A notícia das malas

O avião presidencial, o Air Force Jaburu One, fazia a curva de aproximação para aterrissar na Base Aérea. O voo de Pequim a Brasília havia sido tranquilo. Mas chegara a hora de alguém dar a notícia do sumiço das malas ao jaburu-rei.

Assessores de primeira linha só davam notícias boas ao jaburu. Notícias ruins, só com subalternos de subalternos. Um assessor de terceira linha foi então escolhido por sorteio e se dirigiu até a cabine presidencial, onde o jaburu ajeitava a gravata. O assessor foi direito ao assunto:

– Presidente, sumiram as malas.

O jaburu aprumou-se, deu uma ajeitada no pescoço, mesmo que quase não tenha pescoço, e retrucou:

– Sem problemas. Como sempre digo e tenho repetido, tudo o que perdemos num dia reencontrá-lo-emos no outro.

Outro assessor de terceira linha aproximou-se para tentar esclarecer:

– Presidente, não são as malas que o senhor está pensando…

O jaburu o interrompeu. Disse que malas são extraviadas com frequência em aeroportos. Mesmo em viagens presidenciais. E pediu que o assessor tomasse providências para recuperar as malas com as bugigangas que trouxera para o Moreira Franco e o Jucá:

– Se for preciso, acione o Padilha para que localize as malas.

– Mas…

E de novo o jaburu-da-mala não deixou que o assessor completasse a frase:

– Se não obtivermos resposta a contento, acione de inopino o Gilmar. Se as malas estiverem presas em algum lugar, que ele determine a libertação das malas.

Os dois assessores entreolharam-se, quando chegou um terceiro assessor de quarta linha. Esse assessor, mais decidido, disse com voz firme:

– Presidente, não foram as malas da viagem à China que sumiram. Foram as malas lá de Salvador. As malas da Bahia.

O jaburu-da-mala arregalou os olhos. O assessor continuou:

– Levaram tudo, presidente.

– As malas que estavam sob os cuidados do Geddel?

– Sim, presidente. As malas e as caixas.

O jaburu mudou a voz, como aconteceu naquele famoso discurso de maio do ano passado, quando tomava posse depois do golpe na Câmara.

Começou a tossir e se afogar nas mesóclises da própria saliva. E reagiu com voz trêmula e fraca, como se assoprasse uma voz que não era dele:

– Acionemos de imediato e sem vacilações a Polícia Federal.

– Mas foi a Polícia Federal que levou as malas – disse o assessor.

O jaburu caiu de costas e engoliu sem querer o comprimido que sempre usa para que a voz volte ao normal.

Ninguém sabe dizer o que aconteceu depois, porque o jaburu caiu como se fosse uma mala de batatas sobre as malas que estavam no chão, e os assessores chamaram as comissárias, que acionaram mais três assessores, que entraram na cabine tropeçando nas malas…

O jaburu-rei e a Justiça

Quando sair do governo, se não ficar para sempre, o jaburu-rei poderá um dia ser julgado pelo juiz Sergio Moro. Porque as denúncias de Janot contra ele (teremos mais), por corrupção passiva e obstrução de Justiça, continuarão vivas.

Ontem na Câmara os aliados golpistas argumentaram que ele não deve ser julgado agora, quando está no governo, mas que concordam que um dia terá de prestar contas do que deve. É uma desculpa cínica pra empurrar com a barriga.

Maluf presta contas à Justiça há cinco décadas. Os corruptos do mensalão tucano prestam contas há duas décadas. As máfias tucanas do metrô e da merenda de São Paulo estão prestando contas há oito anos.

A gangue das privatizações nunca prestou contas. Tem corrupto do século 19 que ainda espera ser chamado.

A Justiça de exceção de Curitiba é rápida para processar Lula e quem tem alguma relação com ele. Terá a mesma rapidez para condenar o jaburu, mesmo que, quando ele cair em Curitiba, já esteja virado numa galinha morta?

O que importa hoje é que as bolsas abriram em alta.

 

Controle total

Os jornais contam que Aécio Neves circula de novo com a desenvoltura e o charme de líder tucano em Brasília.

Padilha dá entrevista com a segurança e o humor de quem vai ganhar de goleada na quarta-feira na votação da denúncia na Câmara e ainda esnoba o apoio do PSDB.

O jaburu-rei diz que a economia está em franca recuperação e faz banquetes sobre os escombros e os cadáveres do Rio como um general americano em Bagdá.

Geddel passeia de bermuda floral e sem tornozeleira pelas praias de Salvador.

Serra parece quieto e esquecido de que tem o equivalente a R$ 23 milhões na Suíça, mas manda dizer por seus amigos da imprensa que será candidato em 2018.

Para todos eles, a Lava-Jato é apenas um gás de pimenta vencido. Arde um pouco, mas a vida segue, pois a Lava-Jato foi feita só para pegar Lula e Dilma.

Nunca, nem na ditadura, foi tão fácil, tão bom e tão rentável ser golpista e corrupto de direita.

Porque na ditadura ainda havia o medo da reação popular.

 

A máfia e o entorno

A Folha de S. Paulo finalmente admite, em longa matéria, que o governo Dilma Rousseff foi substituído por uma máfia muito bem organizada e até agora impune.
O jornal relaciona um a um os principais homens do jaburu e conclui que o governo golpista é uma quadrilha. Mas mantém um certo tom de delicadeza e se refere à gang como “o entorno”.
O Brasil dos panelaços golpeou um governo acusado de pedaladas (que ninguém sabe até hoje do que se trata) e o trocou por um grupo que se refestela no poder, compra apoios e debocha do povo, do Ministério Público e do Judiciário.
A mesma Folha diz em manchete que o jaburu pode comemorar. O plenário da Câmara irá blindá-lo, com folga, na votação da denúncia por corrupção.

Jayden e o jaburu-rei

Tem muito mais gente preocupada com o Jayden Smith do que com a surpreendente sobrevida do jaburu-rei.
Por isso o jaburu não teme mais ninguém. Na reunião do G-20 em Moscou, ele estava destruído, andando sem rumo, com olheiras, perdido na ‘União Soviética’.
Na reunião do Mercosul hoje em Mendoza, parecia tão leve e solto que nem percebeu que Meirelles roncava ao seu lado.
O jaburu está certo de que retomou o controle da situação, depois da tentativa de golpe de Rodriguinho Maia em conluio com Meirelles.
E nós preocupados com o Jayden Smith.

Mãos

Como alguém observou que Olívio também usa muito as mãos para se expressar, eis as fotos.

Não sei se é possível comparar as mãos consagradas como a marca de um democrata com as mãos de mesóclises de um golpista. Um apresenta as mãos para saudar e acolher, o outro parece obedecer a uma ordem de ‘mãos ao alto’.

Conheço muita gente que, no começo do golpe, admirava as mãos do jaburu. Depois, saltaram fora e abandonaram mãos e pés. Alguns são jornalistas ‘neutros’.

O golpe que durou um dia

Há uma semana, a esta hora, depois da leitura do relatório do deputado Sergio Zveiter contra o jaburu-rei, o presidente da República (e laranja de Henrique Meirelles) era Rodriguinho Maia.

Segundo a Globo, o relatório havia sido demolidor. O Jornal Nacional dava o jaburu como golpeado. Reportagens feitas às pressas enalteciam as virtudes da economia sob o comando de Meirelles.

Uma semana depois, Meirelles é de novo apenas o sujeito que fala com um ovo na boca para acalmar os mercados. E Rodrigo Maia cai na real do seu amadorismo, depois de ter sido enquadrado pelo jaburu.

O segundo golpe durou um dia. Na terça-feira já estava esfarelado. O que o jaburu sabe de Maia e Meirelles e teria dito aos dois para que eles ficassem quietinhos?

A não ser que…

Uma segunda-feira estranha. A sensação de ressaca na política leva a pensar que, se aparecessem 10 mulas do jaburu com malas de dinheiro, não aconteceria nada.
Se as mulas fossem mostradas no Jornal Nacional, todos os dias, numa corrida de mulas com malas, não aconteceria nada.
Parece que se esgotaram todos os repertórios contra o jaburu. E que ele vai escapar de goleada no plenário da Câmara.
A não ser que… (complete a frase como quiser).

O contragolpe do jaburu-rei

O jaburu aplicou o contragolpe em Maia e Meirelles e está conseguindo vencer a Globo. O relatório Zveiter, que abria caminho para o processo no Supremo, não vale mais nada.
A Globo está fora de forma e não derruba mais ninguém. Os Marinho já haviam perdido para Crivella no Rio.
O amadorismo de Maia, O Pequeno, e de seu grande chefe Meirelles deve estar envergonhando seus cúmplices do pato da Fiesp e da imprensa.
O golpe evolui como aqueles filmes vagabundos em que, quando a gente se dá conta, está torcendo para um dos bandidos. O jaburu vive.

A mala

Se alguém se apresentar hoje como constitucionalista, isso talvez não signifique muito e quem sabe até, com as atitudes mais recentes de ministros do Supremo, não signifique nada.
O jaburu, por exemplo, apresenta-se como constitucionalista (escreveu livros) e faz gestos com as mãos que seriam de constitucionalista.
Pessoas e coisas perdem sentido. O homem flagrado com a mala de R$ 500 mil, que agia em nome do constitucionalista, em qualquer lugar seria um sujeito perigoso.
No Brasil, por enquanto, foi apenas uma mula com uma mala. Talvez daqui a pouco, agora solto e sem a mala, ele não seja nada.
E talvez o que sobre com algum significado seja só a mala.