A GOIABA DA ESQUERDA

Uma pergunta que incomoda muita gente que ainda tenta fazer jornalismo fora do circuito que apoiou o golpe e se rendeu a Bolsonaro:
Por que a esquerda (sim, esquerda) institucionalizada em partidos e sindicatos nunca foi e parece que nunca será decidida no apoio ao jornalismo que tenta se contrapor à imprensa de direita?
Uma resposta possível:
Porque boa parte da esquerda achou nas últimas décadas, incluindo os governos do PT, que não precisaria de imprensa, e outra parte acha agora que vai vencer a guerra da comunicação com a direita bolsonarista com as espadas do Twitter e do WhatsApp.
São, pelas crenças que têm, os equivalentes da esquerda à ministra que vê Jesus em pés de goiaba.

O TRUQUE DA EXTREMA DIREITA

Bolsonaro dá entrevistas exclusivas para a Record (deu uma hoje). E a Globo tenta contra-atacar com entrevistas exclusivas de Sergio Moro (vai apresentar uma amanhã no Fantástico).

Mas Bolsonaro criou uma armadilha para a Globo e para todos os jornais. Usando o truque de Trump, ele não convoca coletivas de imprensa, porque isso só dá incômodo, como aconteceu com o repórter da CNN hostilizado por Trump na Casa Branca.

O truque de Bolsonaro é falar direto com as pessoas por vídeos pelo Facebook. Como fez ontem, quando atacou a prova do Enem e a linguagem de gays e trans.

Trump escreve e usa o Twitter onde estiver, sem depender de assessores. Bolsonaro não sabe escrever e usa os vídeos.

Assim, obriga a Globo a divulgar o que ele gravar quase todos os dias em vídeos caseiros. Se a Globo esconder as falas, pode ser acusada de censura.

Se Bolsonaro fizer um vídeo neste domingo, e pode fazer, a Globo terá de divulgá-lo no Fantástico.

Bolsonaro, Trump e toda a direita conseguiram o que a esquerda tentou por toda a vida e fracassou: falar direto com o povo, sem intermediários.

Quando surge, pela internet e pelo WhatsApp, a chance desse contato direto de forma massiva, é a direita e não a esquerda que consegue usar melhor a ferramenta disponível.

Porque o que a direita quer dizer precisa apenas de meia dúzia de palavras. A esquerda ainda precisa de frases e frases para tentar transmitir o que defende, mesmo que hoje não tenha muito o que falar.

É dureza. Com o WhastApp, o Twitter e os vídeos no Facebook, Bolsonaro faz e acontece, sem intermediários, sem perguntas, sem cortes. Apenas como uma tradutora de sinais para surdos e mudos ao lado dele.

O eleito da extrema direita diz o que a classe média antiPT sempre quis dizer e ouvir e não tinha coragem de admitir. E fala o que, além da classe média, a ignorância de metade dos brasileiros absorve sem questionamentos. Sim, a ignorância.

Até quando? Até o dia em que as esquerdas se derem conta de que perderam a batalha da comunicação por omissão, por subestimarem a direita, por acharem que não precisavam dizer às pessoas o que elas nunca ficariam sabendo pela Globo, pelos jornais e pelas rádios dominadas pelo coronelismo paroquial.

Recuperar esse terreno, depois do golpe contra Dilma, da prisão de Lula e da derrota para Bolsonaro, não significa, como muitos pensam, amplificar a guerra do WhatsApp.

A guerra do Whats é tática e hoje só favorece a direita com suas frases curtas, a simplificação da informação, a produção da mentira e da difamação e a exacerbação da idiotia.

As esquerdas terão de entender que a saída estratégica para além da guerra tática de mensagens, como aconteceu na eleição, está na construção de uma comunicação alternativa forte, de massa, que supere a produção fragmentada de palpites no Facebook (como esse que vocês estão lendo).

A esquerda, incluindo partidos e sindicatos e setores progressistas do entorno, tem de produzir conteúdo, com estruturas que ofereçam um mínimo de resistência à comunicação hegemônica da direita.

Produzir informação, e não só proselitismo. Produzir e fazer circular informação como ação política de resistência. Como fazem os argentinos e os uruguaios.

Já fazemos isso de forma dispersa, com a bravura de combatentes de esquerda, inclusive no Rio Grande do Sul, mas é preciso mais. Estamos atrasados em tudo, inclusive na regulação dos meios, o que parece ser, mas não é outra história. Hoje, somos perdedores.

A direita está vencendo essa guerra há décadas. E agora Bolsonaro se apropria do meio e da mensagem e vence a Globo e as esquerdas.

A IMPRENSA ADESISTA 

Marcos Nobre, professor de filosofia da Unicamp, sempre ouvido em momentos graves, diz em entrevista à Folha hoje o que vem sendo percebido nas últimas semanas. O que ele diz é apavorante.
A grande imprensa e o mercado, afirma Nobre, foram os primeiros a “normalizar” o candidato da extrema direita. Mesmo que até mesmo seus eleitores saibam que ele não é normal.
Mas para os grandes grupos de comunicação e o pessoal do dinheiro ele passa a ser um candidato como qualquer outro. A adesão está consolidada, talvez com algum esperneio apenas da Globo.
Cumpre-se agora o que não se cumpriu nem mesmo no golpe de 64. Marcos Nobre adverte:
“Imagine um presidente autoritário no Brasil, com instituições em colapso, como são as nossas? Não há instituição democrática que aguente Jair Bolsonaro”.
E lembra à própria imprensa que o apoio ao ogro pode se voltar contra ela mesma:
“Como sabemos, a mídia tradicional está em crise profunda. Caso ele ganhe, teremos um presidente com tendências claramente autoritárias num momento em que a imprensa está com dificuldades enormes. Então é a receita para ter restrição, para o governo ir para cima da imprensa. Você (Bolsonaro no caso) elege seus próprios canais oficiais, segue com campanha em redes sociais, em que não há nenhum controle, e diz : “Não acredite em nada que a mídia tradicional diga”.
As conclusões. A imprensa está diante de um dilema: gruda-se ao sujeito e tenta fazer um pacto de não-agressão, ou não apoia e é engolida logo adiante por represálias. Há salvação? Não há. Nem se entregarem tudo, das calças à alma.

A RESISTÊNCIA

Uma terça-feira em que o tema foi a democracia, a mídia e a resistência pela comunicação alternativa. Primeiro, com um bom debate com Claudir Nespolo, presidente licenciado da CUT e pré-candidato a deputado federal pelo PT, no café Butique Nossa Cara, no Bom Fim.
E depois com o lançamento do jornal Brasil de Fato, no Memorial Luiz Carlos Prestes, uma iniciativa de jornalismo progressista em meio ao crescente reacionarismo da imprensa.
O debate com Claudir reafirmou questões básicas: 1) a não-regulação das mídias ampliou o poder hegemônico de alguns grupos; 2) as esquerdas, e não só o PT, subestimaram o crescimento do golpismo nas empresas de comunicação; e 3) não há saída para o golpe sem a construção e o fortalecimento de projetos alternativos que sejam contraponto real à grande imprensa.
Saímos do debate e fomos, junto com o Claudir, a um evento em que uma reação concreta estava acontecendo. A solenidade de lançamento da edição gaúcha impressa do jornal Brasil de Fato, que surge com o apoio de entidades dos trabalhadores, mas precisa de leitores engajados para seguir em frente.
Brasil de Fato, quinzenal, com pautas que a imprensa tradicional ignora, tem versão online. Saúdo a chegada do jornal enviando um abraço ao meu Ayrton Centeno, um dos editores e um dos grandes nomes do jornalismo gaúcho.
https://www.brasildefato.com.br/

 

A DEMOCRACIA E O JORNALISTA MIMADO

Um jornalista de opinião, destes que têm rádio, jornal e às vezes TV para dizer o que pensa, pode citar até 10 pessoas num dia, quase sempre com observações críticas e muitas vezes duras.

Um jornalista desses que ainda se definem como formadores de opinião podem destruir um político, um jogador de futebol ou um educador com um comentário. E esses formadores são cada vez mais de direita, porque as empresas abandonaram a ideia da pluralidade.

Ontem conversei com o deputado Paulo Pimenta sobre a mídia e a democracia e tratamos de um detalhe que quase sempre reaparece nessas conversas. O jornalista de opinião de direita, que comenta a sobre a vida de uma dezena de pessoas por dia, geralmente se considera inatacável.

Porque o jornalista de direita acha que pode citar todo mundo, do cidadão comum ao Papa, mas ninguém pode citá-lo. Jornalista de direita critica de morador de rua a professor, mas ele nunca pode ser nem ao menos nomeado em qualquer comentário.

Mas não há nenhum foro privilegiado (até a Lei de Imprensa acabou) que possa protegê-lo.

Jornalista de direita é um mimado que se acha atingido na sua liberdade de dizer o que pensa, quando o que ele faz é tentar eliminar qualquer possibilidade de crítica ao seu trabalho.

O jornalista de direita empoderado pelo golpe é uma mala insuportável. Não vou citar nenhum deles, porque os outros ficariam com ciúme.

 

Os falsos indignados

Jornalista fofo é que nem capitalista brasileiro. O capitalista fala mal de países governados pela esquerda, manda que adversários políticos se mudem para Cuba, mas adora o regime comunista da China.

Porque o comunismo da China faz bem aos seus negócios. Tem capitalista brasileiro que importa da China tudo o que “produz”. Só põe a marca no produto. Ninguém vai ver um sujeito que vive da mão-de-obra barata da China falando mal do comunismo chinês.

Jornalista fofo é a mesma coisa. Agora, estão atacando o presidente do Sindicato da categoria no Rio Grande do Sul porque Simas Júnior teria cerceado o direito de um jornalista da Record de fazer uma reportagem no acampamento em Curitiba. Nem vou entrar em detalhes de um caso que está batido nas redes.

Só viu dizer que os mesmos jornalistas que acusam Simas não ergueram a voz quando um colega deles mandou, há uns dois anos, que bandidos executassem um profissional de uma rádio concorrente, porque esse defendia direitos humanos e, por consequência, segundo ele, também a bandidagem.

O sujeito disse ao vivo, em editorial, e afirmou seguir as normas do código de ética da firma. Que matassem o jornalista-radialista e seus filhos.

Vou contar aqui pela primeira vez uma história envolvendo esse caso. Eu integrava a Comissão de Ética do Sindicato dos Jornalistas e recebi uma dúzia de pedidos de colegas da empresa do sujeito ameaçador para que o caso fosse investigado. Os colegas dele estavam constrangidos e envergonhados.

Coloquei o assunto em pauta na primeira reunião. Em pouco tempo, apesar da minha posição e da posição do presidente do sindicato, agora acusado, o caso foi arquivado pelo coordenador da Comissão de Ética (que tem autonomia em relação à diretoria). Em protesto, decidi renunciar e abandonei a comissão.

Podem dizer que Simas é líder sindical e que o caso dele é mais grave. Podem dizer, mas não é. Mas o poder do sujeito que estimulou assassinatos é muito maior do que o de Simas. Esse sujeito, o Bolsonaro do rádio gaúcho, diz ter um canhão nas mãos. E pregou a morte como vingança, como dizem que já fez em outras circunstâncias.

Então, não me venham agora com a retórica das liberdades. Tentem desengavetar na Comissão de Ética o processo contra o sujeito que pediu que bandidos matassem um colega e seus familiares. Parem com conversa fiada.

O MASSACRE DOS JORNAIS

A Folha de S. Paulo tem neste momento sete chamadas sobre Lula na capa do site. SETE. E todas têm o mesmo foco: desqualificar a figura do ex-presidente, às vezes com alguma ‘sutileza”, para que o massacre não seja tão descarado.
O Globo tem seis chamadas sobre Lula. O tom é o mesmo, também com algumas voltas para parecer que há ‘imparcialidade’. A intenção dos dois jornais é uma só: manter Lula nas manchetes, mas da pior forma possível, com abordagens sempre depreciativas.
É uma estratégia da imprensa dentro do golpe e uma manobra do próprio negócio da mídia. Os grandes jornais abandonaram os últimos restos de diversidade (que chegaram a existir até anos atrás) e fizeram a opção pelo público conservador e reacionário.
É com o golpe e com esse público que tentam sobreviver. E estão conseguindo.

OS JORNALISTAS FOFOS E LULA 

Aguardem os escritos fofos dos jornalistas fofos, se Lula for mesmo preso. Os jornalistas fofos gostam de fazer firulas com o passado para trazer suas reflexões para o presente. O fofo adora líderes de massa, mas só os da Wikipédia.

O fofo é um exagerado e, para erguer sua tese, vai citar os grandões, Zapata, Mandela, Luther King e até Sandino. Se estiver num dia inspirado, é capaz até que cite Lênin. O fofo não teme citar líderes históricos do povo, porque ele os folcloriza como se fossem curiosidades.

E aí ele vai dizer: mas com Lula não é bem assim. Lula não é um Simon Bolívar, tampouco um Perón e muito menos Jesus Cristo. O jornalista fofo, nas suas muitas variações, adora citar Jesus Cristo.

O fofo citará todos eles, para concluir ao final que Lula é Lula e que não se brinca com a História. Lula não poderia, segundo o fofo, tentar se comparar a um Getúlio.

O fofo fará volteios, induzirá muita gente ao choro, porque ele dará a entender que está arrasado com o drama de Lula, e no fim fará o arremate. Que Lula se submeta ao seu martírio, como todos os líderes de massa, porque assim caminha a humanidade (os fofos gostam dessa frase).

O fofo revelará, ao final do texto, que está triste, porque gostava muito de Lula e que sempre votou no PT, e que foi comunista na infância, mas que agora a situação é outra. A justiça é para todos, dirá o fofo, citando uma frase original de seu ídolo Sergio Moro.

O fofo irá comover meio mundo com sua ladainha, mas não conseguirá aplacar as inquietações da própria consciência.

Os jornalistas fofos sabem o que são e que papel cumprem no jornalismo.

CADA UM COM A SUA IMPRENSA

Vi um filmaço. The Post, A Guerra Secreta, sobre a valentia do jornal Washington Post ao enfrentar o poder (inclusive da Justiça) e denunciar, em 1971, as mentiras dos governos americanos sobre a guerra do Vietnã.
Nixon peitou o Post e acabou sendo derrubado pelo jornalismo logo depois, no caso Watergate.
É a mesma imprensa que, com todas as suas imperfeições, pode acabar derrubando Trump.
No Brasil, a nossa imprensa ajudou a derrubar Getúlio, depois contribuiu para o seu suicídio, derrubou Jango e golpeou Dilma.
E hoje, meio constrangida, apoia o jaburu-da-mala e seu Quadrilhão e todos os tucanos corruptos impunes que sustentaram e ainda sustentam o golpe.

OS JORNALISTAS E A IMPRENSA

Esta foto é de uma manifestação desta semana de jornalistas argentinos diante do Congresso, em Buenos Aires. Mais de 30 jornalistas, principalmente fotógrafos, foram feridos por tiros de bala de borracha e bombas de gás da polícia de Macri nas manifestações da semana passada.
O que eles pedem é o direito elementar de trabalhar para poder informar. Mas quem vai dizer aos fascistas no poder na América Latina que esse é um direito dos cidadãos, e não só da imprensa? A direita assumiu o controle quase absoluto dos países que governa.
Os jornalistas de campo, que vão às ruas, fazem o que podem, como sempre fizeram com valentia em situações em que o reacionarismo manda e desmanda.
Mas, infelizmente, o direitismo, o golpismo e o fascismo têm o suporte da grande imprensa. Na Argentina e no Brasil.