O MEDO DO ESPELHO

Do espanhol Manuel Lucas Matheu, presidente da Sociedade Espanhola de Intervenção em Sexologia e integrante da Academia Internacional de Sexologia Médica, em entrevista à Folha:
“Elizabeth Badinter, discípula de Simone de Beauvoir, disse: ‘A homofobia contribui para reforçar a frágil heterossexualidade de muitos homens’. Isso vem corroborar um estudo multicêntrico conduzido por uma equipe formada por investigadores da Universidade de Rochester, da Universidade de Essex, e da Universidade da Califórnia em Santa Bárbara que conclui que a homofobia se dá com mais assiduidade em indivíduos com uma atração não reconhecida pelo mesmo sexo. As descobertas apoiam a teoria de que o medo, a ansiedade e a aversão que alguns heterossexuais sentem a gays e lésbicas podem crescer com a repressão de seus próprios desejos homossexuais”.
E Manuel Lucas Matheu arremata com um recado:
“A sexualidade é um valor e uma capacidade de desenvolver, e não algo sujo. A sujeira está nas suas mentes, que foram contaminadas com uma sexofobia patológica e doente, cheia de medos e insatisfações, de origem multifatorial, onde têm relação com fatores educativos, traumas infantis e graves problemas de apego. Pois que tomem nota o senhor Bolsonaro e os que têm o mesmo discurso homofóbico e se olhem no espelho”.

FALTA A FICHA

Sempre que alguém bate em mulher, ataca gays, aplica golpes em aposentados, come carne de cachorro de rinha ou prega o nazismo, logo aparecem as fotos e o histórico do sujeito nas redes sociais.
Confirma-se quase sempre a primeira suspeita: o cara é bolsonarista verde-amarelo, desses de passeata na Avenida Paulista.
Raramente falha. Um sujeito com esse perfil é um extremista de direita.
Por que os investigadores de rastros nas redes estão demorando a descobrir a ficha completa do homem que espancou Karol Eller?
Será que estamos diante do primeiro caso de bolsonarista sem vida virtual?

Adiós, Bolsonaro

bolsonaro (2)

Estava murcho ontem à noite, na aparição no Jornal Nacional, o homem que geralmente aparece com os olhos arregalados para defender posições racistas, homofóbicas e machistas com determinação.

Não era o eloquente Jair Bolsonaro que conhecemos, adorado por moradores de bairros nobres de Porto Alegre, ídolo do Parcão e da Avenida Paulista, o mito das passeatas golpistas que se vangloria por dirigir ofensas a mulheres, gays e negros.

Outro valentão terá de se entender com o STF porque disse, e repetiu mais de uma vez, que não estupraria a deputada Maria do Rosário porque ela é feia.

Mas ontem no JN Jair Bolsonaro estava assustado. Tanto que se dirigiu, “com humildade”, aos ministros do Supremo, para que examinem seus desatinos como acidentes de confrontos ideológicos.

Ele e Maria do Rosário estão em extremos, é óbvio. Mas as agressões dele não têm nada da natureza do confronto político civilizado e da representação parlamentar.

Bolsonaro não é um ideológico, é um primitivo. Foi turbinado como herói de uma elite reacionária, como mostram as pesquisas, e seria o candidato a presidente de muita gente dita ‘esclarecida’. Sem esse pessoal que o endeusou, ele não seria o que ainda pretende ser.

Seus seguidores bem nascidos nunca imaginaram que o Supremo chamaria o ídolo para prestar contas de uma postura desrespeitosa, violenta e criminosa.

Bolsonaro sempre achou que com ele nada aconteceria. Mas desde ontem  será cada vez menos Bolsonaro. Duvido que os filhos – também políticos e imitadores do pai – mantenham a mesma desenvoltura.

Os fãs ardorosos, os órfãos do Parcão, o pessoal da camiseta da Seleção – todos devem procurar outro mito, porque esse, mesmo que não venha a ser condenado, está irremediavelmente avariado.

A hora do Bolsonaro

Bolsonaro agora é réu no Supremo pelas frases machistas e fascistas que disse a respeito da deputada Maria do Rosário (para relembrar: que ela não merecia ser estuprada porque é ruim e feia).
São duas ações por apologia ao crime e injúria. Talvez, ao final, não dê em nada. Mas é um movimento importante do Supremo para que os seguidores do sujeito pensem bem antes de repetir o que ele diz sem o menor temor.
Bolsonaro ainda está à espera de quem o enfrente como deve. No Congresso ninguém é capaz de confrontá-lo com suas atitudes machistas, racistas e homofóbicas. O corporativismo (com boa dose de covardia do homerio da casa) o protege.
Talvez tenha chegado a hora do Supremo, tão fragilizado pelas decisões e declarações de Gilmar Mendes e tão vulnerável às desconfianças de todos, fazer o que ninguém conseguiu até agora.

Orlando, a juíza e os cínicos

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Eu conheço, todos conhecemos alguém que jogou pesado contra o casamento de gays no CTG de Livramento, em 2014. E não eram só os tradicionalistas de bota e bombacha ou os reacionários da cidade.

Era gente de fora da Fronteira, muitos de Porto Alegre, inclusive colegas de jornalismo. O CTG foi incendiado, em nome da tradição, mas a juíza Carine Labres resistiu, e o casamento saiu, apesar de alguns “esclarecidos” terem tocado o tambor da intolerância para a gritaria homofóbica.

O argumento era imbecil – gays não tinham que se meter com as tradições, porque tradição é coisa de macho. E dito por gente que nunca entrou em CTG.

Quem defendia as tradições é o mesmo tipo que chora agora o massacre de gays nos Estados Unidos e ataca o apego do matador ao fundamentalismo.

São pregadores de mensagens fofas, quando a tragédia é dos outros, lá em Orlando, e ao mesmo tempo são disseminadores de preconceitos rasteiros, sem dissimulações, quando o assunto envolve personagens gaúchos.

Assim, o massacre em Orlando seria obra de extremistas que odeiam gays. Mas o extremismo em Livramento contra quem desejava apenas casar no lugar que frequentava seria o quê? Seria uma resposta ao acinte de gays contra as tradições. É o que eles disseram há dois anos. É muita cara de pau dos oportunistas.

A juíza Carine sabe bem de quem eu estou falando. O repórter Nilson Mariano, que esteve em Livramento, e todos os que acompanharam a guerra contra os gays também sabem.