Torcedores

Era só o que faltava ter que torcer pela manutenção do jaburu no governo, em nome da tese de que há uma nova conspiração em curso e que o jaburu seria o fiador da democracia até as eleições.
Entende-se que há as mais variadas torcidas entre as esquerdas. Mas por favor, menos, menos. Só pode ser o efeito do excesso de peixe na Semana Santa.

O JABURU E A FELICIDADE

As esquerdas gritam Fora Temer há dois anos. E há pelo menos um ano as esquerdas pedem uma prova de que Raquel Dodge é mesmo a xerife do Ministério Público, porque a maioria desconfia dela.
Pois a procuradora-geral fechou o cerco sobre o jaburu. Mandou os grandes amigos dele para a cadeia. Na véspera da Páscoa. Os amigos do jaburu, parceiros do Quadrilhão, não comerão ovinhos este ano.
E parte das esquerdas se assusta com a ideia de que estamos diante de uma nova conspiração. Diziam: prendem todo mundo, mas nunca pegam a direita golpista. Pois pegaram.
Cercaram o jaburu e prenderam os amigões do jaburu. Destruíram o jaburu. Ah, mas não deveria ser agora, porque Lula pode ser preso na semana que vem e o golpe pode recrudescer. Até meu coelhinho está espantado.
Se quiser, a direita cumprirá a nova etapa do golpe com ou sem o jaburu. Deixem Raquel Dodge cuidar dos chefes do Quadrilhão, ou fica tudo como está.
Só falta a esquerda levar um susto se prenderem Aécio. A esquerda está assustada com a possibilidade do fim do jaburu e de um novo golpe.
Para muitos, o jaburu seria o fiador da ‘democracia’ até a eleição. Fazendo o que vinha fazendo. Estaríamos viciados nos maus tratos do jaburu.
A esquerda está de novo com medo dos estragos da felicidade.

O banco que pagou o golpe

Durante anos, os analistas políticos tentaram nos engambelar. Diziam que o poder de líderes da direita vinha da capacidade de articulação, do charme e até do perfume que usavam.
O poder, sabe-se agora, veio sempre da capacidade de distribuir dinheiro. Esse era o poder de Eduardo Cunha, como mostra a delação do doleiro Lúcio Funaro.
Cunha era, segundo o doleiro, “um banco de corrupção de políticos”. Ele pagava por apoios e mutretas.
Cunha, disse o doleiro, era articulado com o jaburu-da-mala. E o jaburu era chefe de Geddel, de Moreira Franco e de Padilha, segundo o Ministério Público. Todos juntaram muito dinheiro no Quadrilhão.
Funaro deve saber por cima o que só Eduardo Cunha e seus parceiros sabem a fundo: como foi comprado o apoio para derrubar Dilma? Quantas malas de Geddel foram usadas no golpe?
Mas a quem interessa essa informação, se não contribui em nada para o cerco a Lula?

Tortura

Ninguém mais aguenta a voz de Sergio Moro. Nem a voz de Deltan Dallagnol. E muito menos a voz do jaburu-da-mala. Esta semana conversei com amigos que têm esse sentimento. O Brasil foi sequestrado pelos sons dos três.

O que enjoa não é necessariamente a voz falada, mas também a voz que salta dos textos. Abre-se a internet e lá vem uma declaração de um deles. Leio frases de Sergio Moro e ouço sua fala.

Leio uma declaração de Dallagnol e também é como se ele estivesse falando ao meu lado. E não dá para não ler. Se não leio, temo perder uma informação, ou a notícia de que pegaram um tucano. Mas eles são repetitivos, pueris nas argumentações, são moralistas de um moralismo punitivo e religioso.

Moro e Dallagnol são mantras de disco arranhado. Eles nos cercaram. Liga-se o rádio e ouve-se a voz de um deles, em entrevista ou palestra. Na TV é a mesma coisa.

O Brasil merece ouvir outras vozes. Moro, Dallagnol e o jaburu-da-mala estão atordoando o país. Às vezes não durmo direito por achar que a qualquer momento posso ser acordado pela voz de um deles. Já sonhei que tentava dormir em Guantánamo com um rádio ligado num discurso do Sergio Moro. E eu não conseguia desligar o rádio. Durou três dias.

Moro, Dallagnol e o jaburu poderiam dar o prefixo e sair do ar. Ninguém merece. Nem os inimigos. A presença compulsória dos três nas nossas vidas é um plano diabólico de alguém que ainda nos dá o Ronaldo Nazário de brinde.

É como se o Brasil todo tivesse se transformado em uma masmorra de Curitiba. Somos presos preventivos das vozes da Lava-Jato e do jaburu. Que a Anistia Internacional nos resgate.

Sinistro

Frase do jaburu-da-mala, no Twitter, ao comentar a tragédia das crianças queimadas em Minas pelo vigilante de uma escola, quando disse se colocar na posição de um pai: “Imagino que esta deve ser uma perda muito dolorosa”.
Está em destaque em todos os sites. O Brasil deveria arranjar uma maneira de se livrar de um sujeito que escreve, e com pompa, frase tão imbecil. O parvo no poder imagina que a maior de todas as tragédias para um pai e uma mãe pode então, quem sabe, ser uma perda dolorosa?
As figuras horrendas da República no Brasil são historicamente suplantadas pelas que vão se encarregando de sucedê-las nos mais diversos cargos. Depois de um Lacerda vem um Jânio, um Médici, Maluf, Sarney, Collor e então veio o Cunha (entre tantos outros) e agora temos o jaburu.
É possível que exista alguém mais sinistro do que o jaburu à nossa espera? O Brasil pode ter uma figura pública mais repulsiva do que o homem da mala e negociador de cargos e verbas para que não seja denunciado como chefe do Quadrilhão?

Quem paga mais?

Até as emas de Brasília sabem que a briga de Rodrigo Maia com o jaburu-da-mala é mais do que parece. O argumento de Maia para peitar o jaburu é o de que o PMDB vem assediando políticos do PSB, para atraí-los para o partido, quando muitos deles já estavam acertados com o DEM e o projeto presidencial do homem que os propineiros chamam de Botafogo.
Maia está dizendo: nós sabemos que eles estão sendo comprados pelo jaburu, para que o PMDB se fortaleça e mais uma vez a nova denúncia seja rejeitada com segurança no Congresso. E assim o jaburu seguiria em frente até o fim do mandato que deveria ser de Dilma.
O recado de Maia é este: se for preciso, desta vez vamos complicar e tentar fazer o que conseguimos quando da primeira denúncia.
Na votação da primeira acusação contra o jaburu, Maia chegou a ensaiar a conspiração, junto com Meirelles, para derrubar o jaburu. A Globo deu cobertura à estratégia dos dois, e muitos chegaram a pensar que o golpe no golpe estava no papo.
A Globo derrubaria o jaburu, e Maia ou Meirelles seriam os candidatos numa eleição indireta. Como a Globo não derruba mais ninguém, o jaburu sobreviveu e continuou manobrando.
O que vai acontecer agora? Maia pode estar blefando, ou teremos um duelo de forças de dois medíocres, sem nenhum apoio popular, sustentados por seus conchavos políticos.
Os próximos passos da ‘democracia’ brasileira se decidem agora entre dois representantes da política rasa e sob suspeita dos mais variados crimes, que numa eleição não teriam juntos 3% dos votos, considerando-se uma margem de erro de quatro pontos para mais ou para menos.

O teatro de Gilmar Mendes

Gilmar Mendes quebrou 124 flechas de Rodrigo Janot durante a defesa do seu voto contra a apresentação da nova denúncia do Ministério Público em que o jaburu-da-mala é apontado como chefe de quadrilha.
Mendes quebrou o arco, quebrou as flechas, pulou em cima e só não sentou nas flechas porque é perigoso. Atacou Janot, os procuradores de Janot, atacou Joesley Batista, fez mais do que o advogado de defesa do jaburu tentou fazer.
Mas perdeu por sete votos a um. Seu voto foi, até agora, o único contra o prosseguimento da denúncia, que deve agora ser encaminhada à decisão da Câmara, para ser recusada pelos mesmos que refugaram a primeira acusação contra o jaburu.
Gilmar Mendes não tem mais nenhuma preocupação em atuar como advogado do jaburu no Supremo. E ninguém poderá impedi-lo de continuar atuando. O Supremo é um teatro desqualificado por frases em latim, argumentos rococós, poesia ruim e pela performance patética de Gilmar Mendes.

 

A excursão do Quadrilhão

O Quadrilhão denunciado por Rodrigo Janot viaja para Nova York amanhã. O jaburu-da-mala, Eliseu Padilha, Moreira Franco e uma chusma de subalternos que os auxiliam na condução do trem da economia, da moralidade e da esperança.
Janot queria que todos eles fossem para a Papuda junto com Aécio. Os três vão à ONU e à Casa Branca e depois vão às compras. E Aécio anda por aí. A Papuda que espere.

Os gângsteres

O Quadrilhão não era apenas o esquema criminoso do PMDB. O que o procurador Rodrigo Janot denuncia é mais do que uma gangue política.
A denúncia mostra pela primeira vez, em detalhes, com provas, como grandes empresários brasileiros atuam como gângsteres (mesmo que seus nomes e seus rostos fiquem para sempre encobertos).
Fica claro que Eduardo Cunha e seus cúmplices foram apenas prepostos dos empresários e, depois, do esquema do pato da Fiesp que levou ao golpe. O golpe foi aplicado pela máfia de empresários articulados em torno do jaburu-da-mala, de tucanos e demais atores da direita.
O Quadrilhão trabalhava para os empresários, negociando decisões de governo e do Congresso.
O Quadrilhão, com empresários, o PMDB, os picaretas do Congresso e suas ramificações, é o verdadeiro mensalão. Os governos do PT limitavam a ampliação e a desenvoltura dos seus interesses.
O baixo clero da Câmara e do Senado, que assegurou maioria ao golpe, foi parte do esquema de compra de apoios, na hora de derrubar Dilma.
Os tucanos, que almejaram o lugar do jaburu e são protagonistas do golpe (mas estão livres da Justiça até agora), participaram da queda de Dilma, com a mesma hierarquia, ao lado desta gente. Mas os corruptos do PSDB continuam e continuarão impunes e intocáveis.
A classe média das panelas, agora quieta e constrangida, apoiou essas máfias. Em qualquer outro país, as denúncias empurrariam todo o governo para o penhasco e para a cadeia. Aqui, estaremos amanhã falando da alta da bolsa e da queda do dólar, com a maior naturalidade.
Quem acredita que a Justiça amiga de Romero Jucá irá acabar com o Quadrilhão e com a máquina empresarial que o sustenta e o movimenta?