A DEMOCRACIA E O JORNALISTA MIMADO

Um jornalista de opinião, destes que têm rádio, jornal e às vezes TV para dizer o que pensa, pode citar até 10 pessoas num dia, quase sempre com observações críticas e muitas vezes duras.

Um jornalista desses que ainda se definem como formadores de opinião podem destruir um político, um jogador de futebol ou um educador com um comentário. E esses formadores são cada vez mais de direita, porque as empresas abandonaram a ideia da pluralidade.

Ontem conversei com o deputado Paulo Pimenta sobre a mídia e a democracia e tratamos de um detalhe que quase sempre reaparece nessas conversas. O jornalista de opinião de direita, que comenta a sobre a vida de uma dezena de pessoas por dia, geralmente se considera inatacável.

Porque o jornalista de direita acha que pode citar todo mundo, do cidadão comum ao Papa, mas ninguém pode citá-lo. Jornalista de direita critica de morador de rua a professor, mas ele nunca pode ser nem ao menos nomeado em qualquer comentário.

Mas não há nenhum foro privilegiado (até a Lei de Imprensa acabou) que possa protegê-lo.

Jornalista de direita é um mimado que se acha atingido na sua liberdade de dizer o que pensa, quando o que ele faz é tentar eliminar qualquer possibilidade de crítica ao seu trabalho.

O jornalista de direita empoderado pelo golpe é uma mala insuportável. Não vou citar nenhum deles, porque os outros ficariam com ciúme.

 

UM FALSO DILEMA

Um amigo me perguntou hoje como eu lido com o desafio de tentar conquistar a atenção e os corações das pessoas como pré-candidato a deputado estadual pelo PT e continuar escrevendo o que sempre escrevi.
Eu disse a ele que não existe um Moisés Mendes jornalista que escreve e um Moisés pré-candidato, cheio de dedos, cuidados e sutilezas para não ferir possíveis simpatias e engajamentos.
Não existem jornalistas neutros e eu não criei um personagem para me engajar a um partido e a um projeto político. Eu sou o que sempre fui. Não farei concessões que estejam em desacordo com o que penso. Esse dilema não existe.
Foi assim que eu sempre me entendi com todos vocês que me leem. Não haverá uma persona do Moisés pré-candidato, ou eu estaria reproduzindo o que condenamos na política.
O que vocês leem aqui continuará tendo coerência com o que sempre escrevi, inclusive com humor, às vezes com ironia, mas sempre com o objetivo de expressar o que desejo dizer da forma mais clara possível.
Posso e vou errar muito, posso até cair em contradição em relação a algumas questões, vou me envolver em controvérsias, mas quero me manter coerente com a essência do que penso, digo e faço. Não tem como mudar a forma e o conteúdo da minha escrita.
Serei sempre um cara imperfeito (porque só a direita se acha perfeita). Mas não serei outro só para agradar. Serei o que sabem que sempre fui e espero continuar sendo.

O GOLPE CAMINHA. PARA ONDE?

O estranho das reações à ‘greve’ dos caminhoneiros é que muita gente parece se negar a fazer uma conexão entre o que está acontecendo e o golpe.
Para muita gente da classe média, essa talvez seja uma briga dos caminhoneiros com a Petrobras. É a negação da realidade pelo estreitamento da compreensão do conflito.
Eles brigam e o resto, e que resto, apenas arca com as consequências da ameaça de falta de comida e corre aos supermercados.
Parece não haver clareza entre a ‘greve’ e a destruição do país iniciada com o golpe de agosto de 2016, até porque a Globo ajuda na confusão.
O movimento dos caminhoneiros e seus desdobramentos são mais uma etapa do golpe. Não há guerra por diesel mais barato, mas uma briga por espaços, por discursos e por tentativas de cooptação de sentimentos, demandas, sonhos e pesadelos.Hoje, quem sabe, muito mais por pesadelos.
Mas quem disser que matou a charada do que acontece certamente estará blefando. A única certeza é a de que a direita perdeu o controle do golpe.
E que Pedro Parente, o homem escolhido para salvar, não a Petrobras, mas os acionistas externos da empresa, pode ser o coveiro dos golpistas e do Quadrilhão.
O golpe vai tropeçando no que tem pela frente, inclusive em aliados mortos, mas ainda caminha. Para onde? Quem souber, ganha 10 galões de água mineral e 20 quilos de feijão que mandei colocar no cofre de um banco.

Os exterminadores

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 A descoberta que incrimina Geisel e Figueiredo como assassinos afasta uma ameaça sempre presente desde o golpe de agosto de 2016.
Despois desse estrago, não há como a direita civil contar com os militares para adiar eleições este ano e criar novas armadilhas contra a democracia. Sem chance.
A urgência das Forças Armadas hoje é saber como lidar com a vergonha de um Geisel mandante de extermínios.
Os documentos da CIA são devastadores. O silêncio dos militares só aumenta a devastação.

A armadilha

O projeto urgente da direita hoje no Brasil é a montagem de um plano para enganar quem quer ser enganado.
Basta arranjar um nome que substitua Luciano Huck, Joaquim Barbosa, Geraldo Alckmin, Henrique Meirelles, Rodrigo Maia, Álvaro Dias, o homem da Riachuelo, o outro homem do partido Novo…
Uns desistiram e outros são ruins de voto. A direita mais cheirosa tenta se livrar de Bolsonaro e não consegue.
Por isso os jornais insistem que é preciso abandonar Lula. A direita quer orientar os passos do PT e da esquerda. E parte da esquerda embarcou na armadilha.

A marcha dos jovens e a política

Foi bom ver pessoas sentadas na grama, no encontro de sábado à tarde na Redenção com a deputada Maria do Rosário, a socióloga Reginete Bispo, o advogado Werner Becker e a vereadora Sofia Cavedon (as fotos são do Ricardo Stricher).

Falamos das possibilidades da resistência ao golpe e à prisão de Lula, do aparelhamento da imprensa e do Judiciário, da disseminação de ódio, da construção de uma rede de comunicação progressista e da necessidade de seperseverar com as esperanças.

O interessante é que acontecia ao lado da aula pública organizada por Maria do Rosário, perto do Monumento ao Expedicionário, o grande encontro de uma maioria de jovens em defesa da descriminalização da maconha.

Pouco antes do início da caminhada da Marcha da Maconha, Reginete Bispo lembrou que o Brasil comete violências contra os negros, como herança do regime escravocrata, não só por discriminação racial, mas como perversão da permanente luta de classes.

E quando a Marcha se mexeu em direção ao chafariz, Maria do Rosário estava falando da perda de espaço das esquerdas no Congresso, na eleição anterior, e da ameaça que isso representa mais uma vez este ano. O reacionarismo pretende se apropriar por completo do Congresso.

E a imensa Marcha então se movimentou, passando ao lado da aula pública, como se ao acaso um evento complementasse o outro.

Sem um Congresso de esquerda ou, se quiserem, sem fortes bancadas progressistas, não há nada que possa ser feito pelos que lutam não só pelas liberdades e contra a caçada a pobres e negros transformados em alvos do que a direita chama genericamente de “guerra ao tráfico”.

Sem partidos e sem o exercício da política nos redutos com poder de decisão, não haverá democracia, e os movimentos sociais continuarão sendo perseguidos pela polícia e criminalizados pela rede de instituições que deveria protegê-los.

As mudanças que os jovens pretendem passam antes pelas vontades, pelas restrições e pelos interesses do Congresso. E o Congresso hoje não tem vontade nenhuma de fazer os avanços que os jovens desejam. Esse é o Congresso que derrubou Dilma e protegeu o jaburu e Aécio.

Sem as esquerdas na Câmara e no Senado, adióis descriminalização da maconha. Poderão realizar centenas de marchas, cantar, como cantaram hoje, e depois marchar. Mas nada será mudado.

A polícia continuará batendo e prendendo pobres, o Ministério Público continuará acusando e a Justiça continuará condenando. Somente os pobres e negros.

Mas ficarão imunes e impunes à perseguição e à violência, entre outros protegidos pela estrutura de repressão, os grandes traficantes e consumidores de cocaína que circularem de helicóptero. Estes não participam da Marcha da Maconha. Os jovens sabem muito bem disso.

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A imagem pode conter: 1 pessoa, em pé, sentado e atividades ao ar livre

Os jardins irão florir?

Tudo o que deveria ser dito sobre o golpe que derrubou Dilma e sobre a caçada a Lula já foi repetido à exaustão. Tudo o que se disser a respeito do primeiro processo contra Lula (desde as acusações do Ministério Público, o julgamento em Curitiba, o julgamento recorde em Porto Alegre e o encarceramento) terá sido repetido.

Ninguém conseguirá dizer nada de novo sobre a caçada a Dilma e a Lula, sobre a impunidade dos tucanos, as manobras com o Supremo e com tudo, o desgoverno do jaburu e do Quadrilhão.

Tudo já foi dito sobre o engajamento da imprensa à perseguição.
Mas continuaremos repetindo o que todos já disseram. Eu mesmo posso escrever daqui a alguns dias sobre as desilusões da classe média, o desinteresse dos estudantes e os mistérios da resignação. E estarei tratando do que eu já tratei, do que todos já tratamos.

Qualquer texto sobre política que eu for ler agora, em algum site de jornal, blog ou aqui no FaceBook, será sobre algo que li há pouco tempo ou com conexão com o que já aconteceu.

Não há mais nem novas abordagens possíveis. Repete-se a reflexão sobre o golpe e seus desdobramentos.

E por que escrevemos sobre o que já foi escrito? Porque não podemos deixar de refletir sobre o que enfrentamos. Não vamos deixar de pensar e falar em voz alta. Não podemos permitir que o esquecimento nos condene ao silêncio total.

Tudo o que a direita quer é que paremos de pensar sobre o golpe. Vamos continuar nos repetindo. Faremos o que as resistências históricas fizeram em regimes de exceção. Como aconteceu na Itália.

Há algum tempo li um texto de Umberto Eco em que ele conta como os italianos resistiram ao fascismo. Eco lembra que era criança, nos anos 40, e ouvia rádio para entender o que se passava.

Durante muito tempo, só o que ele entendia eram mensagens enviadas de Londres sempre com as mesmas frases: o sol ainda brilha, os jardins ainda vão florir.

As mensagens dirigidas aos resistentes se repetiam, mas mantinham a Itália acordada e esperançosa diante do domínio de fascistas e nazistas.

É o que podemos fazer hoje, mas sempre prestando atenção a um detalhe que ainda comove os italianos. Eles ergueram trincheiras de resistência e enfrentaram Hitler e Mussolini do jeito que deu.

Aécio morto, Dilma viva

Aécio Neves foi quem liderou, desde o começo, a articulação do golpe contra Dilma. Primeiro, tentou anular o resultado da eleição e depois passou a montar a estratégia que teria Eduardo Cunha apenas como operador.
Pois Aécio está morto. E Dilma pode, se quiser, ser eleita senadora por Minas, a terra dela e do golpista-chefe. A primeira vítima do primeiro time do golpe foi aquela que Romero Jucá anunciou, com o Supremo e com tudo.
Aécio foi comido. Faltam os outros. Mas quem vai querer comer agora um tucano de carne dura como Serra? O bom seria comer Alckmin de sobremesa, com pena e tudo. Mas esse é o último moicano do PSDB. A Lava-Jato não vai deixar.

OS JOVENS ENVELHECIDOS

Vi e revi as cenas de estudantes gritando palavras de ordem da direita, ontem, no saguão da PUC. Eram seguidores do juiz Sergio Moro, que participava do Fórum da Liberdade, e de outros ‘gurus’ que muitos desses jovens preferem não dizer o nome.
O mundo sempre teve jovens reacionários e jovens progressistas, além dos indiferentes e ausentes e dos pretensamente neutros. Quem muda o mundo são, claro, os progressistas.
Um jovem até pode ser conservador na Noruega, onde conservar significa manter o que está bom e funciona, em quase todas as áreas. Mas ser mais do que conservador, ser reacionário no Brasil é brabo.
E o que um jovem ganha sendo reacionário, na idade em que deveria ser um instigador e transgressor do que está dado? Ganha mais de 20 anos nas costas e envelhece na adolescência.
Nunca antes o Brasil teve tantos jovens já idosos como agora. O golpe fez muito mal a muitos jovens.

DIGA ALGUMA COISA

Tem muita gente calada que poderia estar dizendo alguma coisa. É preciso falar. Fale, não guarde dentro do peito uma dor e uma inquietude que só não acometem os fascistas.
Até antigos adversários de Lula, os adversários políticos leais, admitem que o momento não é para os que ficam calados. Não precisa discursar, nem participar de passeata, nem pedir #LulaLivre.
Sei dos muitos, dos milhões que estão sendo observados, na mira dos caçadores da direita, nas famílias, nas empresas, na vizinhança, nas prefeituras, nos governos. Todos sabem muito bem dessa vulnerabilidade.
Mas é preciso dizer alguma coisa, não necessariamente aqui no FaceBook. Fale para os colegas, os pais, os amigos, os filhos, os irmãos ou para quem estiver ao lado.
Os que eles querem, como fizeram no nazismo e sempre fazem nas ditaduras e nos golpes dissimulados, é calar, amedrontar, fragilizar, ameaçar.
Mas tente dizer algo agora, verbalize, transforme a dor em resistência e solidariedade. Mas fale em voz alta, para não ter que carregar nas costas o peso e os danos desse silêncio para sempre.