A DIREITA RI DA LAVA-JATO

Sergio Moro condenou mais um tesoureiro do PT. Paulo Ferreira pegou nove anos e 10 meses de prisão por lavagem de dinheiro e formação de quadrilha.
E os tesoureiros dos outros? Os outros não tinham tesoureiros, é o que parece. Tinham gente como Paulo Preto, um tesoureiro informal e mula dos tucanos paulistas, libertado no fim de semana por Gilmar Mendes (Preto tem contas na Suíça, o que a Lava-Jato nunca achou de nenhum dos perseguidos do PT).
Hoje, Preto simplesmente não apareceu a uma audiência em São Paulo. A procuradora Adriana Scordamaglia anunciou que, como o réu sumiu, ela irá pedir de novo a prisão dele.
De novo quando? Alguém acredita que o tucano será preso outra vez, para ser libertado logo adiante pelo Gilmar Mendes? Tesoureiros tucanos têm habeas corpus permanente.
Ninguém mexe com quem tem contas na Suíça, sendo Preto, Aécio ou Serra. Só mexem com caixa dois do PT.
A Lava-Jato é a operação da impunidade da direita, com observa o procurador Celso Três, em entrevista à revista IHU On-Line. Todos os grandes mafiosos que passaram pela Lava-Jato estão soltos, Youssef, Barusco, Paulo Roberto Costa, Marcelo Odebrecht…
A direita debocha da Lava-Jato, porque tem certeza de que todos trabalham pelo golpe. A direita civil nunca se sentiu tão à vontade, nem no tempo em que Geisel mandava matar os inimigos da ditadura.

O JORNALISMO AUSENTE

A grande imagem da dignidade e da resistência, depois do encarceramento de Lula, é aquela de Leonardo Boff sentado na guarita da Polícia Federal em Curitiba. A foto de Eduardo Matysiak correu mundo porque saiu nas redes sociais.

Só alguns dias depois de circular no FaceBook é que a imagem foi ‘descoberta’ pela grande imprensa.

A foto do homem do relho, que ataca um militante pró-Lula, em Santa Maria, é de Guilherme Santos e foi publicada no site Sul21. Depois, todo mundo copiou.

Imagens de conflitos nas ruas, de cenas reais e simbólicas dos efeitos do golpe, não são captadas pelos grandes jornais ou pelas grandes TVs. A Globo e outras emissoras só fazem jornalismo beija-flor, com drones e helicópteros, por vários motivos.

A Globo não faz jornalismo em terra porque a cobertura que realiza desde antes do golpe comprometeu o trabalho de seus repórteres. Jornalistas que nada têm a ver com o reacionarismo da empresa não conseguem trabalhar, porque provocam reações em terra.

Em nenhum lugar, os jornalistas deveriam ser impedidos de realizar seu trabalho. Mas em nenhum lugar a imprensa pode ser golpista impunemente. A Globo que persegue Lula pôs em risco suas próprias equipes.

Eu critico, condeno e considero repulsivos os ataques a jornalistas, não só porque eu também já fui atacado. Mas a realidade é esta: a Globo, a Bandeirantes, a Record e outras similares deixaram de fazer jornalismo para fazer campanha contra Dilma, contra Lula e contra o PT. Os jornalistas acabam pagando pelo golpismo que as empresas apoiam.

É triste. Por isso e por outros motivos que abordo mais adiante não há jornalismo da grande imprensa em Curitiba. Nós só sabemos do ataque a tiros na madrugada porque mídias independentes e jornalistas avulsos ou que representam seus sindicatos (como meu amigo Jorge Correa) podem circular entre os acampados e recolher depoimentos. E pessoas que não são jornalistas também fazem o trabalho que repórteres da grande imprensa deveriam estar fazendo.

Faço um depoimento pessoal. Eu cobri para a Folha da Manhã, em 1977, a primeira ocupação da Annoni por agricultores sem terra. Cobri também, logo depois, o histórico acampamento da Encruzilhada Natalino.

Mesmo em tempos de ditadura, os jornalistas não eram hostilizados. A imprensa, no auge da repressão militar, continuava fazendo seu trabalho, em especial depois de 68, às vezes claudicante, mas na maioria dos casos levada adiante pela resistência das redações.

Desde o golpe de agosto de 2016, tudo mudou. Se a TV não pode estar em Curitiba, os grandes jornais poderiam estar. Mas não estão. As empresas do negócio da comunicação desistiram de fazer jornalismo. Porque agora o golpe é outro.

A imprensa, que em algum momento abandonou o apoio incondicional aos militares, nos anos 70, agora se rende aos civis comandados pelo Judiciário. Porque a imprensa é protagonista do golpe.

Não há repórteres da grande imprensa em Curitiba porque a imprensa decidiu, quando for preciso, comer pela mão de blogs, de TVs e sites alternativos e de pessoas que estão por lá. É essa mesma grande imprensa que vive de imagens de câmeras de segurança (como no caso de Marielle) e do que sai na internet.

A imprensa decidiu que só cobre as decisões e as falas de Sergio Moro em Harvard e as sessões do Supremo. O acampamento de Curitiba está longe demais dos planos e dos interesses da grande imprensa.

A EXCURSÃO DOS JUÍZES

Imaginem dois juízes e um ministro de uma alta Corte de qualquer país europeu ou dos Estados Unidos saindo pelo mundo a dar palestras sobre a democracia de suas nações, como fizeram hoje em Harvard Sergio Moro, Marcelo Bretas e Luís Roberto Barroso, ao lado da chefe do Ministério Público, Raquel Dodge.

Três integrantes do Judiciário e a procuradora discursando sobre normalidade democrática. Se discursam tanto, se tanto tentam provar que está tudo normal, é porque há suspeitas, indícios e evidências de anormalidade.

Em nenhum outro lugar sob democracia plena integrantes do Judiciário seriam tão protagonistas da política como no Brasil. E agora eles saem a falar disso lá fora. Vão dizer que são os garantidores da democracia. Qual democracia?

A voz da política formal e institucional deve ser a dos políticos, dos eleitos, dos que têm voto, dos que detêm mandato popular em governos ou legislativos e precisam prestar contas aos que os elegeram, em qualquer democracia.

Juízes no Brasil não têm votos. Os juízes da Lava-Jato não falam pelo povo e não devem ser protagonistas da política. Juízes deveriam cuidar da interpretação e da aplicação das leis, com a maior discrição possível, e falar pela democracia de todos e não só pela democracia das circunstâncias, a que interessa à direita.

É o que fazem os Juízes para a Democracia, que em nada convergem com os justiceiros de Curitiba. Mas juízes não são ou não deveriam ser substitutos dos políticos.

O Brasil da caçada às esquerdas virou uma republiqueta judiciária com juízes políticos que refletem o mundo do golpe.

Harvard trata o Brasil como um país medíocre sob o controle dos juízes que ajudam a sustentar os que usurparam o poder.

Por isso, juízes saem em excursão pelo mundo a dizer que aqui não há estado de exceção. A performance deles, o esforço que fazem, tudo denuncia que estamos, sim, num estado de exceção.

O avulso

Com o dinheiro que roubou, o ladrão avulso Pedro Barusco poderia comprar 190 apartamentos tríplex. A Lava-Jato nunca quis saber para quem ele roubava nos governos do PSDB. Está solto, sem tornozeleira e sem dívidas com a Justiça. A impunidade de Barusco é a impunidade dos tucanos.

É o meu tema no Extra Classe online.

O ladrão que Moro tratou a pão de ló

LIVRARAM O CHUCHU

Alguns disseram que políticos da direita, que renunciaram aos cargos para poder participar das eleições e com isso ficaram sem foro privilegiado, estariam expostos finalmente à mesma caçada que o Ministério Público e o Judiciário fazem à esquerda.
São ingênuos demais os que acreditaram nisso. O primeiro ecposto poderia ter sido Geraldo Alckmin, o governador até hoje intocado, apesar dos escândalos do metrô e da merenda, entre outros. Alckmin, que pretende concorrer à presidência, está exposto a ações da Justiça.
Pois hoje a ministra do Superior Tribunal de Justiça (STJ) Nancy Andrighi, relatora de um inquérito aberto em novembro, decidiu que o caso do governador não é para a Lava-Jato, mas para a Justiça Eleitoral. É como se o processo tivesse sido engavetado. Não vai dar nada.
Delatores de Odebrecht haviam denunciado Alckmin pelo recebimento de R$ 10 milhões ilegais, entre 2010 e 2014. Mas, para a ministra, trata-se de caixa dois, e não de propina.
Propina mesmo só quem recebe é o pessoal do PT. E vamos em frente, com o Supremo, com STJ e com tudo.

PADILHAGEM

Meu amigo Santiago, o Erico Verissimo da charge, escreveu hoje que José Padilha, o diretor da série sobre a Lava-Jato, é o equivalente no cinema pró-golpe ao que foram os cantores Dom e Ravel para a música pró-ditadura nos anos 70. São propagandistas de direita.

A dupla fazia versões “cívicas” do que seria o momento nacional de euforia (“eu te amo, meu Brasil, eu te amo”), e todo mundo cantava. Assim como Padilha faz agora em série para a TV a sua versão para a caçada da Lava-Jato de acordo com a visão dos golpistas.

Dom e Ravel eram mais ingênuos do que este Padilha que americanizou o cinema brasileiro e tenta contribuir para imbecilizar o país com personagens e falas trocadas, com o argumento de que faz ficção. Ele faz é propaganda para o golpe.

Pois falo disso porque lá por 1977 recebi na redação do jornal Correio Serrano, em Ijuí, um dos dois, o Dom ou o Ravel. Até hoje não me lembro quem era um e outro e não sei quem apareceu por lá, já decadente, para um show sem o companheiro de palco.

Mas podem me perguntar daqui a alguns que me lembrarei muito dos Padilhas, o do governo e o do cinema. O do cinema é o mais cínico, porque faz suas ‘obras’ com ao argumento de faz arte. Ele sabe bem o que faz. Faz pilantragem para enganar trouxas. Ou faz padilhagem mesmo.

Liberou geral

Vai para sorteio no Supremo o caso em que Eliseu Padilha e Moreira Franco são citados como agentes do Quadrilhão do jaburu. O ministro Edson Fachin pensou, pensou, pensou bastante e decidiu que o inquérito não deve mesmo ficar com ele, porque não tem relação com a Lava-Jato.

Passou a bronca para Cármen Lúcia, que vai mandar o caso para sorteio. Entenderam? Sorteio, de novo.

Outra vantagem para os dois denunciados. Se o processo for parar na primeira instância (se os dois perderem o foro privilegiado depois da eleição), Sergio Moro fica de fora.

Se não é processo da Lava-Jato, nem vai para Curitiba. Evita-se o constrangimento de o juiz ter de lidar com um caso tão cabeludo e sem petistas envolvidos.

E aí, meu amigo, um processo com esses dois numa vara qualquer de primeira instância… Todo mundo sabe o que vai acontecer. Serra, Aécio, o jaburu, Padilha, Moreira Franco, todos vão escapar da Justiça. A única chance de pegá-los é pela ação política.

Da quadrilha do golpe, só um ficará na cadeia: Cunha, porque alguém tem que manter isso aí. Geddel não conta, porque esse era apenas o guarda-malas.

Cunha está quieto porque recebe comidinha especial todas as semanas e só teria algum valor como delator se dedurasse alguém do PT.

Cunha é um pelego velho. Mas deve ficar preso. Se sair da cadeia, pode querer comer brioches de novo com o jaburu.

NÃO HÁ SALVAÇÃO FORA DA POLÍTICA

Há um estranho sentimento entre algumas pessoas com as quais conversei a respeito de uma improvável surpresa no dia 24.
Alguns esperam pelo milagre da Justiça, o grande gesto capaz de redimir o Judiciário das aberrações cometidas pela lava-Jato de Curitiba e pelo Supremo que protege tucanos.
Esperam pelo gesto que acolha o recurso de Lula contra a sentença de Sergio Moro, para que ele possa enfrentar o grande julgamento da democracia em outubro.
Mas acreditar nisso é mais ou menos como apostar que um dia o Judiciário irá pegar algum tucano graúdo. Não um miúdo, um coitado com correntes nos pés, que possa servir de pretexto de que a lei é para todos, mas um tucano grandão, um Aécio ou um Serra.
Nem se imagina que peguem um Fernando Henrique, porque seria custoso demais provar, em francês, que o apartamento de Paris é dele.
Que não se espere nenhum milagre. A absolvição de Lula parece tão improvável que é melhor nem pensar nisso. Até porque o Judiciário já se prepara para acelerar os outros processos contra ele.
Vamos pensar que Lula enfrentará a Lava-Jato com a política e com o povo, como acontecerá com as manifestações do dia 24. porque é com a política que o Judiciário manobra com seu latim e suas artimanhas contra Lula e contra a democracia.

SONHOS

Sonhei esta noite que Lula havia sido absolvido. E que o Banco Mundial estava financiando a construção de masmorras em Curitiba (que seria melhor do que investir em universidades, segundo o banco), para que conseguissem encarcerar todos os tucanos condenados.
Mas o sonho começou a falhar, a imagem começou a ficar ruim e tremida quando os tucanos, mantidos em contêineres, estavam indo em fila fazer delações ao juiz Sergio Moro.
Quando os tucanos entravam na sala do juiz (eram dezenas, de todos os tipos, alguns disfarçados de papagaio), a imagem foi cortada. O meu sonho era analógico, e a partir de agora o mundo só aceita sonhos com imagens digitais.
E aí então apareceu um anúncio (foi meu primeiro sonho com comerciais) dizendo que condenação de tucanos só será possível em sonhos virtuais.
Foi quando acordei suando muito e ouvi meu vizinho paneleiro cantando junto a mesma música que ele ouve 26 vezes por dia.
Quero tomar um remédio que me impeça de ter esse tipo de sonho. É um desperdício de tempo de sono e de sonho.

DELATORES LEITORES

Os mafiosos da direita presos pela Lava-Jato só não leem mais rápido do que o relator do processo de Lula no Tribunal Regional Federal de Porto Alegre.
Sabe-se agora que o doleiro Lúcio Funaro, um dos leitores mais lentos, leu apenas 13 livros na cadeia e fez sete cursos.
Funaro leu as biografias de Tancredo, Mandela e Lincoln, entre outros. E depois fez resenhas do que leu, para provar que não estava mentindo.
Ele também teve de ler muito para fazer os cursos de atendimento ao público, vendedor, eletricista, inglês, direito do consumidor, biossegurança hospitalar e direito administrativo.
Funaro sai da cadeia como um profissional múltiplo do século 21 do mundo do trabalho intermitente.
Estava preso desde janeiro do ano passado e agora está solto e desfruta da natureza em um sítio com câmeras (que ele colocou), porque reduziu a pena lendo obsessivamente.
As câmeras substituem a tornozeleira. Falta tornozeleira para os bandidos da direita no Brasil.
A Lava-Jato vem formando leitores sofisticados, enquanto Sergio Moro cita provérbios, ditados de mesa de bar e frases do Batman sobre a imposição da ordem.
João Vaccari Neto, tesoureiro do PT preso na masmorra de Curitiba desde março de 2015, não deve estar lendo nada.