GOVERNO BÍBLICO

Essa é uma das notícias mais reproduzidas desde o anúncio do novo ministro da Educação, Abraham Weintraub. Ele tem um irmão. E esse irmão, Arthur, é um reacionário mais assustador do que ele.
Fiquei sabendo que o irmão também é professor e tem a mania da direita de processar quem considera detrator (a direita lida mal com a crítica). Em dois processos contra alunos, por dano moral, o irmão perdeu.
Essa história de irmão que é mais artista, mais jogador de futebol, mais poderoso, mais bonito ou mais reaça sempre se repete.
O irmão da gente sempre tem algo que pode ser mais belo, sedutor ou ameaçador. Precisamos conhecer melhor esse irmão do ministro, porque ele pode estar na fila para qualquer vaga em algum ministério.
Esse é um governo em que as famílias têm muito poder, começando pelos filhos de Bolsonaro.
A democracia brasileira vai regredindo e nos devolve a tempos bíblicos em que os irmãos estavam sempre por perto fazendo alguma confusão.
Como estamos no antigo testamento do bolsonarismo, com Deus acima de todos, faltava um Abraham anunciando que o comunismo pode acabar com o mundo.
Que tempos, meu amigo Abrão Slavutzky.

VAI COMEÇAR

A sensação geral é de que a fase da gandaia está passando, porque as gafes se repetem, e de que agora é pra valer. Agora é a hora da ação. Acelerar a venda do que resta da Petrobras. Depreciar e esquartejar o Banco do Brasil e a Caixa para vender aos pedaços por preço camarada. Completar a privatização dos Correios. Perseguir professores e sindicalistas. Caçar os índios, atiçar os desmatadores. Armar os ricos (e deixar os pobres achando que também estão armados). Cercar o MST e o movimento dos sem-teto. Criminalizar os movimentos sociais. Amordaçar os ambientalistas. Pregar que a ditadura matou e torturou em nome de Deus. Censurar o que contiver alguma ideia. Entregar a previdência aos bancos dos amigos. Liberar todos os venenos para as lavouras. Anistiar as dívidas do latifúndio. Sucatear o SUS até o limite desejado pelos planos de saúde. Incentivar os filhos do homem a dizerem coisas que o pai gostaria de falar. Arranjar empregos para amigos, filhos e parentes. Transformar o Itamaraty num templo do fundamentalismo. Afrontar e aumentar os controles sobre o Ministério Público e a Justiça. Acabar com a Justiça do Trabalho. Aliar-se a todas as forças reacionárias do mundo e se submeter às suas lideranças. Aceitar o comando dos americanos. Vigiar a vida de quem for considerado inimigo. Estimular a criação de milícias. Fomentar  ataques a feministas para assim atacar as mulheres. Desqualificar negros e gays. Ameaçar a imprensa que os inventou e se arrependeu. Politizar o discurso dos neopentecostais contra a ciência e a arte. Perseguir os artistas e aterrorizar suas famílias. Transformar todos os imbecis em idiotas. Construir uma base de lançamento de foguetes no Maranhão, para que seus seguidores acreditem que poderão chegar à Marte a partir de 2026.

A GURIA DE VACARIA

Márcia Tiburi é de Vacaria. Foi o que anunciou com alegria o advogado e professor Carlos Frederico Guazzelli no meio de um debate sobre fascismo hoje à noite no Café Nossa Cara, no Bom Fim. Guazzelli é vacariense e estava se exibindo.
Há muito tempo não temos muito o que exaltar por aqui. O fascismo, um dos temas que Márcia Tiburi gosta de abordar, ganha feições variadas no Estado desde antes do golpe de agosto de 2016.
O Rio Grande que alguém algum dia inventou de chamar de o Estado mais politizado do Brasil (e muitos acreditaram nessa lenda) é visto hoje como a república do relho.
Márcia mexe com o orgulho dos vacarienses porque se atreveu a se apresentar como pré-candidata ao governo do Rio pelo PT. Criou o fato político do mês. A professora de filosofia mora no Rio há quatro anos. Vai para uma guerra.
Joga-se na linha de frente da política numa hora em que muitos estão saindo.
Quem ainda estiver em dúvida sobre o que deve fazer em meio à longa ressaca do golpe, que se inspire no gesto corajoso de Márcia. Pelo Rio, por Marielle, pelas mulheres, pelo Brasil, por Lula, pela democracia.
Uma mulher vai encarar a disputa pelo governo no Estado em que os homens não conseguem descobrir ou não querem descobrir quem matou uma mulher negra, favelada, de esquerda, militante política, vereadora, defensora das comunidades pobres e dos direitos humanos, bissexual, formada em sociologia.
A valente Marielle merece que sua história e sua memória sejam homenageadas pelo gesto de uma gaúcha de Vacaria. Sem gauchismos e sem bravatas.
Márcia se dispõe a enfrentar a barra de um Estado quebrado, os traficantes, as milícias, os capitães Nascimentos, os amigos do José Padilha, a Globo, o Jornal Nacional, os traumas causados pela intervenção federal, os golpistas, os fascistas com chiado, os conchavos das máfias dos garotinhos e dos cabrais.
É fácil ser militante e correr poucos riscos em tempos de calmaria. A democracia testa seus defensores em seus piores momentos.
No livro “Como Conversar com um Fascista – Reflexões sobre o cotidiano autoritário brasileiro”, editado pela Record, Márcia nos ajuda a refletir sobre o medo que os fascistas têm das mulheres.
Pois vai em frente, Márcia Tiburi. Mete medo neles.

O debochador

Deu na Folha de S. Paulo: “O diálogo começou”. É uma notícia sobre o início de conversas do governo com setores das esquerdas. Informa que o Planalto abriu negociações com “movimentos ligados ao PT”.
O que diz a notícia: “Nesta segunda (5), o núcleo duro do presidente reuniu-se com MST e Contag, que pediram mais terras para a reforma agrária, a recriação do Ministério do Desenvolvimento Agrário e a retomada do Minha Casa, Minha Vida Rural. “Sem sectarismos. Não vemos movimento social como problema”, disse Geddel Vieira Lima (Secretaria de Governo). No encontro, não se falou em golpe”.
Geddel é o sujeito que disse no twitter, batendo boca com alguém, que a sensação de assumir o governo sem votos é “gostosa”.
Quem seriam as vozes das esquerdas que estariam legitimando o núcleo duro e os deboches do Geddel?