Liberou geral

Vai para sorteio no Supremo o caso em que Eliseu Padilha e Moreira Franco são citados como agentes do Quadrilhão do jaburu. O ministro Edson Fachin pensou, pensou, pensou bastante e decidiu que o inquérito não deve mesmo ficar com ele, porque não tem relação com a Lava-Jato.

Passou a bronca para Cármen Lúcia, que vai mandar o caso para sorteio. Entenderam? Sorteio, de novo.

Outra vantagem para os dois denunciados. Se o processo for parar na primeira instância (se os dois perderem o foro privilegiado depois da eleição), Sergio Moro fica de fora.

Se não é processo da Lava-Jato, nem vai para Curitiba. Evita-se o constrangimento de o juiz ter de lidar com um caso tão cabeludo e sem petistas envolvidos.

E aí, meu amigo, um processo com esses dois numa vara qualquer de primeira instância… Todo mundo sabe o que vai acontecer. Serra, Aécio, o jaburu, Padilha, Moreira Franco, todos vão escapar da Justiça. A única chance de pegá-los é pela ação política.

Da quadrilha do golpe, só um ficará na cadeia: Cunha, porque alguém tem que manter isso aí. Geddel não conta, porque esse era apenas o guarda-malas.

Cunha está quieto porque recebe comidinha especial todas as semanas e só teria algum valor como delator se dedurasse alguém do PT.

Cunha é um pelego velho. Mas deve ficar preso. Se sair da cadeia, pode querer comer brioches de novo com o jaburu.

NÃO HÁ SALVAÇÃO FORA DA POLÍTICA

Há um estranho sentimento entre algumas pessoas com as quais conversei a respeito de uma improvável surpresa no dia 24.
Alguns esperam pelo milagre da Justiça, o grande gesto capaz de redimir o Judiciário das aberrações cometidas pela lava-Jato de Curitiba e pelo Supremo que protege tucanos.
Esperam pelo gesto que acolha o recurso de Lula contra a sentença de Sergio Moro, para que ele possa enfrentar o grande julgamento da democracia em outubro.
Mas acreditar nisso é mais ou menos como apostar que um dia o Judiciário irá pegar algum tucano graúdo. Não um miúdo, um coitado com correntes nos pés, que possa servir de pretexto de que a lei é para todos, mas um tucano grandão, um Aécio ou um Serra.
Nem se imagina que peguem um Fernando Henrique, porque seria custoso demais provar, em francês, que o apartamento de Paris é dele.
Que não se espere nenhum milagre. A absolvição de Lula parece tão improvável que é melhor nem pensar nisso. Até porque o Judiciário já se prepara para acelerar os outros processos contra ele.
Vamos pensar que Lula enfrentará a Lava-Jato com a política e com o povo, como acontecerá com as manifestações do dia 24. porque é com a política que o Judiciário manobra com seu latim e suas artimanhas contra Lula e contra a democracia.

SONHOS

Sonhei esta noite que Lula havia sido absolvido. E que o Banco Mundial estava financiando a construção de masmorras em Curitiba (que seria melhor do que investir em universidades, segundo o banco), para que conseguissem encarcerar todos os tucanos condenados.
Mas o sonho começou a falhar, a imagem começou a ficar ruim e tremida quando os tucanos, mantidos em contêineres, estavam indo em fila fazer delações ao juiz Sergio Moro.
Quando os tucanos entravam na sala do juiz (eram dezenas, de todos os tipos, alguns disfarçados de papagaio), a imagem foi cortada. O meu sonho era analógico, e a partir de agora o mundo só aceita sonhos com imagens digitais.
E aí então apareceu um anúncio (foi meu primeiro sonho com comerciais) dizendo que condenação de tucanos só será possível em sonhos virtuais.
Foi quando acordei suando muito e ouvi meu vizinho paneleiro cantando junto a mesma música que ele ouve 26 vezes por dia.
Quero tomar um remédio que me impeça de ter esse tipo de sonho. É um desperdício de tempo de sono e de sonho.

DELATORES LEITORES

Os mafiosos da direita presos pela Lava-Jato só não leem mais rápido do que o relator do processo de Lula no Tribunal Regional Federal de Porto Alegre.
Sabe-se agora que o doleiro Lúcio Funaro, um dos leitores mais lentos, leu apenas 13 livros na cadeia e fez sete cursos.
Funaro leu as biografias de Tancredo, Mandela e Lincoln, entre outros. E depois fez resenhas do que leu, para provar que não estava mentindo.
Ele também teve de ler muito para fazer os cursos de atendimento ao público, vendedor, eletricista, inglês, direito do consumidor, biossegurança hospitalar e direito administrativo.
Funaro sai da cadeia como um profissional múltiplo do século 21 do mundo do trabalho intermitente.
Estava preso desde janeiro do ano passado e agora está solto e desfruta da natureza em um sítio com câmeras (que ele colocou), porque reduziu a pena lendo obsessivamente.
As câmeras substituem a tornozeleira. Falta tornozeleira para os bandidos da direita no Brasil.
A Lava-Jato vem formando leitores sofisticados, enquanto Sergio Moro cita provérbios, ditados de mesa de bar e frases do Batman sobre a imposição da ordem.
João Vaccari Neto, tesoureiro do PT preso na masmorra de Curitiba desde março de 2015, não deve estar lendo nada.

A DEMOCRACIA E A MANIFESTAÇÃO DO DIA 24

O Judiciário brasileiro será marcado pelo que acontecer em janeiro, para um lado ou para outro. Teremos o Judiciário Antes do Julgamento de Lula e o Judiciário Depois do Julgamento de Lula.

Setores ditos liberais da própria Justiça, alinhados com a direita mais reacionária, entendem que esse é um julgamento excepcional e que por isso deve ser apressado (como defendem os jornalistas aliados de tucanos e jaburus).

Pois esses setores deverão se submeter a outras excepcionalidades que já se manifestam e virão mais adiante. Se o julgamento é excepcional, as reações também são e continuarão sendo. Não há como ser diferente.

Enganam-se os que acham que o Judiciário sairá imune da Lava-Jato e dos seus desdobramentos e não só na primeira instância. O Judiciário passou, assumidamente, a ser um protagonista da política, sempre com o argumento da excepcionalidade. O Judiciário terá agora de arcar com as consequências desse entendimento e das suas pressas excepcionais.

Seria surpreendente se um caso excepcional, com tratamento excepcional, fosse entendido pelo meio jurídico e por magistrados como um caso normal sob o ponto de vista da população e dos contrariados com os métodos da Lava-Jato.

Não é normal. O Judiciário terá de se entender com o que está acontecendo, não só internamente, e ter a compreensão de que seus atos são observados num contexto que não é de normalidade.

A Justiça poderá, muito antes do final dos processos da Lava-Jato, ser a mais desqualificada instituição brasileira. Porque governo e Congresso já foram desmoralizados. Mas muitos ainda acreditavam que o Judiciário sairia ileso dessa conjuntura de excepcionalidades. Não sairá.

A Justiça também está sendo julgada. Por isso a manifestação prevista para o dia 24 de janeiro, diante do Tribunal Regional Federal em Porto Alegre, quando haverá um desfecho para o processo do tríplex, é da natureza da democracia.

Nem o Judiciário, nem o Ministério Público estão acima da liberdade de expressão, nos limites do que é tolerado pelas leis e pelas normas de convívio.

A manifestação do dia 24 deve ser vista como prova da vitalidade de uma democracia, mesmo que maltratada e pisoteada por um golpe recente. Aguardem uma manifestação excepcional porque o processo é excepcional. O Judiciário terá de aguentar o tranco.

Os amigos, os filhos, as mães…

A Folha mobilizou dois repórteres (e quantos editores?) para descobrir que a mãe e uma irmã do desembargador Rogério Favreto, do Tribunal Regional Federal da 4ª Região, em Porto Alegre, foram filiadas ao PT. E que o próprio Favreto também foi. Nada é informado sobre as ligações políticas dos outros desembargadores.
A longa reportagem é publicada hoje, em tom de devastadora descoberta macartista. Por que tanto esforço? Por que Favreto é voz dissonante no Tribunal em relação a desmandos do juiz Sergio Moro, que o ministro Teori Zavascki já havia apontado. Mas Zavascki morreu em acidente de avião no dia 19 de janeiro.

O modelo de Curitiba

O juiz Sergio Moro ficou com a parte pobre da Lava-Jato, com os tesoureiros do PT e com Lula e os pedalinhos e a reforma da cozinha do Guarujá. Até Marcelo Odebrecht ficou pobrezinho perto dos irmãos Batista e das malas do Geddel.
Sergio Moro é juiz para pegar um Lucio Funaro e suas conexões jaburianas. Este sim, como se vê agora na sua delação, é mafioso de verdade. Se pegasse Funaro, Moro pegaria Cunha, Padilha, Geddel, Moreira Franco e o jaburu. O Quadrilhão seria todo de Moro.
Mas Sergio Moro só lida com gente sem foro privilegiado. Ele só avança em gente com foro se for para grampear Dilma. Quando foi para grampear Dilma (ilegalmente) e mandar o grampo (ilegalmente) para a Globo, aí não teve a desculpa do foro.
Moro deve ter sido o único juiz de primeira instância de todos os tempos, em qualquer parte do mundo e sob uma democracia, mesmo que capenga, que grampeou (com a desculpa de que foi sem querer) o telefone da mais alta autoridade do país. E deu publicidade ao seu delito, como se fosse repórter dos Marinho.
Um dia os professores de Direito ainda falarão desse episódio como uma das maiores aberrações da Justiça. Hoje, poucos falam, porque o Direito absoluto a ser imitado é o do modelo das prisões preventivas intermináveis e das delações saídas das masmorras de Curitiba.
(Para que não fique dúvida: o ministro Teori Zavascki considerou ilegal a divulgação do grampo pelo juiz, porque o próprio grampo também foi, é claro, um ato ilegal. Mas Teori está morto.)

O filme

Quem poderia fazer um filme, mas um filme mesmo, sobre as grandes farsas da Lava-Jato, como contraponto ao filme-propaganda sobre a tal lei para todos?
Um filme em que alguns mocinhos e xerifes fossem desmascarados no final, mesmo que todos soubessem desde o começo que não eram mocinhos e xerifes de verdade. Eu queria ver o Jorge Furtado fazendo esse filme.

A lei é para todos os vendedores de delação?

Até um ex-procurador da República está perto de ir para a cadeia, por negociar acordos de delação, mas ninguém vai se mexer para investigar o advogado amigo do juiz, padrinho de casamento do juiz e ex-sócio da mulher do juiz, denunciado publicamente por um mafioso por tentar negociar os mesmos acordos no mercado paralelo?
Que poder tão poderoso tem este advogado amigo do juiz? Há mesmo juízes intocáveis no Brasil? Esse juiz seria hoje mais poderoso do que Gilmar Mendes?

Limpinhos e respeitáveis

Seu Mércio chegou quieto hoje na ferragem. De repente, começou a falar sem parar. Comentou os últimos acontecimentos em Brasília e falou da desqualificação de Joesley Batista e outros delatores.
Seu Mércio disse:
– Esse pessoal que delatava para o Janot não valia nada. Vão destruir tudo o que eles disseram.
E continuou?
– Ainda bem que temos os delatores que delataram para o Sergio Moro. O juiz só lidou com delatores respeitáveis, bem cheirosos e limpinhos. Curitiba é outra categoria.
E saiu da ferragem às gargalhadas.