UM SUSTO EM MACHU PICCHU

O que Sergio Moro irá fazer durante a licença de cinco dias, logo agora, em meio à avalanche de denúncias contra ele? Vai se encontrar com Dallagnol para que acertem uma estratégia de defesa? Vai passear?
E aí surgem as especulações sobre o lugar em que Moro, segundo o porta-voz da presidência da República, vai reenergizar o corpo.
Agora imaginemos o seguinte. Um casal economiza tudo o que pode, poupa dinheiro durante 10 anos, faz um plano de viagem parcelado em 12 vezes e viaja finalmente para o Peru.
Vai realizar o sonho de conhecer Machu Picchu. E está lá no alto, naquela hora em que cai aquela garoa mágica, e de repente surge na esquina de uma ruína o ex-juiz e a conje.
Uma viagem sonhada durante 10 anos, num dos lugares mais fantásticos do mundo, e o casal se depara com o ex-juiz reenergizando o corpo e a mente. Sim, pode acontecer.
Ninguém está livre de se encontrar com Sergio Moro no período da licença de 15 a 19 de julho. Em Machu Picchu, na serra gaúcha, em Nova York. Em todos os lugares, um turista brasileiro poderá ficar ao lado de Moro, olhando lhamas, tomando vinho, ou simplesmente sentado numa praça apreciando o movimento.
Sergio Moro somente não será visto se o eu destino for a sede da CIA, porque ali só os visitantes entram pela porta da frente.

OS 10 DRAMAS DE SERGIO MORO

O que levou Sergio Moro a pedir licença para cuidar de “assuntos particulares”.

1. Moro não consegue trocar ideias com Deltan Dallagnol e seus ex-subordinados no Ministério Público da Lava-Jato, porque é claro que não irão usar celular e sistemas de mensagens. E eles adoravam trocar mensagens. Agora, é preciso ter contato direto. Mas onde? Será que se encontraram nos Estados Unidos? Mas não deve ter sido suficiente.

2. O ritmo da divulgação dos vazamentos, que é lento porque exige apuração e a publicação das mensagens em seus contextos, atormenta os envolvidos. Se não conseguem se comunicar, não conseguem nem se preparar melhor para o que eles sabem, e sabem muito bem, que virá mais adiante.

3. Moro vai enfrentar no Supremo o julgamento da suspeição levantada por Lula. Pode ter informações de que será derrotado. E, se for derrotado, precisa estar preparado para o que virá na sequência.

4. A Lava-Jato pode estar sendo desmontada com a retirada dos tijolos da sua base. Se puxarem, além do tijolo da condenação de Lula, outros pontos de sustentação, tudo virá abaixo, junto com o projeto maior do ex-juiz de chegar ao Supremo.

5. O dito suporte jurídico à defesa de Moro é frágil. O ex-juiz repete sempre os mesmos e poucos defensores da sua tese de que conversas como as dele com Dallagnol são triviais no Judiciário. Não são, ou não podem ser.

6. A repercussão internacional do escândalo das conversas abalou sua reputação no Exterior. Moro já não é mais visto como herói contra a corrupção, como conseguiu se vender nos Estados Unidos.

7. A decisão do Intercept de compartilhar o material das conversas com Folha e Veja criou uma armadilha para o ex-juiz. Ele sempre acusou o Intercept de ser um site sem expressão. Agora, a revista que o endeusou está editorialmente contra ele, e o maior jornal do país se jogou com força na pauta.

8. Moro e Dallagnol sabem que os vazamentos não são obra de um hacker, mas certamente de alguém de dentro do esquema. Por isso não desmentem categoricamente as conversas.

9. O governo que o acolheu está sob suspeita desde o começo. As relações da família Bolsonaro com milicianos desqualificaram o discurso moralista do ex-juiz. Moro sabe onde se meteu.

10. Moro pode ficar só, como ficaram Serra, Aécio, Cunha e o jaburu. Ele sabe que a direita não perdoa e abandona seus perdedores.

O JORNALISMO NÃO PODE LARGAR SERGIO MORO

O jornalismo fracassou quando Sergio Moro viajou para os Estados Unidos e circulou à vontade, por cinco dias, sem o acompanhamento de nenhum repórter.
O jornalismo, em especial o da grande imprensa, não pode fracassar de novo agora, quando o ex-juiz pede afastamento de cinco dias do governo para tratar de assuntos particulares.
O jornalismo terá de seguir Moro. Não há outra figura pública mais controversa na História recente do país. Não há no governo nenhuma outra autoridade com a importância de Moro para que se entenda o que pode ter acontecido na ação seletiva e delituosa do Judiciário brasileiro nos últimos anos.
Nenhuma outra figura pública tem hoje a relevância de Moro, para que o país finalmente preste contas com seu passado recente, desde muitos antes do golpe de agosto de 2016.
Sergio Moro é a mais pública de todas as figuras públicas. Seus atos deveriam ser transparentes, pelo menos em Brasília, como ele exigia em Curitiba que fossem as condutas dos políticos.
Mesmo que a transparência nunca tenha sido uma virtude da Lava-Jato, é agora, como homem público com cargo no poder, que Sergio Moro passará pelo grande teste como alguém que se consagrou como amigo da imprensa e dela fez uso para legitimar o encarceramento de Lula.
É agora que o jornalismo fica diante do desafio de finalmente enfrentar Sergio Moro sem salamaleques e firulas, sem tratamento especial e sem medos. O jornalismo deve acompanhar os passos de Moro a partir de hoje como nunca acompanhou.
O país precisa saber o que afinal Sergio Moro irá fazer no tempo em que ficar afastado, enquanto se ampliam as denúncias de que ele e Dallagnol afrontavam leis e normas elementares como justiceiros da Lava-Jato.
Se disser que fará tal coisa, Moro terá de comprovar que realmente estará fazendo. O Brasil vai exigir as provas.
Como homem público, Moro só tem o direito à preservação de intimidades e nada mais.
O ex-juiz terá de dizer o que o levou a pedir a licença. Se não disser, a imprensa terá a obrigação de descobrir. O jornalismo das grandes redações, que tem recursos para mobilizar profissionais na quantidade exigida por tarefas desse porte, deve se inspirar no destemor do Intercept.
A imprensa não pode ter medo de Sergio Moro.