FIDEL

Três amigos jornalistas decidem, ao saber da morte de Fidel, que precisam ir a Cuba. Foram e na volta publicaram o que viram em Yo Soy Fidel, um livro com fotos dos três, Gibran Mendes, Leandro Taques e Tadeu Vilani. Os textos são do Gibran.
A obra (com financiamento coletivo) é apresentada como um livro triste, porque eles captaram os sentimentos dos que não teriam mais Fidel. Mas nada sobre Cuba consegue ser triste. O livro é delicado.
Falo do livro agora porque ganhei de presente do Gibran pelas mãos da minha amiga jornalista Gladis Ybarra. Será minha leitura do fim de semana.

Liberal? Onde?

Quantos brasileiros que ainda se consideram liberais (mas são incapazes de enfrentar o golpismo, o reacionarismo e o regime de exceção que vivemos) poderão ler sem conflitos o novo livro de Vargas Llosa, A Chamada da Tribo, com textos de exaltação do liberalismo?
Uma resenha da Folha de S. Paulo diz que o peruano tenta distanciar o “verdadeiro liberalismo” do conservadorismo.
Onde estaria o verdadeiro liberal brasileiro, e não o ultraconservador que se jogou nos braços do bolsonarismo e que agora se aproxima do barbosismo?
Quem é liberal hoje no Brasil, no sentido político amplo? Ou a pergunta deveria ser esta: quem são os reacionários que se apresentam como liberais no Brasil?
Vargas Llosa deve conhecer muitos deles, pois anda sempre por aqui.

O livro

Um amigo comprou, por reembolso, o livro ‘A luta contra a corrupção’, do procurador Deltan Dallagnol. Diz ele que, depois de ler umas 20 páginas, reuniu provas cabais e convicção de que é literatura de oportunidade da pior qualidade.
Uma frase do livro: ‘Sempre acreditei no poder da dedicação’.
A obra tem Deus, tem esperança, tem fé, tem todos os clichês que um texto religioso pode ter.
Meu amigo acha que o livro inaugura a pregação da auto-ajuda no Ministério Público.

Histórias do futebol

roberto

Roberto Jardim é um dos talentos do jornalismo brasileiro que se puxam para abordar as coisas do futebol com o artesanato da literatura.
O meu amigo Roberto está publicando o livro cartonero “Além das Quatro Linhas” (Vento Norte Cartonero), com belas histórias do fubebol.
Não são aqueles textos que aparecem em resenhas e notícias de jogos, treinos, fofocas e cartolagens. São histórias mais complexas que geralmente não aparecem em lugar algum.
É o que eu posso contar agora. Quem quiser saber mais, que apareça amanhã, dia 25, no lançamento, com sessão de autógrafos, a partir das 19h, no Brechó do Futebol, Rua Fernando Machado, 1188. Eu estarei lá, com certeza.
A obra tem uma apresentação muito bonita do Juca Kfouri, que exalta na medida as qualidades do Roberto Jardim.
O livro pode ser comprado também pela internet, no Facebook:
https://www.facebook.com/ventonortecartonero/
Quem ainda não sabe e quiser saber por que é cartonero, que entre aqui:

Movimento Cartonero

Jones e Escurinho

joness

Se quisesse, e até quero, eu escreveria 20 boas histórias sobre o Jones Lopes da Silva, que esta semana deixou Zero Hora, depois de subir ao Everest do jornalismo esportivo.

Vou contar uma dessas histórias, porque muitas carecem de melhor apuração e outras são lendas criadas em torno de alguém que há uns 10 anos é mito.

Pois aconteceu no verão de 2011. Eu estava no plantão da Zero e me passaram o telefone: Escurinho queria falar com o Jones ou com o Mario Marcos de Souza.

Atendi e disse: se for o Escurinho do Internacional, tudo o que posso dizer. como gremista, é que, apesar das tristezas que senti por tua causa, pelas vitórias coloradas nos últimos segundos de um jogo, eu te admiro muito.

Ele respondeu:

– Pois então é contigo que preciso falar. Quero contar minha história em livro, mas não sei se o Jones está mesmo interessado. Ele é um homem muito ocupado. Já pedi a ajuda do Mario Marcos.

Eu disse:

– Então eu faço o livro. Vamos sentar e conversar.

Escurinho reagiu:

– Mas e o Jones?

– Deixa que eu me entendo com o Jones.

Segunda-feira, fui até à editoria de esportes e falei bem alto:

– Vou escrever a história do Escurinho.

Jones deu um pulo:

– Epa…

Um epa com reticências, sem muita convicção. E eu falei então da conversa ao telefone com Escurinho. Senti que o Jones ficou abalado. Ele não sabia se eu falava sério ou se estava blefando.

O que sei é que em três meses o livro ficou pronto. Jones pesquisava, visitava fontes depois que saía do jornal e escrevia de madrugada para terminar o livro.

“No Último Minuto – a História de Escurinho: Futebol, Violão e Fantasia” (Signi) é muito mais do que a biografia do jogador, é a história da Porto Alegre dos anos 70 e de antes disso, da música, da arte, boemia, dos tipos da cidade, dos costumes, do contexto histórico.

Resumindo, eu quase fui o Escurinho do Escurinho, para decidir um jogo que ele achava que havia ficado encardido. Escurinho tinha pressa.

E o Jones estava apenas finalizando, com a dedicação dos grandes repórteres, uma obra fantástica. Jones leu trechos do livro para seu personagem, que quase não enxergava mais por causa do diabetes.

Escurinho morreu no dia 27 de setembro de 2011, 40 dias antes do lançamento da biografia na Feira do Livro. Mas sabia que sua história já havia sido escrita por uma das mais sensíveis penas do jornalismo gaúcho.

 

Kadão

kadão

Aprendi e me diverti muito com meu amigo Ricardo Chaves, o Kadão. Tudo o que fiz na Zero Hora em parceria com esse grande fotógrafo foi aqui por perto, coisinhas paroquiais, pequenas, miúdas, do mais singelo varejo do jornalismo. E Kadão parecia sempre, pela dedicação, estar cobrindo a Revolução Russa.

Numa dessas, eu fui o fotógrafo e fiz uma foto que o Kadão nunca irá publicar. Há muito tempo, fazíamos um perfil do Lutzenberger no Rincão Gaia, e Lutz disse que tomava banho pelado no lago que se formou onde existia uma pedreira.

Fazia um calorão. Nós três derretendo, sentados no trapiche do lago, e Lutz repetindo: o bom mesmo aqui é tomar banho pelado.

Kadão me olhou com um olhar sapeca de quem tinha 13 anos e  perguntou ao Lutz com a voz de quem tinha 10, como se pedisse autorização:

– Pelado?

– Sim, todo mundo – disse Lutz.

Kadão ergueu-se saltitante, tirou a roupa e mergulhou no lago. Eu fui até a bolsa dele e peguei a máquina. Comecei a fotografar tudo, até a saída do lago. Fotografei Kadão pelado, enquanto Lutz ria um riso contido, sufocado pela falta de ar que iria matá-lo alguns meses depois.

Pois esse Kadão fantástico, capaz de entender a senha dada por um gênio como Lutz (que estava dizendo: vai, te joga no lago, aproveita) lança hoje A força do Tempo, o livro com suas fotos, produzido pela Quati Produções Editoriais, com selo da Editora Libreto. A obra tem as mãos de dois profissionais que respeitamos, o Pedro Haase e a Clô Barcelos.

Será hoje, para convidados, às 19h30min, no Átrio do Centro Histórico-Cultural da Santa Casa. Dia 9 de novembro, Kadão, que cobriu tudo na vida, lança o livro na Feira.

Viva Luis Fernando

Falei com Luis Fernando Verissimo por telefone agora há pouco. Para mandar um abraço pelos 80 anos.

Luis Fernando é muito mais do que o nosso maior cronista, é a mais frondosa de todas as figuras humanistas que este Estado já teve.

Luis Fernando é a nossa garantia de proteção e lucidez contra todos os desatinos.

E, no fim, eu ganhei um presente dele, o texto de apresentação do meu livro de crônicas Todos Querem ser Mujica, que a Editora Diadorim já mandou para a gráfica e sai em outubro.

É bom demais, nesse mundo dominado pelo pessoal do Jaburu, sentir que o Luis Fernando está por perto.

Viva Luis Fernando Verissimo.

 

A Ponta do Silêncio

valesca

Saímos da Palavraria agora há pouco, eu a Virgínia, com o novo livro da Valesca de Assis.
Entramos na fila de autógrafos e percebemos de longe que ela estava faceira. Quando conversamos, Valesca empolgou-se com um detalhe, começou a falar e parou: não, não posso contar.
É muito bom ver quando um escritor está mais feliz do que tensionado no lançamento de mais uma obra.
A Ponta do Silêncio (BesouroBox) trata de um crime no ambiente de conflitos do casal Marga e Rudy. Eu já espiei, li a apresentação de Jane Tutikian e, por enquanto, mais eu também não conto.

Ziraldo

Falei da Jornada de Literatura de Passo Fundo ontem e hoje conto duas historinhas sobre Ziraldo.

Ziraldo e outros convidados estavam sentados na primeira fileira do circo, onde aconteciam debates e palestras, e uma moça da organização os alertou:

– Esta primeira fila é para surdos-mudos.

Ziraldo fingia não ouvia e não entendia. A moça repetia e ele colocava a mão no ouvido, gesticulava e emitia sons incompreensíveis.

Todos riram, inclusive a moça e o pessoal que estava logo atrás à espera das cadeiras que eram deles. Isso foi em 2001. Mesmo com o Ziraldo, não sei se aconteceria do mesmo jeito hoje.

………………………..

A outra historinha. Ziraldo participava de um debate e logo depois estaria na sessão de autógrafos.

Era noite e Ziraldo alertou pelo microfone, em tom sério:

– As crianças não estão mais aqui. Então peço que adultos, professoras etc não me apareçam com agendas e pedaço de papel de pão para eu autografar. Só autografo livro.

Foi para a sessão, ao lado da mesa de Martha Medeiros. A fila de Martha dava voltas no circo. Na fila de Ziraldo, pingavam de vez em quando algumas pessoas.

O gênio ria do próprio fracasso e se divertia.