Os falsos indignados

Jornalista fofo é que nem capitalista brasileiro. O capitalista fala mal de países governados pela esquerda, manda que adversários políticos se mudem para Cuba, mas adora o regime comunista da China.

Porque o comunismo da China faz bem aos seus negócios. Tem capitalista brasileiro que importa da China tudo o que “produz”. Só põe a marca no produto. Ninguém vai ver um sujeito que vive da mão-de-obra barata da China falando mal do comunismo chinês.

Jornalista fofo é a mesma coisa. Agora, estão atacando o presidente do Sindicato da categoria no Rio Grande do Sul porque Simas Júnior teria cerceado o direito de um jornalista da Record de fazer uma reportagem no acampamento em Curitiba. Nem vou entrar em detalhes de um caso que está batido nas redes.

Só viu dizer que os mesmos jornalistas que acusam Simas não ergueram a voz quando um colega deles mandou, há uns dois anos, que bandidos executassem um profissional de uma rádio concorrente, porque esse defendia direitos humanos e, por consequência, segundo ele, também a bandidagem.

O sujeito disse ao vivo, em editorial, e afirmou seguir as normas do código de ética da firma. Que matassem o jornalista-radialista e seus filhos.

Vou contar aqui pela primeira vez uma história envolvendo esse caso. Eu integrava a Comissão de Ética do Sindicato dos Jornalistas e recebi uma dúzia de pedidos de colegas da empresa do sujeito ameaçador para que o caso fosse investigado. Os colegas dele estavam constrangidos e envergonhados.

Coloquei o assunto em pauta na primeira reunião. Em pouco tempo, apesar da minha posição e da posição do presidente do sindicato, agora acusado, o caso foi arquivado pelo coordenador da Comissão de Ética (que tem autonomia em relação à diretoria). Em protesto, decidi renunciar e abandonei a comissão.

Podem dizer que Simas é líder sindical e que o caso dele é mais grave. Podem dizer, mas não é. Mas o poder do sujeito que estimulou assassinatos é muito maior do que o de Simas. Esse sujeito, o Bolsonaro do rádio gaúcho, diz ter um canhão nas mãos. E pregou a morte como vingança, como dizem que já fez em outras circunstâncias.

Então, não me venham agora com a retórica das liberdades. Tentem desengavetar na Comissão de Ética o processo contra o sujeito que pediu que bandidos matassem um colega e seus familiares. Parem com conversa fiada.

OS FOFOS E O PT

O jornalista fofo é um torcedor que não pode torcer publicamente por quem orienta sua conduta. Ele apenas pode torcer contra alguém ou alguma coisa.

O fofo tem um time para chamar de seu (já foi o time do Aécio), mas se constrange de dizer para quem torce. O grito de guerra do fofo é um grito abafado pela censura da própria consciência.

Então, resta a ele ser um torcedor contra, como anti-PT que é, anti-Lula, antiesquerdas. O jornalista fofo que embarcou no golpe é um ser atormentado pela própria opção.

Ele não pode dizer que está com Alexandre Frota, Lobão, Janaína Paschoal, Bolsonaro, Zezé di Camargo. Muito menos com Lobão, Regina Duarte, Ronaldo Nazário, Suzana Vieira. Mas sabe que essa é a sua turma.

E uma das coisas mais batidas pelo jornalista fofo, como torcedor do contra, é o fim do PT. O fofo viva repetindo que o PT acabou. Pois o DataFolha divulga hoje que 20% dos eleitores entrevistados pelo instituto têm simpatia pelo partido. Os outros partidos têm quase nada.

Antes da prisão de Lula, a simpatia pelo PT era de 19%. Os partidos da turma dos jornalistas fofos estão muito mal. O PMDB tem 4% e o PSDB tem 3%.

Mas o jornalista fofo continuará dizendo que o PT chegou ao fim. O fofo acredita até na interpretação do DataFolha para o crescimento da simpatia pelo PT. Segundo o instituto, isso aconteceu como “reflexo da impopularidade do governo Michel Temer”.

Entenderam? O PT teria conquistado mais adesões porque o jaburu é impopular.

O jornalista fofo vai repetir a explicação, fazendo cara de sério. Porque o fofo é aquele que repete quase todos os dias: “Eu concordo com o Merval”.

A hora do jornalista fofo

Há no momento uma certa desorientação do jornalismo embarcado de apoio ao golpe. Estão tateando na calibragem do discurso. Os que eram extremados estão menos agressivos, os mais esfuziantes, da torcida organizada, estão mais moderados, e os moderados quase se transformaram em democratas.
Por quê? Porque não é hora de subestimar sentimentos diante da possível condenação de Lula. Os jornalistas golpistas sabem que precisam calibrar seus ataques, ou estarão produzindo um bumerangue.
E os jornalistas fofos? Os jornalistas fofos estão torcendo pela democracia, pelo Brasil, pelo civismo e pela nossa bandeira. O jornalista fofo é o tipo mais dissimulado.
Vou antecipar aqui. Leremos textos de jornalistas fofos de direita lamentando a condenação de Lula. E muita gente que lê os jornalistas fofos irá às lágrimas.
O jornalista fofo não tem limites. É o mais perigoso de todos, porque tenta enganar suas vítimas com seus golpes do pacote.
O jornalista fofo também é chamado nas redações de sabonetão. O fofo é uma mala do lugar comum e das citações (adora citar Alexandre, o Grande), mas tem adoradores que dariam a vida por ele.