O PROCURADOR E A PF

O procurador Carlos Fernando dos Santos Lima, da força-tarefa de Deltan Dallagnol na Lava-Jato, desqualifica o trabalho da Polícia Federal no acerto de delações, em entrevista à Folha.
É de se esperar agora a reposta da PF, se é que virá, ou se a PF continuará resignada com os ataques do Ministério Público ao que vem fazendo na tal guerra à corrupção.
O homem diz claramente que os acordos feitos pela PF são de segunda categoria. Os bons mesmo são os conduzidos por ele e a turma do Dallagnol.
Outra coisa que o procurador diz: que um dos acordos mais importantes de delação foi o do Pedro Barusco, o ladrão avulso da Petrobras.
O interessante é que Barusco não disse até hoje para quem roubou durante cinco anos no governo tucano de Fernando Henrique. Barusco, um gerente do terceiro time, juntou quase R$ 400 milhões em propinas. E ninguém sabe até hoje quem era o seu chefe no roubo.
Mas o procurador, que passa uma mistura de soberba com empáfia na entrevista, achou o acordo importante. Cada vez se sabe mais sobre o que é desimportante para a Lava-Jato.
O que o procurador não diz (e o repórter não perguntou) é que todos os delatores que passaram pelo MP estão hoje soltos e impunes.
Porque suas condenações foram apenas no papel. Os chefes das quadrilhas foram anistiados pelos bons acordos que fizeram. Todos estão em liberdade. E muito bem de vida.

 

A JUSTIÇA TENTA AMORDAÇAR LULA

Todos os grandes repórteres policiais que conheço tiveram alguns de seus melhores momentos entrevistando gente encarcerada. Há entrevistas históricas de encarcerados.
Eu entrevistei gente presa, dentro da cadeia. Me lembro do meu primeiro entrevistado na prisão, um homem que matou a mulher em Alegrete no início dos anos 70.
Folharada, o famoso assaltante gaúcho dos anos 70, foi entrevistado por mim numa cadeia em Ijuí. E eram tempos de ditadura.
O direito do preso de se manifestar, mesmo que isso nem sempre seja bem aceito, é consagrado por leis e convenções internacionais.
Mas a Justiça vem, repetidamente, negando que Lula seja entrevistado. A notícia de hoje é esta: o Superior Tribunal de Justiça negou mais uma vez o pedido para que Lula conceda uma entrevista.
Por que o Judiciário permite que o jornalismo de espetáculo faça entrevistas humilhantes com negros e pobres presos e não cede nada em favor de Lula?
Porque Lula não é preso comum. Lula é preso político, e preso político deve ser mantido amordaçado.
Eles temem o que Lula pode dizer. Mas uma hora Lula terá de falar e vai falar.

FAVRETO E OS FALSOS MORALISTAS

Alguém que teve em algum momento um vínculo formal e orgânico com um partido é apenas um cidadão. Se o partido não expressa posições fascistas, não há nada de errado.

Ao contrário, está tudo certo. As grandes democracias ainda têm partidos fortes com alto índice de engajamento das suas populações.

O juiz Rogério Favreto, que determinou a soltura de Lula, foi ligado ao PT. Jornalistas da assessoria de imprensa do golpe o acusam de ser um juiz sob suspeita.

É uma bobagem. Partidos são, nas democracias, os espaços para a afirmação de posturas políticas de qualquer pessoa, sem distinções.

Partidos são redutos da resistência mesmo nas ditaduras. São os detentores da prerrogativa de apresentarem nomes habilitados a exercer a representação por voto. Partidos não são entidades clandestinas. Sem partidos, não há democracia plena, por mais depreciados que eles estejam.

O juiz Favreto não é mais ou menos juiz por ter tido ligação com um partido. Ele exerceu seu direito de cidadão de forma explícita, sem biombos e negaceios.

Ninguém pode dizer que o desembargador Favreto faz exibições públicas de poder ao lado de poderosos, que tira fotos com corruptos, que frequenta convescotes com golpistas, que divide a mesa de palestras com tucanos.

O juiz Favreto não é um magistrado dissimulado, bajulado, cortejado pelos reacionários brasileiros, eleito amigo da imprensa, considerado parceiro de investigadores e arapongas americanos.

O juiz Favreto não é um deslumbrado de gravata borboleta transformado em celebridade por causa da função que exerce como togado. Talvez nunca tenha usado uma gravata borboleta.

Então, os ataques ao juiz por sua antiga ligação com o PT são apenas uma tentativa de desqualificar sua coragem ao enfrentar a tropa de choque da Lava-Jato, que condenou Lula em tempo recorde. Não haveria esse falso dilema moral se o juiz fosse tucano.

Favreto pôs a Lava-Jato de joelhos, ao expor mais uma vez a farsa do Judiciário pretensamente sem lado. O desembargador fez com que a lerda Justiça brasileira fosse de novo repentinamente ágil, para evitar a soltura de Lula.

O juiz a ser imitado pelas novas gerações de operadores do Direito é Favreto, não é o chefe da Lava-Jato. Ele ficou sozinho no Tribunal Regional Federal de Porto Alegre, quando da tentativa de enquadrar Sergio Moro por causa do grampo de Dilma Rousseff. Ninguém o acompanhou.

E agora Favreto reafirmou para o Brasil que Lula é um preso político e que a solução para o impasse do seu encarceramento passa longe dos limites do Judiciário.

A libertação de Lula depende menos da Justiça e mais de gestos políticos decididos, porque é rasteiramente política a decisão que o mantém preso em Curitiba.

 

O IMBECIL DA ERA DA LAVA-JATO

O macho que foi a Moscou para tentar debochar das mulheres russas é um aparentado do homem do relho. Todos têm uma conexão entre si e se consideram imunes a qualquer abordagem da lei, mesmo na Rússia.
Eles não são babacas fazendo bobagens porque não pensaram nas consequências. São, ao contrário, sujeitos que pensam no que fazem e se consideram inalcançáveis por qualquer consequência.
Os imbecis dos vídeos de Moscou são os empoderados pela inspiração da Lava-Jato. A direita arcaica, nas suas manifestações diversas, tudo pode, inclusive na Copa e em qualquer parte do mundo.
Os idiotas de Moscou, que certos jornalistas fofos consideram apenas rapazes mal-educados e inconsequentes, são parte do contexto do golpe, da perseguição às esquerdas, do encarceramento de Lula e do aparelhamento das instituições.
O babaca de Moscou se acha protegido pelo golpe e seus desdobramentos, porque o golpe é consequência do seu apoio. O golpe lhe deve favores.
Aqui ele não é “apenas” machista, é um fascista fantasiado de verde-amarelo. Lá ele se apresenta como um engraçadinho.
O bobalhão dos vídeos se acha dono de tudo, inclusive em Moscou. Dono da piada, das grosserias, do machismo e das mulheres russas.
O imbecil brasileiro de direita foi aperfeiçoado pelo golpe, que o estimula a ir em frente. Ele mesmo é um golpista a passeio, que talvez nem veja os jogos.
Ele quer fuzarca e exibicionismo. O imbecil dos vídeos quer dizer que foi a Moscou só para azarar e que mesmo lá nada de errado acontecerá com ele. A soberba do fascista se manifesta onde ele estiver.

A DIREITA RI DA LAVA-JATO

Sergio Moro condenou mais um tesoureiro do PT. Paulo Ferreira pegou nove anos e 10 meses de prisão por lavagem de dinheiro e formação de quadrilha.
E os tesoureiros dos outros? Os outros não tinham tesoureiros, é o que parece. Tinham gente como Paulo Preto, um tesoureiro informal e mula dos tucanos paulistas, libertado no fim de semana por Gilmar Mendes (Preto tem contas na Suíça, o que a Lava-Jato nunca achou de nenhum dos perseguidos do PT).
Hoje, Preto simplesmente não apareceu a uma audiência em São Paulo. A procuradora Adriana Scordamaglia anunciou que, como o réu sumiu, ela irá pedir de novo a prisão dele.
De novo quando? Alguém acredita que o tucano será preso outra vez, para ser libertado logo adiante pelo Gilmar Mendes? Tesoureiros tucanos têm habeas corpus permanente.
Ninguém mexe com quem tem contas na Suíça, sendo Preto, Aécio ou Serra. Só mexem com caixa dois do PT.
A Lava-Jato é a operação da impunidade da direita, com observa o procurador Celso Três, em entrevista à revista IHU On-Line. Todos os grandes mafiosos que passaram pela Lava-Jato estão soltos, Youssef, Barusco, Paulo Roberto Costa, Marcelo Odebrecht…
A direita debocha da Lava-Jato, porque tem certeza de que todos trabalham pelo golpe. A direita civil nunca se sentiu tão à vontade, nem no tempo em que Geisel mandava matar os inimigos da ditadura.

O JORNALISMO AUSENTE

A grande imagem da dignidade e da resistência, depois do encarceramento de Lula, é aquela de Leonardo Boff sentado na guarita da Polícia Federal em Curitiba. A foto de Eduardo Matysiak correu mundo porque saiu nas redes sociais.

Só alguns dias depois de circular no FaceBook é que a imagem foi ‘descoberta’ pela grande imprensa.

A foto do homem do relho, que ataca um militante pró-Lula, em Santa Maria, é de Guilherme Santos e foi publicada no site Sul21. Depois, todo mundo copiou.

Imagens de conflitos nas ruas, de cenas reais e simbólicas dos efeitos do golpe, não são captadas pelos grandes jornais ou pelas grandes TVs. A Globo e outras emissoras só fazem jornalismo beija-flor, com drones e helicópteros, por vários motivos.

A Globo não faz jornalismo em terra porque a cobertura que realiza desde antes do golpe comprometeu o trabalho de seus repórteres. Jornalistas que nada têm a ver com o reacionarismo da empresa não conseguem trabalhar, porque provocam reações em terra.

Em nenhum lugar, os jornalistas deveriam ser impedidos de realizar seu trabalho. Mas em nenhum lugar a imprensa pode ser golpista impunemente. A Globo que persegue Lula pôs em risco suas próprias equipes.

Eu critico, condeno e considero repulsivos os ataques a jornalistas, não só porque eu também já fui atacado. Mas a realidade é esta: a Globo, a Bandeirantes, a Record e outras similares deixaram de fazer jornalismo para fazer campanha contra Dilma, contra Lula e contra o PT. Os jornalistas acabam pagando pelo golpismo que as empresas apoiam.

É triste. Por isso e por outros motivos que abordo mais adiante não há jornalismo da grande imprensa em Curitiba. Nós só sabemos do ataque a tiros na madrugada porque mídias independentes e jornalistas avulsos ou que representam seus sindicatos (como meu amigo Jorge Correa) podem circular entre os acampados e recolher depoimentos. E pessoas que não são jornalistas também fazem o trabalho que repórteres da grande imprensa deveriam estar fazendo.

Faço um depoimento pessoal. Eu cobri para a Folha da Manhã, em 1977, a primeira ocupação da Annoni por agricultores sem terra. Cobri também, logo depois, o histórico acampamento da Encruzilhada Natalino.

Mesmo em tempos de ditadura, os jornalistas não eram hostilizados. A imprensa, no auge da repressão militar, continuava fazendo seu trabalho, em especial depois de 68, às vezes claudicante, mas na maioria dos casos levada adiante pela resistência das redações.

Desde o golpe de agosto de 2016, tudo mudou. Se a TV não pode estar em Curitiba, os grandes jornais poderiam estar. Mas não estão. As empresas do negócio da comunicação desistiram de fazer jornalismo. Porque agora o golpe é outro.

A imprensa, que em algum momento abandonou o apoio incondicional aos militares, nos anos 70, agora se rende aos civis comandados pelo Judiciário. Porque a imprensa é protagonista do golpe.

Não há repórteres da grande imprensa em Curitiba porque a imprensa decidiu, quando for preciso, comer pela mão de blogs, de TVs e sites alternativos e de pessoas que estão por lá. É essa mesma grande imprensa que vive de imagens de câmeras de segurança (como no caso de Marielle) e do que sai na internet.

A imprensa decidiu que só cobre as decisões e as falas de Sergio Moro em Harvard e as sessões do Supremo. O acampamento de Curitiba está longe demais dos planos e dos interesses da grande imprensa.

A EXCURSÃO DOS JUÍZES

Imaginem dois juízes e um ministro de uma alta Corte de qualquer país europeu ou dos Estados Unidos saindo pelo mundo a dar palestras sobre a democracia de suas nações, como fizeram hoje em Harvard Sergio Moro, Marcelo Bretas e Luís Roberto Barroso, ao lado da chefe do Ministério Público, Raquel Dodge.

Três integrantes do Judiciário e a procuradora discursando sobre normalidade democrática. Se discursam tanto, se tanto tentam provar que está tudo normal, é porque há suspeitas, indícios e evidências de anormalidade.

Em nenhum outro lugar sob democracia plena integrantes do Judiciário seriam tão protagonistas da política como no Brasil. E agora eles saem a falar disso lá fora. Vão dizer que são os garantidores da democracia. Qual democracia?

A voz da política formal e institucional deve ser a dos políticos, dos eleitos, dos que têm voto, dos que detêm mandato popular em governos ou legislativos e precisam prestar contas aos que os elegeram, em qualquer democracia.

Juízes no Brasil não têm votos. Os juízes da Lava-Jato não falam pelo povo e não devem ser protagonistas da política. Juízes deveriam cuidar da interpretação e da aplicação das leis, com a maior discrição possível, e falar pela democracia de todos e não só pela democracia das circunstâncias, a que interessa à direita.

É o que fazem os Juízes para a Democracia, que em nada convergem com os justiceiros de Curitiba. Mas juízes não são ou não deveriam ser substitutos dos políticos.

O Brasil da caçada às esquerdas virou uma republiqueta judiciária com juízes políticos que refletem o mundo do golpe.

Harvard trata o Brasil como um país medíocre sob o controle dos juízes que ajudam a sustentar os que usurparam o poder.

Por isso, juízes saem em excursão pelo mundo a dizer que aqui não há estado de exceção. A performance deles, o esforço que fazem, tudo denuncia que estamos, sim, num estado de exceção.

O avulso

Com o dinheiro que roubou, o ladrão avulso Pedro Barusco poderia comprar 190 apartamentos tríplex. A Lava-Jato nunca quis saber para quem ele roubava nos governos do PSDB. Está solto, sem tornozeleira e sem dívidas com a Justiça. A impunidade de Barusco é a impunidade dos tucanos.

É o meu tema no Extra Classe online.

O ladrão que Moro tratou a pão de ló

LIVRARAM O CHUCHU

Alguns disseram que políticos da direita, que renunciaram aos cargos para poder participar das eleições e com isso ficaram sem foro privilegiado, estariam expostos finalmente à mesma caçada que o Ministério Público e o Judiciário fazem à esquerda.
São ingênuos demais os que acreditaram nisso. O primeiro ecposto poderia ter sido Geraldo Alckmin, o governador até hoje intocado, apesar dos escândalos do metrô e da merenda, entre outros. Alckmin, que pretende concorrer à presidência, está exposto a ações da Justiça.
Pois hoje a ministra do Superior Tribunal de Justiça (STJ) Nancy Andrighi, relatora de um inquérito aberto em novembro, decidiu que o caso do governador não é para a Lava-Jato, mas para a Justiça Eleitoral. É como se o processo tivesse sido engavetado. Não vai dar nada.
Delatores de Odebrecht haviam denunciado Alckmin pelo recebimento de R$ 10 milhões ilegais, entre 2010 e 2014. Mas, para a ministra, trata-se de caixa dois, e não de propina.
Propina mesmo só quem recebe é o pessoal do PT. E vamos em frente, com o Supremo, com STJ e com tudo.

PADILHAGEM

Meu amigo Santiago, o Erico Verissimo da charge, escreveu hoje que José Padilha, o diretor da série sobre a Lava-Jato, é o equivalente no cinema pró-golpe ao que foram os cantores Dom e Ravel para a música pró-ditadura nos anos 70. São propagandistas de direita.

A dupla fazia versões “cívicas” do que seria o momento nacional de euforia (“eu te amo, meu Brasil, eu te amo”), e todo mundo cantava. Assim como Padilha faz agora em série para a TV a sua versão para a caçada da Lava-Jato de acordo com a visão dos golpistas.

Dom e Ravel eram mais ingênuos do que este Padilha que americanizou o cinema brasileiro e tenta contribuir para imbecilizar o país com personagens e falas trocadas, com o argumento de que faz ficção. Ele faz é propaganda para o golpe.

Pois falo disso porque lá por 1977 recebi na redação do jornal Correio Serrano, em Ijuí, um dos dois, o Dom ou o Ravel. Até hoje não me lembro quem era um e outro e não sei quem apareceu por lá, já decadente, para um show sem o companheiro de palco.

Mas podem me perguntar daqui a alguns que me lembrarei muito dos Padilhas, o do governo e o do cinema. O do cinema é o mais cínico, porque faz suas ‘obras’ com ao argumento de faz arte. Ele sabe bem o que faz. Faz pilantragem para enganar trouxas. Ou faz padilhagem mesmo.