IMPRENSA PROTEGE SERGIO MORO

O confronto entre Bolsonaro e Sergio Moro estava submerso há muito tempo e apenas foi exposto agora. Em outros tempos, o jornalismo da grande imprensa já teria revirado os monturos dessa briga.
Mas a imprensa fica no que parece que todo mundo sabe. Parece.
A abordagem em torno da disputa de beleza entre os dois, por causa da eleição de 2022 (daqui a quase três anos), é muito óbvia e preguiçosa.
O jornalismo está dormindo, enquanto Bolsonaro ataca o ex-juiz sem piedade e o classifica como um ministro igual aos outros.
A apatia dos jornais reforça uma suspeita. Se o personagem fosse menos poderoso, a grande imprensa já teria descoberto bem mais sobre o duelo entre as duas principais figuras da extrema direita brasileira.
Mas o personagem desqualificado por Bolsonaro é amigo das corporações e um nome inatacável.
O jornalismo não se esforça para entrar nos porões mais imundos da briga porque Moro deve ser protegido, pelos serviços prestados e porque poderá um dia chegar ao poder.
Moro tem foro privilegiado com a grande imprensa lavajatista.

O FOTÓGRAFO

Teve um tempo no jornalismo, e foi um longo tempo, em que uma boa pauta de estrada só era levada adiante por uma dupla. Era preciso ter um repórter e um fotógrafo.
Não havia uma reportagem clássica sem a dupla. Algumas duplas foram quase permanentes e sobreviveram até o cansaço ou até o desenlace de uma briga incontornável.
Eu mesmo formei dupla com nomes que admiro muito. Vou citar apenas um nome, e que nome, porque hoje tentei fazer uma lista e sempre esquecia alguém.
Muitas vezes, o fotógrafo era, e continua sendo, quem orientava a reportagem, mesmo que o repórter seja, por alguma norma não escrita, quem geralmente conduz a pauta.
Nas guerras, muitos deles sobreviviam sozinhos, sem um repórter amigo ao lado, e dormiam, quando conseguiam, sem ter com quem compartilhar seus pesadelos. O repórter de guerra é o fotógrafo.
Por causa das faculdades de comunicação, em algum momento passaram a chamar o fotógrafo de jornal de repórter fotográfico. Não precisava. O fotógrafo não precisa ser chamado de repórter para só assim ser repórter. É fotógrafo e basta.
Hoje é o dia deles, de todos eles, e não só os do jornalismo.
Pois as duplas estão desaparecendo nos jornais, principalmente nas grandes redações, porque agora um repórter faz quase tudo, fotografando e filmando. Na TV também começa a ser assim.
É o mundo em evolução e não há o que fazer, até porque as corporações alegam que precisam reduzir custos.
Registre-se que há grandes repórteres também talentosos como fotógrafo e vice-versa, e aí está o consolo da tarefa dupla. Esse aí na foto, o Kadão Chaves, é o maior de todos eles.

COMPOSIÇÃO SOBRE O JORNALISMO FOFO

Nunca, em tempo algum, a imprensa brasileira foi tomada por tantos adesistas e reacionários como agora. Nem na ditadura.

Hoje, eles são numericamente superiores e muitos são fofos.
Não havia jornalista de direita fofo na ditadura. O jornalista era declaradamente de direita, às vezes com certo orgulho, ou era um dissimulado, mas nunca um fofo.

O jornalista fofo é uma invenção de pouco antes do golpe de agosto de 2016. É um disfarce do jornalista de direita, porque o sujeito insinua grandeza humanista, mas está sempre ao lado do ultraconservadorismo e até do bolsonarismo.

Nunca, em tempo algum, o jornalismo gaúcho teve tanta gente de direita com esse perfil. Não há no Brasil tantos jornalistas bolsonaristas assumidos ou disfarçados quanto no Rio Grande do Sul.

As redações gaúchas são o grande criadouro de jornalistas reacionários, mais do que as paulistas, onde há exemplos de arrependimento, como o caso clássico de Reinaldo Azevedo.

Não há arrependidos no Rio Grande do Sul.
A maioria dos reacionários gaúchos atua nas rádios, em todas as emissoras de todas as redes, porque poucos têm intimidade com a escrita.

Os que escrevem não vão além do segundo parágrafo, para não se enredarem nas próprias ideias e em vírgulas traiçoeiras. O jornalista fofo clássico é bom de conversa.

A maioria só consegue escrever sobre a primavera, datas e eventos. Amanhã, por exemplo, teremos jornalista fofo escrevendo sobre o Dia da Consciência Negra.

O jornalismo fofo é emotivo, lírico e cínico.

Jornalistas caçados

O jornal Página Siete, de La Paz, suspendeu a atualização do site e não terá circulação do jornal impresso amanhã.
O Página Siete está sendo ameaçado pelas turbas do golpe e prefere proteger seus funcionários.
E saiu do ar agora a página do jornal La Época. Será apenas uma casualidade?
O golpe invade e destrói casas, incendeia ônibus, persegue políticos e ataca a imprensa que não compactua com a extrema direita. O terror se espalha pela Bolívia golpeada.
Há informações de que alguns jornalistas, principalmente os ligados à estrutura de comunicação pública do país, estariam abandonando suas cidades.
E os jornalistas fofos do Brasil o que dirão nesta segunda-feira? Que a violência é lamentável, por isso e aquilo, mas que os jornalistas eram engajados ao esquerdismo de Morales e que por isso são perseguidos.
Um golpe sempre serve para reafirmar o caráter dos jornalistas fofos e suas posições subalternas a fascistas nacionais ou estrangeiros.
O jornalista fofo adora um golpista.

O SUJEITO QUE É SUBSTANTIVO E ADJETIVO

Antes de dar o soco-tapa em Glenn Greenwald, Augusto Nunes cometeu outras agressões, não só contra os filhos do diretor do Intercept. Nunes agride o jornalismo há décadas, sempre como pavão do adjetivo.
Todo texto de Nunes tem pelo menos uma dúzia de adjetivos em cinco linhas. Tudo para Nunes é superlativo. E todo texto só funciona se for rococó. A direita adora o rococó.
Tem jornalista rococó, político rococó, cúmplice de político rococó. Nunes é o mais rococó dos jornalistas brasileiros. Assim como o gestor gaúcho é o mais rococó dos bolsonaristas disfarçados. Rococó é meu adjetivo preferido.
Nunes deixou em Porto Alegre os seguidores da sua escola. Influenciou uma geração que copia seu estilo. Para Nunes, uma pessoa nunca está espantada, mas estupefata.
Tudo que Nunes escreve é grandioso. Se for para elogiar Bolsonaro e Moro, Nunes recorre a adjetivos que qualquer escola de jornalismo condenaria. Claro que não vou reproduzi-los aqui.
Nunes inspirou jornalistas que imitam seus textos gongóricos e provocou um estrago no jornalismo gaúcho. Os imitadores são melhores do que ele, porque aperfeiçoaram o estilo.
Hoje, seus discípulos já não são tantos, porque os primeiros gastaram todos os adjetivos. Mas alguns chegaram a imitar até o jeito de caminhar do cara que agrediu Glenn.
Nos textos de Nunes, um substantivo não existe sem um adjetivo. O próprio Nunes é um adjetivo.
Não vou chamá-lo por nenhum dos que ele usa contra Lula e que usou contra Glenn.
Vou usar um que Glenn usou contra ele e que tem a vantagem de ser, ao mesmo tempo, substantivo e adjetivo. Covarde.

EXISTE A FONTE QUE A GLOBO USA CONTRA BOLSONARO?

Só há uma informação com serventia, e apenas uma, na imensa nota que o diretor de jornalismo da Globo emitiu para seus subalternos sobre como a TV lidou com a reportagem do caso do porteiro.

A única informação relevante, em meio a muitas abobrinhas laudatórias, é essa: enquanto os jornalistas procuravam informações sobre o caso, “uma fonte absolutamente próxima da família do presidente Jair Bolsonaro (e que em respeito ao sigilo da fonte tem seu nome preservado) procurou nossa emissora em Brasília para dizer que ia estourar uma grande bomba, pois a investigação do Caso Marielle esbarrara num personagem com foro privilegiado e que, por esse motivo, o caso tinha sido levado ao STF para que se decidisse se a investigação poderia ou não prosseguir”.

Prestem atenção ao detalhe: “Uma fonte absolutamente próxima da família do presidente Jair Bolsonaro”.

Não é uma pessoa próxima do governo. Nem apenas próxima de Bolsonaro. É uma fonte próxima da família. E, se é uma fonte, é alguém que passa informações para a Globo.

Ali Kamel informa mais adiante que, como a reportagem não ia ao ar, dias depois a mesma fonte entrou em contato para perguntar: a matéria não vai sair?

O chefe do jornalismo se indaga na nota interna: por que uma fonte tão próxima ao presidente nos contava algo que era prejudicial ao presidente?

Kamel pode estar blefando. A fonte não existe, e a Globo tenta apenas disseminar mais uma intriga entre os Bolsonaros. Ou a fonte existe e é do mesmo andar e da mesma roda de Bolsonaro?

Suspeito que a história da fonte é um truque, e a tal personagem não existe. Foi criada pela Globo para que os Bolsonaros tenham mais uma paranoia em Brasília.

Moisés Mendes é autor de “Todos querem ser Mujica” (Editora Diadorim).

A SALVAÇÃO DA GLOBO

Os piores jornalistas, em toda parte, nos jornais de Itaqui, de Araraquara ou da Islândia, são os de direita. Defendi o seguinte hoje no almoço da nossa confraria de jornalistas em que um dos confrades é Mario Marona, ex-editor-chefe do Jornal Nacional.

Eu disse ao Marona, mesmo que ele não precise ouvir palpites e lições sobre o que mais sabe: a Globo só se salvará da armadilha que criou sobre o caso do porteiro se apostar em jornalistas de esquerda. Jornalistas mesmo.

Jornalistas de direita estão condenando a grande imprensa à morte precoce. Ali Kamel, diretor de jornalismo da Globo, nunca foi repórter. Sempre foi chefe. Já nasceu como chefe, como muitos jornalistas gestores. Kamel é um reacionário que atua como intérprete das vontades do dono.

Essa história do porteiro é exemplar do jornalismo que tenta atender as demandas do chefe. Os Marinho precisam bater nos Bolsonaros. Surgiu o porteiro. Mas os jornalistas, sob pressão, lidaram mal com a pauta, tudo porque o comando das redações da Globo é de gerentões de direita.

Jornalistas de direita são o horror das redações. Sempre foi assim. Não existem jornalistas de direita. Existem gestores de custos, bajuladores e palpiteiros.

A Globo precisa, com urgência, contratar jornalistas que não sejam apenas cumpridores de ordens, ou será derrotada por 7 a 1 pelos Bolsonaros. Precisa de gente que transgrida e desafie os próprios chefes.

As grandes redações brasileiras, em todos os tempos, foram tomadas de gente de esquerda, com muitos comunistas. Faltam comunistas nas redações, que foram sequestradas por gerentes e amigos dos gerentes.

A Globo precisa chamar os ‘comunistas’ de volta, no sentido amplo do significado da palavra. Chamem os talentos de esquerda.

Jornais conservadores que fizeram história foram sustentados por equipes progressistas. Chamem os jornalistas de esquerda ou a extrema direita vai apressar a morte do jornalismo da grande imprensa, que tenta sobreviver fazendo média com a audiência conservadora.

As redações tomadas por jornalistas de direita, enquanto tentam enfrentar Bolsonaro, são tão absurdas quanto churrascarias com cozinheiros vegetarianos.

Deixem os jornalistas de direita em funções corporativas e institucionais. Chamem jornalistas jovens, atrevidos, mas de esquerda. Chamem já.