O QUE ELES TEMEM

Esses caras arrancaram a faixa de um prédio da Universidade Federal do Paraná porque odeiam a educação, certo? Mais ou menos.

O que eles odeiam mesmo é a universidade pública que ampliou os acessos à educação superior a pobres, negros, índios. O que eles gostariam mesmo de arrancar são cartazes como esse que publico aqui, dos institutos federais criados e ampliados por Lula e Dilma.

As universidades públicas, as mais antigas, como a UFRGS e a UFPR, ganharam o reforço de institutos por todo o Brasil, para democratizar ainda mais o ensino superior. Eu já estive em dois deles, a convite de professores e alunos, em Erechim e Livramento. A direita odeia os institutos.

Um cartaz como esse pode ser visto em muitos lugares públicos e em lotações de Porto Alegre. Esse cartaz que oferece vagas ameaça mais os bolsonaristas do que as faixas em defesa da educação pública das velhas universidades federais.

Dia desses li num cartaz, numa lotação, que oito campi ofereciam 1.400 vagas no Estado. E o chamado destaca: tudo gratuito. Os institutos têm cursos técnicos, cursos superiores regulares, pós-graduação, extensão, pesquisa.

O professor Eliézer Oliveira, que leciona filosofia no campus do IFSul em Livramento, lembra que ali alguns cursos – eletroeletrônica, sistema de energia renovável, informática para internet e agropecuária – são binacionais, para brasileiros e uruguaios. É demais para a direita.

A classe média dita tradicional não quer saber dos institutos, os IFs. São 42 IFs só no Rio Grande do Sul. A extrema direita que destruiu a faixa em Curitiba não odeia a educação. O que ela quer é que a educação superior seja apenas para seus filhos.

A direita acredita que, quanto mais universidade pública, quanto mais institutos federais, mais balbúrdia, mais gente pelada pelos corredores, mais filosofia e mais pobres com diplomas.

A guerra contra os cursos das chamadas humanas está nesse contexto. É preciso destruir pensamentos, ideias, reflexão, mas o que importa mesmo é destruir a universidade pública e o que ela representa. A direita ataca a universidade e mistura esperteza e crueldade com a manipulação das ignorâncias.

Os institutos criados por Lula e Dilma estão formando engenheiros, professores, designers, administradores, físicos, químicos e alguns se prepararam para formar médicos. Imagine. Médicos.

Os institutos, com mais de 1 milhão de alunos, amplificaram o pavor provocado pelas cotas entre a classe média e os ricos brancos. Mas essa classe média não ataca a educação de escolas privadas.

A guerra é contra a escola pública e inclui a tentativa de destruição também da Uergs, a universidade estadual gaúcha.

A classe média não suporta ver os cartazes dos institutos com essas caras boas. Os estudantes dessa universidade popular, principalmente os negros, atormentam muito mais os brancos bolsonaristas e racistas do que a velha universidade pública.

Mas esse é um caminho sem volta, e os brancos vão ter que aguentar.

DO QUE BOLSONARO TEM MEDO

Quanto menos o Brasil estudar filosofia, mais eleitores os Bolsonaros terão. Todos os Bolsonaros, o pai e os filhos. E os seguidores deles, os governadores (inclusive o gaúcho, meio encabulado), os deputados, os vereadores.
Bolsonaro não está preocupado com o ensino técnico em contraposição ao ensino do que chamam de humanas. Bolsonaro não quer que pensem. E a maioria dos professores de Filosofia é de esquerda. Ele sabe.
A direita toda deseja que a educação seja utilitarista, para que os estudantes pensem o mínimo possível sobre a própria educação, sobre seu futuro e a sua capacidade de interferir na realidade. A filosofia sempre incomodou a direita.
Mas o que Bolsonaro fez foi apenas levar adiante uma tendência de todas as áreas, inclusive o jornalismo. Os jornais foram, historicamente, disseminadores de conhecimento e cultura, ao lado da informação noticiosa mais elementar. Mesmo durante a ditadura.
Pois os cadernos de cultura dos jornais desapareceram há muito tempo. Sumiram também os espaços para a reflexão mais complexa. Sobraram os lugares cativos para os palpiteiros da política e assuntos gerais. Poucas ideias menos óbvias circulam hoje pelos jornais.
No geral, os jornais não querem saber da provocação das ideias, nem mesmo dentro das redações. Querem a comodidade da fofoca política, da reportagem ligeira, das notícias obtidas em porta de elevador, com cada vez mais futebol, entretenimento e futilidade. Vale para as rádios.
Bolsonaro segue a linha da direita brasileira do século 21. Os empresários não querem empregados que pensem demais. Querem pragmáticos, repetitivos e obedientes.
Sem filosofia, sem sociologia, sem antropologia, sem ciência política, sem nada que ajude a entender as cabeças e o mundo, fica mais fácil imbecilizar um país.
O Brasil não chegou ao estágio em que se encontra por causa da filosofia, mas por pouca filosofia. Bolsonaro presidente é uma criação das ignorâncias, da incapacidade de verificação do que de fato significa, e também nisso as esquerdas falharam.
Como a universidade vai reagir? Os professores saberão instigar seus alunos para que reflitam sobre as intenções da extrema direita que chegou ao poder. Se não fizerem isso, serão aniquilados pela caçada bolsonarista.
Meu amigo Eliézer Oliveira, jovem professor de Filosofia no Ifsul (Instituto Federal Sul-Riograndense), campus de Livramento, sabe bem o que deve ser feito, porque já lida com essas ameaças há muito tempo e tudo o que faz é incentivar seus alunos a pensar. O pensamento é o terror dos déspotas.

A IMPRENSA E O GOLPE

Retorno a Livramento dia 3 de julho para uma conversa com estudantes do Instituto Federal Sul-rio-grandense (Ifsul) e com quem estiver interessado em debater a relação da imprensa com o golpe. Morei em Livramento e em Rivera na metade dos anos 70.
Fui repórter do jornal A Plateia. Foi em Livramento, sob a inspiração de figuras como Wolmer Jardim, Artur Borba, Newton Alvim, João Afonso Grisólia e Nelson Basile, que me dei conta, com a censura imposta ao jornal e outras ações 

A imagem pode conter: Moisés Mendes, óculos e texto