Um fracasso

A cobertura dos grandes jornais do assassinato do miliciano na Bahia é precária. Não é preguiça, nem falta de gente. Os jornais têm medo de Bolsonaro e de Sergio Moro.
Em outros tempos, as melhores equipes dos jornais estariam acampadas no entorno do cenário da execução.
Hoje, fazem cobertura de campo de dentro das redações. É o jornalismo de tubo, que vai acabar matando o próprio jornalismo.
A tropa que matou Adriano da Nóbrega pode ter contribuído para que também o jornalismo morra mais um pouco.Mas ainda tenho esperança no grande esforço da Folha, mesmo temendo Bolsonaro e Moro, para dizer que enfrenta os dois.

IMPRENSA PROTEGE SERGIO MORO

O confronto entre Bolsonaro e Sergio Moro estava submerso há muito tempo e apenas foi exposto agora. Em outros tempos, o jornalismo da grande imprensa já teria revirado os monturos dessa briga.
Mas a imprensa fica no que parece que todo mundo sabe. Parece.
A abordagem em torno da disputa de beleza entre os dois, por causa da eleição de 2022 (daqui a quase três anos), é muito óbvia e preguiçosa.
O jornalismo está dormindo, enquanto Bolsonaro ataca o ex-juiz sem piedade e o classifica como um ministro igual aos outros.
A apatia dos jornais reforça uma suspeita. Se o personagem fosse menos poderoso, a grande imprensa já teria descoberto bem mais sobre o duelo entre as duas principais figuras da extrema direita brasileira.
Mas o personagem desqualificado por Bolsonaro é amigo das corporações e um nome inatacável.
O jornalismo não se esforça para entrar nos porões mais imundos da briga porque Moro deve ser protegido, pelos serviços prestados e porque poderá um dia chegar ao poder.
Moro tem foro privilegiado com a grande imprensa lavajatista.

GILMAR MENDES HUMILHA A IMPRENSA LAVAJATISTA

O jornalismo saiu lanhado da entrevista de Gilmar Mendes ao Roda Viva. Sobrou mais para a imprensa do que para Deltan Dallagnol e Sergio Moro.

Seis jornalistas levaram uma surra, do começo ao fim, pelo adesismo incondicional das corporações às ações da Lava-Jato.

Foram eles, os jornalistas, que entraram na roda, ao tentar pressionar Mendes como um traidor dos ideais do lajavatismo.

O entrevistado apresentou armas logo no começou e deixou os perguntadores em alerta:
“Muitos de vocês assumiram o lavajatismo militante. De alguma maneira vocês estavam criando falsos heróis”.

Silêncio total no estúdio. Sem saber o que dizer, foram salvos pelo pedido de intervalo de Daniela Lima.

Mais adiante, quando era empurrado de novo para as cordas, Mendes lembrou que Veja e Folha admitiram erros na cobertura da Lava-Jato e voltou a atacar:
“Vocês não podem ser uma banda auxiliar de um agrupamento”.

No mais, o Gilmar Mendes de sempre, sem surpresas, condenou as intermináveis prisões preventivas de Curitiba, disse que a Lava-Jato tinha “mais publicitários do que juristas”, classificou a relação Moro-Dallagnol como um “conúbio espúrio”, sugeriu vagamente que as mensagens divulgadas pelo Intercept poderão ser validadas para a anulação da condenação de Lula, admitiu que o Ministério Público está com excesso de poderes e tratou pelas bordas um assunto delicado: a proteção que deu a Flavio Bolsonaro, ao impedir que o MP do Rio use dados do Coaf contra o filho de Bolsonaro.

Num momento divertido, disse a Josias de Souza, do UOL, que o apertava, que ele deveria prestar atenção a uma decisão “do seu amigo Barroso”, referindo-se ao seu colega e desafeto no STF.

A entrevista só não foi um fracasso, pela repetição de argumentos conhecidos, porque Gilmar Mendes manteve os seis jornalistas em posição de defesa e humilhou a grande imprensa.

A RESISTÊNCIA DO JORNALISMO

Os ataques de Bolsonaro à jornalista Constança Rezende, do Estadão, com a publicação de mentiras já denunciadas, só pode provocar uma reação. Que o jornalismo resista às mentiras de Bolsonaro com mais jornalismo.
O bolsonarismo ressuscitou os jornais, a ponto de fazer com que um diário reacionário e golpista como o Estadão tenha voltado a fazer jornalismo.
Os Bolsonaros não conseguirão enfrentar o jornalismo pelo WhatsApp e pelo Twitter. A melhor resposta aos ataques é o aprofundamento de reportagens que já revelaram quem são os Bolsonaros.
O jornalismo tem o compromisso de mostrar ao Brasil em detalhes quais são as relações ainda encobertas da família com milicianos sob suspeita de participação na morte de Marielle Franco.
Os jornalistas reagirão não só em defesa de Constança Rezende, mas de uma atividade que vinha sendo depreciada pelas próprias corporações.
O jornalismo é um bicho inquieto e saberá resistir, apesar dos golpistas, dos Bolsonaros, dos milicianos e dos donos de jornais.

O MASSACRE

Se quiserem e se não sucumbirem a uma trégua, a Globo e a Folha poderão triturar os Bolsonaros.
O bolsonarismo ressuscitou o jornalismo moribundo. Os jornais estavam entregues à sua irrelevância com o esvaziamento das redações e a desistência de fazer jornalismo.
A maioria comeu pela mão da Lava-Jato, sem produzir uma, só uma reportagem de investigação sobre o caso.
Alguns optaram pelo jornalismo de opinião de direita como tentativa de salvação. Mas a maioria sobrevivia da inércia, mandando embora jornalistas de esquerda, à espera do que acontece com jornais em todo o mundo, inclusive os já alojados no mundo virtual.
Mas Bolsonaro brigou com quem não poderia ter brigado. Não só com os comandos das empresas, mas com os jornalistas. O bolsonarismo ressuscitou o furo, como os dois aplicados pelo grupo Globo ontem.
Primeiro, o Globo antecipou a posição do ministro Marco Aurélio sobre a pretensão desastrada de Flávio Bolsonaro de buscar refúgio no Supremo e desmontar as investigações do Ministério Público do Rio.
E depois veio o furo da TV Globo, que revelou que Flávio recebeu, em 2017, R$ 96 mil depositados em dinheiro vivo na sua conta. Foi devastador. A cachorrada está solta. Até os jornalistas fofos começam a se revoltar.
Os Bolsonaros acharam que iriam fazer comunicação com mensagens de fumaça pelo Twitter e pelo WhatsApp, para o contingente de estúpidos que acredita em tudo o que eles dizem.
Queriam continuar em campanha. Subestimaram a estrutura de comunicação da direita (que sempre os rejeitou), que ainda conversa com a classe média, como o PT já havia subestimado.
Os Bolsonaros são atacados por todos os lados, inclusive em relação às suas vidas privadas. Experimentam os mais variados bumerangues na testa. Não deveriam ter provocado tantos inimigos ao mesmo tempo.
Não há como enfrentar a Globo, a Folha, as ex-namoradas, os desafetos que hibernavam, os inimigos dos primos e agora o Ministério Público e um ministro que destoa do acovardamento do Judiciário, do Supremo, com Fux e com tudo.
Os Bolsonaros terão de pedir uma trégua, mas talvez seja tarde demais.

Leituras

Ainda há quem se pergunte: por que os jornais têm só opinião de direita, nas suas versões impressa e online, em torno da controvérsia sobre a possibilidade de libertação de Lula?
Porque todos os articulistas são de direita. Os de esquerda, que poderiam contrapor outra posição, foram mandados embora pelos jornais.
Os que eventualmente opinam fora da caixinha da direita não são jornalistas do time, com raras exceções. São contratados ou convidados para escrever, às vezes de graça, mas que estão fora das redações.
O jornalista progressista que emite opinião foi sendo expelido das redações. Os jornais abandonaram a pluralidade e agora trabalham para seu público de direita. E são lidos pelos leitores de esquerda, porque esse é o hábito de quem sempre leu.
E por que a direita não lê nada do que a esquerda publica em sites e blogs? Porque a direita nunca leu nada mesmo, e a extrema direita só olha as figuras e manda WhatsApp.
A direita nem tem muito o que ler da esquerda, porque a esquerda no Brasil esqueceu de fazer jornalismo, por falta de apoio econômico, por falta de suporte político, por preguiça e por falta de vergonha na cara.
Temos exceções, como temos um Marco Aurélio no Supremo? Temos, mas não vamos nos consolar e ficar refletindo sobre as exceções.

A GOIABA DA ESQUERDA

Uma pergunta que incomoda muita gente que ainda tenta fazer jornalismo fora do circuito que apoiou o golpe e se rendeu a Bolsonaro:
Por que a esquerda (sim, esquerda) institucionalizada em partidos e sindicatos nunca foi e parece que nunca será decidida no apoio ao jornalismo que tenta se contrapor à imprensa de direita?
Uma resposta possível:
Porque boa parte da esquerda achou nas últimas décadas, incluindo os governos do PT, que não precisaria de imprensa, e outra parte acha agora que vai vencer a guerra da comunicação com a direita bolsonarista com as espadas do Twitter e do WhatsApp.
São, pelas crenças que têm, os equivalentes da esquerda à ministra que vê Jesus em pés de goiaba.

O TRUQUE DA EXTREMA DIREITA

Bolsonaro dá entrevistas exclusivas para a Record (deu uma hoje). E a Globo tenta contra-atacar com entrevistas exclusivas de Sergio Moro (vai apresentar uma amanhã no Fantástico).

Mas Bolsonaro criou uma armadilha para a Globo e para todos os jornais. Usando o truque de Trump, ele não convoca coletivas de imprensa, porque isso só dá incômodo, como aconteceu com o repórter da CNN hostilizado por Trump na Casa Branca.

O truque de Bolsonaro é falar direto com as pessoas por vídeos pelo Facebook. Como fez ontem, quando atacou a prova do Enem e a linguagem de gays e trans.

Trump escreve e usa o Twitter onde estiver, sem depender de assessores. Bolsonaro não sabe escrever e usa os vídeos.

Assim, obriga a Globo a divulgar o que ele gravar quase todos os dias em vídeos caseiros. Se a Globo esconder as falas, pode ser acusada de censura.

Se Bolsonaro fizer um vídeo neste domingo, e pode fazer, a Globo terá de divulgá-lo no Fantástico.

Bolsonaro, Trump e toda a direita conseguiram o que a esquerda tentou por toda a vida e fracassou: falar direto com o povo, sem intermediários.

Quando surge, pela internet e pelo WhatsApp, a chance desse contato direto de forma massiva, é a direita e não a esquerda que consegue usar melhor a ferramenta disponível.

Porque o que a direita quer dizer precisa apenas de meia dúzia de palavras. A esquerda ainda precisa de frases e frases para tentar transmitir o que defende, mesmo que hoje não tenha muito o que falar.

É dureza. Com o WhastApp, o Twitter e os vídeos no Facebook, Bolsonaro faz e acontece, sem intermediários, sem perguntas, sem cortes. Apenas como uma tradutora de sinais para surdos e mudos ao lado dele.

O eleito da extrema direita diz o que a classe média antiPT sempre quis dizer e ouvir e não tinha coragem de admitir. E fala o que, além da classe média, a ignorância de metade dos brasileiros absorve sem questionamentos. Sim, a ignorância.

Até quando? Até o dia em que as esquerdas se derem conta de que perderam a batalha da comunicação por omissão, por subestimarem a direita, por acharem que não precisavam dizer às pessoas o que elas nunca ficariam sabendo pela Globo, pelos jornais e pelas rádios dominadas pelo coronelismo paroquial.

Recuperar esse terreno, depois do golpe contra Dilma, da prisão de Lula e da derrota para Bolsonaro, não significa, como muitos pensam, amplificar a guerra do WhatsApp.

A guerra do Whats é tática e hoje só favorece a direita com suas frases curtas, a simplificação da informação, a produção da mentira e da difamação e a exacerbação da idiotia.

As esquerdas terão de entender que a saída estratégica para além da guerra tática de mensagens, como aconteceu na eleição, está na construção de uma comunicação alternativa forte, de massa, que supere a produção fragmentada de palpites no Facebook (como esse que vocês estão lendo).

A esquerda, incluindo partidos e sindicatos e setores progressistas do entorno, tem de produzir conteúdo, com estruturas que ofereçam um mínimo de resistência à comunicação hegemônica da direita.

Produzir informação, e não só proselitismo. Produzir e fazer circular informação como ação política de resistência. Como fazem os argentinos e os uruguaios.

Já fazemos isso de forma dispersa, com a bravura de combatentes de esquerda, inclusive no Rio Grande do Sul, mas é preciso mais. Estamos atrasados em tudo, inclusive na regulação dos meios, o que parece ser, mas não é outra história. Hoje, somos perdedores.

A direita está vencendo essa guerra há décadas. E agora Bolsonaro se apropria do meio e da mensagem e vence a Globo e as esquerdas.

A IMPRENSA ADESISTA 

Marcos Nobre, professor de filosofia da Unicamp, sempre ouvido em momentos graves, diz em entrevista à Folha hoje o que vem sendo percebido nas últimas semanas. O que ele diz é apavorante.
A grande imprensa e o mercado, afirma Nobre, foram os primeiros a “normalizar” o candidato da extrema direita. Mesmo que até mesmo seus eleitores saibam que ele não é normal.
Mas para os grandes grupos de comunicação e o pessoal do dinheiro ele passa a ser um candidato como qualquer outro. A adesão está consolidada, talvez com algum esperneio apenas da Globo.
Cumpre-se agora o que não se cumpriu nem mesmo no golpe de 64. Marcos Nobre adverte:
“Imagine um presidente autoritário no Brasil, com instituições em colapso, como são as nossas? Não há instituição democrática que aguente Jair Bolsonaro”.
E lembra à própria imprensa que o apoio ao ogro pode se voltar contra ela mesma:
“Como sabemos, a mídia tradicional está em crise profunda. Caso ele ganhe, teremos um presidente com tendências claramente autoritárias num momento em que a imprensa está com dificuldades enormes. Então é a receita para ter restrição, para o governo ir para cima da imprensa. Você (Bolsonaro no caso) elege seus próprios canais oficiais, segue com campanha em redes sociais, em que não há nenhum controle, e diz : “Não acredite em nada que a mídia tradicional diga”.
As conclusões. A imprensa está diante de um dilema: gruda-se ao sujeito e tenta fazer um pacto de não-agressão, ou não apoia e é engolida logo adiante por represálias. Há salvação? Não há. Nem se entregarem tudo, das calças à alma.

A RESISTÊNCIA

Uma terça-feira em que o tema foi a democracia, a mídia e a resistência pela comunicação alternativa. Primeiro, com um bom debate com Claudir Nespolo, presidente licenciado da CUT e pré-candidato a deputado federal pelo PT, no café Butique Nossa Cara, no Bom Fim.
E depois com o lançamento do jornal Brasil de Fato, no Memorial Luiz Carlos Prestes, uma iniciativa de jornalismo progressista em meio ao crescente reacionarismo da imprensa.
O debate com Claudir reafirmou questões básicas: 1) a não-regulação das mídias ampliou o poder hegemônico de alguns grupos; 2) as esquerdas, e não só o PT, subestimaram o crescimento do golpismo nas empresas de comunicação; e 3) não há saída para o golpe sem a construção e o fortalecimento de projetos alternativos que sejam contraponto real à grande imprensa.
Saímos do debate e fomos, junto com o Claudir, a um evento em que uma reação concreta estava acontecendo. A solenidade de lançamento da edição gaúcha impressa do jornal Brasil de Fato, que surge com o apoio de entidades dos trabalhadores, mas precisa de leitores engajados para seguir em frente.
Brasil de Fato, quinzenal, com pautas que a imprensa tradicional ignora, tem versão online. Saúdo a chegada do jornal enviando um abraço ao meu Ayrton Centeno, um dos editores e um dos grandes nomes do jornalismo gaúcho.
https://www.brasildefato.com.br/