O MASSACRE DOS JORNAIS

A Folha de S. Paulo tem neste momento sete chamadas sobre Lula na capa do site. SETE. E todas têm o mesmo foco: desqualificar a figura do ex-presidente, às vezes com alguma ‘sutileza”, para que o massacre não seja tão descarado.
O Globo tem seis chamadas sobre Lula. O tom é o mesmo, também com algumas voltas para parecer que há ‘imparcialidade’. A intenção dos dois jornais é uma só: manter Lula nas manchetes, mas da pior forma possível, com abordagens sempre depreciativas.
É uma estratégia da imprensa dentro do golpe e uma manobra do próprio negócio da mídia. Os grandes jornais abandonaram os últimos restos de diversidade (que chegaram a existir até anos atrás) e fizeram a opção pelo público conservador e reacionário.
É com o golpe e com esse público que tentam sobreviver. E estão conseguindo.

OS JORNALISTAS FOFOS E LULA 

Aguardem os escritos fofos dos jornalistas fofos, se Lula for mesmo preso. Os jornalistas fofos gostam de fazer firulas com o passado para trazer suas reflexões para o presente. O fofo adora líderes de massa, mas só os da Wikipédia.

O fofo é um exagerado e, para erguer sua tese, vai citar os grandões, Zapata, Mandela, Luther King e até Sandino. Se estiver num dia inspirado, é capaz até que cite Lênin. O fofo não teme citar líderes históricos do povo, porque ele os folcloriza como se fossem curiosidades.

E aí ele vai dizer: mas com Lula não é bem assim. Lula não é um Simon Bolívar, tampouco um Perón e muito menos Jesus Cristo. O jornalista fofo, nas suas muitas variações, adora citar Jesus Cristo.

O fofo citará todos eles, para concluir ao final que Lula é Lula e que não se brinca com a História. Lula não poderia, segundo o fofo, tentar se comparar a um Getúlio.

O fofo fará volteios, induzirá muita gente ao choro, porque ele dará a entender que está arrasado com o drama de Lula, e no fim fará o arremate. Que Lula se submeta ao seu martírio, como todos os líderes de massa, porque assim caminha a humanidade (os fofos gostam dessa frase).

O fofo revelará, ao final do texto, que está triste, porque gostava muito de Lula e que sempre votou no PT, e que foi comunista na infância, mas que agora a situação é outra. A justiça é para todos, dirá o fofo, citando uma frase original de seu ídolo Sergio Moro.

O fofo irá comover meio mundo com sua ladainha, mas não conseguirá aplacar as inquietações da própria consciência.

Os jornalistas fofos sabem o que são e que papel cumprem no jornalismo.

CADA UM COM A SUA IMPRENSA

Vi um filmaço. The Post, A Guerra Secreta, sobre a valentia do jornal Washington Post ao enfrentar o poder (inclusive da Justiça) e denunciar, em 1971, as mentiras dos governos americanos sobre a guerra do Vietnã.
Nixon peitou o Post e acabou sendo derrubado pelo jornalismo logo depois, no caso Watergate.
É a mesma imprensa que, com todas as suas imperfeições, pode acabar derrubando Trump.
No Brasil, a nossa imprensa ajudou a derrubar Getúlio, depois contribuiu para o seu suicídio, derrubou Jango e golpeou Dilma.
E hoje, meio constrangida, apoia o jaburu-da-mala e seu Quadrilhão e todos os tucanos corruptos impunes que sustentaram e ainda sustentam o golpe.

OS JORNALISTAS E A IMPRENSA

Esta foto é de uma manifestação desta semana de jornalistas argentinos diante do Congresso, em Buenos Aires. Mais de 30 jornalistas, principalmente fotógrafos, foram feridos por tiros de bala de borracha e bombas de gás da polícia de Macri nas manifestações da semana passada.
O que eles pedem é o direito elementar de trabalhar para poder informar. Mas quem vai dizer aos fascistas no poder na América Latina que esse é um direito dos cidadãos, e não só da imprensa? A direita assumiu o controle quase absoluto dos países que governa.
Os jornalistas de campo, que vão às ruas, fazem o que podem, como sempre fizeram com valentia em situações em que o reacionarismo manda e desmanda.
Mas, infelizmente, o direitismo, o golpismo e o fascismo têm o suporte da grande imprensa. Na Argentina e no Brasil.

Caíram todas as máscaras

Teve um tempo em que grandes empresas eram sustentadas pela reputação institucional construída por décadas. Agora, o que importa é o resultado imediato às custas do marketing de ocasião.

A reputação, os compromissos sociais, a imagem externa, os vínculos duradouros com as comunidades, nada disso interessa mais. O que interessa é vender o produto. Mesmo que tenha soda cáustica, pelos de rato, pedaços de unhas e restos de propinas.

Degradou-se o esforço construído também por profissionais que se dedicavam a fortalecer marcas associadas a compromissos humanistas e à diversidade.
A reputação é algo vago, cada vez mais distante para os empresários brasileiros e em especial para seus herdeiros pragmáticos.

Obter resultados de curto prazo para os acionistas é a tática da sobrevivência, no ambiente pós-golpe de devastação da democracia e da economia. A estratégia vai até amanhã.

Foi-se o tempo em que boa parte dos empresários gostaria de parecer alguma coisa que não era, em meio a projetos grandiosos e sinceros. Mas na maioria dos casos caiu a máscara.

O grande empresário brasileiro é, na média, um reacionário enrustido finalmente exposto pelo golpe. Um ultraconservador, muitas vezes até simpatizante de Bolsonaro, que ainda tentava se vender como um moderado liberal.

Há exceções? Claro, mas não vamos refletir sobre exceções que ainda resistem. A regra é esta: foi-se embora o capital social que algumas grandes empresas tentavam preservar.

A vantagem disso tudo é que o desmonte de compromissos pulverizou também algumas farsas construídas mais recentemente nos anos 90 da redemocratização, em todas as áreas, inclusive na grande imprensa.

O cerco na imprensa e na universidade

Tenho conversado com professores e jornalistas que, nos últimos meses, sentem o crescimento do cerco da direita nas universidades privadas e na imprensa. Eles sabem do que falam, porque alguns são vítimas desse cerco.
O golpe aprimorou seus mecanismos de controle e amordaçamento de profissionais ‘fora da linha’. São reduzidas as chances para o exercício da diversidade e a discordância. Só se forem meramente retóricas e como instrumento do marketing do cinismo.
Universidade e imprensa são protagonistas sem pudor da política do garrote que, como fizeram na ditadura, vai calar muitas vozes por muito tempo, com a ajuda de todas as frentes golpistas, do governo, do Congresso, das empresas e de parte do Ministério Público e do Judiciário.
Mas, ao contrário do que aconteceu dos anos 60 aos 80 do século passado, hoje a resistência substantiva, efetiva, fora desses ambientes, é quase nula. Por isso prospera a limpeza política só aparentemente sutil. A caçada é explícita e devastadora. Pensar é cada vez mais uma atividade de risco.
O golpe avança. Está solto o macartismo do século 21. Como diz o poema de Eduardo Alves da Costa, eles já pisaram nas flores e mataram nosso cão. Agora, testam nossos medos e começam a nos calar.
Seus filhos, seus amigos, seus vizinhos, sua namorada, seus colegas podem ser os próximos.

Lá e cá

Jornalistas da grande imprensa americana estão sendo barrados pela Casa Branca. Os considerados inimigos não podem participar de entrevistas coletivas. Trump odeia a grande imprensa.Watch Cyberbully (2015) Full Movie Online Streaming Online and Download

Aqui, a grande imprensa é a primeira a ser chamada pelo Jaburu. O Jaburu ama a grande imprensa. E a grande imprensa adora o Jaburu.

 

O marketing da diversidade

Marcelo Canellas, repórter da TV Globo, e Paula Cesarino Costa, ombudsman da Folha de S. Paulo, tratam do mesmo assunto hoje – a diversidade na imprensa. E, no caso da abordagem deles, da pluralidade e da liberdade de expressão no humor.
Marcelo anuncia no Facebook que deixa de ser cronista do Diário de Santa Maria porque a nova direção do jornal tentou “impor limites editoriais à charge” do cartunista Elias. O chargista, que condenou o golpe, por exemplo, acabou perdendo seu espaço. E Marcelo desistiu então de publicar seus textos.
Paula trata das queixas sobre a falta de diversidade na Folha, onde todos os chargistas seriam de esquerda. Tanto que recentemente contrataram Hubert, ex-Casseta, como contraponto.
A mesma Paula levanta uma dúvida: existe mesmo humor de direita, se o humor é por natureza transgressor, e a direita quer conservar quase tudo como está?
Seria humor o conjunto de asneiras e grosserias que parte da direita produziu na internet sobre a doença de dona Marisa Letícia? Claro que não é.
O debate merece prosperar. Fora a grande questão da renúncia do Marcelo a um espaço e a um ambiente que não lhe serviam mais.
É uma decisão pessoal que indica os limites de cada um, nas mais variadas circunstâncias, também no jornalismo, uma área em que a diversidade corre o risco de virar apenas recurso de marketing. Grande Marcelo. Grande Elias.

Canalhas! Canalhas! Canalhas!

Esperei por muito tempo, sem grandes expectativas, pelo dia em que finalmente escreveria a palavra repetida neste título. Digito a palavra pela primeira vez para identificar os jornalistas que contribuíram para que a caçada a Lula se estendesse a dona Marisa Letícia e acabasse por provocar sua morte.

Não são canalhas uma única vez. São várias vezes canalhas. Canalhas! Canalhas! Canalhas! São mil vezes canalhas os que se aliaram ao golpe que derrubou Dilma Rousseff e passaram a cercar covardemente Lula, seus filhos, sua mulher, seus parentes, sempre com o pretexto lacerdista da moralização da política.

São canalhas os cúmplices dos corruptos golpistas no poder. São canalhas os que escreveram livros com ataques a Lula para tentar ganhar fama e dinheiro com acusações infantis e sem provas. São canalhas os que se dedicaram quase que diariamente a atiçar a Polícia Federal, o Ministério Público e a república de Curitiba contra Dilma e Lula.

São canalhas os jornalistas golpistas que devem ter escrito ontem sobre a morte de Marisa Letícia. Muitos de seus textos irão aparecer hoje nos jornais. São canalhas os que se atreverem a expressar sentimentos magnânimos, porque estariam acima de discordâncias e ideologias.

O jornalismo golpista ajudou a matar Marisa Letícia, processada desde setembro pelo juiz Sergio Moro.

Nunca Aécio Neves, o mais delatado dos políticos brasileiros, foi processado. Nunca abriram inquérito contra a irmã de Aécio, denunciada como recebedora de propinas para o tucano. Nunca investigaram José Serra, o homem dos R$ 23 milhões da Odebrecht na Suíça.

Nunca quiseram saber onde foram parar os R$ 10 milhões que o tucano Sergio Guerra recebeu de empreiteiras para melar uma CPI da Petrobras. Nunca condenaram nenhum tucano do metrô superfaturado e da merenda roubada de São Paulo.

Mas pegam os parentes de Lula e os parentes de amigos de Lula. E pegaram Marisa Letícia, porque era mulher de Lula e estaria envolvida na história fajuta do tríplex do Guarujá.

O jornalismo canalha ajudou na caçada a Marisa Letícia. O mesmo jornalismo canalha que poupa tucanos e amigos do homem do Jaburu e que agora irá simular que chora a morte de Marisa.

Jornalistas canalhas não devem evitar hoje a tentação da farsa dos textos de pesar pela morte de quem eles ajudaram a matar. Jornalistas canalhas devem ter a grandeza de serem canalhas autênticos.

E jornalistas canalhas autênticos devem escrever artigos cheios de lirismo e delicadezas sobre dona Marisa Letícia. Escrevam e publiquem. Os leitores sabem identificar o texto de um jornalista canalha.

(Apenas para lembrar, a expressão “canalha” foi consagrada pelo deputado Tancredo Neves, como reação ao golpe de 64, quando ele a repetiu duas vezes contra Auro de Moura Andrade, presidente do Senado, no momento em que este declarou que a presidência da República estaria vaga. O neto de Tancredo é um dos golpistas de hoje.)