APESAR DE VOCÊ

Perdi Henrique Meirelles no Roda Viva. Se o homem for eleito presidente, não saberei nada do seu pensamento vivo e muito menos do seu pensamento morto.
Vi só o último bloco (alertado por alguém aqui no Face) e escutei Meirelles dizer que a música da sua vida é Apesar de Você…
Chico não merece. Há coisas que devem mesmo ser perdidas na vida. Eu deveria ter perdido esse último bloco com o Meirelles. Não precisava ir dormir com essa.

Candidato

Parem as máquinas. Henrique Meirelles deixa o Ministério da Fazenda para ser candidato à presidência. Já arranca nas pesquisas devendo dois pontos para a margem de erro.
É um sujeito de muita coragem. Destruiu a economia, destruiu o emprego, empurrou os trabalhadores para a informalidade, vai destruir a Previdência, ajudou a destruir as leis trabalhistas, reduziu o juro apenas para a remuneração do poupador comum (ah, dirão, mas isso é com o Banco Central… e eu respondo: não é não), foi empregado de Joesley Batista, recebeu R$ 167 milhões como consultor, mesmo já sendo ministro depois do golpe, e comanda a economia de um governo liderado por um sujeito denunciado pelo Ministério Público como chefe de quadrilha e que faz parte de dois inquéritos por corrupção no Supremo.

O HOMEM DE 0,001%

A manchete mais risível dos últimos anos é a da Folha hoje:
“Meirelles afirma que governo terá candidato”.
Claro que ele está falando dele mesmo como representante do crescimento do PIB de 0,001%. Meirelles acha que pode ser presidente.
Meirelles tem o direito de querer ser candidato. Mas convenhamos: como um jornal pode levar à manchete um homem que tem 2% de intenções de voto e sem perspectiva de melhora? 
As pessoas sabem quem é Meirelles. Sabem que a economia está parada, que as notícias sobre emprego não fecham com a realidade, que a inflação não parou de subir, que a gasolina sobe todos os dias, que o gás dobrou de preço. E a Folha dá a manchete para o Meirelles de 0,001%.
O que as bancas devem ter vendido de Folha hoje com esta manchete.

O único

Apenas um candidato da direita, só um, resiste a duas semanas de campanha. Bolsonaro será triturado logo na largada. Doria sairá do confronto como um pacote de farinata. Huck nem começará a disputa. Aécio já virou pó.
O que sobra para a direita é Geraldo Alckmin. Eles virão de Alckmin de novo (o que não quer dizer que Doria não concorra por um partido pequeno ou pelo PFL). Mas o candidato da direita, o avalizado pelo mercado, será Alckmin, o candidato da Globo, do pato e da imprensa.
Mas e Henrique Meirelles? Este foi soterrado pela tal conta no Caribe. O Brasil descobriu que um homem da categoria de Meirelles guardava seu dinheirinho em lugar seguro, e o lugar seguro neste caso não era o Banco de Boston, que ele presidia, mas um banco de contas secretas.
A direita pode estar mais perdida do que a esquerda. Por isso a eleição do ano que vem pode, a qualquer momento, subir no telhado.

O ovo

Henrique Meirelles não aguenta duas semanas de campanha. E não é porque trabalhou por quatro anos para Joesley, porque recebeu R$ 217 milhões como consultor no ano passado, ou porque vai acabar com a Previdência, porque vai aumentar impostos e reduzir o salário mínimo, ou porque aumentou o rombo das contas do governo, nem porque é amigo dos banqueiros, porque é candidato da Globo, porque enrola todo mundo com essa história da recuperação da economia ou porque é queridinho do jaburu.
Não é nada disso. É porque nunca em lugar algum alguém se elegeu para qualquer coisa falando com um ovo na boca. Para ser candidato, Meirelles precisa tirar o ovo da boca.
(E Meirelles parece com o raciocínio lento, cada vez mais travado, às vezes distraído. Se juntassem Meirelles e Alexandre de Moraes seria uma conversa de dois engasgados com as próprias ideias.)

Povo pra quê?

Henrique Meirelles foi a Nova York esses dias para conversar com investidores e dizer que deseja ser presidente. Riquinho, o prefeito de São Paulo, percorre o Brasil conversando com empresários. Hoje, esteve com um grupo deles em Franca.

Teve um tempo em que os candidatos saíam a viajar para apresentar ao povo suas ideias. E assim conquistavam lastro eleitoral, pelo apoio do povo, pela empatia com o maior protagonista de uma democracia.

Hoje, só Lula faz isso. Só Lula procura o povo onde sabe que o povo está. O resto só conversa com o mercado, com a desculpa de que a lei os proíbe de conversar agora com o povo. É conversa mole. Eles não querem saber de povo.

A direita em campanha declarada se convenceu de que a política no Brasil se decide pelas forças do mercado. O que for decidido será aceito pelo povo. Por isso Riquinho e Meirelles estão em campanha para agradar o mercado.

Foi o mercado, com a ajuda dos 300 picaretas, que deu o golpe. É o mercado que segura o jaburu-da-mala em Brasília e comanda a ‘reforma’ da previdência e o fim das leis trabalhistas. O mercado está refestelado no poder como nunca antes.

E assim o golpe prospera. Porque a direita não acredita muito em eleição em 2018. E, quando desconfia que pode ser forçada a participar de eleição, acha que o povo ficará de fora.

O povo não quer saber de mais nada. O povo segue o mercado. Por isso o povo nem irá às urnas no ano que vem. Como já não foi nas eleições para prefeito. A maioria ficará em casa ou votará em branco ou irá anular o voto.

O povo tomou alguma água envenenada. Mas Lula continua acreditando no povo. Somente Lula conversa com gente comum. Os outros saem ao encontro de quem tem dinheiro.

A democracia brasileira vai se consolidando com uma democracia em que a direita descobriu que pode governar por manobras e só com o mercado. Enquanto isso, a classe média continua afundada em transe. E o povo espera o próximo sujeito ‘não-político’ inventado pelo mercado.

A democracia do mercado

Henrique Meirelles é, segundo seu partido, o PSD, o candidato do mercado à presidência. Como o Brasil descobriu um modelo de democracia que não depende do povo, Meirelles poderá, sim, ser eleito pelo mercado.
O voto do mercado, como qualquer voto, é secreto. O mercado não se abstém de votar, não vota em branco nem anula o voto. O mercado é muito politizado. Tão politizado que foi protagonista do golpe contra Dilma.
No ano passado, o mercado pagou R$ 217 milhões a Meirelles por serviços de consultoria. R$ 217 milhões. Com um mercado assim, quem precisa de povo?

732 Meirelles tiram o Brasil do buraco

Agora, uma continha básica. Henrique Meirelles faturou R$ 217 milhões como consultor no ano passado.
Considerando-se que tal faturamento seja absolutamente normal no mercado (como andaram dizendo), peguemos 732,72 consultores da mesma turma, que tenham faturado a mesma cifra, e teremos R$ 159 bilhões.
Prestem atenção porque fiz uma conta próxima da exatidão, com o 72 de quebrado depois da vírgula. Como o déficit do governo previsto agora pela nova meta para este ano é de R$ 159 bilhões, o faturamento de 732,72 profissionais do naipe de um Meirelles poderia tapar o rombo.
Se fossem mil consultores com essa performance, ainda sobrariam R$ 58 bilhões para ajudar a tapar o rombo de 2018.
É muito ou é pouco para um consultor como Meirelles? É apenas uma conta, só para ajudar a pensar que 732,72 indivíduos da estatura do consultor Henrique Meirelles salvariam o Brasil do buraco fiscal que ele o jaburu-da-mala aumentaram em pouco mais de um ano no governo.
Fatura bem esse Meirelles, ou quem sabe o déficit nem seja assim tão grande. Depois desta meta, o que ele teria a dizer hoje para os seus consulentes?
Como consultor, Meirelles é um orgulho para o Brasil.

A meta dos golpistas

Dilma enfrentou, no final de 2015, um déficit fiscal de R$ 115 bilhões. Quando foi golpeada, em maio do ano passado (por causa das pedaladas que seriam para enganar o déficit, segundo os golpistas), a previsão para 2016 era de um déficit de R$ 150 bilhões.
O jaburu-da-mala piorou a situação e fechou 2016 com um rombo de R$ 156 bilhões. O golpe teria vindo para moralizar as contas, mas aumentou o buraco ainda mais e prevê agora que a nova meta é de R$ 159 bilhões para este ano e a mesma cifra para 2018.
Isso significa o quê? Que o jaburu alarga a meta para poder gastar e gastar, mesmo que não tenha de onde tirar. Mesmo assim, ele e Meirelles comemoram os números da economia. Mas que números? Eles estão há um ano e três meses no poder.
O golpe quebrou o país, e os economistas da FGV falam todo dia na TV sobre a volta da confiança. E o povo? O povo está gastando a dinheirama do FGTS.

O golpe que durou um dia

Há uma semana, a esta hora, depois da leitura do relatório do deputado Sergio Zveiter contra o jaburu-rei, o presidente da República (e laranja de Henrique Meirelles) era Rodriguinho Maia.

Segundo a Globo, o relatório havia sido demolidor. O Jornal Nacional dava o jaburu como golpeado. Reportagens feitas às pressas enalteciam as virtudes da economia sob o comando de Meirelles.

Uma semana depois, Meirelles é de novo apenas o sujeito que fala com um ovo na boca para acalmar os mercados. E Rodrigo Maia cai na real do seu amadorismo, depois de ter sido enquadrado pelo jaburu.

O segundo golpe durou um dia. Na terça-feira já estava esfarelado. O que o jaburu sabe de Maia e Meirelles e teria dito aos dois para que eles ficassem quietinhos?