IMPRENSA PROTEGE SERGIO MORO

O confronto entre Bolsonaro e Sergio Moro estava submerso há muito tempo e apenas foi exposto agora. Em outros tempos, o jornalismo da grande imprensa já teria revirado os monturos dessa briga.
Mas a imprensa fica no que parece que todo mundo sabe. Parece.
A abordagem em torno da disputa de beleza entre os dois, por causa da eleição de 2022 (daqui a quase três anos), é muito óbvia e preguiçosa.
O jornalismo está dormindo, enquanto Bolsonaro ataca o ex-juiz sem piedade e o classifica como um ministro igual aos outros.
A apatia dos jornais reforça uma suspeita. Se o personagem fosse menos poderoso, a grande imprensa já teria descoberto bem mais sobre o duelo entre as duas principais figuras da extrema direita brasileira.
Mas o personagem desqualificado por Bolsonaro é amigo das corporações e um nome inatacável.
O jornalismo não se esforça para entrar nos porões mais imundos da briga porque Moro deve ser protegido, pelos serviços prestados e porque poderá um dia chegar ao poder.
Moro tem foro privilegiado com a grande imprensa lavajatista.

ACABOU O REPERTÓRIO DE SERGIO MORO

Sergio Moro expôs no Roda Viva o truque que pretende usar para sobreviver. Se continuar na mesma batida, fazendo o papel de ex-juiz, pelo menos não será comido tão cedo.

Não precisa tentar ser menos pior do que já é, porque pode estragar tudo. É a opção pelo mingau requentado da Lava-Jato.
E assim deve se conduzir até a campanha à eleição de 2022, se conseguir se firmar como uma opção da direita ou, o que é mais provável, da extrema direita.
Mas a vida do ex-juiz não está fácil. Moro confirmou na entrevista que é limitado. Tenta, mas não consegue ter um discurso que o apresente como alternativa política ao que está aí e se mostra cansado com o próprio discurso de caçador de corruptos.

Moro já fez seu número e dá sinais de que não tem repertório. Canta a mesma música, cada vez mais desafinado, mas é o que tem a oferecer. Talvez porque, se tentar algo diferente, menos simplório, possa ser desmascarado.

O professor Renato Janine Ribeiro escreveu no Facebook, depois do Roda Viva, que, se a esquerda não reagir, “Moro ganha as eleições hoje e nos tempos próximos”.

É provável que o ex-juiz se mantenha, ainda por um bom tempo, como a melhor opção da direita, segundo as pesquisas. Mas o que o Roda Viva expôs é que, se for para uma campanha, o chefe da Lava-Jato talvez não aguente o bombardeio de questões que não consegue responder, como a convivência mansa e pacífica com corruptos do governo denunciados formalmente, com adoradores do nazismo e com investigados por ligações com milicianos.

Uma coisa é ser entrevistado, com um certo excesso de cordialidade (foram raras as réplicas às bobagens que o ex-juiz dizia), outra é ser jogado na arena de uma campanha com cachorros grandes.

Moro é o Tony Tornado da direita. Só canta uma música, sempre com a mesma dancinha. Mas Tony Tornado sempre teve imposição vocal.

O QUE O HOMEM-MOSCA TEM QUE MAURO NAVES NÃO TINHA

Diogo Mainardi foi flagrado trocando mensagens como subalterno de Deltan Dallagnol na Lava-Jato. Mainardi, como mostram as mensagens vazadas hoje pelo intercept, comportava-se como empregado da turma de Curitiba.

Pois o sujeito respondeu hoje mesmo às revelações do jornal, com essa frase à la Bolsonaro no Twitter:

“Só agora a bandidagem descobriu que eu apoio a Lava Jato?”

Apoiar a Lava-Jato é o que toda a bandidagem da direita e da extrema direita faz. Isso não quer dizer nada. O que o Intercept mostrou não é apoio. É subserviência, é servilismo.

Mainardi tentou dar uma volta e insinuar que denunciaram apenas um apoio (quando ele vive dizendo que é imparcial) e que isso não é notícia.

Não tem nada de apoio. Tem é comportamento de homem-mosca mesmo, de total atração pelos maus odores da Lava-Jato, como mostram as mensagens.

Mainardi é o cara que ficou ainda mais famoso ao pedir em vídeos que qualquer bandido enviasse a ele coisas comprometedoras contra Lula, o PT e as esquerdas.

Agora, está todo moralista com a divulgação do seu conluio com o lavajatismo, porque foi flagrado por um hacker.

Mainardi é um sujeito bem assustado. Pode ter passado dos limites, se a Globo, dona da GloboNews, levar a sério seus códigos de ética.

Por muito menos, o repórter Mauro Naves foi mandado embora, ao tentar fazer uma conexão do pai de Neymar com um advogado, no caso de Najila Trindade, a moça que havia ido ao encontro do jogador em Paris.

Naves teve, segundo a Globo, conduta inadequada, ao tentar interferir no caso e, pelo que supõem, camuflar ou mediar uma solução para o escândalo, ao invés de divulgá-lo.

É muito semelhante com o que aparece nas conversas do homem-mosca com Dallagnol, que orienta o sujeito a divulgar ou não as informações que o chefe do Antagonista recebe dos procuradores amigos.

Naves foi degolado em um mês, no Jornal Nacional, porque – dizia a nota da Globo – havia “evidências de que suas atitudes neste caso contrariaram a expectativa da empresa sobre a conduta de seus jornalistas”.

Valerá para o homem-mosca o código que, por avaliar condutas impróprias, também determinou a demissão do apresentador Dony De Nuccio?

Naves e Dony não tinham na Globo a proteção da Lava-Jato e de Sergio Moro, como está claro que o homem-mosca tem.

ORÁCULOS SIMPLÓRIOS

Vi a entrevista do juiz Marcelo Bretas a Andréia Sadi na GloboNews. Ele e Sergio Moro passam a mesma impressão de desleixo com as ideias, uma característica que parece impregnada nesse pessoal mais performático do Judiciário.
O que se vê é um sujeito simplório, com reflexões um pouco rasas sobre coisas complexas.
Falta a Moro, a Bretas e ao juiz Witzel, que virou governador, um pensamento que vá um pouco além dessas abordagens medianas sobre a Justiça e sua interferência num mundo cada vez mais sob o controle dessa gente.
Não falta sofisticação, mas um esforço, com algum lastro, para que se diferenciem de falas básicas sobre o que fazem.
Eles podem até ser bons como magistrados, mas dão a entender que pensam como o tiozinho falante desses tempos bolsonaristas.
São ruins de pensamento esses juízes transformados em justiceiross e oráculos da direita.

Um lavajatista impune

Meu texto quinzenal no Extra Classe. O que aconteceria se alguém tentasse se apropriar de R$ 2,5 bilhões da Petrobras em nome do combate à corrupção? Com Deltan Dallagnol, um ano depois do escândalo, não aconteceu nada.

https://www.extraclasse.org.br/opiniao/2020/01/um-lavajatista-impune/?fbclid=IwAR2IinB-aDD6WKrFeBCC0pzPP2RGH3cB932to6xeMnNRMgv7r8CzyMKn3_k

QUEM A FOLHA ESTÁ PROTEGENDO?

Por que a Folha informa que Gregório Duvivier falou com o hacker que invadiu os celulares do pessoal da Lava-Jato e não diz quem são os jornalistas que agiram em conluio com Deltan Dallagnol e Sergio Moro para trocar informações e até dedurar possíveis suspeitos?
A Folha informa desde hoje cedo que Duvivier perguntou ao hacker, por curiosidade, se ele havia grampeado certos jornalistas, incluindo William Bonner.
O hacker trocou mensagens com Duvivier depois do começo dos vazamentos, e a Folha teve acesso às conversas do humorista, que estão sob guarda da Polícia Federal.
Mas a Folha não cita os nomes dos jornalistas de outra reportagem, que trocavam informações com a turma da Lava-Jato, chegando ao ponto de dedurar possíveis suspeitos.
Duvivier tem o nome exposto. Mas a Folha protege os nomes de outros jornalistas (não seriam poucos) que aparecem em outros vazamentos obtidos pelo Intercept como parceiros da Lava-Jato e participantes de uma estrutura podre de bajulação e vazamentos seletivos.
Quem a Folha está protegendo?

E OS NOMES DOS JORNALISTAS?

A Folha publica hoje um longo texto de Ricardo Balthazar sobre o Clube dos Jornalistas Lavajatistas (o titulo é meu), que comiam pela boca de Sergio Moro e Deltan Dallagnol.
Balthazar conta como o esquema privilegiava jornalistas aliados, alguns transformados em dedos-duros do lavajatismo.
Era uma estrutura podre, de entrevistas combinadas, que mantinha informados só os amiguinhos mais fiéis à caçada a Lula e às esquerdas.
Mas faltam no texto os nomes dos jornalistas amigos de Dallagnol e Sergio Moro.
O jornalismo é uma das atividades mais corporativas. A Vaza Jato deflagrada pelo Intercept já divulgou vazamentos com nomes de ministros do Supremo.
Agora, vai proteger jornalistas em nome de alguma regra não escrita desse corporativismo de amiguinhos?
O jornalismo vai imitar a Lava-Jato?

MORO AINDA ESTÁ PENSANDO

Se tivessem tempo, quase todos os procuradores alinhados com a Lava-Jato teriam defendido a operação atacada pelo ministro Dias Toffoli.

O presidente do Supremo disse em entrevista ao Estadão que a Lava-Jato quebrou empresas investigadas.

Deltan Dallganol rebateu no Twitter:
“Dizer que a Lava Jato quebrou empresas é uma irresponsabilidade. Primeiro: é fechar os olhos para a crise econômica relacionada a fatores que incluem incompetência, má gestão e corrupção. Segundo: É culpar pelo homicídio o policial porque ele descobriu o corpo da vítima, negligenciando o criminoso. Os responsáveis são os criminosos. A Lava Jato aplicou a lei”.

Até membros subalternos da Lava-Jato responderam ao presidente do STF. O procurador Roberson Pozzobon afirmou:

“A Lava Jato não ‘destruiu’ empresa nenhuma. Descobriu graves ilícitos praticados por empresas e as responsabilizou, nos termos da lei. A outra opção seria não investigar ou não responsabilizar. Isso a Lava Jato não fez”.

Pozzobon quer tudo transparente. Tanto quis que foi ele quem articulou com Dallagnol, no final de 2018, a criação de uma empresa que faria a gestão das palestras dos dois. Mas eles não iriam aparecer como empresários. A empresa seria aberta em nome das mulheres deles.

Os dois ficariam ricos. Dallagnol pretendia arrecadar até R$ 400 mil num ano. A conversa vendida como marketing, de que as palestras seriam parte dos gestos magnânimos para difundir o combate à corrupção, foi pro brejo.

Os procuradores queriam grana, queriam montar negócio. É o que aparecia com deslavada clareza nos diálogos vazados entre os dois (e de Dallagnol com a mulher), divulgados pela Folha e pelo Intercept.

Pois agora Dallagnol e Pozzobon saíram em defesa da Lava-Jato, porque entendem que tudo o que fizeram foi às claras e dentro da lei.

Mas o ex-juiz Sergio Moro, que agia como se fosse chefe deles na Lava-Jato, ficou quieto. Moro não vai dizer nada a respeito da declaração de Toffoli?

JANUÁRIO, SEUS FILHOS E OS LIBERAIS BOLSONARISTAS

Há duas bombas nos jornais hoje. A primeira é a revelação de que o doleiro Dario Messer pagava propinas ao procurador da Lava-Jato Januário Paludo. É reportagem de Vinicius Konchinski, no UOL.

Januário é aquele dos Filhos de Januário, o grupo de mensagens do Telegram que trocava informações da turma de Deltan Dallagnol sobre a caçada a Lula em conluio com Sergio Moro.

A confissão está em conversas grampeadas pela Polícia Federal. Espera-se agora a delação formal do doleiro, que está preso, para saber se apenas Januário ou também os filhos são acusados do recebimento de propinas.

(Observem que na famosa foto de Januário e seus filhos, Januário é o único numa posição de submissão, com as mãos às costas.)

A segunda bomba é a admissão de Demétrio Magnoli, um dos grandes pensadores do liberalismo brasileiro, de que o liberalismo é hoje uma farsa dentro de um projeto totalitário. É o aperfeiçoamento de um modelo que só teria êxito sob controle absoluto de um déspota.

Magnoli adverte que as falas de Eduardo Bolsonaro e de Paulo Guedes sobre o AI-5 não expressam medo do governo com eventuais manifestações de rua.

Na verdade, os dois estão induzindo à realização de protestos para exercer então a repressão e impor um governo ditatorial. Só assim o esquema funcionaria plenamente. Não é novidade, mas é dito agora por um liberal.

O que ele não disse é que esse mecanismo depende da perseguição aos que dele discordam. Faltou coragem a Magnoli para admitir que o Brasil está sob lawfare, a perseguição do Judiciário a Lula, imposta pela facção da Lava-Jato.

Faltou admitir que, sem a caçada a Lula, o liberalismo de que ele fala não poderia prosperar livremente sob o comando de Bolsonaro e dos milicianos (quem diria que os liberais brasileiros teriam essa bela parceira).

A engrenagem só funciona se amordaçar quem pensa o contrário e pode chegar ao poder (como já chegou) para conspirar contra o totalitarismo bolsonarista-liberal.

Mas talvez Magnoli volte ao assunto, quando a Polícia Federal decidir levar adiante a denúncia contra o procurador denunciado por levar propinas do doleiro.

Sempre lembrando que a polícia está sob o controle do liberal Sergio Moro.

O prêmio para os impunes

Esta pergunta puxa meu texto no artigo quinzenal que publico no jornal Extra Classe: por que Dallagnol comemora a prisão de um corruptor que ele mesmo deixou escapar?

Leia aqui:

https://www.extraclasse.org.br/opiniao/2019/11/o-premio-para-os-impunes-deltan-dallagnol/?fbclid=IwAR0Mwc5qtGva0b0wDLS-deMvIc7MXZCufRLF5wqS7oYo5yQ-fuI4UhkNMGQ