Folha investiga furo do Globo

Muitos jornais já fizeram, mesmo que por linhas tortas, às vezes com um certo constrangimento, um editorial pedindo a renúncia do homem do Jaburu.

Até a OAB, que mantém uma postura apenas corporativa e reacionária nos últimos tempos, quer a saída do sujeito que diz que não renuncia.

Mas a Folha de S. Paulo não abre mão do esforço para desmontar todo o trabalho do Globo que empurrou, com as primeiras gravações divulgadas, o jaburu-rei para o penhasco.

O esforço da Folha para desmoralizar o furo do Globo (enquanto morde e assopra) é tanto que o jornal contratou um perito, que descobriu cortes nas edições das conversa de Temer com o delator da JBS.

Não seria nada de relevante para o contexto da conversa, mas a Folha já mancheteou: Áudio entregue à Procuradoria-Geral tem cortes.

Fica o impacto da manchete, mesmo que a informação não mude nada, porque uma das partes que mais importam (da conversa de Temer-Joesley sobre Cunha) não tem edições. E depois sugiram as novas revelações da delação de Joesley, que complementam a conversa com o jaburu-rei.

A Folha nunca fez reportagem investigativa na Lava-Jato. ‘Investigou’ apenas os pedalinhos de Atibaia. Agora, investiga as gravações, para tentar desmontar o que não pode ser desmontado.

Esquerda desconsolada

Parte da esquerda constrangida com o começo do fim do Jaburu tem um comportamento egoísta (quem quiser pode usar outra palavra). Primeiro, anuncia, com certo ar de esperteza, que o golpe vem aí mais forte.
Essa esquerda metida a esperta está frustrada porque foi a Globo quem deu a notícia do grampo. Como se alguém pudesse esconder o grampo do mafioso da JBS.
Para esta esquerda, o morto existe, mas não foi matado pelas esquerdas. Se não foi, não vale.
Conhecemos esta tese dos que se vangloriam de fazer alertas e se açoitam diante do morto. Ela contém muita soberba e conduz quase sempre à resignação.
Se o novo golpe for consumado é porque esta esquerda e todos nós da classe média anestesiada merecemos mesmo os governos golpistas e a mais recente ressurreição da Marina Silva.

Mais parentes

A mulher de mulher de Gilmar Mendes é sócia do escritório que defende Eike Batista.

A ex-mulher de Gilmar Mendes defende o homem do Jaburu no Tribunal Superior Eleitoral (no caso do processo tucano contra as contas da chapa Dilma-Temer).

A filha de Rodrigo Janot é advogada da OAS, a empreiteira envolvida em quase todos os rolos da Lava-Jata.

Um irmão do procurador federal Diogo Mattos, da força-tarefa da Lava-Jato, é advogado do delator João Santana, que acusa Lula e Dilma.

Todos estão na moita. Mas deveriam imitar o gesto do ministro do Supremo Marco Aurélio Mello, que se declarou impedido de atuar em casos que tenham advogados ou clientes do escritório de advocacia de Sérgio Bermudes.

Por que ele tem mulher, filho ou irmão no escritório? Não. Porque tem uma sobrinha. Apenas uma sobrinha.

E os outros? Os outros, com mulher, irmão, ex-mulher, a sogra, os amigos tucanos e jaburus, com interesses misturados no público e no privado, esses acham tudo normal.

Boa parte da estrutura da justiça brasileira (incluindo o Ministério Público) está contaminada pela direita sem escrúpulos e sua parentada.

A confusão que não interessa aos golpistas

Fernando Henrique Cardoso, o legalista seletivo, acha que o Tribunal Superior Eleitoral não deve cassar o homem do Jaburu. Uma cassação complicaria o ambiente político. Que cassem de novo apenas Dilma Rousseff e tudo estará resolvido.

FH disse em entrevista à Rádio CBN (ele dá uma entrevista por dia): “Já temos tantas dificuldades hoje, o Congresso ainda vai eleger uma pessoa pra ser presidente por um ano? É mais confusão”.

Na hora de golpear Dilma, tudo o que eles queriam era confusão, porque deveriam, segundo gente como FH, puni-la pelo crime das pedaladas. Mas para cassar o chefe do Jaburu, aí surgem então as desculpas da governabilidade.

Mas governabilidade com a quadrilha do Jaburu? E isso que dizem que Fernando Henrique é a reserva moral dos tucanos.

A direita também está pedindo ajuda

É notícia velha, muito antiga, que a esquerda está ressentida, abalada, encaramujada. Mas agora podemos falar de uma notícia nova. A esquerda ganhou a companhia da direita na crise existencial que abate a militância, as convicções e a democracia brasileira.

A esquerda (e não só o PT) recolheu-se ao desencanto desde muito antes dos preparativos do golpe. Desiludiu-se com as alianças petistas, sofreu os abalos do mensalão, viu o lulismo perder vigor e identidade e foi arrasada pelos estragos do golpe contra Dilma.

A esquerda boicotou a eleição para as prefeituras, passou a desconfiar do poder do voto, resignou-se diante do crescimento avassalador da direita protegida por parte do Ministério Público e do Judiciário e ainda se submete ao imponderável de novos sustos da caçada interminável a Lula e Dilma.

A esquerda repete o Fora Temer no automático, mas já não sabe nem se quer mesmo que o homem do Jaburu caia. E se cair? Vem o Nelson Jobim? Fernando Henrique Cardoso de novo? Cármen Lúcia? Agora, já falam até em Gilmar Mendes. Brigar para botar quem no lugar do homem do Jaburu?

A esquerda quer ficar quieta, quer poder acordar num domingo, lá pelo- meio-dia, e comer o resto da pizza do sábado esquentada no micro-ondas. A esquerda das pequenas e grandes utopias agora quer um dia após o outro e se contenta com muito pouco.

E a direita, que vinha bem até o golpe, enfrenta a ressaca da ilusão que a hipnotizou. A direita mais antiga, a mais racional, essa que ainda foge da tentação do Bolsonaro, está desorientada. Caem também as folhas da direita no implacável outono do golpe.

Essa direita de classe média menos ingênua, que não foi para a rua no domingo (ir para apoiar o Sergio Moro?), está tão perdida quanto a esquerda.

Alguns jornalistas de direita tentam entender o que aconteceu com o fracasso das manifestações nas capitais, frustrados com as próprias expectativas, e evitam o óbvio: a direita clássica, que foi às ruas para derrubar Dilma, perdeu o discurso e o sonho que imaginava ter.

Não há escora capaz de sustentar o esgotamento do antipetismo. A direita de classe média, branca, com diploma, de boa família, sabe que foi enganada pelo próprio golpe e por Aécio, Caiado, Alckmin, Jucá, Serra, Fernando Henrique, Geddel, Padilha.

A direita em algum momento foi liderada por esta turma. Mas os chefes do golpe não têm o que oferecer aos seus liderados. A direita parece não acreditar que o que sobrou para a resistência (resistência pra quê?) foi a Regina Duarte dizendo que agora não se sente só. Imagine tentar sair da solidão na companhia da Regina Duarte e do Marcelo Madureira.

A direita das caçarolas e das passeatas como programa de domingo, que cortejou o pato amarelo da Fiesp, que achou que derrubaria Dilma e ficaria em paz, sem inimigos e sem dúvidas, essa direita também está por aí, sem rumo, pedindo ajuda.

Esquerda e direita poderiam se encontrar um dia, ao acaso, e falar de mágoas, tristezas e desesperanças. Uma poderia até chorar no ombro da outra.

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Eles jantam e nós pagamos a conta?

Gilmar Mendes e o homem do Jaburu podem anunciar daqui a pouco mais um jantar para debater a melhor forma de reorganizar a democracia no Brasil. Eles podem almoçar, jantar, tomar café da tarde, eles podem quase tudo.

Mas o jornalismo não tem o direito de debochar do leitor e tratar o jantar desses dois com ar de seriedade. Os jornais não podem noticiar e comentar o encontro como se fosse parte da normalidade do ambiente pós-golpe.

A imprensa brasileira desrespeita o leitor que a sustenta ao achar que uma reunião do homem do Jaburu com Gilmar Mendes, na casa de Gilmar Mendes, pode mesmo ser entendida como uma tentativa de aperfeiçoar a democracia.

Não há seriedade nem normalidade num encontro como este. Podem dizer que os dois, se quisessem, conversariam até entre as emas dos jardins do Palácio do Jaburu. Porque, afinal, Mendes preside o TSE e o homem do Jaburu ocupa a presidência da República. Podem mesmo, num país onde tudo passou a ser possível.

Os jantares são apenas o acinte, o agravante. Não há normalidade no encontro festivo de um juiz e de um investigado pelo juiz, que se reúnem e anunciam que irão melhorar o financiamento eleitoral e a representatividade dos partidos, as eleições e a democracia.

A justiça eleitoral não pode ter a pretensão de ser formuladora de leis, normas e soluções para a reorganização partidária e as melhores formas de subsidiar partidos numa democracia. Gilmar Mendes não pode ter a ambição de se apresentar como o pensador das saídas para os dilemas estruturais da política brasileira em jantares com o homem do Jaburu.

E um dia a democracia irá cobrar do jornalismo a conta pela forma com que tratou a relação de um juiz com o sujeito que ele deveria julgar.

 

As surubas no Jaburu

Romero Jucá juntou as palavras suruba e Jaburu e formou o bloco Ó Nóis da Suruburu. Essas e outras histórias da alegre promiscuidade em Brasília estão no meu texto carnavalesco no Extra Classe.

http://www.extraclasse.org.br/exclusivoweb/2017/02/juca-e-o-bloco-o-nois-da-suruburu/

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