A RESISTÊNCIA

Uma terça-feira em que o tema foi a democracia, a mídia e a resistência pela comunicação alternativa. Primeiro, com um bom debate com Claudir Nespolo, presidente licenciado da CUT e pré-candidato a deputado federal pelo PT, no café Butique Nossa Cara, no Bom Fim.
E depois com o lançamento do jornal Brasil de Fato, no Memorial Luiz Carlos Prestes, uma iniciativa de jornalismo progressista em meio ao crescente reacionarismo da imprensa.
O debate com Claudir reafirmou questões básicas: 1) a não-regulação das mídias ampliou o poder hegemônico de alguns grupos; 2) as esquerdas, e não só o PT, subestimaram o crescimento do golpismo nas empresas de comunicação; e 3) não há saída para o golpe sem a construção e o fortalecimento de projetos alternativos que sejam contraponto real à grande imprensa.
Saímos do debate e fomos, junto com o Claudir, a um evento em que uma reação concreta estava acontecendo. A solenidade de lançamento da edição gaúcha impressa do jornal Brasil de Fato, que surge com o apoio de entidades dos trabalhadores, mas precisa de leitores engajados para seguir em frente.
Brasil de Fato, quinzenal, com pautas que a imprensa tradicional ignora, tem versão online. Saúdo a chegada do jornal enviando um abraço ao meu Ayrton Centeno, um dos editores e um dos grandes nomes do jornalismo gaúcho.
https://www.brasildefato.com.br/

 

A DEMOCRACIA E O JORNALISTA MIMADO

Um jornalista de opinião, destes que têm rádio, jornal e às vezes TV para dizer o que pensa, pode citar até 10 pessoas num dia, quase sempre com observações críticas e muitas vezes duras.

Um jornalista desses que ainda se definem como formadores de opinião podem destruir um político, um jogador de futebol ou um educador com um comentário. E esses formadores são cada vez mais de direita, porque as empresas abandonaram a ideia da pluralidade.

Ontem conversei com o deputado Paulo Pimenta sobre a mídia e a democracia e tratamos de um detalhe que quase sempre reaparece nessas conversas. O jornalista de opinião de direita, que comenta a sobre a vida de uma dezena de pessoas por dia, geralmente se considera inatacável.

Porque o jornalista de direita acha que pode citar todo mundo, do cidadão comum ao Papa, mas ninguém pode citá-lo. Jornalista de direita critica de morador de rua a professor, mas ele nunca pode ser nem ao menos nomeado em qualquer comentário.

Mas não há nenhum foro privilegiado (até a Lei de Imprensa acabou) que possa protegê-lo.

Jornalista de direita é um mimado que se acha atingido na sua liberdade de dizer o que pensa, quando o que ele faz é tentar eliminar qualquer possibilidade de crítica ao seu trabalho.

O jornalista de direita empoderado pelo golpe é uma mala insuportável. Não vou citar nenhum deles, porque os outros ficariam com ciúme.

 

Os falsos indignados

Jornalista fofo é que nem capitalista brasileiro. O capitalista fala mal de países governados pela esquerda, manda que adversários políticos se mudem para Cuba, mas adora o regime comunista da China.

Porque o comunismo da China faz bem aos seus negócios. Tem capitalista brasileiro que importa da China tudo o que “produz”. Só põe a marca no produto. Ninguém vai ver um sujeito que vive da mão-de-obra barata da China falando mal do comunismo chinês.

Jornalista fofo é a mesma coisa. Agora, estão atacando o presidente do Sindicato da categoria no Rio Grande do Sul porque Simas Júnior teria cerceado o direito de um jornalista da Record de fazer uma reportagem no acampamento em Curitiba. Nem vou entrar em detalhes de um caso que está batido nas redes.

Só viu dizer que os mesmos jornalistas que acusam Simas não ergueram a voz quando um colega deles mandou, há uns dois anos, que bandidos executassem um profissional de uma rádio concorrente, porque esse defendia direitos humanos e, por consequência, segundo ele, também a bandidagem.

O sujeito disse ao vivo, em editorial, e afirmou seguir as normas do código de ética da firma. Que matassem o jornalista-radialista e seus filhos.

Vou contar aqui pela primeira vez uma história envolvendo esse caso. Eu integrava a Comissão de Ética do Sindicato dos Jornalistas e recebi uma dúzia de pedidos de colegas da empresa do sujeito ameaçador para que o caso fosse investigado. Os colegas dele estavam constrangidos e envergonhados.

Coloquei o assunto em pauta na primeira reunião. Em pouco tempo, apesar da minha posição e da posição do presidente do sindicato, agora acusado, o caso foi arquivado pelo coordenador da Comissão de Ética (que tem autonomia em relação à diretoria). Em protesto, decidi renunciar e abandonei a comissão.

Podem dizer que Simas é líder sindical e que o caso dele é mais grave. Podem dizer, mas não é. Mas o poder do sujeito que estimulou assassinatos é muito maior do que o de Simas. Esse sujeito, o Bolsonaro do rádio gaúcho, diz ter um canhão nas mãos. E pregou a morte como vingança, como dizem que já fez em outras circunstâncias.

Então, não me venham agora com a retórica das liberdades. Tentem desengavetar na Comissão de Ética o processo contra o sujeito que pediu que bandidos matassem um colega e seus familiares. Parem com conversa fiada.

O MASSACRE DOS JORNAIS

A Folha de S. Paulo tem neste momento sete chamadas sobre Lula na capa do site. SETE. E todas têm o mesmo foco: desqualificar a figura do ex-presidente, às vezes com alguma ‘sutileza”, para que o massacre não seja tão descarado.
O Globo tem seis chamadas sobre Lula. O tom é o mesmo, também com algumas voltas para parecer que há ‘imparcialidade’. A intenção dos dois jornais é uma só: manter Lula nas manchetes, mas da pior forma possível, com abordagens sempre depreciativas.
É uma estratégia da imprensa dentro do golpe e uma manobra do próprio negócio da mídia. Os grandes jornais abandonaram os últimos restos de diversidade (que chegaram a existir até anos atrás) e fizeram a opção pelo público conservador e reacionário.
É com o golpe e com esse público que tentam sobreviver. E estão conseguindo.

OS JORNALISTAS FOFOS E LULA 

Aguardem os escritos fofos dos jornalistas fofos, se Lula for mesmo preso. Os jornalistas fofos gostam de fazer firulas com o passado para trazer suas reflexões para o presente. O fofo adora líderes de massa, mas só os da Wikipédia.

O fofo é um exagerado e, para erguer sua tese, vai citar os grandões, Zapata, Mandela, Luther King e até Sandino. Se estiver num dia inspirado, é capaz até que cite Lênin. O fofo não teme citar líderes históricos do povo, porque ele os folcloriza como se fossem curiosidades.

E aí ele vai dizer: mas com Lula não é bem assim. Lula não é um Simon Bolívar, tampouco um Perón e muito menos Jesus Cristo. O jornalista fofo, nas suas muitas variações, adora citar Jesus Cristo.

O fofo citará todos eles, para concluir ao final que Lula é Lula e que não se brinca com a História. Lula não poderia, segundo o fofo, tentar se comparar a um Getúlio.

O fofo fará volteios, induzirá muita gente ao choro, porque ele dará a entender que está arrasado com o drama de Lula, e no fim fará o arremate. Que Lula se submeta ao seu martírio, como todos os líderes de massa, porque assim caminha a humanidade (os fofos gostam dessa frase).

O fofo revelará, ao final do texto, que está triste, porque gostava muito de Lula e que sempre votou no PT, e que foi comunista na infância, mas que agora a situação é outra. A justiça é para todos, dirá o fofo, citando uma frase original de seu ídolo Sergio Moro.

O fofo irá comover meio mundo com sua ladainha, mas não conseguirá aplacar as inquietações da própria consciência.

Os jornalistas fofos sabem o que são e que papel cumprem no jornalismo.

CADA UM COM A SUA IMPRENSA

Vi um filmaço. The Post, A Guerra Secreta, sobre a valentia do jornal Washington Post ao enfrentar o poder (inclusive da Justiça) e denunciar, em 1971, as mentiras dos governos americanos sobre a guerra do Vietnã.
Nixon peitou o Post e acabou sendo derrubado pelo jornalismo logo depois, no caso Watergate.
É a mesma imprensa que, com todas as suas imperfeições, pode acabar derrubando Trump.
No Brasil, a nossa imprensa ajudou a derrubar Getúlio, depois contribuiu para o seu suicídio, derrubou Jango e golpeou Dilma.
E hoje, meio constrangida, apoia o jaburu-da-mala e seu Quadrilhão e todos os tucanos corruptos impunes que sustentaram e ainda sustentam o golpe.

OS JORNALISTAS E A IMPRENSA

Esta foto é de uma manifestação desta semana de jornalistas argentinos diante do Congresso, em Buenos Aires. Mais de 30 jornalistas, principalmente fotógrafos, foram feridos por tiros de bala de borracha e bombas de gás da polícia de Macri nas manifestações da semana passada.
O que eles pedem é o direito elementar de trabalhar para poder informar. Mas quem vai dizer aos fascistas no poder na América Latina que esse é um direito dos cidadãos, e não só da imprensa? A direita assumiu o controle quase absoluto dos países que governa.
Os jornalistas de campo, que vão às ruas, fazem o que podem, como sempre fizeram com valentia em situações em que o reacionarismo manda e desmanda.
Mas, infelizmente, o direitismo, o golpismo e o fascismo têm o suporte da grande imprensa. Na Argentina e no Brasil.

Caíram todas as máscaras

Teve um tempo em que grandes empresas eram sustentadas pela reputação institucional construída por décadas. Agora, o que importa é o resultado imediato às custas do marketing de ocasião.

A reputação, os compromissos sociais, a imagem externa, os vínculos duradouros com as comunidades, nada disso interessa mais. O que interessa é vender o produto. Mesmo que tenha soda cáustica, pelos de rato, pedaços de unhas e restos de propinas.

Degradou-se o esforço construído também por profissionais que se dedicavam a fortalecer marcas associadas a compromissos humanistas e à diversidade.
A reputação é algo vago, cada vez mais distante para os empresários brasileiros e em especial para seus herdeiros pragmáticos.

Obter resultados de curto prazo para os acionistas é a tática da sobrevivência, no ambiente pós-golpe de devastação da democracia e da economia. A estratégia vai até amanhã.

Foi-se o tempo em que boa parte dos empresários gostaria de parecer alguma coisa que não era, em meio a projetos grandiosos e sinceros. Mas na maioria dos casos caiu a máscara.

O grande empresário brasileiro é, na média, um reacionário enrustido finalmente exposto pelo golpe. Um ultraconservador, muitas vezes até simpatizante de Bolsonaro, que ainda tentava se vender como um moderado liberal.

Há exceções? Claro, mas não vamos refletir sobre exceções que ainda resistem. A regra é esta: foi-se embora o capital social que algumas grandes empresas tentavam preservar.

A vantagem disso tudo é que o desmonte de compromissos pulverizou também algumas farsas construídas mais recentemente nos anos 90 da redemocratização, em todas as áreas, inclusive na grande imprensa.

O cerco na imprensa e na universidade

Tenho conversado com professores e jornalistas que, nos últimos meses, sentem o crescimento do cerco da direita nas universidades privadas e na imprensa. Eles sabem do que falam, porque alguns são vítimas desse cerco.
O golpe aprimorou seus mecanismos de controle e amordaçamento de profissionais ‘fora da linha’. São reduzidas as chances para o exercício da diversidade e a discordância. Só se forem meramente retóricas e como instrumento do marketing do cinismo.
Universidade e imprensa são protagonistas sem pudor da política do garrote que, como fizeram na ditadura, vai calar muitas vozes por muito tempo, com a ajuda de todas as frentes golpistas, do governo, do Congresso, das empresas e de parte do Ministério Público e do Judiciário.
Mas, ao contrário do que aconteceu dos anos 60 aos 80 do século passado, hoje a resistência substantiva, efetiva, fora desses ambientes, é quase nula. Por isso prospera a limpeza política só aparentemente sutil. A caçada é explícita e devastadora. Pensar é cada vez mais uma atividade de risco.
O golpe avança. Está solto o macartismo do século 21. Como diz o poema de Eduardo Alves da Costa, eles já pisaram nas flores e mataram nosso cão. Agora, testam nossos medos e começam a nos calar.
Seus filhos, seus amigos, seus vizinhos, sua namorada, seus colegas podem ser os próximos.