#IMPEACHMENT

A palavra a partir de agora é impeachment. Parece cedo demais, mas está em todos os jornais e nas redes sociais. Ontem, para escrever um texto sobre Collor, revi o vídeo da última aparição dele na TV antes de pedir a renúncia e sofrer depois o impeachment no Congresso.
É algo impressionante visto hoje. Pela postura imperial de Collor, pela capacidade de falar sem parar (mesmo que esteja lendo, o que não é fácil para alguns), sem cortes aparentes, durante 18 minutos. E pela qualidade do texto do discurso.
Eram tempos em que a direita tinha assessores de primeira linha. O discurso é assustadoramente primoroso. Quem imagina algo com essa qualidade hoje?
A fala começa na marcação de tempo 1:12.

Cenário sombrio

A Folha começa a imaginar o pior para Bolsonaro:
“O cenário de fraqueza econômica, instabilidade política e aprofundamento das apurações contra Flávio Bolsonaro (PSL-RJ) fez a palavra impeachment voltar a circular nos Poderes. Não com ares de conspiração. O tom é de resignação pela incapacidade do governo de dar vazão uma pauta efetiva”.
E tem mais esta:
“A quebra dos sigilos bancário e fiscal de 95 pessoas ou empresas na investigação sobre transações financeiras no antigo gabinete de Flávio Bolsonaro (PSL-RJ) na Assembleia Legislativa do Rio pode ter desdobramentos em outras apurações no entorno do atual senador.
Os braços potenciais incluem as milícias, a direção do PSL no Estado (sob comando de Flávio Bolsonaro), além da primeira-dama Michelle Bolsonaro e da ex-mulher do presidente Jair Bolsonaro”.

BOM SENSO?

Leio alguns jornalistas pedindo sensatez aos vereadores de Porto Alegre no exame da abertura de processo de impeachment contra o gestor da cidade.
Dizem os jornalistas que uma cassação de mandato é coisa muita séria, que não pode ser levada adiante por motivações políticas.
Procurem em algum lugar um texto, um só, desses mesmos jornalistas com as mesmas posições categóricas quando do processo contra Dilma em 2016.
Vocês lerão artigos com posições circulares e volteios, mas nunca a defesa exaltada do que eles chamam agora de bom senso. O que mais eles escreveram é que o Congresso tinha a prerrogativa de decidir o que bem entendia como correto, porque uma cassação de mandato é também um ato político.
Outro argumento foi o de que Dilma seria derrubada não só pelas tais pedaladas, mas pelo ‘conjunto da obra’ e que isso fazia sentido. Mesmo que não dissessem que ‘obra’ seria essa, ficava claro que a motivação era política.
Nenhum dos que agora pedem sensatez viam golpe no ato contra Dilma. Mas veem motivações ideológicas e partidárias no processo que pode ser aberto contra o gestor.
Falta bom senso a esses jornalistas. Um jornalista não pode subestimar seus leitores ao tentar defender o mais atrapalhado gestor que Porto Alegre já teve.

A direita perfeita

Coincidências do 17 de abril. Há um ano os batedores de panelas conseguiam autorização da Câmara para a abertura do processo do golpe que derrubaria Dilma.

E há cem anos nascia Roberto Campos, o pai de muita gente que se diz liberal e participou da articulação do golpe.

Tudo o que Campos imaginava pode se concretizar agora, exatamente no seu centenário, enquanto o Brasil adormece: o fim das leis trabalhistas e da Justiça do Trabalho, a extinção da Previdência pública, a precarização do SUS e a entrega do petróleo a quem der menos.

Mas Roberto Campos nunca imaginou que a direita no Brasil chegaria à perfeição com a tomada do Ministério Público e do Judiciário.

O deboche

O pior mesmo para o ministro Lewandowski (depois de dizer que o impeachment foi “um tropeço da democracia”).é suportar a partir de agora a ironia de gente como Janaína Paschoal
Recebi o link do meu amigo jornalista Adriano Barcelos. Não tem como não compartilhar o deboche que a consultora do golpe postou no Twitter nesse recado dirigido aos seus “Amados”…

janaina

O tormento de Lewandowski

Guardo bem as intervenções de amigos e colegas que esperavam pelo grande fato capaz de interromper o golpe. Um gesto grandioso que determinasse: parem, em nome da democracia.
Esse gesto, para mim, poderia partir do ministro Ricardo Lewandowski. Imaginei que no dia final, o da votação, o ministro diria para a mulher durante o café da manhã, enquanto passava a manteiga no pão: não vou participar de um tropeço da democracia.
Lewandowski chegaria ao Senado com a cabeça erguida e, ainda em pé, anunciara: sigam vocês com esse processo, porque não posso ofender o Supremo e os que elegeram quem vocês desejam cassar.
Mas Lewandowski fez apenas uma última concessão, o encaminhamento da votação que permitiu a Dilma a preservação dos direitos políticos. Foi como acalmou parte do seu drama pessoal.
Desde então, Lewandowski deve ser um homem atormentado. Por isso declarou agora que o impeachment foi “um tropeço da democracia”.
É provável que, com o tempo, daqui a alguns anos ele fale mais e trate o golpe pelo nome.

O jornalismo da távola quadrada

Repetem nos jornais, pra ver se cola, que Eduardo Cunha pode ser comparado a Dilma Rousseff porque teria caído pelo conjunto da obra. O jornalismo trata o leitor como um alienado da Távola Quadrada.

Não, não há nada de semelhante entre Cunha e Dilma. Cunha caiu por ser mafioso comprovado e porque finalmente foi abandonado pelos parceiros (apesar de a imprensa, os deputados e o Supremo se comportarem por um ano, até o golpe, como desentendidos).

E Dilma foi derrubada sob o pretexto das tais pedaladas e, principalmente, porque venceu a direita em quatro eleições, em turno e returno, e porque Lula pode vencer a próxima.

Investigaram até a bicicleta de Dilma e não acharam nada. Comparar Cunha e Dilma é como querer comparar Carlos Magno e rei Arthur. É uma mistura grotesca de ignorância, má fé e desprezo pelo leitor.

Michel Temer pode até insinuar que lê almanaques, e lê mal, mas o jornalismo que assessora o golpe precisa cuidar melhor da imagem.

E já que estamos falando de jornalismo, tentar estabelecer alguma semelhança entre as situações de Cunha e Dilma é como querer comparar Reinaldo Azevedo ao Jânio de Freitas.

 

Eduardo Cunha, o abandonado

Eduardo Cunha apostou que um dia seria um nome de ponta da direita brasileira, com a total confiança da imprensa e dos homens do pato da Fiesp. Cumpriu sua missão com afinco e foi traído pelos que fomentaram sua obsessão com o golpe. Cunha será triturado hoje ou daqui a alguns dias com a ajuda dos próprios aliados.

Quem procurar, não vai achar uma linha sequer contra Cunha, escrita pelos jornalistas golpistas (que agora o desprezam) durante todo o processo do impeachment.

A situação de Cunha foi tratada com obsequiosa cumplicidade pela imprensa que decidiu jogá-lo no penhasco sem piedade. Assim como o próprio Supremo só se manifestou depois do impeachment sobre a impossibilidade de um sujeito comprovadamente corrupto comandar a Câmara. Até o golpe, o comando não foi questionado.

O serviço sujo de Cunha foi feito e não há mais nenhuma tarefa gloriosa para o capataz da Câmara. Chegou a hora de degolar Cunha.

O hospedeiro do PSDB agora é Temer. Porque a direita quer mesmo é um tucano no poder. Temer fará o outro serviço sujo, o das reformas (que atingem só quem trabalha), porque não tem perspectiva eleitoral.

Ele é o prestativo da vez, em substituição a Eduardo Cunha. Mas em algum momento, como diz a jornalista Hildegard Angel, os serviçais da imprensa e do pato da Fiesp poderão se desfazer também de Temer. O jornalismo adesista não tem escrúpulos.

Se quiser destruir os cavaleiros da távola quadrada, Eduardo Cunha pode recorrer ao seu arquivo de conchavos e informações e transformar-se no maior de todos os delatores. É o que se anuncia.

Eduardo Cunha não vai querer se despedir da política como o idiota do golpe. Cunha tem que desaparecer como um grande mafioso.

O jornalismo golpista odeia estes dois

supremosss

Os advogados Fernando Bandeira, secretário geral da mesa diretora do Senado, e Fabiane Duarte, secretária geral da presidência do Supremo, são odiados pelos políticos golpistas.

Aécio, Fernando Henrique, Aloysio Nunes, Caiado, Zé Agripino, Bolsonaro, Temer, Padilha, Geddel, todos odeiam Fernando e Fabiane. Mas eles são odiados mesmo pelo jornalismo golpista.

Bandeira foi quem assegurou ao presidente do Senado que era possível fatiar o julgamento de Dilma Rousseff. Assim os direitos políticos de Dilma foram preservados, em uma segunda votação. Fabiane sustentou a mesma posição junto ao presidente do Supremo.

Vi a entrevista dos dois, na tarde desta quarta, à repórter Mônica Waldvogel, no Entre Aspas, da Globo News. Entendi melhor por que os dois são odiados.

É grande o ódio de certos jornalistas porque a preservação dos direitos de Dilma não foi prevista pelo colunismo golpista que ajudou a articular o impeachment.

É por isso que os dois são apontados como responsáveis pelo “desrespeito” à Constituição. O golpe seria constitucional, do jeito enviesado como foi encaminhado. Mas a preservação dos direitos políticos de Dilma, não.

Estes dois jovens, com seus pareceres, constrangeram sem querer todo o jornalismo fajuto que se armou em torno do golpe. Eles permitiram que fosse adiante a proposta de fatiamento, que os colunistas do golpe nunca conseguiram antever.

O jornalismo adesista e soberbo deveria ficar incomodado com a própria mediocridade, e não com dois advogados que acabaram por expor a incompetência dos que não esperavam um golpe incompleto.

O FH pós-golpe

Trecho de artigo de Fernando Henrique Cardoso hoje em O Globo:

“O desafio das lideranças renovadoras será o de criar, mais do que uma “narrativa”, propostas que desenhem caminhos para a nação. Teremos capacidade, coragem e iniciativa para rever posturas, caminhos e alianças?

Terá o PT disposição para uma verdadeira reconstrução e para o diálogo não hegemônico? E os demais partidos, inclusive e principalmente o PSDB, serão capazes de aglutinar a maioria, apesar de inevitáveis divergências?”

Só que, do começo ao fim do artigo Triste Fim (o texto está no site www.brasil247.com), FH faz exatamente o contrário. Dissimula conciliação, mas bate, bate, bate em Dilma, no PT e nas esquerdas.

Esse FH bonzinho está sob investigação da Polícia Federal, sob suspeita de ligação com o empresário Jonas Barcelos, que teria bancado sua amante Mirian Dutra por anos em Portugal.

A história amorosa de Mirian Dutra não interessa nem para o debate de falsos moralismos, é problema dela e de FH.

O que importa é o caso político, a suspeita de que o empresário, com interesses misturados aos de FH e do governo, sustentava a moça com mesadas, para que a Globo (onde ela trabalhava) e o próprio FH não fossem incomodados.

E por que falar disso agora? Porque nada se sabe do inquérito, provocado por declarações da própria Mirian. Não há um vazamento sobre esse caso, porque só as sindicâncias e processos contra tucanos correm mesmo em segredo, na PF, no MP e na Justiça.

Enquanto isso, o FH bonzinho nos diz o que fazer para que a vida siga adiante.