PORTA-VOZ

É isso ou entendi errado? A mulher do Sergio Moro ficou encarregada de chamar o pessoal da camiseta da seleção pra rua contra a decisão do Supremo? Ou para tentar assustar Lula?
Mas é um chamamento meio encabulado. Foi o que a advogada Rosângela Moro escreveu ontem no Twitter:
“Como brasileira: entendo perfeitamente quem irá para as Ruas porque a manifestação popular tem envergadura Constitucional”.
Detalhes interessantes. A advogada dá tanta importância às ruas que escreve a palavra com maiúscula.
E a manifestação popular tem então envergadura constitucional…
Bonito. É um claro deboche com o Supremo. A extrema direita tem uma porta-voz com uma voz melhor do que a do marido.

Eles cuidam de Sergio Moro

Passou batido um detalhe da reportagem de ontem da Folha sobre a ocupação do governo Bolsonaro pelos militares.
São ao menos 2.500 membros das Forças Armadas ocupando cargos de chefia ou no assessoramento em ministérios e repartições. São 30 órgãos tomados pelos militares.
Esse é o detalhe: o Ministério da Justiça tem 28 militares. Vinte e oito!!!
O general Guilherme Theophilo, secretário nacional de Segurança Pública, determina que os militares da pasta devem ir trabalhar fardados todas as quartas-feiras.
Em Curitiba, Moro tinha a sua turma e reinava absoluto, com uma força-tarefa que se estendia da sua sala até as salas dos procuradores. Moro mandava em tudo, era o chefe de fato de Deltan Dallagnol e dos subalternos de Dallagnol.
Era adorado pela imprensa, tinha autonomia para controlar conduções coercitivas, prisões preventivas intermináveis, delações, vazamentos seletivos para a imprensa.
Hoje, o ex-juiz de Curitiba parece estar sufocado sob o controle de militares. Bolsonaro criou uma armadilha para o justiceiro de Curitiba. Moro pode ser apenas um subalterno obediente de uma estrutura militarizada.

DALLAGNOL DELIRAVA

Cada um com seus delírios e sua mania de grandeza. Deltan Dallagnol planejou a construção de um monumento grandioso que simbolizasse a Lava-Jato, numa praça de Curitiba.
Está em mensagens que a Folha divulga hoje. O procurador imaginava o seu monumento aos deuses justiceiros como um lugar que atrairia milhares de turistas do mundo todo.
Isso foi o que ele escreveu em maio de 2016, no pico de um surto como imperador, imaginando o que seria o seu Fórum de Cesar:
“Minha primeira ideia é esta: algo como dois pilares derrubados e um de pé, que deveriam sustentar uma base do país que está inclinada, derrubada. O pilar de pé simbolizando as instituições da justiça. Os dois derrubados simbolizando sistema político e sistema de justiça…”
Se fosse hoje, o pilar que cabe a Dallagnol estaria virado num caco.
O interessante é que Sergio Moro não gostou da ideia. Moro queria mesmo o cargo prometido por Bolsonaro, ou quem sabe uma estátua só pra ele.
Eu tenho uma ideia de monumento para a Lava-Jato. É simples, tem por toda parte em lojas de louças sanitárias e está de acordo com a obsessão bolsonarista.

E SE MORO CAIR?

Passa a ser provável, mais do que mera especulação ou torcida, a queda de Sergio Moro. E se o ex-juiz cair, como ficam o plano de defesa do cigarro nacional e outras questões que marcariam sua performance como ministro? E as suspeitas, como ficarão?

No caso do cigarro, haverá desperdício do esforço da indústria com uma pesquisa que atestaria as vantagens do produto brasileiro em relação ao paraguaio. E frustração com a expectativa de faturamento com a retirada de cena do garoto propaganda do cigarro que faz menos mal, segundo o próprio Moro.

O ex-juiz tem também compromisso com a indústria armamentista, ao defender desde que assumiu, ao lado do chefe, a liberação do porte de armas. Tem o pacote anticrime organizado. Tem a autorização para que policiais atirem sob forte emoção.

Mas outros compromissos de Moro, inclusive com Deltan Dallagnol, devem ser investigados, porque vão muito além das combinações sobre palestras pagas e conluios para conduzir delações e encarcerar Lula.

Até hoje não se sabe, por exemplo, qual foi a participação do ex-juiz no projeto da fundação com os R$ 2,5 bilhões da Petrobras.

Dallagnol só poderia levar adiante a ideia com o aval de Moro. Alguns dirão que a homologação do acordo que permitiria o uso do dinheiro não foi de Moro, mas da sua substituta, a juíza Gabriela Hardt, que estaria até hoje sendo investigada pelo Conselho Nacional de Justiça.

Só alguém muito ingênuo ou cúmplice das versões da Lava-Jato pode acreditar que a juíza, e não Moro, que comandou tudo por cinco anos, teria dado sinal para a criação da ONG bilionária do procurador.

Se Moro e Dallagnol caírem, essas e outras investigações devem ser levadas adiante. Por que Moro estava tão interessado na defesa do cigarro nacional? Por que o Ministério da Justiça recebeu, em reuniões secretas (fora da agenda), diretores da Taurus? O que Moro sabia e o que fez pela ideia da fundação de Dallagnol?

Mas as sindicâncias não podem ficar no âmbito administrativo, porque aí geralmente não resultam em nada. Devem ser conduzidas, como a Lava-Jato fazia com casos semelhantes, na área criminal.

Alguém terá de tomar a iniciativa de esclarecer as ações de Moro e Dallagnol, que até agora são tratadas como meros delitos ditos funcionais.

Se Moro cair, quem irá se atrever a pedir a formação de uma força-tarefa para investigar as suspeitas de crime dentro da Lava-Jato?

O OBEDIENTE

Uma pergunta que ninguém fez ainda a Sergio Moro e que poderia ser feita hoje no depoimento do ex-juiz na Câmara:
Deltan Dallagnol foi um bom subordinado na Lava-Jato, ou Vossa Excelência tem algum reparo a fazer ao trabalho dele como seu subalterno para plantar notícias nos jornais, para forçar delações e para evitar que testemunhas indicadas por Vossa Excelência desistissem e arriassem?
No dia 13 de março de 2016, Dallagnol enviou essa mensagem a Moro:
“E parabéns pelo imenso apoio público hoje. Você hoje não é mais apenas um juiz, mas um grande líder brasileiro (ainda que isso não tenha sido buscado). Seus sinais conduzirão multidões, inclusive para reformas de que o Brasil precisa, nos sistemas político e de justiça criminal. Sei que vê isso como uma grande responsabilidade e fico contente porque todos conhecemos sua competência, equilíbrio e dedicação”.
Nas mensagens divulgadas até agora, Dallagnol é sempre o obediente emotivo, o cara que cumpre ordens sobre a sequência de ações, as testemunhas, as provas e os delatores, e poucas vezes sugere algo, cheio de cuidados para não ferir a hierarquia e a liderança do chefe que ele idolatra.
A relação, pelo que se vê, é à moda antiga, de imposição de comando, de exercício do cargo pela afirmação de quem manda e de quem obedece.
Moro deve comentar hoje se, depois de tantos anos juntos (o ex-juiz era um pouco frio com Dallagnol), o resultado foi o que ele esperava, ou o procurador falhou em alguma tarefa sob seu comando.

MANDARAM A CONTA PARA SERGIO MORO

O fracasso das manifestações de domingo é a primeira fatura entregue ao ex-juiz que virou político e vê sumir a chance de virar ministro do Supremo, depois da força destruidora dos vazamentos de conversas pelo Intercept.

Agora, Moro é considerado pelos aliados e pelos inimigos políticos apenas um deles. É nesse pantanal que tanto desdenhou que o ex-chefe da Lava-Jato terá de aprender a se movimentar, ou fracassará também em relação às suas pretensões às eleições de 2022.

Moro já está até procurando acertar o tom, como fez na mensagem que despachou pelo Twitter no domingo: “Eu vejo, eu ouço. Lava-Jato, projeto anticrime, previdência, reforma, mudança, futuro”.

É algo na linha da política de autoajuda, mais religiosa, rasa, que tenta se aproximar do povo com o que tem de pior.
Então Moro vê e ouve. E interpreta assim que o povo quer mais Lava-Jato, combate ao crime, nova previdência. E algo mais vago sobre mudança e futuro.

É o ministro da Justiça fazendo média com o chefe e erguendo a bandeira da reforma da previdência, o mais impopular dos projetos políticos das últimas décadas. Mas é o preço a ser pago.

Há um dado a favor desse Moro religioso. Nas manifestações, foi ele, e não Bolsonaro, o mais lembrado em faixas, cartazes e gritos de guerra. A classe média reage à ameaça de enfraquecimento da sua figura diante dos vazamentos e da possibilidade de libertação de Lula.

Mas há mais coisas contra do que a favor dele. Os políticos, inclusive aliados, começam agora a tramar para fragilizá-lo. Desaparece o ex-juiz que caçava o crime organizado e pretendia ser colega de Luiz Fux. Entra no baile o sujeito que não sabe direito o que poderá ser na semana que vem.

Pelas atitudes, pelo discurso ainda enviesado e pela necessidade de sobrevivência, Moro vai se afastando do homem de preto de gravata borboleta, que frequentava as festas tucanas, e tenta construir a figura do juiz do povo que fará política. Por isso ele vê e ouve, como um mestre que aprende com seus discípulos.

Moro tem ingredientes para ser uma das figuras mais esdrúxulas da política brasileira, porque talvez não se livre completamente dos cacoetes dos togados e possivelmente não consiga alcançar o tom dos que pretende imitar.

O chefe da Lava-Jato desaparece aos poucos como caçador de corruptos e é provável que nada surja em seu lugar. O ex-juiz talvez venha a ser enquadrado pela definição que ele mesmo usou para os mais recentes vazamentos do Intercept. Um balão vazio cheio de nada.

A PONTA DA LÍNGUA DE DALLAGNOL

Um trecho das conversas vazadas hoje para o Intercept entre Deltan Dallagnol, o juiz Sergio Moro e outros integrantes da força tarefa da Lava-Jato mostra que o procurador estava indeciso sobre a acusação contra Lula no caso do tríplex.
Dallagnol não acreditava nas provas e não tinha convicções. Mas foi adiante.
Essa foi uma barbeiragem do processo sempre apontada por juristas que consideram que não há nenhuma relação entre o caso do tríplex e as denúncias envolvendo a Petrobras.
Veja o que Dallagnol escreveu na época em uma das mensagens vazadas agora para o Intercept:
“Falarão que estamos acusando com base em notícia de jornal e indícios frágeis… então é um item que é bom que esteja bem amarrado. Fora esse item, até agora tenho receio da ligação entre petrobras e o enriquecimento, e depois que me falaram to com receio da história do apto… São pontos em que temos que ter as respostas ajustadas e na ponta da língua”.
Sabe-se que a ponta da língua de Dallagnol produziu, entre outras coisas, o famoso e constrangedor powerpoint com as bolinhas azuis…
Foi quando um colega de Dallagnol admitiu publicamente que tudo o que eles tinham era convicção.
Descobrimos agora que eles não tinham nem provas nem convicções.

O juiz e os medos

Não sei se é possível parar de pensar no que disse ontem o juiz Sergio Moro logo na abertura da conversa com os jornalistas.
Por que Moro afirmou que não fará perseguições políticas no Ministério da Justiça, se ninguém havia perguntado nada a respeito?
Como um futuro ministro da Justiça inicia uma conversa (depois de longos autoelogios) com jornalistas, transmitida ao vivo, negando a possibilidade de perseguições políticas, como se tratasse de algo de fato possível e banal?
Se um juiz precisa dizer que não fará perseguições, que tipo de declaração podemos esperar dos que estarão no mesmo governo e que incentivam milícias a agir contra inimigos políticos?
Se um juiz diz que os medos com o crescimento da violência contra minorias, gays, índios e negros (e com a perspectiva da repressão virar política de Estado) “são receios infundados”, o que podemos esperar dos que não são juízes?

Lula, o delegado e o juiz

O juiz Sergio Moro saiu em defesa do delegado da Polícia Federal que está sendo processado por Lula. Moro lamenta em despacho o processo contra o delegado Filipe Pace, aquele que disse em outubro que o “amigo” recebedor de propinas, que aparecia nas planilhas da Odebrecht, era com certeza Lula.

O delegado nem investiga Lula, não tem qualquer ingerência sobre o inquérito que comentou e não apresentou provas. Mas “amigo”, segundo ele, seria Lula. E “inimigo” (e aqui digo eu) talvez fosse algum tucano…

O delegado concluiu quem era amigo não por indicação de um delator ou por algum indício sério, mas apenas por intuição. E pronto: o amigo era Lula. Pois Moro acha que o delegado agiu dentro da lei e por isso o defende.

É por estas e outras que autoridades de instituições deformadas por ações seletivas, incluindo a própria PF, o Ministério Público e o Judiciário, temem tanto a lei que os enquadraria em crime de abuso de poder.

O delegado, segundo o juiz Sergio Moro, estava “no exercício de seu dever legal”. Moro também se considerava no exercício de deveres legais quando grampeou Lula e Dilma e divulgou o grampo.

Todos sabiam que ele havia cometido uma ilegalidade (que nunca será punida e tampouco reparada). O Supremo demorou para dizer que Moro havia agido fora da lei. Mas quem, afinal, espera muito de um Supremo acuado pelas pressões de um Renan Calheiros?

E quanto ao processo de Lula contra o delegado, alguém acha que resultará em alguma coisa? Os amigos do delegado estão tranquilos.

Endereços e ninhos

A grande dúvida, a partir desta segunda-feira, é se o juiz Sergio Moro conseguirá localizar a mulher de Eduardo Cunha, para que ela preste depoimento em Curitiba.

Nos últimos dias, os jornais noticiaram que o juiz emitiu um comunicado dizendo que Claudia Cruz precisa informar logo onde mora, para ser intimada.

Não se sabe onde este comunicado foi entregue (ou se foi transmitido apenas pela imprensa), porque, se o juiz não sabe onde a mulher de Cunha mora, como poderá intimá-la a informar onde afinal tem residência?

É estranho que um juiz tão efetivo em suas intervenções não consiga descobrir onde reside a mulher do ex-presidente da Câmara. Será que irá depender de um delator?

O juiz precisa aperfeiçoar o GPS de seus servidores, porque uma hora ele terá de saber onde moram certos tucanos, ou alguém imagina que os tucanos com residência fixa continuarão escapando sempre?

O juiz Moro e seus colegas em outros processos (carteis e propinas do metrô, da merenda etc) saberão, no momento certo, localizar os endereços dos ninhos dos tucanos corruptos? Eis a questão para depois da Olimpíada.