadas sejam impedidas de realizar comemorações.
O 31 de março será um grande teste para a democracia. Se houver festa para comemorar o golpe em algum lugar e não acontecer nada, os alertas das instituições terão fracassado.
Interessa saber também se Bolsonaro e seus garotos farão alguma comemoração.

PROPAGANDISTA DO GOLPE

O Brasil não se submeteria silencioso à afronta da comemoração de um golpe se tivesse mais gente com o destemor dos procuradores da República Deborah Duprat, Domingos Sávio da Silveira, Marlon Weichert e Eugênia Gonzaga.
Os quatro assinam uma nota dura em que condenam a orientação de Bolsonaro para que os militares comemorem o golpe de 1964 nos quartéis.
A nota observa que a provocação é de “enorme gravidade constitucional” e “incompatível com o Estado Democrático de Direito”. E que Bolsonaro pode ser judicialmente responsabilizado pela “apologia à prática de atrocidades massivas”.
Os procuradores advertem que a orientação de Bolsonaro merece repúdio social e político, “sem prejuízo das repercussões jurídicas”.
A questão é esta: quem conseguiria responsabilizar o homem que exalta ditadores e torturadores e faz a apologia do estupro?
Deveríamos ter mais manifestações com posições corajosas como as dos procuradores.

AS MÁSCARAS DE 68

Um detalhe desalentador no dia em que o AI-5 faz 50 anos. A maioria das análises da grande imprensa é de jornalistas que lá naquele tempo se diziam de esquerda.
O Globo, por exemplo, tem na capa da versão online chamadas para textos sobre as vivências de Miriam Leitão, Fernando Gabeira, Zuenir Ventura e Ancelmo Gois. Eles contam o que estavam fazendo em 1968.
O que todo mundo sabe é o que eles fazem hoje. Todos tentam manter esse glamour da resistência à ditadura, mas estão hoje ao lado da direita. Alguns se dizendo de ‘centro’, mas fazendo o jogo da extrema direita.
Lá em 1968 eles e muitos outros estavam por acaso de um lado, porque os ventos os empurravam para aquela trincheira.
Mas eram reacionários à espera de uma chance de revelarem, na maturidade, o que hoje são. O que eles sempre foram é o que se revela agora.
Não há na capa do Globo uma só chamada, uma que seja, de jornalista à esquerda (nem precisa ser ‘de esquerda’) dos seus articulistas. Porque a imprensa foi sequestrada pela direita como não aconteceu nem na ditadura, porque hoje tudo é mais calhorda, mais dissimulado.
Os mais velhos já sabem, mas os jovens também devem saber que jornalistas que se diziam militantes de esquerda são hoje, em alguns casos, militantes ferozes da direita.
As faculdades de jornalismo precisam lidar com essa informação, e sei que a maioria lida muito bem. Golpistas não podem se proteger nas máscaras de 68.