Jornalistas caçados

O jornal Página Siete, de La Paz, suspendeu a atualização do site e não terá circulação do jornal impresso amanhã.
O Página Siete está sendo ameaçado pelas turbas do golpe e prefere proteger seus funcionários.
E saiu do ar agora a página do jornal La Época. Será apenas uma casualidade?
O golpe invade e destrói casas, incendeia ônibus, persegue políticos e ataca a imprensa que não compactua com a extrema direita. O terror se espalha pela Bolívia golpeada.
Há informações de que alguns jornalistas, principalmente os ligados à estrutura de comunicação pública do país, estariam abandonando suas cidades.
E os jornalistas fofos do Brasil o que dirão nesta segunda-feira? Que a violência é lamentável, por isso e aquilo, mas que os jornalistas eram engajados ao esquerdismo de Morales e que por isso são perseguidos.
Um golpe sempre serve para reafirmar o caráter dos jornalistas fofos e suas posições subalternas a fascistas nacionais ou estrangeiros.
O jornalista fofo adora um golpista.

O SUJEITO QUE É SUBSTANTIVO E ADJETIVO

Antes de dar o soco-tapa em Glenn Greenwald, Augusto Nunes cometeu outras agressões, não só contra os filhos do diretor do Intercept. Nunes agride o jornalismo há décadas, sempre como pavão do adjetivo.
Todo texto de Nunes tem pelo menos uma dúzia de adjetivos em cinco linhas. Tudo para Nunes é superlativo. E todo texto só funciona se for rococó. A direita adora o rococó.
Tem jornalista rococó, político rococó, cúmplice de político rococó. Nunes é o mais rococó dos jornalistas brasileiros. Assim como o gestor gaúcho é o mais rococó dos bolsonaristas disfarçados. Rococó é meu adjetivo preferido.
Nunes deixou em Porto Alegre os seguidores da sua escola. Influenciou uma geração que copia seu estilo. Para Nunes, uma pessoa nunca está espantada, mas estupefata.
Tudo que Nunes escreve é grandioso. Se for para elogiar Bolsonaro e Moro, Nunes recorre a adjetivos que qualquer escola de jornalismo condenaria. Claro que não vou reproduzi-los aqui.
Nunes inspirou jornalistas que imitam seus textos gongóricos e provocou um estrago no jornalismo gaúcho. Os imitadores são melhores do que ele, porque aperfeiçoaram o estilo.
Hoje, seus discípulos já não são tantos, porque os primeiros gastaram todos os adjetivos. Mas alguns chegaram a imitar até o jeito de caminhar do cara que agrediu Glenn.
Nos textos de Nunes, um substantivo não existe sem um adjetivo. O próprio Nunes é um adjetivo.
Não vou chamá-lo por nenhum dos que ele usa contra Lula e que usou contra Glenn.
Vou usar um que Glenn usou contra ele e que tem a vantagem de ser, ao mesmo tempo, substantivo e adjetivo. Covarde.

EXISTE A FONTE QUE A GLOBO USA CONTRA BOLSONARO?

Só há uma informação com serventia, e apenas uma, na imensa nota que o diretor de jornalismo da Globo emitiu para seus subalternos sobre como a TV lidou com a reportagem do caso do porteiro.

A única informação relevante, em meio a muitas abobrinhas laudatórias, é essa: enquanto os jornalistas procuravam informações sobre o caso, “uma fonte absolutamente próxima da família do presidente Jair Bolsonaro (e que em respeito ao sigilo da fonte tem seu nome preservado) procurou nossa emissora em Brasília para dizer que ia estourar uma grande bomba, pois a investigação do Caso Marielle esbarrara num personagem com foro privilegiado e que, por esse motivo, o caso tinha sido levado ao STF para que se decidisse se a investigação poderia ou não prosseguir”.

Prestem atenção ao detalhe: “Uma fonte absolutamente próxima da família do presidente Jair Bolsonaro”.

Não é uma pessoa próxima do governo. Nem apenas próxima de Bolsonaro. É uma fonte próxima da família. E, se é uma fonte, é alguém que passa informações para a Globo.

Ali Kamel informa mais adiante que, como a reportagem não ia ao ar, dias depois a mesma fonte entrou em contato para perguntar: a matéria não vai sair?

O chefe do jornalismo se indaga na nota interna: por que uma fonte tão próxima ao presidente nos contava algo que era prejudicial ao presidente?

Kamel pode estar blefando. A fonte não existe, e a Globo tenta apenas disseminar mais uma intriga entre os Bolsonaros. Ou a fonte existe e é do mesmo andar e da mesma roda de Bolsonaro?

Suspeito que a história da fonte é um truque, e a tal personagem não existe. Foi criada pela Globo para que os Bolsonaros tenham mais uma paranoia em Brasília.

Moisés Mendes é autor de “Todos querem ser Mujica” (Editora Diadorim).

A SALVAÇÃO DA GLOBO

Os piores jornalistas, em toda parte, nos jornais de Itaqui, de Araraquara ou da Islândia, são os de direita. Defendi o seguinte hoje no almoço da nossa confraria de jornalistas em que um dos confrades é Mario Marona, ex-editor-chefe do Jornal Nacional.

Eu disse ao Marona, mesmo que ele não precise ouvir palpites e lições sobre o que mais sabe: a Globo só se salvará da armadilha que criou sobre o caso do porteiro se apostar em jornalistas de esquerda. Jornalistas mesmo.

Jornalistas de direita estão condenando a grande imprensa à morte precoce. Ali Kamel, diretor de jornalismo da Globo, nunca foi repórter. Sempre foi chefe. Já nasceu como chefe, como muitos jornalistas gestores. Kamel é um reacionário que atua como intérprete das vontades do dono.

Essa história do porteiro é exemplar do jornalismo que tenta atender as demandas do chefe. Os Marinho precisam bater nos Bolsonaros. Surgiu o porteiro. Mas os jornalistas, sob pressão, lidaram mal com a pauta, tudo porque o comando das redações da Globo é de gerentões de direita.

Jornalistas de direita são o horror das redações. Sempre foi assim. Não existem jornalistas de direita. Existem gestores de custos, bajuladores e palpiteiros.

A Globo precisa, com urgência, contratar jornalistas que não sejam apenas cumpridores de ordens, ou será derrotada por 7 a 1 pelos Bolsonaros. Precisa de gente que transgrida e desafie os próprios chefes.

As grandes redações brasileiras, em todos os tempos, foram tomadas de gente de esquerda, com muitos comunistas. Faltam comunistas nas redações, que foram sequestradas por gerentes e amigos dos gerentes.

A Globo precisa chamar os ‘comunistas’ de volta, no sentido amplo do significado da palavra. Chamem os talentos de esquerda.

Jornais conservadores que fizeram história foram sustentados por equipes progressistas. Chamem os jornalistas de esquerda ou a extrema direita vai apressar a morte do jornalismo da grande imprensa, que tenta sobreviver fazendo média com a audiência conservadora.

As redações tomadas por jornalistas de direita, enquanto tentam enfrentar Bolsonaro, são tão absurdas quanto churrascarias com cozinheiros vegetarianos.

Deixem os jornalistas de direita em funções corporativas e institucionais. Chamem jornalistas jovens, atrevidos, mas de esquerda. Chamem já.

JORNALISTAS BOLSONARISTAS

Alguns colegas têm notado um fenômeno que exige acompanhamento: o crescimento do bolsonarismo no jornalismo.
Logo depois da eleição, os jornalistas de direita mais cuidadosos com a própria imagem se protegeram como isentões. Alguns até se afastaram de Bolsonaro como forma de sobrevivência.
Outros faziam jogo duplo, atacando Bolsonaro, mas ao mesmo tempo, em qualquer fala ou texto, sempre fazendo referências a Lula e Dilma. Bolsonaro isso, mas Lula aquilo.
O que se vê hoje é que muitos correm de volta para os braços da extrema direita, num movimento aparentemente suicida, porque Bolsonaro está em baixa.
O que aconteceu? O que eles ganham com isso? Os patrões determinaram? Tem algum acordo, alguma trégua?
Precisamos saber mais. Nenhum jornalista é bolsonarista impunemente.

A GRANDE IMPRENSA TEME OS INCENDIÁRIOS

O jornalismo é o grande culpado pelo uso de fotos antigas publicadas como se fossem da devastação da Amazônia hoje. Simplesmente porque são raras as fotos novas.

Em qualquer acontecimento ou evento importante, as boas fotos se repetem nas redes sociais e nos jornais. Não é o que acontece agora. Os incendiários da Amazônia estão numa boa.

Os fazendeiros não sofrem flagrantes dos crimes que cometem, porque não há fotógrafos para registrá-los. A Amazônia queima há mais de mês, e os jornais não enviaram equipes de guerra para a região. Sim, equipes de guerra, como as que sempre são enviadas para zonas de conflito.

A Globo, o Globo, a Folha, o Estadão, a Bandeirantes, a Record, todos os veículos da grande imprensa, que têm redações numerosas e recursos financeiros, são omissos com os atos criminosos que matam a Amazônia.

Todos optaram por cobrir o fogo por satélite. O jornalismo brasileiro acomodou-se na cobertura do espaço, dispondo de imagens que não são captadas por profissionais da imprensa, mas por técnicos e cientistas do ambientalismo.

É constrangedor. O jornalismo brasileiro, que não conseguiu oferecer um furo relevante, um só, sobre a Lava-Jato, não consegue oferecer imagens dos incêndios que mostrem a dimensão dos ataques à floresta.

O jornalismo da grande imprensa é preguiçoso desde o golpe. Continuou preguiçoso na caçada a Lula. E só acordou quando o Intercept teve acesso às conversas escabrosas de Sergio Moro com Deltan Dallagnol.

Os jornais e as TVs poderão enviar (ou já devem ter enviado) equipes à Amazônia ontem ou hoje ou nos próximos dias. Mas terá sido tarde. O começo do crime não foi registrado, nem seus autores nunca serão identificados.

O jornalismo brasileiro, que cobriu até a guerra da Criméia, foi covarde diante da ação dos desmatadores protegidos pelo bolsonarismo.

O jornalismo não teme o Talibã ou o Estado Islâmico e vai às regiões em que atuam. Mas tem medo de fazendeiros, jagunços, grileiros e matadores de índios.