Os amigos, os filhos, as mães…

A Folha mobilizou dois repórteres (e quantos editores?) para descobrir que a mãe e uma irmã do desembargador Rogério Favreto, do Tribunal Regional Federal da 4ª Região, em Porto Alegre, foram filiadas ao PT. E que o próprio Favreto também foi. Nada é informado sobre as ligações políticas dos outros desembargadores.
A longa reportagem é publicada hoje, em tom de devastadora descoberta macartista. Por que tanto esforço? Por que Favreto é voz dissonante no Tribunal em relação a desmandos do juiz Sergio Moro, que o ministro Teori Zavascki já havia apontado. Mas Zavascki morreu em acidente de avião no dia 19 de janeiro.

O modelo de Curitiba

O juiz Sergio Moro ficou com a parte pobre da Lava-Jato, com os tesoureiros do PT e com Lula e os pedalinhos e a reforma da cozinha do Guarujá. Até Marcelo Odebrecht ficou pobrezinho perto dos irmãos Batista e das malas do Geddel.
Sergio Moro é juiz para pegar um Lucio Funaro e suas conexões jaburianas. Este sim, como se vê agora na sua delação, é mafioso de verdade. Se pegasse Funaro, Moro pegaria Cunha, Padilha, Geddel, Moreira Franco e o jaburu. O Quadrilhão seria todo de Moro.
Mas Sergio Moro só lida com gente sem foro privilegiado. Ele só avança em gente com foro se for para grampear Dilma. Quando foi para grampear Dilma (ilegalmente) e mandar o grampo (ilegalmente) para a Globo, aí não teve a desculpa do foro.
Moro deve ter sido o único juiz de primeira instância de todos os tempos, em qualquer parte do mundo e sob uma democracia, mesmo que capenga, que grampeou (com a desculpa de que foi sem querer) o telefone da mais alta autoridade do país. E deu publicidade ao seu delito, como se fosse repórter dos Marinho.
Um dia os professores de Direito ainda falarão desse episódio como uma das maiores aberrações da Justiça. Hoje, poucos falam, porque o Direito absoluto a ser imitado é o do modelo das prisões preventivas intermináveis e das delações saídas das masmorras de Curitiba.
(Para que não fique dúvida: o ministro Teori Zavascki considerou ilegal a divulgação do grampo pelo juiz, porque o próprio grampo também foi, é claro, um ato ilegal. Mas Teori está morto.)

O filme

Quem poderia fazer um filme, mas um filme mesmo, sobre as grandes farsas da Lava-Jato, como contraponto ao filme-propaganda sobre a tal lei para todos?
Um filme em que alguns mocinhos e xerifes fossem desmascarados no final, mesmo que todos soubessem desde o começo que não eram mocinhos e xerifes de verdade. Eu queria ver o Jorge Furtado fazendo esse filme.

A lei é para todos os vendedores de delação?

Até um ex-procurador da República está perto de ir para a cadeia, por negociar acordos de delação, mas ninguém vai se mexer para investigar o advogado amigo do juiz, padrinho de casamento do juiz e ex-sócio da mulher do juiz, denunciado publicamente por um mafioso por tentar negociar os mesmos acordos no mercado paralelo?
Que poder tão poderoso tem este advogado amigo do juiz? Há mesmo juízes intocáveis no Brasil? Esse juiz seria hoje mais poderoso do que Gilmar Mendes?

Limpinhos e respeitáveis

Seu Mércio chegou quieto hoje na ferragem. De repente, começou a falar sem parar. Comentou os últimos acontecimentos em Brasília e falou da desqualificação de Joesley Batista e outros delatores.
Seu Mércio disse:
– Esse pessoal que delatava para o Janot não valia nada. Vão destruir tudo o que eles disseram.
E continuou?
– Ainda bem que temos os delatores que delataram para o Sergio Moro. O juiz só lidou com delatores respeitáveis, bem cheirosos e limpinhos. Curitiba é outra categoria.
E saiu da ferragem às gargalhadas.

As leis e as diárias

Lula perde todas na Lava-Jato. Todos os recursos de Lula são negados ou pelo juiz Sergio Moro ou pelo Tribunal Regional Federal ou pelo Supremo. Ah, mas é preciso lembrar das exceções. Pois é. Que alguém cite uma importante.
Se estiver num depoimento e pedir água, Lula receberá um copo com água da barragem da Samarco. A Justiça nega tudo a Lula e dá tudo a Aécio e aos tucanos (e também à Samarco).
Por isso só pode ser ridículo que um filme-propaganda da Lava-Jato se chame ‘A lei é para todos’.
Deveria se chamar “As diárias são para todos (da turma da Lava-Jato)”.

Eles adoram diárias

Mais um furo esclarecedor de Monica Bergamo, o grande nome do jornalismo brasileiro há muito tempo. O advogado Carlos Zucolotto Junior não é mais o representante do procurador da Lava-Jato Carlos Fernando dos Santos Lima em uma ação trabalhista.
Zucolotto é o amigo de Sergio Moro (e seu padrinho de casamento) acusado pelo também advogado Rodrigo Tacla Duran de tentar fazer acordos de delação no mercado paralelo. Saltou fora da ação do procurador ao ser denunciado publicamente pelo colega que está foragido na Espanha.
E sabem o que o procurador reclama na ação trabalhista? Correção no valor de diárias, o que lhe garantiria mais R$ 26 mil.
Santos Lima foi o procurador que recebeu em média por mês R$ 9 mil em diárias em dois anos e meio. Embolsou R$ 286 mil e achou pouco.
Os procuradores gostam de diárias. Desde 2015, gastaram R$ 2,2 milhões em diárias. A Lava-Jato está bem de dinheiro. E se vê que é lucrativa para muita gente.

A resposta infantil de Dallagnol

A jornalista Débora Ely fez uma boa entrevista com o procurador Deltan Dallagnol para Zero Hora. Débora, grande repórter, faz perguntas incisivas. Uma delas sobre os gastos de R$ 2,2 milhões da Lava-Jato com diárias, em dois anos e meio.
A resposta do procurador é um assombro de ingenuidade:
“É uma besteira, não retira credibilidade alguma. É o custo de funcionamento da força-tarefa. Ao mesmo tempo em que gastou R$ 2 milhões com vários custos, incluindo deslocamentos, recuperou mais de R$ 10 bilhões. É absolutamente ridículo”.
Não é ridículo, não. É um exagero e uma imoralidade. Um procurador recebeu R$ 9 mil por mês durante dois anos. É como se um governante investigado pela Lava-Jato dissesse que esbanjar dinheiro público não significa nada perto dos bilhões em obras que realizou.
Era só o que faltava procuradores receberem diárias de altos valores como se fossem prêmios por produtividade. Gastar tanto, num país quebrado, pode até ser legal (será que é?), mas é muito imoral. E continuaria sendo inadequado, inoportuno e imoral, mesmo que o Brasil estivesse numa boa.
Tão imoral que os próprios procuradores, denunciados pelo esbanjamento, decidiram passar a cobrar meia diária.
E, se dá para cobrar meia diária, que devolvam, voluntariamente, a outra metade que cobraram durante mais de dois anos.

A FARRA DAS DIÁRIAS DOS PROCURADORES

A bomba do dia é a notícia sobre a farra das diárias dos procuradores da força-tarefa da Lava-Jato. Monica Bergamo conta na Folha que eles gastaram R$ 2,2 milhões em diárias de viagens de janeiro de 2015 a julho deste ano.
Só o procurador Carlos Fernando dos Santos Lima gastou R$ 286 mil. Fiz aquela continha básica. O procurador que mais escreve artigos simplórios sobre os esforços moralizantes da Lava-Jato (e gosta de atacar Lula) recebeu, em média por mês, R$ 9.225,80 só de diárias.
Não sei se algum deputado ou senador já recebeu algo parecido. A nota de Monica Bergamo informa que, de acordo com a assessoria da Lava-Jato, “de uns tempos para cá”, eles decidiram receber apenas metade das diárias. Estão satisfeitos com a metade.
Os moços vão dizer que essa dinheirama é da lei. Como os políticos sempre disseram. Eu espero uma rosácea num powerpoint sobre os gastos com diárias dos procuradores que pretendiam salvar o país com as suas convicções moralistas seletivas.
Os procuradores imitam o que a política tem de mais varzeano. Farra com diárias é da chinelagem da política.

http://www1.folha.uol.com.br/colunas/monicabergamo/2017/08/1911268-mpf-gastou-r-25-milhoes-em-diarias-para-procuradores-da-lava-jato.shtml

A PF que se despluga dos tucanos da Lava-Jato

As últimas ações da Polícia Federal podem indicar que a instituição será reabilitada, se finalmente conseguir descolar sua imagem da reputação seletiva da turma de Curitiba.

Por muito tempo, na época em que um agente ‘japonês’ foi o símbolo (viu-se depois que precário e corrupto) da PF na Lava-Jato, a corporação correu o risco de ficar marcada como subordinada aos interesses da força-tarefa de Deltan Dallagnol e da vara especial de Sergio Moro.

Tanto que a PF da Lava-Jato de Curitiba chegou a ter um grupo declaradamente tucano, cuja missão seria a de comprometer o PT, Lula e Dilma, enquanto torcia descarada e vergonhosamente por Aécio nas eleições de 2014.

O grupo, flagrado no WhatSapp, acabou por expor a evidente politização da Lava-Jato e constrangeu a porção não-tucana da PF. Nunca ninguém foi punido e, ao que se sabe, afastado por causa da torcida tucana.

Os últimos movimentos, como a prisão de Geddel Vieira Lima, na sequência de outras ações contra a direita corrupta, mostram que, fora de Curitiba, a Polícia Federal deixa de ser subalterna e consegue fazer o que a maioria do país deseja. Que sejam enquadrados também os propineiros golpistas até agora impunes.

A PF e o Ministério Público que se articularam para pegar Geddel são a prova de que a força-tarefa de Curitiba perdeu o controle da caçada aos corruptos e que outros, e não só os ligados ao PT, podem ser encarcerados (mesmo que não se saiba por quanto tempo).

Caçar corruptos já não é monopólio da estranha turma de Deltan Dallagnol e Sergio Moro.