A meta dos golpistas

Dilma enfrentou, no final de 2015, um déficit fiscal de R$ 115 bilhões. Quando foi golpeada, em maio do ano passado (por causa das pedaladas que seriam para enganar o déficit, segundo os golpistas), a previsão para 2016 era de um déficit de R$ 150 bilhões.
O jaburu-da-mala piorou a situação e fechou 2016 com um rombo de R$ 156 bilhões. O golpe teria vindo para moralizar as contas, mas aumentou o buraco ainda mais e prevê agora que a nova meta é de R$ 159 bilhões para este ano e a mesma cifra para 2018.
Isso significa o quê? Que o jaburu alarga a meta para poder gastar e gastar, mesmo que não tenha de onde tirar. Mesmo assim, ele e Meirelles comemoram os números da economia. Mas que números? Eles estão há um ano e três meses no poder.
O golpe quebrou o país, e os economistas da FGV falam todo dia na TV sobre a volta da confiança. E o povo? O povo está gastando a dinheirama do FGTS.

Teses

Manuela d’Ávila escreveu aqui no Face que está travada na dissertação de mestrado. Eu já escrevi dezenas de teses, nenhuma com reconhecimento acadêmico.
A última delas dizia que, para escrever uma carta ou uma tese, é preciso ter solidão e mais foco do que inspiração. É original, muito inovadora, é uma tese de linha neoliberal.
Uma outra dizia que 96,7% dos que ficam em casa levantando-se a toda hora para fazer café não conseguem escrever uma tese no prazo. Vale para chá, mate, narguilé e assemelhados.
E uma outra, que foi um fracasso, recomenda que não se ouça conselho de quem fez teses, porque cada um diz uma coisa. E muito menos de quem nunca escreveu uma tese dessas sofridas, de destruir uma pessoa sábia. Que é o meu caso. Minhas teses todas têm duas linhas.
E tem uma tese premonitória que formulei hoje e só preciso desenvolver: o golpe não dura até o fim do ano.

Só eles podem nos salvar

Enfrentar o golpe e romper com o roteiro escrito é missão dos estudantes, mais do que dos políticos profissionais, dos liberais verdadeiros, dos jornalistas, dos sindicatos, dos operários e da classe média em posição fetal.

Aqui está o link para o meu novo texto no jornal Extra Classe.

http://www.extraclasse.org.br/exclusivoweb/2017/08/so-eles-podem-nos-salvar/

As eleições ameçadas

Acreditem mesmo que Gilmar Mendes e o jaburu-da-mala jantaram à luz de velas mais uma vez para discutir a reforma política. Os dois juntos são acusados de desmandos que, além dos recordes de rejeição do país, somam mais de 20 pedidos de impeachment.

O homem que chegou ao poder sem votos e conta com 5% de aprovação e o outro desaprovado por quase todo o país (com exceção dos golpistas) se reuniram domingo para tratar do futuro dos partidos, das eleições, da representação, dos governos e da democracia.

Dois sujeitos que uma democracia deveria abominar (se fossem da Venezuela…) anunciam-se como protagonistas das mudanças, à margem de tudo, principalmente do povo, porque eles perceberam que o povo não quer saber de mais nada que não seja o FGTS.

Mas o grande teste destas duas figuras sombrias e sem medos, porque estão com o controle das ‘instituições’, será o adiamento das eleições do ano que vem. Duvidam? Na semana passada, entrevistei Olívio Dutra na Fabico (Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação da UFRGS), no lançamento de mais uma edição da revista Sextante.

Vejam o que disse Olívio a estudantes e professores:

“Precisamos garantir que teremos eleição geral em 2018. Eu não descarto, nesse clima, que venha mais um golpe. A democracia, na visão das elites brasileiras, tem que ter limites, e o sonho deles é uma democracia sem povo”.

E segue Olívio Dutra:

“O aparelho do Estado, nas três dimensões, no Executivo, no Legislativo e no Judiciário, sempre esteve nas mãos da casa grande. O Estado sempre foi dominado pelos senhores, pelos reis. Agora, é dominado pelos grandes empresários, pelo setor industrial, pelos banqueiros, fazendeiros. Esses grupos podem estar de novo chocando um parlamentarismo ou algo sob domínio das elites e dos figurões locais. As eleições gerais, com o voto direto e secreto, estão ameaçadas. A democracia foi bloqueada. É preciso ter um movimento permanente para que tenhamos eleições gerais em 2018”.

Gilmar Mendes e o jaburu-da-mala não se reuniram para saber o que o povo pensa disso tudo. O alerta está dado: as eleições estão sob ameaça. Os golpistas se convenceram de que podem fazer o que bem entendem, sem qualquer reação popular. A democracia está nas mãos deles.

 

O cerco na imprensa e na universidade

Tenho conversado com professores e jornalistas que, nos últimos meses, sentem o crescimento do cerco da direita nas universidades privadas e na imprensa. Eles sabem do que falam, porque alguns são vítimas desse cerco.
O golpe aprimorou seus mecanismos de controle e amordaçamento de profissionais ‘fora da linha’. São reduzidas as chances para o exercício da diversidade e a discordância. Só se forem meramente retóricas e como instrumento do marketing do cinismo.
Universidade e imprensa são protagonistas sem pudor da política do garrote que, como fizeram na ditadura, vai calar muitas vozes por muito tempo, com a ajuda de todas as frentes golpistas, do governo, do Congresso, das empresas e de parte do Ministério Público e do Judiciário.
Mas, ao contrário do que aconteceu dos anos 60 aos 80 do século passado, hoje a resistência substantiva, efetiva, fora desses ambientes, é quase nula. Por isso prospera a limpeza política só aparentemente sutil. A caçada é explícita e devastadora. Pensar é cada vez mais uma atividade de risco.
O golpe avança. Está solto o macartismo do século 21. Como diz o poema de Eduardo Alves da Costa, eles já pisaram nas flores e mataram nosso cão. Agora, testam nossos medos e começam a nos calar.
Seus filhos, seus amigos, seus vizinhos, sua namorada, seus colegas podem ser os próximos.

Cada um com a sua turma

Um assunto de fim de semana. Me perguntaram aqui e em e-mails (eu ainda recebo e-mails) por que fui a uma roda de conversa com a deputada Maria do Rosário, ontem à noite, em defesa das Diretas Já.

Já me perguntaram muito antes por que participei certa vez de um encontro com Manuela D’Ávila sobre ódios diversos. Assim como alguns desavisados estranharam que eu tenha participado da conversa do deputado Luiz Fernando Mainardi com a senadora uruguaia Constanza Moreira, na Assembleia, na terça-feira.

Há alguns meses, ouvi até de amigos a mesma interrogação sobre um jantar a que fui, com um grupo de economistas da FEE, para dizer a Dilma Rousseff que estávamos com ela depois do golpe da turma do jaburu.

A todos eu respondi com a mais redundante obviedade. Vou a encontros com essas pessoas porque é com elas que quero me encontrar.

Se eu fosse o Diogo Mainardi ou algum genérico dele aqui no Estado, eu iria a jantares com o Aécio Neves ou o Sergio Moro.

Não sei se explico e se convenço, mas escrevo mais pelo prazer de escrever do que para explicar.

Não tento camuflar conversas que possam ter algum componente político, porque não preciso prestar contas a ninguém.

Quem costuma camuflar seus encontros são os jornalistas da direita, principalmente em ambientes de golpe como o que vivemos hoje. Estes são constrangidos pelas próprias posições, pelas rodas de conversa e pelos jantares indigestos que frequentam.

Já?

Fermenta o dilema que se apresenta antes da queda do jaburu-rei. Eleição direta, ou indireta mesmo, para que alguém de centro, reconhecidamente um democrata, faça a transição até a eleição de 2018?

A tese da eleição direta é a mais óbvia e majoritária no PT. Lula seria o favorito e como tal ficaria protegido politicamente contra as investidas de Sergio Moro já durante a campanha. Eleito, não poderia ser processado por acusações anteriores ao mandato.

Mas é preciso que a eleição aconteça antes da condenação em segunda instância, porque esta tornaria Lula inelegível. Como todos os processos de Curitiba andam a jato, tudo pode acontecer.

Só que a eleição direta é uma bandeira, uma utopia. Dependeria da votação de propostas já existentes, que mudam a Constituição, hoje algo politicamente impossível, e de um longo processo de deliberações no Congresso, até sua realização. E o Congresso é direitoso, não quer diretas.

O PT sonha com o improvável. Mas é preciso considerar que vivemos num país onde o imponderável está sempre à espera na esquina. O caso Joesley é o exemplo recente.

Os defensores da tese da eleição indireta de um mediador minimamente respeitado (quem?) dizem que seria bom livrar o PT e as esquerdas da bronca representada pela gestão da crise crônica, pela reacomodação das reformas inconclusas (que andariam pra frente ou pra trás?), pelo desencanto geral.

Um presidente provisório, mas com reputação para ser bem acolhido, poderia restabelecer confianças, quem sabe até iniciar a recuperação da economia e conduzir o país até a eleição do ano que vem.

Um presidente interino, eleito por esse Congresso de pilantras, pode até ser rejeitado no começo, mas poderia também, quem sabe, aos poucos conquistar os brasileiros. É o que dizem os indiretistas.

Mas e se o provisório e sua turma gostarem, rearticularem a direita e os golpistas conseguirem apresentar um candidato viável durante o governo provisório? Ou até ficar no governo, sem eleição?

A eleição indireta, pelo cenário atual, é o que se encaminha para acontecer, se não pensarem em mais um golpe. Mas ainda não dá pra captar os sentimentos das demais esquerdas de fora do PT.

O que sabemos é que o PT está dividido (mesmo que os contrários às diretas estejam mais quietos) e que Henrique Meirelles é o candidato da direita que mais saliva quando fala na TV.

Oportunistas

Paulinho da Força pegando carona na organização da greve. O sujeito, amigo de patos e tucanos da Fiesp, foi um dos líderes do golpe e agora tenta se redimir, não por correção de rumo, mas por oportunismo mesmo.
Ele e outros ‘arrependidos’ da direita não podem ser comparados a ex-batedores de panela que na sexta-feira estarão ao lado dos que combatem não só as tais reformas, mas toda a quadrilha do Jaburu.
Eu conheço, todos nós conhecemos ex-batedores de panela sinceramente constrangidos. Que sejam efetivos, troquem de lado e assumam uma postura crítica, não só na greve.

 

E a nossa pátria mãe tão distraída

Enquanto o Brasil dorme, em menos de um ano a direita no Congresso terá feito o serviço completo. Em agosto, golpeou Dilma. De lá pra cá, reforçou a base de apoio incondicional ao homem do Jaburu e passou a aprovar tudo que vem do comando do golpe.

Quando eleitores, sindicatos, batedores de panelas e as tais forças sociais se derem conta, não sobrará mais nada da Previdência e das leis trabalhistas. E, sem verbas, teremos um SUS e uma educação aos pedaços. A Constituição de 88 terá sido destruída.

O país entretido com os pedalinhos de Atibaia subestimou o poder da direita no Congresso. Um dos maiores erros foi cometido pelos sindicatos. Os sindicatos falharam, sem uma estratégia que fizesse contraponto ao avanço do reacionarismo organizado.

O sindicalismo ficou vendo a banda passar, enquanto o golpe ganhava forma havia pelo menos três anos. Não houve nada que se opusesse, pela força da informação, com uma comunicação articulada, ao avanço do pato da Fiesp.

Erraram todos os que viam o Congresso conservador, com a ascensão de grupos religiosos, como um problema restrito aos costumes.

O Congresso das quadrilhas organizadas vai ratificar tudo o que é proposto por um governo que tem apenas 9% de aprovação, porque o projeto é deles, da maioria de deputados e senadores, e não apenas do homem do Jaburu.

Enquanto isso, o Jornal Nacional e a Lava-Jato seletiva de Curitiba nos incentivam a calcular e recalcular os custos da reforma do fantástico sítio de Atibaia.

E vem mais. Os que não estiverem adormecidos verão coisas assustadoras.